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domingo, 17 de maio de 2026

O criadouro do fascismo é o capitalismo

Por  Ney Nunes*


Muitos indagam com perplexidade: como a extrema direita cresceu tanto a ponto de ganhar o peso político-social que alcançou na atual conjuntura brasileira? O que teria acontecido para favorecer tal desenvolvimento? A "democracia" instaurada com a constituição de 1988 estaria ameaçada pelo fascismo? Só poderemos responder adequadamente a estas preocupações se buscarmos as determinações estruturais por trás da superfície dos fatos da politicagem burguesa.

Já são quase quarenta anos vivendo sob o regime político democrático burguês, onde o que prevalece é a alternância de governos que funcionam como gerentes do capital e se equilibram entre os interesses das diversas facções burguesas. Essa situação é agravada pela crise capitalista que esses governos administram sempre jogando as consequências nas costas da classe trabalhadora e das massas populares. 

As seguidas derrotas como as reformas da previdência e trabalhista, as privatizações e a precarização do trabalho contribuíram pesadamente para a desmoralização e ceticismo da classe trabalhadora, mergulhada cada vez mais na desorganização e no individualismo. Tudo potencializado por uma ofensiva ideológica burguesa realizada através do governo, parlamento, judiciário, empresas, escolas e oligopólios midiáticos, auxiliados pelo crescimento exponencial da influência das seitas pentecostais. Todos, de forma articulada, trabalham diuturnamente pelo retrocesso na consciência de classe e no fomento das expectativas de saídas individuais por dentro do capitalismo.

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Guerra contra o Irã: capricho de Trump ou parte da estratégia do imperialismo americano?

Por Eliseos Vagenas, membro do CC do KKE e diretor da Seção de Relações Internacionais do CC.

Data:
09/05/26


Os desdobramentos críticos na região do Golfo Pérsico, marcados pelo ataque militar dos EUA e de Israel contra o Irã, que começou em 28 de fevereiro, lançaram sua sombra sobre os acontecimentos globais.

Todos os meios de comunicação e analistas burgueses tentam adivinhar: "Trump atacará novamente ou não?". Essa abordagem, contudo, deixa de lado aspectos importantes dos planos imperialistas e cultiva a percepção equivocada de que os povos são reféns de uma personalidade (Trump) que pode não se manter firme em sua lógica. A realidade, porém, é que por trás das análises psicanalíticas da personalidade do magnata americano e atual presidente do país, silenciam-se os planos criminosos do imperialismo estadunidense.

terça-feira, 12 de maio de 2026

Trabalho proletário: origem de toda riqueza na sociedade capitalista

Sergio Lessa*




[...] Em uma sociedade em que as pessoas contam com dinheiro em suas carteiras, é possível que um burguês, através de uma "fábrica de ensinar", se enriqueça vendendo as aulas dos professores que ele explora. A questão que se impõe é de onde viria, qual a origem do dinheiro que está no bolso dos pais dos alunos. Ou, colocando em outra palavras, como a riqueza produzida pelo proletariado se esparrama por todo o tecido social, possibilitando que, em um dado momento da reprodução da sociedade burguesa, compareça sob a forma dinheiro no bolso dos pais dos alunos?

Já vimos que o trabalho proletário, ao converter a substância natural (ou a matéria-prima) em uma mercadoria, produz um novo quantum de riqueza. O tempo de trabalho "cristalizado" (Marx, 1983:48) no corpo da nova mercadoria significa que um novo "conteúdo material" de riqueza foi gerado e que a sociedade teve acrescida, ao "capital social global" já existente, uma nova parcela. Capital foi "produzido". Ao converter em carro uma chapa de aço, o tempo de tabalho dispendido pelo proletário se consubstancia em uma "coisa" (Ding) (Marx, 1983: 46) que é, agora, portadora objetiva de uma nova quantidade de riqueza, antes inexistente. É por essa mediação que, ao transformar a natureza, o proletário "produz" o "capital".

sábado, 9 de maio de 2026

A Base Material de um Espectro: Por que a Juventude Chinesa Está Redescobrindo Mao

Por

04/2026

Pôster de Mao Tsé-Tung e Lin Biao Cartaz de Mao Zedong e Lin Biao (por volta de 1967). Crédito: 人民画报 - 《人民畫報》1967年, Domínio Público, Link .
*Yinhao Zhang  é  doutor pelo Departamento de Estudos Asiáticos da Universidade de Adelaide e administra uma popular conta nas redes sociais sobre teoria marxista e história revolucionária chinesa.

O Retorno de um Espectro

Um espectro assombra a China: Mao Tsé-Tung. Não se trata da imagem fossilizada do fundador da nação encontrada nas histórias oficiais do partido, mas de uma ideia viva e pulsante redescoberta pela juventude do país. As evidências desse ressurgimento são inesperadas e inegáveis, e seu palco mais dramático são as universidades de elite da China, onde se cultiva a liderança política, acadêmica e empresarial do país.

Para compreender a importância dessa mudança, é preciso primeiro entender o clima intelectual que ela substituiu. Durante décadas após o início das reformas de mercado em 1978, e apesar de uma visão positiva persistente de Mao e da Revolução Cultural entre muitos trabalhadores e camponeses, a atitude predominante em relação a Mao entre a classe instruída era de profundo ceticismo. Uma pesquisa oficial de 1993, realizada em conjunto por diversos órgãos de pesquisa do Partido e do Estado, fornece uma medida clara desse sentimento. Quando os entrevistados foram solicitados a avaliar Mao, apenas 8% dos intelectuais seniores acreditavam que seus méritos superavam seus defeitos, enquanto impressionantes 67% tinham a opinião oposta. Entre professores e alunos universitários, 40% acreditavam que seus defeitos eram maiores, mais do que os 34% que concordavam com o veredicto oficial de “70% bom, 30% ruim”. Além disso, quando essas mesmas elites foram questionadas sobre a “febre de Mao” que já surgia entre as massas na época, uma esmagadora maioria — entre 63 e 72% dos entrevistados — a descartou como um fenômeno “anormal”, considerando-a produto da ignorância popular.²  Essa visão prevaleceu entre a elite intelectual após 1978: Mao era uma figura do passado cujo legado era visto como um obstáculo à modernização.

Em 2006, a maré começou a virar. Uma pesquisa na Universidade Sun Yat-sen, uma instituição de prestígio, revelou uma mudança geracional. Entre os estudantes nascidos durante o boom econômico, o consenso de 1993 havia enfraquecido significativamente. Agora, 47% acreditavam que os méritos de Mao superavam seus defeitos, enquanto apenas 6% tinham a opinião contrária. Essa era uma reavaliação discreta, no entanto, e não um endosso completo de todo o seu projeto político. Os mesmos estudantes continuavam sendo extremamente críticos da Revolução Cultural, com quase 90% considerando-a negativa. Eles estavam começando a separar Mao, o construtor da nação, de Mao, o radical.

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