Índice de Seções

sábado, 1 de agosto de 2026

O sujeito "ausente"

Ney Nunes*
01/08/2026

Rússia, 1917, o proletariado na vanguarda da revolução.

Em tempos de hegemonia acachapante da burguesia e das suas classes auxiliares, quase não se houve falar da única classe em condições de liderar uma autêntica revolução anticapitalista: o proletariado.

Com certeza, não será das hostes da pequena-burguesia reformista que fala em revolução no discurso, mas almeja apenas um lugar ao sol na gerência do capitalismo, que iremos ouvir menção ao proletariado como sujeito revolucionário. Muito pelo contrário, a tal "revolução" desses sacripantas não tem nada a ver com lutas de classe. Os múltiplos "sujeitos revolucionários" deles são todos  pertencentes a segmentos identitários, desprovidos do qualquer caráter classista.

Mesmo fora de moda, esse sujeito "ausente" segue sua existência, porque é imprescindível ao capitalismo.  Sem ele não se cria nem se acumula capital, é dele que a burguesia extrai a mais valia que sustenta toda a engrenagem econômica do sistema de exploração do homem pelo homem. Pode estar fragmentado, apático, derrotado politicamente, mas não desapareceu do cenário da luta de classes. Nas empresas desenvolve muitas vezes uma resistência surda contra a exploração, sabedor da conjuntura desfavorável e do cerco dos inimigos de classe e seus colaboradores.

É neste cenário que os revolucionários precisam atuar e com paciência tecer as teias da ligação orgânica entre o subjetivo e o objetivo, entre o partido revolucionário e sua classe. O cotidiano das pequenas lutas nas fábricas, nos locais de moradia, de lazer e estudo devem ser terreno prioritário de um partido que se pretenda comunista não apenas no nome, mas verdadeiramente armado pela teoria do movimento revolucionário: o marxismo-leninismo.

Foi essa teoria que guiou as grandes revoluções do século XX, sem ela não teríamos, por exemplo, a revolução soviética de 1917, ou a revolução chinesa de 1949. Nestas, a aliança do proletariado com o campesinato cumpriu papel determinante, arrastando atrás de si outros setores populares. Mesmo que não tenham chegado ao objetivo estratégico, ergueram apesar de todas as dificuldades, agressões e cerco das potências imperialistas, um sistema de transição ao socialismo que alcançou enormes vitórias e deixou antever as possibilidades de um sistema livre da exploração burguesa. O retrocesso dessas revoluções não indica o fracasso da revolução proletária, mas nos alerta contra os riscos e desvios que levaram à derrota do proletariado e a completa restauração capitalista na China, Rússia e demais países do leste europeu.

O impacto desse retrocesso, como não poderia deixar de ser, ainda perdura, pois retirou de cena duas experiências que se tornaram referência para milhões de pessoas durante quase todo século passado. Por outro lado, as contradições do capitalismo em sua etapa imperialista não cessam de se desenvolver, colocando a humanidade novamente as portas da barbárie de uma terceira guerra mundial. Nesse contexto a única saída do sistema é intensificar a exploração do proletariado e demais classes subalternas. Assim, o sujeito "ausente" tende voltar, lentamente, a ter protagonismo, passando da fase de resistência para uma contra ofensiva contra o sistema burguês e o imperialismo. 

Os revolucionários têm diante de si grandiosos desafios e oportunidades, similares as que existiram no início do século passado às portas da primeira guerra mundial. Para estar a altura desses desafios e oportunidades nossos camaradas, na época, não hesitaram se reagrupar em torno dos princípios da teoria revolucionária, rompendo com os oportunistas e reformistas da Segunda Internacional, denunciando suas traições e colaboração com os governos burgueses. Cabe aprendermos com sua experiência, ela nos mostra o caminho que resultou na vitória do proletariado num contexto de enormes adversidades como o que vivenciamos na atualidade.

* Ney Nunes, eletricista, bancário, foi militante sindical, ex-dirigente do PCB e autor do livro "Guerra de Classes": https://clubedeautores.com.br/livro/guerra-de-classes

Edição: Página 1917


  


 


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Caro leitor, ajude a divulgar o Página 1917, compartilhe nossas publicações nas suas redes sociais.

Comentários ofensivos e falsidades não serão publicados.