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domingo, 17 de maio de 2026

O criadouro do fascismo é o capitalismo

Por  Ney Nunes*


Muitos indagam com perplexidade: como a extrema direita cresceu tanto a ponto de ganhar o peso político-social que alcançou na atual conjuntura brasileira? O que teria acontecido para favorecer tal desenvolvimento? A "democracia" instaurada com a constituição de 1988 estaria ameaçada pelo fascismo? Só poderemos responder adequadamente a estas preocupações se buscarmos as determinações estruturais por trás da superfície dos fatos da politicagem burguesa.

Já são quase quarenta anos vivendo sob o regime político democrático burguês, onde o que prevalece é a alternância de governos que funcionam como gerentes do capital e se equilibram entre os interesses das diversas facções burguesas. Essa situação é agravada pela crise capitalista que esses governos administram sempre jogando as consequências nas costas da classe trabalhadora e das massas populares. 

As seguidas derrotas como as reformas da previdência e trabalhista, as privatizações e a precarização do trabalho contribuíram pesadamente para a desmoralização e ceticismo da classe trabalhadora, mergulhada cada vez mais na desorganização e no individualismo. Tudo potencializado por uma ofensiva ideológica burguesa realizada através do governo, parlamento, judiciário, empresas, escolas e oligopólios midiáticos, auxiliados pelo crescimento exponencial da influência das seitas pentecostais. Todos, de forma articulada, trabalham diuturnamente pelo retrocesso na consciência de classe e no fomento das expectativas de saídas individuais por dentro do capitalismo.

Some-se a inexistência nesse período de uma alternativa frente a hegemonia da socialdemocracia petista e seus assemelhados no movimento sindical, mais um fator de enfraquecimento da consciência de classe e da organização para levar adiante as lutas operárias e populares. Chegamos assim, a uma situação de paralisia, descrédito e esvaziamento dos sindicatos, transformados em agentes de colaboração com o empresariado e governantes.

A saída burguesa para a crise capitalista foi intensificar o grau de exploração do proletariado e, ao mesmo tempo, submeter a economia brasileira aos ditames do sistema imperialista, retrocedendo a uma condição de país essencialmente exportador de produtos primários e importador bens industrializados. Não por acaso, temos mais de quarenta por cento dos trabalhadores na economia informal, enquanto os de carteira assinada sobrevivem, em sua esmagadora maioria, recebendo até dois salários mínimos.

Diante desse quadro, não é de surpreender o crescimento da extrema-direita, uma escória que reúne um amalgama de forças políticas burguesas reacionárias e mafiosas, dispostas a dar continuidade e aprofundar todos os ataques contra o povo trabalhador. A crise capitalista e suas consequências foram o criadouro perfeito para o seu desenvolvimento, proporcionando que a expressão política majoritária da extrema-direita, o bolsonarismo, se transformasse rapidamente em um fenômeno de massa, perfeitamente integrado ao regime, arrastando consigo  setores da pequena burguesia, trabalhadores assalariados, além de segmentos populares das favelas e periferias das grandes cidades.

Portando, a "democracia" não está ameaçada pelo fascismo, pelo contrário, a tendência reacionária foi gestada no seu interior, alimentada pela crise capitalista e seus gestores políticos. As medidas antidemocráticas e policialescas são recursos que o regime político democrático burguês vem aplicando para se perpetuar em perfeita sintonia com a extrema direita. Na verdade, fascistas, liberais e socialdemocratas, a despeito de sua disputas eleitorais, estão inteiramente a disposição para servir aos interesses do capital e do imperialismo.

Os milhões de brasileiros iludidos pela retórica reacionária e histérica da extrema direita são a resultante dessas determinações estruturais, que combinadas com as derrotas do proletariado impediram, até aqui, o erguimento de uma alternativa de classe e revolucionária, para não apenas derrotar a escória reacionária, mas liquidar em definitivo seu criadouro, o capitalismo.

RJ,16/05/2026.

*Ney Nunes, eletricista, bancário, foi militante sindical, ex-dirigente do PCB, autor do livro "Guerra de Classes": https://clubedeautores.com.br/livro/guerra-de-classes.

Edição: Página 1917




    


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