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sexta-feira, 17 de abril de 2026

Cuba na encruzilhada do multilateralismo hipócrita

 Por Josué Veloz Serrade

17/03/2026

Combatentes cubanos celebram vitória contra a invasão da Baia dos Porcos


O cerco perfeito: quando a asfixia se torna política.

A atual crise energética em Cuba não é um acidente da natureza nem uma mera falha de infraestrutura. É o culminar de um cerco geopolítico orquestrado cirurgicamente ao longo de seis décadas. O que a ilha vivencia hoje é a convergência letal da guerra econômica tradicional — o bloqueio — e um novo contexto internacional em que os atores que deveriam equilibrar a balança optaram pelo que poderíamos chamar de geopolítica minimalista.

Cuba não enfrenta apenas a hostilidade do império, mas também o abandono silencioso daqueles que, em teoria, deveriam desafiar a ordem unipolar.

Mas antes de analisar as coordenadas geopolíticas, é necessário examinar o mapa psíquico subjacente a esta situação. Porque o que está acontecendo com Cuba não é apenas um problema de equilíbrio de poder; é também um problema de desejo, de um fantasma político, daquilo que Freud chamou de Verneinung , a negação como forma de reconhecimento velado. Aqueles que abandonam Cuba negam-na, mas ao negá-la, confirmam-na e, sobretudo, confirmam aquilo que negam sobre si mesmos. O bloqueio existe porque Cuba continua a desafiar, permanece um sintoma incômodo dentro do sistema capitalista global. Se Cuba não representasse nenhuma ameaça real, bastaria ignorá-la. O fato de ter de ser destruída demonstra que a sua mera existência continua intolerável à ordem do Mestre.

A questão que paira sobre este texto pode irritar mais de uma pessoa, mas é necessária: o que resta da solidariedade internacional quando gestos simbólicos substituem ações concretas? O que significa realmente apoiar Cuba quando o cerco se aperta e a asfixia se torna palpável? E, sobretudo: o que isso revela sobre as forças geopolíticas que afirmam desejar um mundo diferente, o fato de serem capazes de assistir a essa asfixia sem mover um dedo?

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