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quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

Sobre o debate ideológico-político no 22º Encontro Internacional dos Partidos Comunistas e o "truque" da posição "anti-russa" e "pró-russa"

Eliseos Vagenas

Membro do CC do KKE,

Diretor da Seção de Relações Internacionais do CC do KKE

       Prossegue o debate sobre os resultados do Encontro Internacional de Partidos Comunistas e Operários em Havana.

Algumas forças, e inclusive jornais burgueses, buscaram interpretar os resultados do Encontro Internacional dos Partidos Comunistas sob seu próprio prisma. Assim, o jornal russo “Nezavisimaya Gazeta” falou de uma “ruptura no movimento de esquerda internacional” em Havana, devido à “operação militar especial” russa, como a mídia russa chama a guerra na Ucrânia. A primeira coisa que se nota é a evidente pressa do referido jornal em substituir até mesmo o título do “Encontro Internacional dos Partidos Comunistas e Operários” (EIPCO) pelo título incolor e insípido “movimento de esquerda internacional”.

No entanto, na realidade, o periódico burguês russo “está empurrando portas abertas”, pois como o KKE destacou várias vezes, no movimento comunista internacional (MCI) se desenvolve um duro confronto ideológico-político sobre várias questões importantes. Já temos falado da crise político-ideológica nas fileiras do MCI, assim como da necessidade de seu reagrupamento revolucionário.

O debate no seu interior, como o KKE já mostrou várias vezes, tem muitas dimensões, por exemplo:

Entre os partidos que se posicionam a favor da diluição dos partidos comunistas em “alianças de esquerda progressista mais amplas” e os partidos que lutam pela preservação da independência político-ideológica dos partidos comunistas e pelo fortalecimento de seus vínculos com a classe trabalhadora e as camadas populares.

Entre os partidos que permanecem atrelados à antiga estratégia das “etapas para o socialismo” e apoiam a participação em governos burgueses de “esquerda”, “antineoliberal”, “progressista”, “centro-direita” no terreno do capitalismo, e os partidos que rejeitaram a participação nos governos burgueses e a lógica das etapas e lutam para derrubar a barbárie capitalista.

Entre os partidos que identificam o imperialismo exclusivamente com os EUA ou mesmo com alguns países capitalistas fortes da Europa, ou com uma política externa agressiva, e os partidos que sustentam a percepção leninista de que o imperialismo é o capitalismo monopolista, a fase superior e última desse sistema de exploração.

Entre os partidos que consideram que a luta pela paz está indissociavelmente ligada a um “mundo multipolar” que supostamente “domará” os EUA, difundindo ilusões sobre uma “arquitetura internacional para a paz” cultivada por social-democratas e oportunistas, e, por outro lado, aqueles partidos que acreditam que o mundo capitalista não pode ser “democratizado”, não pode acabar com as guerras, por mais “polos” que tenha e é imprescindível intensificar a luta pela derrubada do capitalismo, pela construção da nova sociedade socialista.

Entre os partidos que consideram a China como um país que "está construindo o socialismo com características chinesas" e os partidos que consideram que o socialismo tem princípios e que na China esses princípios foram violados e já predominam as relações capitalistas de produção, que é um país do mundo capitalista contemporâneo, que é um país que compete com os EUA ameaçando sua supremacia no sistema imperialista.

Poderíamos mencionar outros temas graves em torno das quais se desenvolve um forte debate ideológico no EIPCO, entre os quais, após a inaceitável invasão russa na Ucrânia, a questão da guerra imperialista na Ucrânia foi adicionada. Portanto, o “ouro” do “Nezavisimaya Gazeta” de que acaba de haver uma “ruptura no movimento de esquerda internacional”, tem se mostrado apenas “carvão”. Quanto à posição dos partidos que se autodenominam de "esquerda", deve-se destacar que apenas o SYRIZA de "esquerda" votou no Parlamento Europeu juntamente com o direitista ND e o social-democrata PASOK a favor da formação de um "mecanismo de ajuda militar para a Ucrânia” da mesma forma que havia apoiado anteriormente a expansão das bases dos EUA-OTAN na Grécia, ou a adesão de novos países à OTAN, questões em que o KKE votou contra.

O que aconteceu em Havana?

Nos Encontros Internacionais de Partidos Comunistas, busca-se chegar a posições comuns que se expressam através da aprovação do “Documento Final”, quando isso é possível. No entanto, este documento é fruto de um debate e de uma confluência de opiniões, mas quem ler este documento específico do 22ª EIPCO (ver http://www.solidnet.org/article/22nd-IMCWP-Final- Declaração-do-22º-Encontro-Internacional-dos-Partidos-Comunistas-e-Trabalhadores/) perceberá que nele não há análises problemáticas sobre as “etapas”, de apoio a “governos de esquerda e progressistas”, de “luta contra o neoliberalismo” que encubra a luta contra o capitalismo, sobre um “mundo multipolar” etc., mas, ao contrário, promove-se a linha comum de luta dos partidos comunistas contra o capitalismo, em apoio às lutas operárias e populares, como via de construção da nova sociedade socialista.

Ao mesmo tempo, no EIPCO cada parte tem a oportunidade de contribuir com o seu discurso e levantar ou apoiar resoluções respectivas sobre diversos temas.

Assim, apesar dos diferentes enfoques expressos nos discursos dos partidos no EIPCO sobre a guerra na Ucrânia, no “Documento Final” do 22º EIPCO existe uma referência particular à situação na Ucrânia, à qual o Departamento de Relações Internacionais do CC do Partido Comunista da Federação Russa (PCFR) evita mencionar em resposta ao “Nezavisimaya Gazeta”. Esta é a referência feita no Documento Final do EIPCO:

"3. Como consequência da crescente agressividade do imperialismo e da recomposição geopolítica em curso, enfrentamos uma nova espiral da corrida armamentista, o reforçamento e expansão da OTAN, o surgimento de novas alianças militares, o acirramento de tensões e conflitos militares, como o da Ucrânia, o ressurgimento do fascismo em várias partes do mundo e a “guerra fria” e a ameaça de uma conflagração nuclear, que devemos rechaçar”.

Além deste posicionamento comum, foram apresentadas duas resoluções: uma do Partido Comunista dos Trabalhadores da Rússia (PCOR), do Partido Comunista da Federação Russa e do Partido Comunista da Ucrânia que justificava e apoiava a invasão russa reproduzindo pretextos “antifascistas” que a burguesia russa utiliza para esconder suas aspirações. A outra resolução foi apresentada pela União dos Comunistas da Ucrânia (e não pelo KKE, como afirma D.Novikov, o vice-presidente do Comitê Central do PCFR, no artigo da “Nezavisimaya Gazeta”). Esta resolução, que revela a natureza imperialista da guerra, condena tanto o governo reacionário da Ucrânia quanto os objetivos da burguesia russa, e foi apoiada pelo KKE.

Sobre o ataque ao KKE

A Seção de Relações Internacionais do PCFR, na tentativa de minimizar a importância dessa resolução, que demonstra o caráter imperialista da guerra, alinha-se com o autor do artigo de "Nezavisimaya Gazeta" e recorre com ele ao argumento "conveniente" de que as partes signatárias "quase nenhuma delas exerce influência em seu Estado". Alguns dias antes, em entrevista à rádio “Aurora”, G.Afonin, o vice-presidente do Comitê Central do PCFR, referiu-se com desdém ao KKE, dizendo que ele tem apenas 10 deputados, que nas eleições alcança 5- 6%, e questiona-se “qual é a sua influência na sociedade?”, acrescentando que “perdeu muitas oportunidades de unir as forças de esquerda e as forças progressistas” na Grécia.

O exposto demonstra que o PCFR parece medir a "influência" dos demais partidos comunistas com base em critérios puramente parlamentares como o número de deputados ou o percentual eleitoral, enquanto é sabido que para um partido revolucionário que luta para derrubar o capitalismo, alcançar um percentual eleitoral requer um árduo esforço nas condições da ditadura do capital. Além disso, diríamos que tanto a trajetória histórica quanto os acontecimentos recentes deveriam ter ensinado que os partidos comunistas que não estão enraizados na classe trabalhadora, no movimento sindical, nas lutas da classe trabalhadora do país e sua ação se limita dentro das paredes do parlamento podem desaparecer do dia para a noite, e isto independentemente da sua alta porcentagem eleitoral ou do grande número de deputados.

Assim, o vice-presidente de um partido, que em seus 29 anos de existência não deu nenhuma contribuição substancial para o desenvolvimento do movimento operário sindical na Rússia e, de fato, no momento em que os sindicalistas são presos por sua ação sindical, como o presidente do sindicato dos carteiros de Moscou, Kirill Ukrayinchev, deveriam ser menos vaidosos e estudar a rica experiência e ação do KKE, que está liderando as lutas da classe trabalhadora, camponeses pobres, pequenos empresários e juventude, que era conhecido pelos quadros do PCFR no período anterior.

Como o PCFR realmente mede sua influência, que embora tenha dezenas de deputados, esqueceu a luta de classes ou ainda não conseguiu dizer uma única palavra de crítica ao presidente russo C. Putin, que repetidamente tem atacado o líder da Revolução de Outubro, V.I.Lenin e os bolcheviques? Como é possível que não tenha notado que V.Putin em todos os discursos importantes usa trechos dos livros do filósofo russo e fundador do fascismo russo, I.Ilin?

Calúnia contra o KKE sobre “anti-russianismo”

Em diversas meios de comunicação, que apoiam o PCFR, a realidade é ainda mais brutalmente distorcida. Assim, afirma-se que no 22º EIPCO foram apresentadas duas resoluções, uma “pró-Rússia” apresentada pelos dois partidos russos e uma “anti-Rússia” apoiada pelo KKE.

De onde se deduz que uma resolução era "pró-russa" e outra "anti-russa"? O único critério para esta distinção é se cada uma destas resoluções apoia ou não os pretextos e opções da burguesia russa na guerra imperialista e na defesa dos seus próprios interesses.

Mas se pode caracterizar “pró-russa”uma resolução que aceita que os filhos do povo russo se convertam em buchas para os canhões da guerra imperialista, para melhor servir aos interesses dos monopólios russos, que se chocam com os monopólios euro-atlânticos na Ucrânia, sobre a repartição de matérias-primas, terras férteis, recursos naturais, infraestrutura industrial, mão de obra e mercados?

Apesar de que falar de “pró-Rússia” e “anti-Rússia” seja um truque enganoso, pode-se logicamente dizer que “pró-Rússia” - segundo a terminologia do PCFR - é precisamente a resolução que revela e apoia a interesses da classe trabalhadora, das camadas populares da Rússia, em oposição aos interesses da burguesia do país, suas alianças e a guerra imperialista.

Uma resolução pode ser descrita como "anti-russa" porque se choca com os interesses da burguesia russa?

Essa lógica não é nada sólida. Pensem numa coisa: o KKE em suas declarações e no EIPCO se posiciona em primeiro lugar contra todos os planos e a atitude dos governos burgueses gregos, da ND atualmente, e do SYRIZA e do PASOK antes, que para servir aos interesses dos armadores, banqueiros, industriais e outros setores da burguesia, aprisionaram o país nos planos das organizações imperialistas da OTAN e da UE. Alguém, além dos nacionalistas, poderia denunciar o KKE por ter uma “postura anti-helênica” por se opor e condenar as escolhas dos partidos e governos burgueses gregos?

Quando o KKE se mobiliza contra as bases dos EUA, o acordo estratégico com os EUA, não se mobiliza contra o povo norte-americano e a classe trabalhadora dos EUA, cujas lutas os comunistas gregos honram e contribuíram através dos imigrantes que chegaram a este país.

Quando o KKE se mobiliza contra a compra de armas francesas, o acordo estratégico entre a Grécia e a França, o faz porque considera que  iss0 envolve o país em novas intervenções e guerras imperialistas, por exemplo na zona do Sahel, e não porque tenha “ sentimentos anti-franceses”. Pelo contrário, o KKE louva a contribuição histórica das lutas da classe trabalhadora francesa, desde a Comuna de Paris até os dias atuais.

Quando o KKE se mobiliza ao lado dos trabalhadores do porto de Pireu, controlado pelo monopólio chinês COSCO, não é que tem sentimentos “anti-chineses”, mas sua “bússola” é a necessidade de apoiar a luta dos trabalhadores por condições seguras de trabalho, salários decentes e acordos coletivos de trabalho, etc.

A partir das posições dos princípios do internacionalismo proletário, o KKE está ao lado dos povos, ao lado da classe trabalhadora de todos os países, contra os interesses das classes burguesas e das alianças imperialistas. O KKE é a favor da cooperação mutuamente benéfica entre todos os países e povos, e se opõe a qualquer manifestação de racismo e todos os tipos de xenofobia.

A mentira não vive até envelhecer

É bem conhecida a frase de que "nunca se mente mais do que depois de uma caçada, durante uma guerra e antes das eleições" e em nosso caso há pelo menos duas condições, e alguns no nosso país tentam difamar o KKE que com sua posição de princípios contra a guerra imperialista, supostamente expressa “anti-russismo”. Porém, tal coisa tem “pernas curtas”, porque o KKE:

Durante todos estes anos resistiu, destacou e denunciou os perigos da expansão da OTAN para as fronteiras da Rússia com novos países.  Denunciou o governo anterior do SYRIZA que fez um acordo com a Macedônia do Norte para poder ingressar na OTAN e na UE. O KKE também denunciou o governo do ND que levou ao parlamento a adesão da Suécia e da Finlândia à OTAN, que também foi aprovada pelos outros partidos euro-atlantistas, supostamente em nome da chamada “autodeterminação” destes países.

Durante todos esses anos, o KKE denunciou e se opôs ao cerco da Federação Russa com novas bases e tropas militares dos EUA e da OTAN, inclusive em nosso país. Enfatizou que esse cerco acumulou material combustível antes da guerra.

Se opôs a que a Força Aérea Grega assumisse a vigilância do espaço aéreo dos países balcânicos, o que seria claramente uma ação de caráter contra a chamada “ameaça russa”.

Durante todos esses anos, o KKE denunciou e votou contra a guerra comercial e as sanções da UE contra a Federação Russa no parlamento nacional e europeu, e enfatizou que essas sanções afetam em primeiro lugar as camadas populares, como, por exemplo, os camponeses do nosso país.

O KKE destacou que a chamada redução da dependência da UE do gás natural russo leva tanto à dependência da UE do caro gás natural liquefeito dos EUA, assim como à implementação de impostos verdes relacionados à chamada “transição verde”.

O KKE se opôs e condenou a decisão da União Europeia e do governo grego, no início da guerra imperialista, de proibir o funcionamento da mídia russa em nosso país.

O KKE se opôs e condenou a decisão da União Europeia e do governo grego, no início da guerra imperialista, de impedir eventos com organizações culturais russas.

É claro que partidos como o PCFR, que é influenciado por pontos de vistas nacionalistas e apoiam plenamente as construções ideológicas das classes burguesas como o chamado “mundo russo”, não podem ver nada mais que “anti-russismo” no rechaço aos pretextos que usa a burguesia russa, e na clara posição de condenação tanto do imperialismo euro-atlântico como da burguesia russa.

 Respondemos com o último parágrafo da Resolução da União dos Comunistas da Ucrânia, apoiada pelo KKE: "É vergonhoso e criminoso que os comunistas em todo o mundo se tornem rabo dos governos dos países burgueses e trabalhem pelos interesses de sua burguesia nacional, apoiando um ou outro bloco de países burgueses. Nossa tarefa firme é ajudar os trabalhadores de todo o mundo a perceberem que as guerras imperialistas não levam à emancipação do trabalho, ao contrário, o escravizam ainda mais. Assim como no conflito imperialista, o trabalhador não tem aliados nos círculos dominantes, mas apenas inimigos; que seus amigos são apenas os próprios proletários, qualquer que seja sua nacionalidade. O dever dos comunistas é alcançar o fim do capitalismo como tal, tanto a nível nacional quanto internacional: o fim do capitalismo significa o fim das guerras. Por esta nobre causa, comunistas de todo o mundo, unam-se aos seus proletários!" 

Fonte: https://inter.kke.gr/es/articles/Sobre-el-debate-ideologico-politico-en-el-22o-Encuentro-Internacional-de-Partidos-Comunistas-y-el-truco-de-la-postura-antirrusa-y-prorrusa/

Publicado no jornal “Rizospastis” - Órgão do CC do KKE, 26-27/11/22

Edição: Página 1917

segunda-feira, 28 de novembro de 2022

Saudações aos Trabalhadores Franceses no 20º Aniversário da Comuna de Paris

Friedrich Engels*

17 de março de 1891

 


Hoje fazem vinte anos que a Paris trabalhadora se levantou como um só homem contra o ataque criminoso da burguesia e dos ruralistas, liderados por Thiers. Esses inimigos do proletariado tremeram quando viram os trabalhadores de Paris armados e organizados para defender seus direitos. Thiers pensou privá-los das armas que eles haviam gloriosamente usado contra a invasão estrangeira e que eles usariam de forma ainda mais gloriosa contra os ataques dos mercenários de Versalhes. Para esmagar a Paris em revolta, os ruralistas e a burguesia imploraram e obtiveram a assistência da Prússia. Depois de uma luta heroica, Paris foi esmagada pelo peso dos números e desarmada.

Por vinte anos, os trabalhadores de Paris têm estado sem armas, e tem sido assim em toda a parte: em todos os grandes países civilizados o proletariado está privado dos meios materiais de defesa. Em toda a parte, são os adversários e exploradores da classe trabalhadora que têm forças armadas sobre seu controle exclusivo.

Qual o resultado de tudo isso?

Isso significa que hoje, quando todo o homem saudável serve ao exército, esse exército reflete crescentemente o sentimento e as ideias populares, e esse exército, o grande meio de repressão, está se tornando menos seguro a cada dia; os chefes de todos os grandes estados já preveem com terror o dia quando os soldados em armas se recusarão a assassinar seus pais e irmãos. Nós vimos isso em Paris quando o Tonkinense (Jules Ferry]) teve a audácia de reivindicar a presidência da república francesa; nós vemos isso hoje em Berlim, onde o sucessor de Bismarck (Leo Von Caprivi) está pedindo ao parlamento os meios para fortalecer a obediência no exército com mercenários – porque acredita-se haver muitos socialistas entre os recrutas!

Quando tais coisas começarem a acontecer, quando o dia começar a amanhecer no exército, o fim do velho mundo estará se aproximando a olhos vistos.

Que o destino seja cumprido! Que a burguesia em sua decadência abdique ou morra, e vida longa ao Proletariado! Viva a Revolução social internacional!

* 28/11/2022, 202 anos do nascimento de Friedrich Engels (28/11/1820).

Edição: Página 1917


quarta-feira, 16 de novembro de 2022

O Golpe

Avelino Biden Capitani* 

Avelino, liderança dos marinheiros na epóca do golpe.

     [...] Ninguém estava preparado para lutar porque ninguém pensava seriamente em lutar. As forças que apoiavam o governo eram legalistas e imaginavam que as Forças Armadas também fossem. Todos acreditavam que o esquema militar montado pelo Presidente e comandado pelo General Assis Brasil garantiria a legalidade. A possibilidade de conflitos era admitida, mas acreditavam resolver tudo com negociações.

     Chegada a hora, João Goulart não quis derramar sangue, não queria lutar. Nem sequer tentou. Foi embora. Os velhos políticos também não queriam lutar. Na verdade, as classes dominantes brasileiras - inclusive os setores nacionalistas - não queriam disputar o poder entre si pela via das armas. Os sindicalistas tradicionais não mobilizaram suas categorias e convocaram uma greve geral que acabou atrapalhando mais que ajudando. Os sargentos ficaram esperando ordens que nunca chegaram e acabaram sem saber o que fazer, diluindo-se nos acontecimentos.

     Na noite do dia 1º de abril, as embaixadas já estavam cheias dos que deveriam comandar a resistência ao golpe. Entretanto, para muitas categorias de trabalhadores mais esclarecidos a luta tinha sentido. No Rio, consideráveis grupos de trabalhadores se concentraram nos bairros, esperando orientações de suas lideranças que nunca chegaram. Outros, embora a greve tivesse paralisado todo o transporte, foram à Cinelândia e enfrentaram espontaneamente os golpistas a pedradas.

     Para os marinheiros, a luta tinha sentido. Filhos de camponeses pobres ou sem terra e de operários desprovidos, queriam uma vida melhor para a família e para o Brasil. Além das soluções dos problemas internos da Marinha - fazer uma carreira com mais dignidade e justiça - queriam ver realizadass as prometidas reformas de base. Os marinheiros nunca pensaram que sozinhos poderiam responder ao golpe. Tínhamos o compromisso de neutralizar a Marinha mas nenhuma pretensão de comandar as forças populares. Também ficamos esperando ordens, quer seja do Ministro, do Presidente, ou do comando político da resistência. Estas ordens nunca chegaram. [...]



*Avelino Biden Capitani (18/08/1940 - 17/09/2022), teve uma longa trajetória de lutas contra a ditadura empresarial-militar instaurada com o golpe de 1964. Iniciou sua militância em 1962 na Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil (AMFNB) recém-fundada e no ano seguinte foi eleito para sua diretoria. Após o golpe participou da guerrilha de Caparaó e militou em divesas organizações, entre elas, MNR, PCBR, MR8 e PCB. Nos anos oitenta se filia ao PT, foi diretor do Departamento de Fiscalização da Secretaria Municipal de Indústria e Comércio (SMIC) na gestão do ex-prefeito Olívio Dutra (PT).

Fonte: Avelino Capitani, A Rebelião dos Marinheiros, p.69-70, Artes. e Ofícios Editora, 1ª edição, 1997.

Edição: Página 1917


      

segunda-feira, 7 de novembro de 2022

Sobre a Nossa Revolução

A Propósito das Notas de N. Sukhánov (01)

Lenin

16 e 17 de Janeiro de 1923




Folheei nestes dias as notas de Sukhánov sobre a revolução. O que salta sobretudo à vista é o pedantismo de todos os nossos democratas pequeno-burgueses, bem como de todos os heróis da II Internacional. Sem falar já de que são extraordinariamente covardes e de que mesmo os melhores deles se enchem de reservas quando se trata do menor desvio relativamente ao modelo alemão, sem falar já desta qualidade de todos os democratas pequeno-burgueses, suficientemente manifestada durante toda a revolução, salta à vista a sua servil imitação do passado.

Todos eles se dizem marxistas, mas entendem o marxismo duma maneira extremamente pedante. Não compreenderam de modo nenhum aquilo que é decisivo no marxismo: precisamente a sua dialética revolucionária. Não compreenderam em absoluto nem mesmo as indicações diretas de Marx, dizendo que nos momentos de revolução é necessária a máxima flexibilidade (02), e nem sequer notaram, por exemplo, as indicações de Marx na sua correspondência, referente, se bem me recordo, a 1856, na qual expressava a esperança de que a guerra camponesa na Alemanha, capaz de criar uma situação revolucionária, se unisse ao movimento operário (03) — eludem mesmo esta indicação direta, dando voltas no entorno dela como o gato em volta do leite quente.

Em toda a sua conduta revelam-se uns reformistas covardes que temem afastar-se da burguesia e, mais ainda, romper com ela, e ao mesmo tempo ocultam a sua covardia com a fraseologia e a jactância mais descarada. Mas, mesmo do ponto de vista puramente teórico, salta à vista em todos eles a sua plena incapacidade de compreender a seguinte ideia do marxismo: viram até agora um caminho determinado de desenvolvimento do capitalismo e da democracia burguesa na Europa Ocidental. E eis que eles não são capazes de imaginar que este caminho só pode ser considerado como modelo mutatis mutandis(*), só com algumas correções (absolutamente insignificantes, do ponto de vista do curso geral da história universal).

Primeiro — uma revolução ligada à primeira guerra imperialista mundial. Numa tal revolução deviam manifestar-se traços novos ou modificados. Precisamente em consequência da guerra, porque nunca houve no mundo tal guerra em tal situação. Vemos que até agora a burguesia dos países mais ricos não pode organizar relações burguesas «normais» depois dessa guerra, enquanto os nossos reformistas, pequenos burgueses que se armam em revolucionários, consideravam e consideram como um limite (além disso insuperável) as relações burguesas normais, compreendendo esta "norma" duma maneira extremamente estereotipada e estreita.

Segundo — é-lhes completamente alheia qualquer ideia de que dentro das leis gerais do desenvolvimento em toda a história mundial não estão de modo nenhum excluídas, mas, pelo contrário, pressupõem-se determinadas etapas de desenvolvimento que apresentam peculiaridades, quer na forma quer na ordem desse desenvolvimento. Nem sequer lhes passa pela cabeça, por exemplo, que a Rússia, situada na fronteira entre os países civilizados e os países que pela primeira vez são arrastados definitivamente por esta guerra para o caminho da civilização, os países de todo o Oriente, os países não europeus, que a Rússia podia e devia, por isso, revelar certas peculiaridades, que naturalmente estão na linha geral do desenvolvimento mundial, mas que distinguem a sua revolução de todas as revoluções anteriores dos países da Europa Ocidental e que introduzem algumas inovações parciais ao deslocar-se para os países orientais.

Por exemplo, não pode ser mais estereotipada a argumentação por eles usada, que aprenderam de memória na época do desenvolvimento da social-democracia da Europa Ocidental, e que consiste no fato de que nós não estamos maduros para o socialismo, de que não existem no nosso país, segundo a expressão de vários "doutos" senhores dentre eles, as premissas econômicas objetivas para o socialismo. E não passa pela cabeça de nenhum deles perguntar: não podia um povo que se encontrou numa situação revolucionária como a que se criou durante a primeira guerra imperialista, não podia ele, sob a influência da sua situação sem saída, lançar-se numa luta que lhe abrisse pelo menos algumas possibilidades de conquistar para si condições que não são de todo habituais para o crescimento ulterior da civilização?

"A Rússia não atingiu um nível de desenvolvimento das forças produtivas que torne possível o socialismo." Todos os heróis da II Internacional, e entre eles, naturalmente, Sukhánov, se comportam como se tivessem descoberto a pólvora. Ruminam esta tese indiscutível de mil maneiras e parece-lhes que é decisiva para apreciar a nossa revolução.

Mas que fazer, se uma situação peculiar levou a Rússia, primeiro à guerra imperialista mundial, na qual intervieram todos os países mais ou menos influentes da Europa Ocidental, e colocou o seu desenvolvimento no limite das revoluções do Oriente, que estão a começar e em parte já começaram, em condições que nos permitiram levar à prática precisamente essa aliança da «guerra camponesa» com o movimento operário sobre as quais escreveu um "marxista" como Marx em 1856 como uma das perspectivas possíveis em relação à Prússia?

Que fazer se uma situação absolutamente sem saída, decuplicando as forças dos operários e camponeses, abria perante nós a possibilidade de passar de maneira diferente de todos os outros países da Europa Ocidental criação das premissas fundamentais da civilização? Alterou-se por isso a linha geral de desenvolvimento da história universal? Alteraram-se por isso as correlações fundamentais das classes fundamentais em cada país que se integra e integrou já no curso geral da história mundial?

Se para criar o socialismo é necessário um determinado nível de cultura (ainda que ninguém possa dizer qual é precisamente esse determinado "nível de cultura", pois ele é diferente em cada um dos Estados da Europa Ocidental), porque é que não podemos começar primeiro pela conquista, por via revolucionária, das premissas para esse determinado nível, e já depois, com base no poder operário e camponês e no regime soviético, pôr-nos em marcha para alcançar os outros povos?

II

Para criar o socialismo, dizeis, é necessária civilização. Muito bem. Mas então, porque não havíamos de criar primeiro no nosso país premissas da civilização como a expulsão dos latifundiários e a expulsão dos capitalistas russos e, depois, iniciar um movimento para o socialismo? Em que livros lestes que semelhantes alterações da ordem histórica habitual são inadmissíveis ou impossíveis? 

Lembro que Napoleão escreveu: "On s'engage et puis . . . on voit." Traduzido livremente para russo isto quer dizer: ."Primeiro lançamo-nos no combate sério e depois logo vemos." E nós, em outubro de 1917, iniciamos primeiro o combate sério e depois logo vimos os pormenores do desenvolvimento (do ponto de vista da história universal trata-se indubitavelmente de pormenores), tais como a Paz de Brest ou a NEP, etc. E hoje não há dúvida de que, no fundamental, alcançámos a vitória. 

Os nossos Sukhánov, sem falar já daqueles sociais-democratas que estão mais à direita, nem sonham sequer que as revoluções em geral não se podem fazer doutra maneira. Os nossos filisteus europeus não sonham sequer que as futuras revoluções nos países do Oriente, com uma população incomparavelmente mais numerosa e que se diferenciam muito mais pela diversidade das condições sociais, apresentarão sem dúvida mais peculiaridades do que a revolução russa. 

Nem é preciso dizer que o manual redigido segundo Kautsky foi, na sua época, uma coisa muito útil. Mas já é tempo de renunciar à ideia de que esse manual tinha previsto todas as formas de desenvolvimento ulterior da história mundial. Àqueles que pensam desse modo é tempo já de os declarar simplesmente imbecis.

Notas: 

(*) "mudando o que deve ser mudado". 

(01) O artigo de Lenin Sobre a Nossa Revolução foi escrito a propósito do terceiro e do quarto livros de Notas Sobre a Revolução, do menchevique N. Sukhánov. O artigo foi entregue à redacção do Pravda por N. K. Krúpskaia sem título; o título foi dado pela redação do jornal. 

(02) Lenin refere-se aparentemente à caracterização da Comuna de Paris como "uma forma política altamente maleável" na obra de K. Marx A Guerra Civil em França e à apreciação feita por Marx da "flexibilidade dos parisienses" na sua carta a L. Kugelmann de 12 de Abril. In Karl Marx und Friedrich Engels, Ausgewãhlte Scbriften in zwei Bänden, Bd. I, Berlin, 1960, S. 494, e Bd. II, Berlin, 1960, S. 435/436.

(03) Lenin refere-se à seguinte passagem da carta de K. Marx a F. Engels de 16 de Abril de 1856: "Tudo na Alemanha dependerá da possibilidade de apoiar a revolução proletária por qualquer segunda edição da guerra camponesa. Nesse caso, tudo correrá maravilhosamente." In Karl Marx und Friedrich Engels, Ausgewãhlte Scbriften in zwei Bänden, Bd. II, Berlin, 1960, S. 425/426.

Edição: Página 1917

Fonte: Obras Escolhidas, 1977, Edições Avante! - Lisboa, Edições Progresso - Moscou.

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