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terça-feira, 30 de junho de 2026

CUBA: Mudanças econômicas adotadas representam sérios riscos

Na semana passada, a liderança cubana prosseguiu com importantes reformas econômicas e sociais (um total de 176 medidas organizadas em 23 categorias). Após uma sessão extraordinária do Comitê Central do Partido Comunista de Cuba, a Assembleia Nacional aprovou medidas que afetam todos os setores da economia.

Publicado em Rizospastis, órgão do CC do Partido Comunista da Grécia (KKE)

30 de junho de 2026



Na semana passada, a liderança cubana prosseguiu com importantes reformas econômicas e sociais (um total de 176 medidas organizadas em 23 categorias). Após uma sessão extraordinária do Comitê Central do Partido Comunista de Cuba, a Assembleia Nacional aprovou medidas que afetam todos os setores da economia. Estas foram apresentadas como resposta à situação extremamente difícil criada pelo brutal embargo dos EUA, em vigor há mais de 60 anos, e, em particular, pelo bloqueio energético imposto desde janeiro deste ano, que tem exercido imensa pressão sobre o povo cubano.

As medidas aprovadas dão continuidade às diretrizes e reformas adotadas após o 6º Congresso do Partido Comunista de Cuba, em 2011. Um ponto central é a promoção do investimento de capital privado estrangeiro em todos os setores da economia e a adoção de mecanismos de mercado como meio de alocação de recursos. Entre as mudanças mais significativas, destacam-se: as empresas estatais terão maior autonomia e, assim como as empresas privadas, poderão ser convertidas em sociedades anônimas, enquanto todas as entidades — incluindo pessoas físicas e investidores estrangeiros — poderão deter ações em quantas empresas desejarem.

domingo, 28 de junho de 2026

Sepulcro caiado: a nova/velha candidatura Bolsonaro (parte 1)

Cem Flores

20.06.2026 

À esquerda, o novo Bolsonaro pede bênção (e mais sanções) ao patrão Trump. À direita, o velho Bolsonaro, com o mesmo Trump, em 2019.


Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Sois como sepulcros caiados:

por fora parecem belos, mas por dentro estão

cheios de ossos de cadáveres e de toda podridão!

Assim também vós: por fora, pareceis justos diante dos outros,

mas por dentro estais cheios de hipocrisia e injustiça.

Matheus 23: 27-28.


A candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro, substituta hereditária da candidatura de Jair Bolsonaro – inelegível, condenado e preso – é a exata expressão da mesma linha política e dos mesmos setores reacionários da extrema-direita, fascista, golpista e apologista da ditadura militar, vassala do imperialismo dos EUA, defensora da ofensiva de classe burguesa e do ataque e repressão aos trabalhadores, miliciana e corrupta. Sua estratégia eleitoreira pode tentar dar uma demão de cal em toda a podridão bolsonarista, aproveitando sua juventude e sua vacinação contra a Covid, dancinhas de TikTok e frases em camisetas, na busca hipócrita de fingir uma pseudo moderação. Mas suas posições e sua trajetória política reacionária, de extrema-direita, de capacho do imperialismo dos EUA, de defensor da ditadura militar e da repressão e dos ataques aos trabalhadores, além da corrupção de muitos milhões por décadas, são sua definição mais exata.

Esse candidato Bolsonaro oscila oportunisticamente entre mostrar sua verdadeira cara e usar máscaras. “Sou esse Bolsonaro mais moderado, equilibrado e centrado”, disse à imprensa, em dezembro de 2025, após se reunir com empresários e agentes do mercado financeiro em São Paulo. Essa hipócrita encenação de Bolsonaro buscava (ainda busca) minimizar a frustração daqueles que falharam em emplacar a candidatura do atual governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), atrair alas menos extremistas da direita e da burguesia, assim como se desviar de sua rejeição eleitoral, já consolidada em quase metade dos eleitores.

sexta-feira, 19 de junho de 2026

A guerra é um modo de vida para a burguesia.

Publicado em Rizospastis, Órgão do Comitê Central do Partido Comunista da Grécia (KKE)

19 de junho de 2026



Declarações de representantes de diversos quadros burgueses, expressando preocupação com a escalada da competição imperialista e alertando para a tendência irreversível de generalização dos conflitos, estão se tornando cada vez mais frequentes.

Referindo-se às sucessivas crises dos últimos quinze anos, o diretor-gerente do FMI afirmou há alguns dias que “ainda não assimilamos que o mundo será assim daqui para frente”. De maneira semelhante, o presidente do BCE falou de “um período de crises sucessivas, da pandemia e da guerra terrestre na Europa à crise energética e aos aumentos generalizados de tarifas”.

Em maio passado, o presidente do Comitê Militar da OTAN declarou que “já estamos no olho do furacão” e alertou que “os países da OTAN não podem mais considerar um período de estabilidade e paz como garantido”. O diretor-geral da Organização Mundial do Comércio afirmou igualmente que “o mundo caminha para uma recessão global devido a múltiplas crises sobrepostas”.

O marxismo (3ª parte, final)

 Lenin

Novembro/1914

O Socialismo

Pelo exposto, vê-se que Marx conclui pela transformação inevitável da sociedade capitalista em sociedade socialista a partir única e exclusivamente da lei econômica do movimento da sociedade moderna. A socialização do trabalho - que avança cada vez mais rapidamente sob múltiplas formas e que, no meio século decorrido depois da morte de Marx, se manifesta sobretudo pela extensão da grande indústria, dos cartéis, dos sindicatos, dos trusts capitalistas e também pelo aumento imenso das proporções e do poderio do capital financeiro - , eis a principal base material para o advento inelutável do socialismo. O motor intelectual e moral, o agente físico desta transformação, é o proletariado, educado pelo próprio capitalismo. A sua luta contra a burguesia, revestindo-se de formas diversas e de conteúdo cada vez mais rico, torna-se inevitavelmente uma luta política tendente à conquista pelo proletariado do poder político ("ditadura do proletariado"). A socialização da produção não pode conduzir senão à transformação dos meios de produção em propriedade social, à "expropriação dos expropriadores". O aumento enorme da produtividade do trabalho, a redução da jornada de trabalho, a substituição dos vestígios, das ruínas, da pequena produção primitiva e disseminada, pelo trabalho coletivo aperfeiçoado, tais são as consequências diretas desta transformação. O capitalismo rompe definitivamente a ligação da agricultura com a indústria, mas prepara simultaneamente, pelo seu desenvolvimento a um nível superior, elementos novos desta ligação, a união da indústria com a agricultura na base de uma aplicação consciente da ciência, de uma coordenação do trabalho coletivo, de uma nova distribuição da população (pondo fim tanto ao isolamento do campo, ao seu estado de abandono e atraso cultural, como à aglomeração antinatural de uma enorme população nas grandes cidades). As formas superiores do capitalismo moderno criam condições para uma nova forma da família, novas condições para a mulher e para a educação das novas gerações; o trabalho das mulheres e das crianças, a dissolução da família patriarcal pelo capitalismo, tomam inevitavelmente, na sociedade moderna, as formas mais horríveis, mais miseráveis e repugnantes. Contudo, "a grande indústria, pelo papel decisivo que confere às mulheres, aos jovens e às crianças dos dois sexos nos processos de produção socialmente organizadas e fora da esfera familiar, cria uma nova base econômica para uma forma superior da família e das relações entre ambos os sexos. É, naturalmente, tão absurdo considerar como absoluta a forma germano-cristã da família como as antigas formas romana, grega ou oriental, que constituem, de resto, uma só linha de desenvolvimento histórico. E igualmente evidente que a composição do pessoal operário por indivíduos de ambos os sexos e de todas as idades - que na sua forma primária, brutal, capitalista, em que o operário existe para o processo de produção, e não o processo de produção para o operário, constitui uma fonte envenenada de ruína e de escravidão - deve transformar-se, inevitavelmente, em condições adequadas, numa fonte de progresso humano" (O Capital, fim do 13.º capítulo). O sistema fabril mostra-nos "o germe da educação do futuro, que unirá, para todas as crianças acima de certa idade, o trabalho produtivo ao ensino e à ginástica, não só como método de aumento da produção social, mas também como único método capaz de produzir homens desenvolvidos em todos os aspectos" (Ibid.) É sobre a mesma base histórica que o socialismo de Marx coloca os problemas da nacionalidade e do Estado, não só para explicar o passado, mas também para prever ousadamente o futuro e conduzir uma ação audaciosa para a sua realização. As nações são um produto e uma forma inevitável da época burguesa do desenvolvimento social. A classe operária não pode fortalecer-se, amadurecer, formar-se, "sem se organizar no quadro da nação", sem ser "nacional" ("embora de nenhuma maneira no sentido burguês da palavra"). Ora, o desenvolvimento do capitalismo destrói cada vez mais as fronteiras nacionais, acaba com o isolamento nacional, substitui os antagonismos nacionais por antagonismos de classe. Por isso, nos países capitalistas desenvolvidos é perfeitamente verdadeiro que "os operários não têm pátria" e que a sua "ação unitária, pelo menos nos países civilizados, é uma das primeiras condições da sua libertação" (Manifesto do Partido Comunista). O Estado, essa violência organizada, surgiu como algo inevitável numa determinada fase do desenvolvimento da sociedade, quando esta, dividida em classes irreconciliáveis, não teria podido subsistir sem um "poder" aparentemente colocado acima dela e diferenciado até certo ponto dela. Nascido dos antagonismos de classe, o Estado torna-se "o Estado da classe mais poderosa, da classe economicamente dominante, a qual, por meio dele, se torna também a classe politicamente dominante e adquire assim novos meios para reprimir e explorar a classe oprimida. Assim, o Estado antigo era, acima de tudo, o Estado dos escravistas, para manter os escravos submetidos, o Estado feudal era o órgão de que se valia a nobreza para sujeitar os camponeses servos, e o moderno Estado representativo é o instrumento de que se serve o capital para explorar o trabalho assalariado”. (Engels, A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, obra em que o autor expõe as suas ideias e as de Marx.) Mesmo a forma mais livre e progressiva do Estado burguês, a república democrática, de maneira alguma elimina este fato; ela modifica apenas a sua forma (ligação do governo com a Bolsa, corrupção direta e indireta dos funcionários e da imprensa, etc.). O socialismo, conduzindo à supressão das classes, conduz por isso mesmo à abolição do Estado. "O primeiro ato - escreve Engels no seu Anti-Dühring - em que o Estado atua efetivamente como representante de toda a sociedade - a expropriação dos meios de produção em nome de toda a sociedade - é, ao mesmo tempo, o seu último ato independente como Estado. A intervenção do poder de Estado nas relações sociais tornar-se-á supérflua num domínio após outro, e cessará então por si mesma. O governo das pessoas dá lugar à administração das coisas e à direção do processo de produção. O Estado não é "abolido", extingue-se." "A sociedade, que reorganizará a produção na base de uma associação livre de produtores iguais, enviará toda a máquina do Estado para o lugar que lhe corresponderá então: o museu de antiguidades, ao lado da roca de fiar e do machado de bronze." (F. Engels, A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado.)

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Epílogo para um Romance à Revelia do Autor

Jacob Gorender

1987

   Quando Joaquim Câmara Ferreira — já na roupagem de Toledo — o procurou em 1968, Hermínio Saccheta deve ter sentido surpresa e desconcerto. Apesar da tarimba, não esperaria que lhe batesse à porta o homem com o qual trocara os pesadíssimos insultos habituais nas dissensões internas dos comunistas.

Hermínio Sacchetta, preso político na ditadura de Getúlio em 1938.

O contencioso entre ambos remontava aos anos 30. Após a derrota do levante de novembro de 1935, o jornalista Sacchetta (nome de guerra Paulo) dirigia o Comitê Regional de São Paulo e foi cooptado para o Birô Político do Comitê Central do PCB. Mais jovem, Câmara Ferreira (nome de guerra Alberto) trocou o curso de engenharia pela profissão de revolucionário. Em 1937, o Comitê Regional Paulista divergiu da linha preconizada pelo Comitê Central a respeito das eleições presidenciais. A divergência se aprofundou e levou a discussões agressivas e intransigentes. Com o apoio da Internacional Comunista, Lauro Reginaldo da Rocha (Bangu), secretário-geral do Comitê Central, venceu a disputa: os divergentes de São Paulo foram expulsos do partido sob a acusação de renegados trotskistas, a mais infamante para um militante comunista. Acontece que, ao travar-se a luta interna — conforme relata Heitor Ferreira Lima — , nenhum dos divergentes do Comitê Regional paulista era trotskista e, em seguida, apenas um deles — Sacchetta, precisamente — aderiu ao trotskismo.

Tendo tomado posição ao lado do Comitê Central, Câmara Ferreira não podia mais continuar amigo de Sacchetta, com o qual se iniciara na vida partidária. A amizade se transformou em rancorosa inimizade. Da qual compartilhou Carlos Marighella, enviado a São Paulo pelo Comitê Central, em 1938, a fim de fortalecer a direção regional na luta contra os “fracionistas trotskistas”.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Para que o povo vença, o capital precisa perder

Dimitris Koutsoumbas 

Secretário-Geral do Partido Comunista da Grécia (KKE)

11/06/2026

Dimitris Koutsoumbas

O fato de o KKE ter denunciado desde o início tanto as propostas reacionárias do governo para a revisão constitucional quanto o procedimento inaceitável que estava sendo seguido foi destacado pelo Secretário-Geral do Comitê Central do KKE, Dimitris Koutsoumbas, durante seu discurso no parlamento em 10 de junho de 2010, no debate sobre o processo de revisão constitucional.

Ele salientou que, por trás de falsos dilemas — sejam eles relativos ao suposto fortalecimento do Estado de Direito ou ao retorno à normalidade europeia e à mudança de governo — reside uma tentativa de ocultar o amplo consenso entre o governo e a oposição. Os dois lados estão envolvidos em um confronto conveniente e em um debate enganoso que pouco tem a ver com os problemas reais enfrentados pela população, os quais se tornam cada vez mais agudos em meio ao crescente envolvimento do país em guerras imperialistas e à possibilidade de uma nova crise econômica capitalista. Ele enfatizou que todos os partidos do sistema compartilham objetivos comuns que são perigosos para a população, incluindo o apoio a planos de investimento destinados a aumentar a lucratividade, a crescente supremacia de legislação inaceitável da UE e a manutenção da imunidade ministerial.

Ele acrescentou que o avanço desses objetivos reacionários exige “estabilidade política”, o que, na realidade, significa insegurança e instabilidade para a população. Denunciou propostas que visam um controle mais rígido sobre o funcionamento dos partidos políticos, maior censura na mídia e novos ataques aos direitos e liberdades sociais do povo.

Para que o povo vença, o capital deve perder”, enfatizou. Ele defendeu a revogação das disposições reacionárias que apoiam a transformação do país em uma vasta base EUA-OTAN, bem como a abolição do artigo que concede amplas isenções e privilégios fiscais para o capital de exportação. Ele também defendeu a garantia de saúde, educação e seguridade social universais, públicas e gratuitas; a proteção ambiental; a defesa dos direitos trabalhistas e sindicais; e emprego permanente e estável para todos.

Tudo isso será imposto pelo próprio povo, intensificando suas dificuldades, aumentando a instabilidade do sistema e fortalecendo a crescente corrente de ceticismo em relação a ele. Através de sua luta organizada e fortalecendo o KKE, eles varrerão este sistema decadente de exploração, pobreza e guerras”, declarou o Secretário-Geral do Comitê Central do KKE.


Fonte: https://inter.kke.gr/en/m-article/For-the-people-to-win-capital-must-lose/


Edição: Página 1917

domingo, 14 de junho de 2026

O marxismo (2ª parte)

Lenin

Novembro/1914



A Doutrina Econômica de Marx

"O objetivo final desta obra, diz Marx no seu prefácio a O Capital, é descobrir a lei econômica do movimento da sociedade moderna", isto é, da sociedade capitalista, da sociedade burguesa. O estudo das relações de produção de uma sociedade historicamente determinada e concreta no seu nascimento, desenvolvimento e declínio, tal é o conteúdo da doutrina econômica de Marx. O que domina na sociedade capitalista é a produção de mercadorias; por isso a análise de Marx começa pela análise da mercadoria. 

O Valor

A mercadoria é, em primeiro lugar, uma coisa que satisfaz uma qualquer necessidade do homem; em segundo lugar, é uma coisa que se pode trocar por outra. A utilidade de uma coisa faz dela um valor de uso. O valor de troca (ou simplesmente o valor) é, em primeiro lugar, a relação, a proporção na troca de um certo número de valores de uso de uma espécie contra um certo número de valores de uso de outra espécie. A experiência quotidiana mostra-nos que, através de milhões, de bilhões de trocas deste tipo se comparam incessantemente os valores de uso mais diversos e mais díspares. Que há de comum entre estas coisas diferentes, que são tornadas constantemente equivalentes num determinado sistema de relações sociais? O que elas têm de comum é serem produtos do trabalho. Trocando os seus produtos, os homens criam relações de equivalência entre os mais diferentes gêneros de trabalho. A produção das mercadorias é um sistema de relações sociais no qual os diversos produtores criam produtos variados (divisão social do trabalho) e em que todos estes produtos se equiparam uns aos outros na troca. Por conseguinte, o que é comum a todas as mercadorias não é o trabalho concreto de um ramo de produção determinado, não é um trabalho de um gênero particular, mas o trabalho humano abstrato, o trabalho humano em geral. Numa dada sociedade, toda a força de trabalho representada pela soma dos valores de todas as mercadorias constitui uma só e mesma força de trabalho humano; bilhões de atos de troca o demonstram. Cada mercadoria considerada isoladamente não representa portanto senão uma certa parte do tempo de trabalho socialmente necessário. A grandeza do valor é determinada pela quantidade de trabalho socialmente necessário ou pelo tempo de trabalho socialmente necessário para a produção de determinada mercadoria, de determinado valor de uso. "Ao equiparar os seus diversos produtos na troca como valores, os homens equiparam os seus diversos trabalhos como trabalho humano. Não se dão conta, mas fazem-no."(N27) O valor é uma relação entre duas pessoas, disse um velho economista; mas deveria acrescentar: uma relação entre pessoas escondida sob a envoltura das coisas. Só partindo do sistema de relações sociais de produção de uma formação histórica determinada, relações que se manifestam na troca, fenômeno generalizado que se repete bilhões de vezes, é que se pode compreender o que é o valor. "Como valores, todas as mercadorias são apenas quantidades determinadas de tempo de trabalho cristalizado."(N28) Depois de uma análise detalhada do duplo caráter do trabalho incorporado nas mercadorias, Marx passa à análise da forma do valor e do dinheiro. A principal tarefa que Marx se atribui é investigar a origem da forma dinheiro do valor, estudar o processo histórico do desenvolvimento da troca, começando pelos atos de troca particulares e fortuitos (forma simples, particular ou acidental do valor: uma quantidade determinada de uma mercadoria é trocada por uma quantidade determinada de outra mercadoria), para passar à forma geral do valor, quando várias mercadorias diferentes são trocadas por outra mercadoria determinada e concreta sempre a mesma, e acabar na forma dinheiro do valor, quando o ouro se torna esta mercadoria determinada, o equivalente geral. Produto supremo do desenvolvimento da troca e da produção de mercadorias, o dinheiro encobre e dissimula o caráter social dos trabalhos parciais, a ligação social entre diversos produtores unidos uns aos outros pelo mercado. Marx submete a uma análise extremamente minuciosa as diversas funções do dinheiro, e é especialmente importante notar que também aqui (como nos primeiros capítulos de O Capital) a forma abstrata de exposição que, por vezes, parece puramente dedutiva, reproduz na realidade uma documentação imensamente rica sobre a história do desenvolvimento da troca e da produção de mercadorias. "O dinheiro supõe certo nível de troca de mercadorias. As formas particulares do dinheiro, simples equivalente de mercadorias, meio de circulação, meio de pagamento, tesouro ou dinheiro universal, indicam, conforme o diferente alcance e a preponderância relativa de uma dessas funções, graus muito diversos do processo social de produção" (O Capital, I)(N29)

segunda-feira, 8 de junho de 2026

O marxismo (1ª parte)

Lenin 

Novembro/1914

Vladimir Ilyich Ulianov, o Lenin.

A Doutrina de Marx

O marxismo é o sistema das ideias e da doutrina de Marx. Marx continuou e desenvolveu plena e genialmente as três principais correntes ideológicas do século XIX, nos três países mais avançados da humanidade: a filosofia clássica alemã, a economia política clássica inglesa e o socialismo francês, em ligação com as doutrinas revolucionárias francesas em geral. O caráter notavelmente coerente e integral das suas ideias, reconhecido pelos próprios adversários - e que, no seu conjunto, constituem o materialismo moderno e o socialismo científico moderno como teoria e programa do movimento operário de todos os países civilizados -, obriga-nos a fazer preceder a exposição do conteúdo essencial do marxismo, a doutrina económica de Marx, de um breve resumo da sua concepção do mundo em geral. 

O Materialismo Filosófico

Desde 1844-1845, época em que se formaram as suas ideias, Marx foi materialista; foi, em particular, partidário de L. Feuerbach, cujo único lado fraco foi para ele, mesmo mais tarde, a falta de coerência e de universalidade do seu materialismo. Marx via a importância histórica mundial de Feuerbach, que "fez época", precisamente na sua ruptura decisiva com o idealismo de Hegel e na sua afirmação do materialismo que já desde "o século XVIII e nomeadamente em França não foi apenas uma luta contra as instituições políticas existentes, assim como contra a religião e a teologia existentes, mas também ... contra toda a metafísica" (tomada no sentido de "especulação delirante" por oposição a uma "filosofia sensata") (A Sagrada Família(N19), no Literarischer Nachlass). "Para Hegel - escrevia Marx - o processo do pensamento, que ele personifica mesmo sob o nome de ideia num sujeito independente, é o demiurgo (o criador) da realidade ... Para mim, pelo contrário, o ideal não é senão o material transposto e traduzido no cérebro humano" (O Capital, I, posfácio da segunda edição). Perfeitamente de acordo com a filosofia materialista de Marx, F. Engels, expondo-a no Anti-Dühring (ver), que Marx lera ainda em manuscrito, escrevia: "A unidade do mundo não consiste no seu ser ... A unidade real do mundo consiste na sua materialidade e esta última está provada ... por um longo e laborioso desenvolvimento da filosofia e das ciências naturais ... O movimento é o modo de existência da matéria. Nunca e em parte alguma houve nem poderá haver matéria sem movimento ... Matéria sem movimento é impensável do mesmo modo que movimento sem matéria ... Mas, se se pergunta, depois disso, o que são o pensamento e a consciência, e donde provêm, conclui-se que são produtos do cérebro humano e que o próprio homem é um produto da natureza, o qual se desenvolveu no seu ambiente e com ele; daí se compreende por si só que os produtos do cérebro humano que, em última análise, são igualmente produtos da natureza, não estão em contradição, mas sim em correspondência com a restante conexão da natureza", "Hegel era idealista, isto é, para ele, as ideias do seu cérebro não eram reflexos (Abbilder, por vezes Engels fala de "reproduções") mais ou menos abstratos dos objetos e dos fenómenos reais, mas, pelo contrário, eram os objetos e o seu desenvolvimento que eram para ele os reflexos da ideia, que já existia, não se sabe onde, antes da existência do mundo." No seu Ludwig Feuerbach, livro onde expõe as suas ideias e as de Marx sobre a filosofia de Feuerbach e que só mandou imprimir depois de ter lido uma vez mais o velho manuscrito de 1844-1845, escrito em colaboração com Marx, sobre Hegel, Feuerbach e a concepção materialista da história, Engels escreve: "A grande questão fundamental de toda a filosofia, especialmente da filosofia moderna, é a da relação entre o pensamento e o ser, entre o espírito e a natureza ... Que é primeiro: o espírito ou a natureza?... Conforme respondiam de uma maneira ou de outra a esta questão, os filósofos dividiam-se em dois grandes campos. Aqueles que afirmavam que o espírito é primeiro em relação à natureza e que, por conseguinte, admitiam, em última instância, uma criação do mundo de qualquer espécie ... constituíam o campo do idealismo. Os outros, que consideravam a natureza como o elemento primordial, pertenciam às diversas escolas do materialismo." Qualquer outro emprego dos conceitos de idealismo e de materialismo (no sentido filosófico), não faz mais do que criar a confusão; Marx repudiou categoricamente não apenas o idealismo, sempre ligado, de uma maneira ou de outra, à religião, mas também o ponto de vista, particularmente difundido nos nossos dias, de Hume e de Kant, o agnosticismo, o criticismo, o positivismo(N20) sob os seus diferentes aspectos, considerando esse gênero de filosofia como uma concessão "reacionária" ao idealismo, e, no melhor dos casos, "uma maneira envergonhada de aceitar o materialismo às escondidas, renegando-a publicamente". A este respeito, é bom consultar, além das já citadas obras de Marx e Engels, a carta de Marx a Engels, datada de 12 de Dezembro de 1866, em que, falando de uma intervenção do célebre naturalista T. Huxley, que se mostrou "mais materialista" do que habitualmente e reconheceu que "enquanto observamos e pensamos realmente nunca podemos sair do materialismo", Marx o critica por ter "aberto uma porta" ao agnosticismo e à teoria de Hume. É importante, sobretudo reter a opinião de Marx sobre as relações entre a liberdade e a necessidade: "A necessidade só é cega enquanto não é compreendida. A liberdade consiste em conhecer a necessidade." (F. Engels, Anti-Dühring.) É o reconhecimento das leis objetivas que regem a natureza e da transformação dialética da necessidade em liberdade (da mesma maneira que a transformação da "coisa em si" não conhecida mas cognoscível, em "coisa para nós", da "essência das coisas" em "fenômenos"). O defeito essencial do "velho" materialismo, incluindo o de Feuerbach (e, com mais forte razão, o do materialismo "vulgar" de Buchner-Vogt-Moleschott), era para Marx e Engels: 1 - que este materialismo era "essencialmente mecanicista" e não tomava em conta os progressos mais recentes da química e da biologia (atualmente conviria acrescentar ainda a teoria elétrica da matéria); 2 - que o velho materialismo não tinha um caráter histórico nem dialético (sendo pelo contrário metafísico, no sentido de antidialético) e não aplicava a concepção do desenvolvimento de forma consequente e sob todos os seus aspectos; 3 - que concebia a "essência humana" como uma abstração e não como o "conjunto de todas as relações sociais" (concretamente determinadas pela história), não fazendo assim mais do que "interpretar" o mundo, enquanto aquilo de que se tratava era de o "transformar", ou, por outras palavras, não compreendia a importância da "atividade revolucionária prática".

sexta-feira, 5 de junho de 2026

As duas vias ilusórias do reformismo

Ney Nunes

Vejam a trajetória miserável do reformismo, que foi da falida "Via pacífica para o socialismo", até o descaramento atual da "Via pacífica  para a gestão do capitalismo".


Chile, 1973, golpe burguês derruba a via pacífica de Allende.


Na primeira "via", ainda mantinham o socialismo no horizonte, mesmo não passando de uma ilusão sepultada pelos acontecimentos. Ficando demonstrado, ao longo da História, que nenhuma classe dominante entrega o poder de bom grado, sem resistência armada. Exemplos não faltam, entre os mais clássicos, a guerra civil espanhola e o Chile de Salvador Allende.

Já na segunda 'via", a ilusão foi rebaixada ao limite de uma gestão humana do capitalismo, gestão que os seguidos governos de corte reformista ao redor do mundo comprovaram, de forma inequívoca, que só prestaram para fortalecer o poder da burguesia e manter o proletariado dividido e desorganizado, colaborando para prolongar a agonia do sistema de exploração do homem pelo homem.

Em tempos de crise crônica do capitalismo, de disputa entre as potências imperialistas pela hegemonia mundial, de guerras e genocídios que abrem as portas da barbárie, o papel miserável do reformismo é cada vez mais nefasto. Os reformistas de todos os matizes jogam água no moinho da contrarrevolução e do fascismo. São coveiros das possibilidades revolucionárias, são agentes da burguesia, são inimigos do proletariado e do socialismo.

RJ, 05/06/2026

Edição: Página 1917

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