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segunda-feira, 13 de julho de 2026

Gato por lebre

Ney Nunes*

11/07/26



No seu manifesto de lançamento a autodenominada "bancada da esquerda radical"(1) oferece uma receita para mudar os rumos da política e da economia praticando um incrível contorcionismo político ao fazer críticas ao neoliberalismo e a política econômica do governo, enquanto omite que faz parte da base de sustentação deste mesmo governo no parlamento e apoia, já no primeiro turno, a chapa Lula/Alckmin.

Ao afirmar que "O modelo econômico neoliberal no Brasil atingiu um nível de destruição social, ambiental e nacional que, para continuar existindo, dependerá cada vez mais de autoritarismo, repressão e violência social." e não relacionar esse modelo com quase duas décadas de governos liderados pelo PT, tentam encobrir uma realidade que a história recente demonstra de forma cabal: o PT e seus satélites não fizeram mais do que ao longo desse tempo aplicar e aprofundar esse modelo.

Seguindo nesta lógica fraudulenta, o manifesto diz que: "Sob a lógica do teto de gastos e do arcabouço fiscal, a escassez de recursos públicos é deliberadamente planejada." e mais uma vez, convenientemente, esquece que isso é justamente o que o governo burguês de Lula/Alckmin vem fazendo, seguindo a orientação emanada pelos seu patrões: a burguesia e o imperialismo.

De forma pouco sutil, deixa antever que existiriam setores burgueses dispostos a bancar um programa anti-imperialista: "Se o imperialismo pretende manter o país de joelhos, apoiado pelas frações rentista, mineral e latifundiária da burguesia brasileira", ou seja, os demais setores da burguesia não apoiariam a submissão ao imperialismo e seriam passíveis, portanto, de integrar uma possível aliança de governo. Como se o que sobrou da indústria brasileira, do comércio e e dos serviços voltados para o mercado interno não estivessem perfeitamente integrados e lucrando bastante com a inserção subordinada do Brasil no sistema imperialista.

Concluindo a apresentação de seu programa econômico alternativo, deixam claro os limites do que pretendem: "Utilizar a política comercial como instrumento de desenvolvimento, protegendo setores estratégicos, incentivando a industrialização e garantindo maior autonomia econômica.". Ou seja, nenhuma ruptura radical com o regime da propriedade privada e da exploração capitalista, pelo contrário, indicam a gestão do desenvolvimento capitalista com presença de investimentos estatais, o velho desenvolvimentismo com pitadas sociais. 

Como podemos ver, a fraseologia radical não é suficiente para encobrir o contorcionismo político desse agrupamento de parlamentares e candidatos. O centro da atuação deles é o Congresso, a estratégia é garantir alguns postos parlamentares para continuarem a ser o que são, uma ala esquerda do lulismo, uma versão pós-moderna da velha e carcomida socialdemocracia. O seu programa é, na verdade, uma oferta para gestão da crise capitalista, portanto, oferta de colaboração com a burguesia e de tentativa de se equilibrar entre as disputas interimperialistas cada vez mais acirradas. 

Mas numa conjuntura em que até mesmo os serviços prestados há quase duas décadas pela esquerda liberal comandada pelo lulismo estão sendo esnobados por vário setores burgueses em favor da rastejante extrema-direita bolsonarista, é muito pouco provável que tal oferta seja levada em consideração pelos detentores do poder. O verdadeiro objetivo por trás do "manifesto radical" é nos vender gato por lebre e garantir assim seus mandatos parlamentares, a isso chamamos oportunismo.

* Ney Nunes, eletricista, bancário, foi militante sindical, ex-dirigente do PCB e autor do livro "Guerra de Classes": https://clubedeautores.com.br/livro/guerra-de-classes

(1) https://bancadaesquerdaradical.com.br/

Edição: Página 1917






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