Renildo Souza**
"Ao tratarmos de China, discutindo capitalismo e socialismo, é indispensável escaparmos do dogmatismo, da mente fechada, das interpretações simplistas ou até mesmo das elucubrações fantásticas dos que se contentam em proclamar insistentemente, como exercício de autoconvencimento, de que a China é socialista."
[...] Aqui, cabem algumas advertência e ressalvas sobre a avaliação do período das reformas. A análise parcial, economicista e convencional dos prisioneiros das ilusões sobre a China mostra-se contraproducente, porque mascara a natureza daquela formação social, isola a economia das suas relações sociais gerais e de longo prazo e bloqueia a apreensão dos processos reais do capitalismo do século XXI. A recusa de compreensão da totalidade dos múltiplos aspectos e contradições sociais fundamentais do processo chinês é uma perspectiva epistemológica estranha ao materialismo histórico. Ademais, essa atitude é uma forma de desarmar a crítica social, que é indispensável para compreensão do pós-capitalismo. Ao tratarmos de China, discutindo capitalismo e socialismo, é indispensável escaparmos do dogmatismo, da mente fechada, das interpretações simplistas ou até mesmo das elucubrações fantásticas dos que se contentam em proclamar insistentemente, como exercício de autoconvencimento, de que a China é socialista.
A ilusão é um fenômeno poderoso, porque não é sonho nem quimera, é vontade e crença, a partir da aparência, que é realidade, mas é parcial, carente de relações de totalidade social. Os prisioneiros das ilusões afirmam, à exaustão, que as reformas chinesas conduzem ao socialismo e que os líderes do PCCh sabem e podem fazer e fazem tudo que é necessário e suficiente para garantir a transição socialista. Em impressionante reducionismo, o papel do Estado e as importantes conquistas econômicas chinesas de desenvolvimento capitalista são tomados como sinônimos ou provas cabais de socialismo. Retrocede-se para pueris concepções de exaltação do Estado, com sua "autonomia", sua burocracia, sua racionalidade, suas funções técnicas. Fecham-se os olhos para os destrutivos efeitos políticos e ideológicos correntes, a corrosão espiritual e cultural, a polarização na estrutura de classes sociais, em decorrência da dominação capitalista na sociedade chinesa. Ignora-se teimosamente a inegável e escancarada prevalência da propriedade privada burguesa dos meios de produção, com a subsunção efetiva do trabalho ao capital.
O estratagema do argumento das ilusões é aplicar, através de supostas novidades teóricas, o qualificativo forçado e heroico de realismo econômico, novíssimo materialismo, ao curso da China ou simplesmente ter fé e confiança. Fantásticas divagações com os conceitos são expostas como pretenso enriquecimento e renovação do marxismo. Ilusões são consideradas realismo. Agarrados ao negacionismo, não querem enxergar que a China é inovação e realidade material como parte e pilar do capitalismo mundial. É sangue novo para o velho vampiro. Mas na falta de provas, sobram convicções, como se diz. Os fatos são passados por alto, desprezando-se o dever metodológico da "análise concreta da situação concreta". Há também, as narrativas retumbantes, grandiloquentes, triufalistas, cujo nível superficial afeito ao jornalismo econômico de propaganda esgota-se nos grandes êxitos de crescimento econômico capitalista chinês. São apreciações que se limitam a menções a temas de política econômica Keynesiana, em sentido amplo, ou nacional-desenvolvimentista. Tais temas são importantes, evidentemente, mas não podem justificar a recusa peremptória a qualquer proposta de discussão sobre o capitalismo realmente existente na China.
Há. é claro, muitos aspectos da China hoje, que, sem resvalar para as ilusões já mencionadas, devem ser reconhecidos em sua grande relevância política. Assim, há cerca de 40 anos, a China adota uma regulação econômica pelo Estado em contraste à agenda econômica neoliberal do Ocidente. Da mesma forma, o projeto nacional-desenvolvimentista tem sido exitoso, rompendo os grilhões do subdesenvolvimento. Vale lembrar ainda que a competição chinesa com os Estados Unidos pode ser aproveitada como uma brecha para a autonomia relativa dos países periféricos, inclusive protegendo-se da agressividade política e militar norte-americana. Contudo, as relações econômicas entre a China e as nações do Sul Global são carregadas da contradições próprias do capitalismo em seu inevitável desenvolvimento desigual e combinado. Essas relações hierárquicas reafirmam o caráter de capitalismo dependente dos países periféricos, espoliados em sua transferência de valor para a economia chinesa.
*Fonte: A China de Mao a Xi Jinping, transformação e limites; Renildo de Souza, EDUFBA; 2023.
**Renildo Souza, professor da Faculdade de Economia da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da UFBA.
Edição: Página 1917
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