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sábado, 11 de janeiro de 2025

Moçambique sem rumo à vista

Ana Barradas

10-01-2025

Parece estar chegando a um período menos agitado o drama moçambicano desencadeado pela oposição do cavaleiro solitário Venâncio Mondlane aos recentes e fraudulentos resultados eleitorais.



Como era de prever, ambas as partes – Frelimo e toda a oposição – tiveram de se entender às pressas para conter ao caos social e econômico e conciliar o irreconciliável tanto quanto possível.

Assim, vamos ter agora o “herói” Venâncio de cabeça baixa, debaixo da traição do chefe do seu partido, a participar no parlamento de Moçambique sem ter atingido o seu objetivo de vir a ser o grande líder do governo.

Esse sonho era desde o começo em si mesmo idealista porque, mesmo com o forte apoio popular que conseguiu concitar – no início inclusive de largos setores da burguesia, que depois se retraiu diante da sublevação da arraia miúda nas ruas – nunca teria a aprovação não só da Frelimo como da chamada comunidade internacional para subverter de pernas para o ar os resultados das eleições, ainda que problemáticos.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

Foram os erros que colocaram a perder a Revolução Russa?

Francisco Martins Rodrigues*
Janeiro/Fevereiro de 1992

Gorbachev, o último coveiro da Revolução Soviética.


Nem só revisões e renegações produz o eclipse do movimento comunista. Surgem também, ainda que raramente, tentativas de interpretação e superação da crise, na linha do marxismo. Tom Thomas, militante da corrente M-L francesa, editou há alguns meses em volume as suas reflexões, a que deu o título: “A propósito das revoluções do século XX, ou o desvio irlandês”.(1)

O “desvio irlandês” é uma ideia sugestiva que o autor foi buscar numa carta de Marx, de 1869:

Pensei durante muito tempo que o regime irlandês seria derrubado pelo ascenso da classe operária da Inglaterra. Hoje estou convencido do contrário: os operários ingleses não farão nada enquanto não se desembaraçarem da Irlanda. É na Irlanda que se deve fazer alavanca”.

Regresso ao ponto de partida

Marx intuía pois a tendência que veio a manifestar-se: a revolução, bloqueada nos países onde as condições econômico-sociais estão maduras para o socialismo, abriu caminho onde as condições não estão maduras, nos países atrasados. O nosso século — conclui Thomas — foi preenchido justamente com o “desvio irlandês” do processo revolucionário mundial: as grandes revoluções na Rússia e na China, arrastando uma torrente de revoluções nacionais anti-imperialistas, em Cuba, Vietnam, Argélia, etc.

É verdade que, entretanto, aconteceu o imprevisível: as revoluções, depois de ter degenerado em miseráveis caricaturas sob a égide do capitalismo nacional de bandeira socialista, são reabsorvidas pelo mercado imperialista mundial. Seja como for, conclui Thomas, “o caminho está agora livre porque o capitalismo realizou a sua obra de estabelecer sobre toda a superfície do globo as mesmas relações sociais, pôr as mesmas classes nas mesmas situações e perante os mesmos inimigos. O ‘desvio irlandês’ cumpriu a sua tarefa. Chega a época das revoluções proletárias, embora com algum atraso sobre as previsões. É para ela que nos devemos preparar, voltando-nos para o futuro e deixando que os mortos enterrem os seus mortos”.

É estimulante esta capacidade para encarar o processo histórico no seu movimento global, sem cair nas habituais dúvidas existenciais sobre se a revolução é mesmo inevitável e a ditadura do proletariado é mesmo legítima. Resta, contudo, a questão: porque é que esse gigantesco ciclo revolucionário nos países atrasados fracassou de maneira tão generalizada e foi incapaz de detonar revoluções proletárias socialistas nas metrópoles do capital, como seria a suposição de Marx e, mais tarde, de Lenin, Mao, etc.? Porque terminou nesta obscura agonia e não num salto para uma etapa mais avançada da revolução?

quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

Após a queda de Assad, uma verdadeira linha de resistência deve ser construída

Kemal Okuyan

Secretário Geral do Partido Comunista da Turquia (TKP) 

Kemal Okuyan


Discutir se é uma guerra civil ou uma intervenção estrangeira na Síria é um esforço fútil. O país tem sido uma zona de conflito onde é completamente ambíguo quem é “doméstico” e quem é “estrangeiro”.

É obviamente difícil, nessas circunstâncias, determinar a força motriz dos últimos acontecimentos que, em última análise, desencadearam a queda de Assad. É claro, no entanto, que a propaganda de que “o povo derrubou um ditador” dos países da OTAN, principalmente entre eles os EUA e o Reino Unido, e a Turquia (que é um membro da OTAN, mas também atua com ambições neo-otomanas) é apenas uma retórica falsa.

O governo na Síria foi enfraquecido por intervenções estrangeiras, guerra prolongada, sanções econômicas, práticas que falharam em unificar o povo, corrupção, políticas econômicas liberais, conflitos entre países que deveriam ser aliados de Assad, que apenas impuseram à Síria políticas para seus próprios interesses. Isso causou o fim daquele governo, quer ele caísse ou fosse derrubado.

Essas causas profundas de fraqueza tornaram o colapso inevitável diante da agressão israelense, das intervenções abertas dos EUA, da intervenção secreta do Reino Unido, da presença militar que a Turquia tentou legitimar invocando o direito de lutar contra o “separatismo curdo” e da recente operação realizada por todas essas potências de forma coordenada.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

Intervenção e conflito imperialista na Síria

Aleppo, cidade devastada pela guerra.


O Gabinete de Imprensa do Comitê Central do Partido Comunista da Grécia (KKE), na sua declaração sobre os acontecimentos na Síria, destaca o seguinte:

“A intervenção na Síria e a predominância dos jihadistas é outro “elo da cadeia” de acontecimentos perigosos para os povos lançados pelas potências imperialistas dos EUA, da UE, da OTAN da Turquia e de Israel na região a partir do Oriente Médio. Surgem como continuação do massacre em curso contra o povo da Palestina, dos ataques contra o povo do Líbano, dos ataques contra o Irã.

O KKE tem-se posicionado de forma consistente e firme sobre os acontecimentos na Síria desde o início de 2011, expondo as mudanças perigosas contra o povo que ocorreram após a chamada Primavera Árabe. Hoje, as mesmas forças reacionárias, “reformadas” pela Turquia, membro da OTAN, autodenominam-se “rebeldes” e são apresentadas pelos meios de comunicação burgueses supostamente como “libertadores” do povo sírio. Repete-se a mesma propaganda “sobre a restauração da democracia” que foi o pretexto usado pelos imperialistas para as guerras no Iraque, no Afeganistão, na Líbia, etc., fazendo hoje do Oriente Médio uma região em chamas.

O KKE deixou claro que apesar das diferenças ideológicas e políticas com o regime burguês sírio, apesar das críticas que exerce às suas políticas, denuncia os planos dos EUA, Israel e Turquia que envolvem interferência nos assuntos internos de um país soberano.

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