Entrevista concedida por Ivan Pinheiro (membro do Comitê Central do Partido Comunista Brasileiro – PCB ) para o Portal PCB/SC¹, na qual ele analisa o cenário político internacional, o governo Bolsonaro e aponta os desafios colocados para a classe trabalhadora na construção de uma alternativa revolucionária.
Segundo Ivan: “Para reverter essa correlação de forças desfavorável e avançar na luta é necessário combater as ilusões em soluções institucionais, jogar toda a energia militante na conscientização, organização e mobilização dos trabalhadores e das camadas populares e promover, no campo da esquerda socialista, um urgente debate com o objetivo de unificar e politizar a luta comum. “
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| Ivan Pinheiro |
PCB/SC: Vamos começar falando sobre a conjuntura mundial. Como você tem observado o conflito entre os Estados Unidos e a China? Há uma nova configuração do imperialismo no atual momento histórico?
Ivan: O conflito entre os Estados Unidos e a China, na atualidade em forma de acirradas disputas geopolíticas e econômicas, é a expressão maior do agravamento das contradições interimperialistas com o fim do mundo unipolar que, a partir da contrarrevolução na União Soviética (1991) garantira aos Estados Unidos uma hegemonia absoluta em todos os aspectos, por cerca de duas décadas.
O fator mais perigoso desta acirrada disputa multipolar, em que, a grosso modo, polarizam Estados Unidos/União Europeia e China/Rússia, é a volta da corrida armamentista, que pode levar a conflitos militares de enormes proporções. Grandes guerras sempre foram inevitáveis em todos os momentos da história marcados por mudanças na hegemonia mundial, como este em que vivemos na atualidade, ainda mais dramatizado pela crise sistêmica do capitalismo.
Esse quadro nos coloca novamente diante da questão da paz e da guerra. Para os revolucionários, volta à ordem do dia a luta contra as guerras imperialistas, pela paz entre os povos, não entre as classes.
A crise mundial do capitalismo acirra as disputas entre os grandes monopólios por matérias primas, tecnologia, mercados, rotas e territórios e, entre os principais países e blocos imperialistas, por hegemonia nos campos econômico, político, cultural e militar.
Sem pretender aqui alimentar qualquer ilusão de que essa multipolaridade torne a ONU “democrática” e “progressista” e muito menos que favoreça as revoluções socialistas, considero que seu aspecto positivo é que o imperialismo estadunidense já não pode mais tomar atitudes unilaterais, como ocorreu em suas covardes agressões ao Afeganistão, ao Iraque, à Líbia, em aliança com potências europeias (OTAN), sempre precedidas de mentiras e manipulações para satanizar os governos locais e tendo como objetivos a venda de mais armas, a ocupação de territórios estratégicos, o saque das riquezas naturais dos povos.
Na sua última aventura militar, os EUA já não puderam mais se valer do até então silêncio cúmplice e conciliador da Rússia e da China, no Conselho de Segurança da ONU. A Síria deve sua sobrevivência como país à mudança de atitude dessas duas potências, cujos interesses geopolíticos estavam sendo ameaçados, sobretudo no Oriente Médio.
Tendo sofrido na Síria uma grande derrota política e militar, o imperialismo estadunidense volta agora as armas de suas guerras híbridas contra países que não abrem mão de sua soberania e dispõem de imensas reservas de petróleo, como o Irã e a Venezuela.
É inegável que a ação da Rússia e da China, cada qual à sua maneira, tem sido fundamental para confrontar e, em alguns casos, conter o ímpeto do imperialismo estadunidense, como foi o caso de sua postura de recuo frente à Coreia do Norte. Devemos saudar este fato, mas sem ilusões, pois o motor desta ação são os interesses econômicos e geopolíticos destas duas grandes potências, também imperialistas, e não o exercício do internacionalismo proletário! Nesse contexto, cabe aos comunistas saber aproveitar as contradições interimperialistas para avançar o processo revolucionário em cada país.