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quarta-feira, 17 de março de 2021

A GUERRA ESQUECIDA QUE PODE INCENDIAR O MUNDO

 Humberto Carvalho


Crédito: Giampaolo Rossi

Em abril deste terrível ano de 2021, completam-se sete anos de guerra entre a Ucrânia e as Repúblicas Populares de Donestk e Lugansk, da região de Donbass. 

Donbass é uma região rica em energia, situada ao leste da Ucrânia, na fronteira  sul da Rússia.

Devido a esses longos sete anos de duração, e por estar localizada em uma região afastada do “brilho ocidental” e, ainda, porque a Ucrânia é dominada pela extrema-direita corrupta e sanguinária cuja manutenção no poder (não só na Ucrânia) interessa ao império norte-americano, o Mundo parece ter esquecido essa tragédia que vive o povo de Donbass.

O motivo da guerra foi a separação dos oblasti (significa regiões, em russo, equivalentes aos nossos estados-membros) de Donestk e Lugansk que proclamaram sua independência da Ucrânia, denominando-se repúblicas populares e se uniram numa confederação, a Konfederatyvnaya respublika Novorosiya (República Confederativa da Novarússia) ou Soyúz Naródnij Respúblik (União das Repúblicas Populares).

A independência de Donbass, em grande medida incentivada pelas células locais do Partido Comunista e do Partido Socialista Progressista, ambos da Ucrânia, surgiu como uma reação ao golpe oligárquico e neonazista ocorrido em Kiev. Essa reação derrotou, ainda, o Partido da Região que apoiava o golpe de estado perpetrado em Kiev.

domingo, 14 de março de 2021

Contra a "Catequização" do Marxismo

Carlos Aquino G.*

07/2020

    Não é novidade que na prática política haja quem constantemente esteja        "refletindo por caminhos sinuosos" ou "pensando fora da caixa" - como dizia Marcos Mundstock a Daniel Rabinovich no genial "biólogo" de Les Luthiers sobre Terpsícore e o merengue -.

Como diz o velho ditado: "A ignorância é atrevida."



   Seguramente uma das explicações poderia ser encontrada no chamado efeito Dunning-Kruger, que levanta o caso da superestimação sobre si mesmas que possuem pessoas não qualificadas ou com conhecimento limitado em certas áreas, que tendem a ter pontos de vista desequilibrados e demasiado favoráveis ​​de suas habilidades, por isso eles “sofrem um duplo fardo: não só eles chegam a conclusões erradas e tomam decisões infelizes, mas sua incompetência os priva da capacidade de se dar conta disso.” [1]

   Dessa forma, embora alguns não tenham problemas em assumi-lo e aplicá-lo como tal, é fundamental insistir que o marxismo-leninismo não é um catecismo, não tem orações, ritos litúrgicos, pecados mortais, verdades imutáveis, nem seres imaculados. É uma superficialidade - compreensível em alguns casos, mas sempre imperdoável - para alguém que se diz comunista, simplesmente decorar frases para repeti-las mecanicamente, como se estivessem recitando versos do Alcorão ou da Bíblia.

   Há poucos meses, no breve escrito “Corrigir e fortalecer com avaliação autocrítica”, ressaltava que “O nosso ‘perfil próprio’ se demonstra na prática, não na quantidade de camisetas que temos do Che, nas frases de Lenine que nós aprendemos, nem quanto nos proclamamos marxistas-leninistas”.

   É muito grave conceber dogmaticamente [2] processos sociais e seus personagens destacados, ou as organizações políticas e seus dirigentes. Daí o pouco peso, valor e significado que têm os ataques espúrios que se fazem com citações pinçadas e descontextualizadas.

terça-feira, 9 de março de 2021

Por um Feminismo Revolucionário

Cecilia Zamudio

   No dia 8 de março se comemora a mulher trabalhadora revolucionária. A comunista Clara Zetkin propôs a comemoração na conferência de mulheres socialistas de 1910, para homenagear a luta das mulheres contra a exploração capitalista. É lembrado o assassinato, pelas mãos do grande Capital, de 129 operárias em greve, queimadas vivas em uma fábrica têxtil nos EUA: os donos da fábrica fecharam as portas com elas dentro e atearam fogo para fazê-las queimar (como medida de "dissuasão" para evitar que outras trabalhadoras seguissem seu exemplo de luta). Se comemora a luta pela justiça social, pelos direitos da classe trabalhadora, a luta contra o patriarcado e o capitalismo, cujos mecanismos estão perfeitamente articulados entre si. 


Mulheres operárias: mão-de-obra barata na indústria têxtil.
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  O 8 de março também foi marcado como uma data eminentemente revolucionária pelos acontecimentos de 8 de março de 1917 na Rússia czarista: milhares de mulheres foram às ruas clamando por seus direitos, contra a exploração e as guerras que a burguesia impunha ao povo: elas detonaram a Revolução de Outubro. Após a Revolução de Outubro, as mulheres conquistaram seus direitos econômicos, sociais, sexuais e reprodutivos: o direito de votar para todas as mulheres (não apenas para as proprietárias como na Grã-Bretanha), direito ao divórcio, direito ao aborto, plenos direitos de estudar e garantia de trabalho, moradia, saúde e educação, etc. Todos esses direitos ainda não estão garantidos na grande maioria dos países capitalistas. 

   Nós, mulheres, somos a parte mais atacada da classe explorada. Somos vítimas das guerras imperialistas, da pilhagem capitalista que empobrece regiões e países inteiros, das privatizações e da precariedade, e também somos vítimas do machismo incessantemente promovido pela mídia e por toda a indústria cultural do capitalismo. Porque o capitalismo se sustenta fragmentando e dividindo a classe explorada: é por isso que a indústria cultural do capitalismo difunde incessantemente paradigmas de discriminação como o machismo e o racismo. 

   Somos as trabalhadoras exploradas, estudantes, artistas, desempregadas e aposentadas que estão sendo privadas de uma vida digna, às vezes até de alimentação, moradia, acesso à saúde, acesso à educação, etc. Estamos privados de condições de trabalho e de remuneração dignas pelos capitalistas que tiram a mais-valia do nosso trabalho. Somos as mães cujo trabalho em casa não é reconhecido, aquelas que ficam na precariedade absoluta, sem pensão. Somos mulheres migrantes levadas a sofrer as piores explorações: em máquinas terríveis, borrifadas com veneno na agroindústria, condenadas à exploração da prostituição ou a serem coisificadas e saqueadas como "barrigas de aluguel". Nós somos as meninas estupradas e forçadas a dar à luz. Somos designados por este sistema como alvo das frustrações aberrantes que este sistema provoca, da misoginia que fomenta. Por isso galopa o feminicídio: porque a mídia banaliza a tortura e toda discriminação alienante funcional ao capitalismo, porque a violência exercida de forma estrutural arrasta seu ódio contra nós. Somos vítimas do capitalismo e de sua barbárie, vítimas do machismo que o próprio capital promove; mas também somos mulheres lutadoras e revolucionárias. 

segunda-feira, 8 de março de 2021

Lições de 1917: Greve Geral no Brasil e a Luta das Mulheres*

   Nos momentos de acirramento de crise econômica, as mulheres são uma das primeiras a sentirem o chicote contrarrevolucionário. Estão mais expostas às demissões ou mesmo são preteridas na contratação por conta dos direitos ligados ao sexo. O caso se agrava ainda mais no caso da mulher negra, como demonstramos em nossa “Plataforma Política de luta Pela Emancipação da mulher trabalhadora – Parte 1”: “A mulher negra no Brasil tem sua trajetória social marcada pela escravidão. Além dos trabalhos forçados, dos castigos, dos abusos sexuais por parte dos senhores e das humilhações, ainda estavam submetidas à ‘sinhá’ nas casas grandes” (Revista América Socialista, n°8, p.44)

Manifestação das operárias na Greve Geral de 1917 em SP.


   Não é de se estranhar que a primeira Greve Geral do Brasil, que iniciou em junho de 1917 e durou por 30 dias, tenha tido em sua dianteira as mulheres. O Movimento começou com a maioria feminina entre os 400 operários da fábrica têxtil Cotonifício Crespi e se espalhou rapidamente por outras fábricas de São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre. Neste período o operariado feminino já ultrapassava os 50% do total, chegando em 1920 a 60% entre mulheres e meninas. Os grevistas de 1917 reivindicavam incialmente por aumento do salário, pela redução da jornada de trabalho para 8h e semana inglesa, aumento de 35% nos salários inferiores a $5000 e de 25% para os mais elevados, fim do trabalho para menores de 14 anos, abolição do trabalho noturno para mulheres, entre outras exigências parciais. À medida que a greve avançava as lutas parciais, ligadas ao aspecto econômico, puderam tomar uma tonalidade mais propriamente política, agregando a luta pela libertação dos presos durante o movimento, direito de associação para os trabalhadores e que nenhum operário fosse despedido por ter participado da greve.

   Um motivo específico dessa insurreição e que nos salta aos olhos é a permanência do assédio sexual outrora exercido sistematicamente sobre a mulher escrava. Nas indústrias, os malfeitores são os que ocupam os cargos de chefia e as vítimas não mais se restringem à cor da pele e sim à classe social que ocupam. Como se já não bastasse a carga opressiva da tripla jornada de trabalho sobre a mulher, que historicamente agregou os papéis de mãe e única responsável pelos trabalhos domésticos.

   No entanto, é preciso dizer que no caso de 1917 essa pressão exercida sobre as mulheres brasileiras não se dava por conta de uma crise econômica da indústria que as lançasse no desemprego e sim pelo contrário. Com a destruição das forças produtivas durante a Primeira Guerra, os produtos brasileiros ganharam um espaço significativo no mercado internacional. Isso exigiu um aumento na produção que não foi acompanhado do aumento do salário. O aparente progresso gerado pelo crescimento da indústria não se convertia na melhoria das condições de vida dos proletários, pois, desde 1914, isto é, desde o início da Primeira Guerra Mundial, o poder aquisitivo dos trabalhadores havia diminuído e a inflação aumentado.

   A precariedade dos meios de produção da indústria nacional exigia um acirramento da exploração do trabalho. As jornadas de trabalho chegavam a se estender por 16 horas diárias sem ter necessariamente um aumento salarial, pois ainda não se havia consolidado a legislação trabalhista, que apenas será conquistada 26 anos mais tarde. Além disso, a baixa produtividade impedia que se acumulasse um excedente para estoque. Este último fator foi fundamental para o sucesso parcial da Greve Geral, pois, ao parar a produção, a classe operária causava um prejuízo real ao patrão, já que não conseguia sequer suprir o mercado mais imediato. No entanto, por ainda não haver leis trabalhistas ou uma organização sindical que assegurasse o cumprimento das exigências feitas pelos grevistas, a maior parte das reivindicações foi sufocada pela repressão; apenas o aumento salarial e a redução da jornada de trabalho foram mantidos em alguns casos.

   A vitória e a derrota parcial do movimento, vista pelo viés marxista, demonstram a necessidade de construção de um Partido Revolucionário que possa agir dentro de sindicatos independentes para levar a espontaneidade do movimento em direção à sua organização consciente. Somente assim as conquista podem se tornar duradouras diante da reação da burguesia e de seu estado opressor.

   Outra lição que deve ser retirada da Greve Geral de 1917 diz respeito à importância da organização das mulheres trabalhadoras lado a lado com os trabalhadores, pois, somente assim, a classe trabalhadora cumprirá seu destino histórico: a revolução e a conquista do poder!

*Comissão de Mulheres da Esquerda Marxista -11/05/2017.

Fonte: https://www.marxismo.org.br/licoes-de-1917-greve-geral-no-brasil-e-a-luta-das-mulheres/

Edição: Página 1917.

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