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quarta-feira, 4 de outubro de 2023

70 anos da Petrobras e Soberania Nacional

Exportação de 45% do petróleo é uma política colonial

Entrevista com Felipe Coutinho, vice-presidente da Associação de Engenheiros da Petrobras (Aepet) concedida ao jornal A Nova Democracia



No dia em que a Petrobras completa 70 anos de existência, a soberania energética do País segue ameaçada por políticas de tipo colonial: em toda a sua história, nunca houve um momento em que a empresa distribuiu tantos dividendos (lucros) a seus acionistas. Esta é uma das conclusões de Felipe Coutinho, vice-presidente da Associação de Engenheiros da Petrobras (Aepet), a quem o AND entrevistou nas últimas semanas para tratar de como o governo de Luiz Inácio prossegue com a política de preços paritários internacionais (PPI) do petróleo causando o aumento dos combustíveis.

Ao longo da entrevista, Coutinho declarou como o governo Lula segue conduzindo o País na rota colonial, na mesma esteira de Michel Temer e Jair Bolsonaro – conforme está apontado em seu artigo mais recente . Isto é evidenciado na política seguida desde a direção da Petrobras, que segue sendo a mesma: manter os preços dos combustíveis comercializados no País análogos aos praticados no estrangeiro. O vice-presidente da Aepet aponta que este é o caminho da subjugação nacional, evidenciado através do domínio dos setores estratégicos, especialmente da energia.

O governo brasileiro, através da direção da Petrobras dos últimos anos, tem implementado uma série de políticas que conformam aquilo que Coutinho chama de “um novo ciclo colonial” com a exportação bruta de 1,5 milhão de barris por dia de petróleo cru, representando 45% da produção nacional indo diretamente para as multinacionais estrangeiras – 34% para a Rússia e 31% para os Estados Unidos (EUA).

No dia 16 de agosto, o presidente da Petrobras (Jean Paul Prates) compareceu ao Senado para prestar esclarecimentos aos parlamentares – e reafirmar o seu compromisso com a continuidade desta política vende-pátria. Ele afirmou que o reajuste de agosto, na verdade, reflete o comprometimento de sua gestão com a política de preços: “Qual era o teste que se propunha? ‘Quero ver na hora que subir o preço lá fora, se [a Petrobras] fizer o ajuste’. Fizemos. Portanto, a política passou no teste e vamos fazer [reajuste] quando for necessário”.

Por sua vez, os países imperialistas seguem comprando petróleo bruto a preço da banana, em um contexto de acirramento das contradições entre si no mesmo momento em que se desenvolve uma grave e profunda crise econômica de todo o sistema imperialista. No meio de setembro, os estoques dos EUA ficaram 3% abaixo da média de cinco anos para esta época do ano. A Rússia e a Arábia Saudita, duas maiores potências no setor de combustíveis, vão manter a redução na produção – no intento de favorecer a sua própria produção.

Confira abaixo a íntegra da entrevista com Felipe Coutinho, vice-presidente da Aepet.

A Nova Democracia (AND): Estamos caminhando para ter uma segurança energética, ou não? Temos hoje a segurança que teremos soberania no atual contexto internacional?

Felipe Coutinho (FC): O que a gente observa é que o Brasil não trata o petróleo e o gás natural como recurso estratégico, fundamental para o desenvolvimento. Temos tratado o petróleo como uma mercadoria para exportação. Para a pior exportação, por multinacionais, empresas estrangeiras. Estamos num novo ciclo colonial exportador, ciclo colonial. São exportados 1,5 milhão de bairros por dia, 45% da produção nacional, que é exportado no estado cru. Mais de 60% da exportação é feita por petrolíferas estrangeiras. Com esse modelo exploratório não é possível trazer desenvolvimento para o Brasil. Vai ser, se continuar, igual aos ciclos coloniais que o Brasil já viveu. Alguns poucos se beneficiam deste ciclo quando ele está num período crescente. Depois, os recursos estão esgotados e entram numa fase decadente em que a maior parte da sociedade (que não teve ganhos marginais no período próspero) vai assumir as consequências do desastre econômico na fase decadente. Esse é um ciclo colonial.

AND: Como você avalia o momento atual do País na área energética dos combustíveis?

FC: Com relação ao petróleo, o que poderia trazer desenvolvimento é usar o petróleo brasileiro para nosso benefício, usar o petróleo no Brasil. Defendemos que deveria ser proibida a exportação de petróleo cru, ou limitada severamente essa exportação. Deveria ser tributado pesadamente para exportar de forma a incentivar a agregar valor ao petróleo no Brasil.

Existe relação entre o consumo de energia per capita com o desenvolvimento humano. Consumo de energia com crescimento. E nosso consumo de energia é muito baixo. Então isso não permite que o Brasil se desenvolva a ponto de ter um padrão de desenvolvimento, um padrão dos EUA, Canadá, Europa, Austrália, Japão, etc.

Em relação ao pré-sal, se você comparar as estimativas para o pré-sal com as descobertas recentes, você vai avaliar que é relevante, de fato muito grande. Mas, se você comparar os volumes que foram descobertos não com as descobertas recentes, mas com as necessidades não atendidas do Brasil, você perceberá que não é tão grande assim. É uma irresponsabilidade permitir a exportação de petróleo do Brasil enquanto consumimos tão pouco. Então o governo brasileiro, essa classe dominante, tem sido irresponsável na exploração dos nossos recursos primários, especialmente petróleo e energia. O Brasil não vai se desenvolver exportando petróleo cru, muito menos para multinacionais estrangeiras, e esse caminho é um caminho para o fracasso.

terça-feira, 3 de outubro de 2023

O governo alemão finge não ver as organizações nazifascistas na Ucrânia

Sevim Dagdelen*

30/09/2023



O grupo parlamentar do Die Linke (A Esquerda) e o seu porta-voz na Comissão dos Negócios Estrangeiros do Parlamento Federal Alemão, Sevim Dagdelen, apresentaram há poucos dias uma série de questões no âmbito do procedimento de controle parlamentar ao governo federal em relação as "Manifestações de extrema direita na história política ucraniana." Reproduzimos a intervenção do Die Linke, a nota preliminar do governo federal e uma seleção das perguntas feitas pelo Die Linke ao governo alemão. 

 

Intervenção de Die Linke antes das perguntas:  

Segundo o conhecimento dos autores das perguntas, as forças de extrema direita têm uma influência considerável na política ucraniana. Os representantes de organizações de extrema direita ocupam um lugar de destaque em numerosas instituições estatais, da sociedade civil e militares. Isto aplica-se, por exemplo, ao Regimento Azov, de extrema direita, mas também a outras formações militares. A história política não oficial também é caracterizada pela reabilitação de membros da Organização dos Nacionalistas Ucranianos (OUN) e do Exército Insurgente Ucraniano (UPA), que desempenharam um papel importante na colaboração com os ocupantes nazistas durante a Segunda Guerra Mundial e no assassinato de judeus, poloneses e ciganos. Na opinião dos autores das questões, Estas tendências devem ser enfrentadas de forma decisiva. Também tendo em conta a guerra de agressão russa contra a Ucrânia, não pode haver tolerância para com o extremismo de direita e, claro, não deve haver entrega de armas a extremistas de direita.

Há vários anos que a história política na Ucrânia tem sido caracterizada por uma continuação de movimentos nacionalistas, especialmente no período entre guerras. Em primeiro plano estão a Organização dos Nacionalistas Ucranianos (OUN) e o Exército Insurgente Ucraniano (UPA). O Instituto Ucraniano de Memória Nacional (UINP) promove estas organizações e os seus membros a vários níveis, nas escolas, em materiais educativos e em produções de exposições públicas, com uma visão favorável, por exemplo, ao colocar explicitamente o chamado "Dia dos Heróis " na tradição da OUN (uinp.gov.ua/pres-centr/novyny/v-ukrayini-vidznachayetsya-den-geroyiv). Em 2022, o Instituto publicou em seu site propostas de organizações e pessoas “em cuja homenagem” podem ser feitas alterações de nomes de ruas, Estes incluem, por exemplo, "Andrij Melnyk" (líder da facção minoritária OUN), "Wasil Galasa" (coronel da UPA) e "Heróis da UPA". A UNIP é uma instituição governamental que, segundo as suas próprias declarações, é “um órgão executivo central, cujas atividades são dirigidas e coordenadas pelo Gabinete de Ministros da Ucrânia através do Ministro da Cultura e Política de Informação” (http://uinp.gov.ua/pro-instytut/pravovi-zasady-diyalnosti ).

De fato, inúmeras ruas, bem como instituições públicas, já têm o nome destes membros, por exemplo a "Avenida Stepan Bandera" em Kiev e o "Estádio Roman Shukhevich" em Ternopil, cuja inauguração na primavera de 2021 provocou o duro protesto do embaixador. israelense ( https://www.algemeiner.com/2021/03/09/israeli-envoy-in-ukraine-slams-nam... ), mas o governo ucraniano se defendeu com a observação de que ao fazê-lo eles queriam preservar a "memória nacional" ( https://www.jpost.com/diaspora/fifa-urged-to-take-action-after-stadium-r... ).

A OUN foi um movimento fascista e autoritário, nos moldes dos fascistas alemães, croatas e italianos. “Os líderes da OUN viam a sua organização no mesmo nível dos movimentos fascistas europeus, como os nazis, os fascistas italianos ou os Ustasha.” A ideologia da OUN era uma "mistura de ultranacionalismo, patriotismo, fascismo, anti-semitismo, racismo e espírito revolucionário-insurrecional". Suas imagens inimigas claramente definidas incluíam os ocupantes (Polônia e Rússia, ou seja, a União Soviética) e as populações polonesa, russa e judaica que viviam nos 'territórios ucranianos'." Seus membros participaram ativamente de pogroms antijudaicos e do Holocausto durante o período alemão ocupação ( https://www.static.tu.berlin/fileadmin/www/10002032/Jahrbuecher/Jahrbuch_2013.

Os Serviços Científicos [do Parlamento federal] resumem que é geralmente indiscutível “que os membros da OUN e da UPA colaboraram com os ocupantes alemães e contribuíram para o extermínio dos judeus e o assassinato de polacos e ciganos”. Entre outras coisas, a documentação aponta para o assassinato de 50.000 a 60.000 polacos, mas também para campanhas generalizadas de assassinatos anti-semitas. (WD 1-3000-022/22, 19/07/2022)

Estes mesmos membros são cada vez mais apresentados na Ucrânia como supostos combatentes da liberdade, modelos e heróis. Mesmo nos materiais educativos da UINP, por exemplo, as atividades da UPA estão situadas na tradição do “movimento de libertação ucraniano”. Entre outras coisas, a UINP quer homenagear os ucranianos que morreram no exterior com o projeto de uma "Necrópole Virtual" ( http://necropolis.uinp.gov.ua/ua/burial?id=2301545343856149739). Segundo o historiador sueco Per Rudling, entre eles está não apenas Bandera, mas também comandantes de batalhão da Schutzmannschaft que assassinaram a serviço dos ocupantes nazistas. Ephraim Zuroff, do Centro Simon Wiesenthal em Jerusalém, fala sobre glorificar pessoas que não deveriam receber tal honra "porque assassinaram pessoas, especialmente judeus" ( https://www.jpost.com/diaspora/antisemitism/nazi-collaborators- Included- ... ).

O quão difundido é o esforço do governo ucraniano para honrar a extrema direita da OUN e da UPA também foi demonstrado pelas ações do ex-embaixador ucraniano Andrij Melnyk, que não esconde sua admiração por Bandera ( www.zdf .de/nachrichten / politik/melnyk-bandera-entrevista-botschafter-ukra... ).

Uma orientação pró-fascista também pode ser observada em partes das forças armadas ucranianas, que também se referem positivamente aos protagonistas da OUN e da UPA. Por exemplo, a Brigada Azov deu à sua escola militar o nome do fundador da OUN, Evgen Konovalez.

Na opinião dos autores das perguntas, o Governo Federal tem mostrado até agora pouco esforço para se distanciar da veneração das forças de extrema direita na Ucrânia, embora membros da OUN e da UPA também tenham participado no Holocausto.

Nota preliminar do Governo Federal:

O Governo Federal condena qualquer forma de extremismo de direita, anti-semitismo, perseguição aos ciganos ou outras formas de racismo e opõe-se veementemente e sem exceção a tais declarações ou comportamentos no seu trabalho. O Governo Federal está empenhado em homenagear as vítimas dos crimes contra a humanidade cometidos pelo regime nazista e na pesquisa científica independente e na reconstrução da história.

O Governo Federal não endossa expressamente as apreciações jurídicas e as declarações factuais contidas na observação preliminar e nas questões, em particular no que diz respeito à classificação geral de certos grupos ou pessoas (históricas) como extremistas de direita, anti-semitas, anticiganos ou racista.

O Governo Federal salienta que o direito parlamentar à informação apenas se estende a questões que se enquadram no âmbito de responsabilidade do Governo Federal perante o Bundestag e que são da competência do Governo Federal. Existe o dever de resposta quando as questões têm relação concreta com a ação governamental e o Governo Federal tem vantagem de conhecimento oficialmente justificada sobre os deputados.

Perguntas ao Governo Federal:

O Governo Federal está ciente do fato de que membros da Organização dos Nacionalistas Ucranianos (OUN) e do Exército Insurgente Ucraniano (UPA) cometeram dezenas de milhares de assassinatos de civis, especialmente polacos, judeus e ciganos, durante a Segunda Guerra Mundial? eles colaboraram com os ocupantes nazistas, pelo menos algumas vezes e em alguns casos, e se sim, que responsabilidade você acha que isso acarreta para a sua concepção da história política da Alemanha?

Está o Governo Federal ciente de que a OUN, sob a liderança de Bandera, emitiu uma "ordem de limpeza" para as suas unidades militares, que permitiu a "liquidação de ativistas polacos, moscovitas e judeus indesejáveis" e, além disso, previu a liquidação dos judeus "no menor falha" ( https://www.berliner-zeitung.de/politik-gesellschaft/ukraine-bandera-enk... ), e em caso afirmativo, até que ponto o Governo considera necessário que o Governo Federal se oponha ativamente às ações afirmativas da OUN ou dos seus protagonistas, uma vez que as aspirações anti-semitas, como lição da história alemã, não devem de forma alguma ser aceites sem resposta em qualquer lugar, e que conclusões tira disto?

 O Governo Federal tem conhecimento de que o Comandante-em-Chefe das Forças Armadas da Ucrânia, Valery Salushnyi, juntamente com outro oficial do exército, posaram no ano passado em frente a um retrato do ex-líder da OUN Stepan Bandera ( https://correctiv.org /faktencheck/2023/01/04/ja-auf-diesem-foto-steht-ei... )? Em caso afirmativo, tem conhecimento disso e que conclusões tira desta homenagem ao líder de um movimento de extrema-direita cujos membros assassinaram dezenas de milhares de civis? Já considerou que conclusões esta homenagem lhe permite tirar sobre a orientação política do exército ucraniano ou do seu comandante-em-chefe e, em caso afirmativo, quais?

Tem o Governo Federal conhecimento de que, no passado recente, foram inaugurados na Ucrânia numerosos monumentos em homenagem a membros da OUN e da UPA ou ruas com os seus nomes? Em caso afirmativo, como classifica esta homenagem às pessoas que lideraram organizações cujos membros assassinaram dezenas de milhares de civis polacos, judeus e ciganos? Pode o Governo Federal excluir a possibilidade de que a ajuda concedida por ele à Ucrânia no passado, incluindo fundos para projetos de terceiros, tenha sido utilizada para a construção ou manutenção de monumentos em homenagem à OUN, à UPA, à divisão da Waffen SS "Galitzia" ou seus respectivos parentes, ou para a correspondente mudança de nomes de ruas, e que conclusões você tira a este respeito, se houver?

Resposta do Governo Federal à questão anterior : O Governo Federal tem conhecimento dos fatos mencionados na questão. De acordo com as informações de que dispõe o Governo Federal, nenhum dos auxílios concedidos pelo Governo Federal à Ucrânia foi utilizado para os fins mencionados na pergunta. Quanto ao resto, consulte a observação preliminar .

O governo alemão está ciente de que o presidente ucraniano Volodimir Zelensky disse em 2019 que considerava isso "correto e ótimo" ( https://www.rbc.ua/rus/news/vladimir-zelenskiy-nam-vygodno-raspustit-155. . . ) que o ex-líder da OUN, Stepan Bandera, foi um herói para uma certa percentagem de ucranianos e, em caso afirmativo, que mais informações você tem sobre isso? O Governo Federal compartilha da opinião de que é “legal” considerar um herói o líder de uma organização de extrema direita, cujos membros assassinaram dezenas de milhares de civis (em caso afirmativo, indique os motivos)?

Tem o Governo Federal conhecimento de que a UINP também transmite uma visão afirmativa da OUN e da UPA nas escolas, por exemplo na forma da exposição “UPA - a resposta do povo invicto” ( http://uinp.gov.ua /pres-centr/novyny/4553 ) aí apresentada e, em caso afirmativo, que conclusões retira o Governo Federal do facto de a UINP, enquanto instituição oficial do Governo ucraniano, transmitir aos menores uma visão afirmativa de uma organização responsável por dezenas de milhares de assassinatos?

Está o Governo alemão ciente do facto de a UINP ter participado num projecto denominado "Contra Golias", no qual participaram o antigo líder da OUN Stepan Bandera e o antigo comandante do batalhão "Nightingale" da Wehrmacht e posteriormente da UPA, Roman Shukhevich, e afirma-se que graças a estes dois homens existe agora "uma Ucrânia livre"? ( http://uinp.gov.ua/vystavkovi-proekty/vystavka-proty-goliafa ), e em caso afirmativo, Que conclusões retira o Governo Federal do facto de a UINP, enquanto instituição oficial do Governo ucraniano, manter uma opinião positiva dos representantes de organizações terroristas de extrema direita?

Está o governo alemão ciente de que a UINP, num projecto denominado "Necrópole Virtual", homenageia pessoas, incluindo nacionalistas ucranianos responsáveis ​​pelo assassinato de judeus entre 1917 e 1923 e durante a Segunda Guerra Mundial, e entre aqueles que se encontram, como o jornal Jerusalem Post diz, colaboradores nazistas, incluindo membros das chamadas Schutzmannschaften a serviço dos ocupantes nazistas, que participaram do assassinato de civis, bem como Stepan Bandera, ou seja, pessoas que, segundo o diretor do Instituto Simon Wiesenthal em Jerusalém, Efraim Zuroff, não Eles deveriam ser homenageados como combatentes da liberdade devido ao seu envolvimento em assassinatos antissemitas em particular (https://www.jpost.com/diaspora/antisemitism/nazi-collaborators-included-in-ukrainian- memorial-project-656253) e, em caso afirmativo, que conclusões você tira do fato de a UINP, como instituição oficial do governo ucraniano, homenagear tais personalidades? 

Qual a posição do Governo Federal no diálogo com o Governo Ucraniano sobre o tratamento dado à OUN, à UPA e à divisão da Waffen SS “Galitzia”?

Concorda o Governo Federal com os autores da pergunta de que uma visão positiva das organizações e personalidades históricas que foram cúmplices do Holocausto e dos crimes nazis não é de forma alguma aceitável, e que isto também deve ser inequivocamente claro para o Governo ucraniano, tendo em conta a a veneração generalizada de Bandera, OUN e UPA e, em caso afirmativo, como cumpre este requisito face ao Governo ucraniano? (Cite o compromisso correspondente do Governo Federal, notas verbais, etc.)

Respostas do governo federal ao restante das perguntas :

O governo federal não tem conhecimento próprio, além dos relatos da mídia de que a questão é colocada. Além disso, é feita referência à observação preliminar.

*Sevim Dagdelen, é presidente do grupo parlamentar Die Linke na Comissão de Relações Exteriores do Parlamento Federal Alemão, membro suplente da Comissão de Defesa e porta-voz para política internacional e desarmamento.

Fontehttps://www.jungewelt.de/artikel/460156.ukraine-keine-eigenen-erkenntnisse.html

Edição: Página 1917

O ornitorrinco vinte anos depois e Lula 03

Quantos não se regozijam com os ares civilizados que agora sopram de Brasília? Isso, contudo, é uma ilusão.

28/08/2023 

Thiago Canettieri



Chico de Oliveira, em 2003, publicou seu ensaio “O ornitorrinco”. O texto saiu juntamente com uma reedição do clássico “Crítica da Razão Dualista”, que o autor publicou em 1972. De uma certa maneira, Chico atualizou sua leitura da formação nacional. O que ele descrevia em plena ditadura assumia novas formas com a promessa emplacada pelo primeiro governo de Lula, iniciado, também, em 2003. “O ornitorrinco” não é um ensaio qualquer: trata-se de uma interpretação sobre o Brasil, na qual soma-se um diagnóstico de época e um sonoro rompimento com o otimismo do petismo e os “direitos do antivalor” que se anunciava. Rapidamente o ensaio se tornou um clássico – uma importante chave interpretativa para se compreender o Brasil contemporâneo [1].

A meu ver, a questão central do ensaio é aquilo que Chico chamou de “Revolução Molecular-Digital”. Essa revolução chegou aos países periféricos-dependentes-colonizados com força sem alterar as desigualdades históricas, confirmando seu diagnóstico de 1972 quando escreveu que, por aqui, existia uma espécie de simbiose entre o arcaico e o moderno – se se quiser manter a nomenclatura, afinal, esta combinação indicava exatamente o sentido da modernização capitalista em países periféricos. Chico, em 2003, percebia que o desenvolvimento técnico-científico das forças produtivas num país como o Brasil abolia a forma molar da exploração industrial e garantiu sua dispersão molecular numa miríade de atividades mal-remuneradas e sub-empregadas e informais.

De forma quase premonitória, Chico afirmava em 2003 que com isso “os trabalhadores foram transformados numa soma indeterminada de exército da ativa e da reserva, que se intercambiam não nos ciclos de negócios, mas diariamente” [2]. Mudam de uma posição à outra não nos ciclos de negócios ou nos momentos de crise, mas durante a jornada diária de trabalho. Afinal, prossegue o autor, “a tendência moderna do capital” – já descrita por Marx e, desde então, cada vez mais desenvolvida – “é a de suprimir o adiantamento de capital: o pagamento dos trabalhadores não será um adiantamento do capital, mas dependerá dos resultados das vendas dos produtos-mercadorias” [3]. Qualquer semelhança com o trabalho plataformizado de entregadores e motoristas de aplicativo (entre tantos outros) não é mera coincidência. O app é um exemplo muito concreto desta “revolução molecular-digital” que alterou substancialmente a dinâmica social aprofundando desigualdades e dinâmicas de exploração e espoliação.

Chico de Oliveira, de maneira muito acertada, pensa sobre como as formas do trabalho na periferia do capitalismo, ou, mais especificamente, no ornitorrinco brasileiro, estariam se conformando como uma fusão da mais-valia absoluta e relativa. Segundo o autor: “na forma absoluta, o trabalho informal não produz mais do que uma reposição constante, por produto, do que seria o salário; e o capital usa o trabalhador somente quando necessita dele; na forma relativa, é o avanço da produtividade do trabalho nos setores hard da acumulação molecular digital que permite a utilização do trabalho informal”.

É nesse sentido que Chico apresenta a noção de um “trabalho sem forma”, se opondo, mesmo que não explicitamente, a um “trabalho com forma”. Enquanto este seria a expressão ideal de uma certa organização da mediação social historicamente determinada, com um certo ordenamento claro dos critérios desta socialização – salário, regulação pelo mercado, cidadania laboral -; aquela indica uma mediação social que ocorre fora destes critérios ou, se preferirmos, uma mediação social negativa – isto é, a constituição desta categoria se expressa negativamente, manifestando seu contrário: informalidade, precariedade, regulação por instituições violentas, ausência de cidadania, entre outros.

Pareceria extemporâneo alguém afirmar isso em 2003, afinal, um operário industrial acabava de sentar na cadeira de Presidente da República. Não foi por menos que Chico foi muito criticado – isso é pessimismo. Mas como diria Saramago: não se trata de pessimismo, o mundo que é uma merda.

Muito rapidamente, a tese do ensaio de Chico foi se mostrando mais extensa do que normalmente se supôs. Lula em seu primeiro governo e depois durante o governo de sua reeleição logrou produzir instâncias participativas e formas de inclusão cidadã no país – mas estas já ocorriam não mais sob o signo do “trabalho com forma”.

Nesse período, apesar da histórica formalização do emprego e da baixa recorde na taxa de desemprego (4,6% em dezembro de 2012), olhar somente para esses dados nos faz perceber erroneamente a questão. É preciso qualificá-los. Quase 95% dos novos empregos criados na primeira década do século XXI não ultrapassaram 1,5 salário-mínimo. Em 2014, quase a totalidade dos novos postos de trabalho estavam nessa faixa de renda. Nessa mesma década, a taxa de rotatividade do trabalho aumentou cerca de 10%, em especial entre aqueles que ganham menos. Em 2009, entre os trabalhadores que recebiam até 1,5 salário-mínimo, essa taxa foi de 86%, um aumento de 42% em comparação com 1999. Além disso, entre 1996 e 2010, aumentou a taxa de terceirização do trabalho em uma média de 14% ao ano. A maior parte desses empregos foi gerada no setor de serviços, especialmente aqueles mais precários. Também nesse período se observou o aumento de acidentes de trabalho e de formas de adoecimento derivadas da atividade laboral. Consolidou-se, assim, o processo de degradação do trabalho [4]. Assim, mesmo com o boom de criação de empregos, a classe trabalhadora vacilava entre o improvável acesso ao emprego formal estável e a inevitável viração cotidiana.

Este processo, desde então, não cessou de se aprofundar, afinal, diz respeito a uma dinâmica interna do próprio capitalismo. Em sua ânsia por mais acumular, o capital dissolve suas próprias formas de mediação social constituídas historicamente. Assim, o trabalho entra em um processo irreversível de erosão [5].

Seja como for, um de seus efeitos foi a dissolução da identidade política e de reconhecimento baseada no trabalho. Esta foi constituída muito solidamente ao longo do século XX, mas, mesmo assim, se desmanchou no ar. Como notou o Grupo de Militantes na Neblina, analogamente à estrutura social de um “trabalho sem forma” se produziu uma “luta de classe sem forma”.

A política foi convertida pelo Partido dos Trabalhadores em um instrumento de gestão. O projeto de cidadania, reduzido a acesso ao consumo, só foi possível financiado pela economia extrativa violenta e alavancado por capital fictício.

Vale lembrar que Paulo Arantes já havia decifrado está esfinge ainda em seu nascedouro. Enquanto muitos viam uma promessa de “refundação nacional” baseada no pacto lulista – expectativa compartilhada de setores da esquerda institucional com a revista liberal The Economist, e, por que não, com Barak Obama, entre outros – Paulo dava a letra: “Ao prometer consumo, prometem guerra civil”. Uma entrevista de junho de 2003 [6]. Vendo a coisa vinte anos depois, parece premonição, mas não é bola de cristal – e sim uma boa análise de conjuntura. Muitos achavam que era apenas um prazer sádico de jogar creolina no chantilly alheio, mas parece que o diagnóstico estava mais acertado do que se gostaria.

A degradação do trabalho com forma decorrente deste processo é, também, a degradação de uma política de transformação social – sobretudo enquanto esta insiste anacronicamente a se vincular a forma social caduca do trabalho. Chico já apontava a perda da musculatura de iniciativas sociais capazes de fazer frente ao movimento cego do capital. Os movimentos, sindicatos, partidos de esquerda agora eram co-gestores da crise, sócios minoritários da administração do colapso nacional – até começarem a falhar.

De lá para cá a situação brasileira degringolou ainda mais – chegou a um “fim de linha”. Em 2018 aconteceu a eleição de Jair Messias Bolsonaro e muitos foram pegos com a calça na mão. Como isso seria possível? Bom, a chave d’O ornitorrinco ajuda a destrancar, também, este calabouço, eu acho.

Paulo Arantes, num texto comentando exatamente a atualidade do ensaio de Chico, escreve:

"Nossa primeira tarefa para levar essa investigação a cabo começaria pela morfologia, pela anatomia dessa nova reencarnação do Ornitorrinco: onde está a patinha dele espalmada, onde está o bico de pato, onde está o rabo de pato, onde está o ferrão do macho, tudo aquilo que é descrito na epígrafe do Chico. Onde é que eles estão? Teremos assim uma fusão patológica ou teratológica de um bico militar, uma patinha miliciana, uma mama teocrática da qual escorre leite e os filhotes são alimentados, e um ventre dilatado que é o fisiologismo, chamado “centrão” – fisiologismo juntando com milícias, militares, teocracia e uma família reinante delinquente."

O que é esse monstro? Como ele foi gerado? Ora, ele foi gerado no ventre do Ornitorrinco: trata-se do Ornitorrinco 2.0, não há a menor dúvida. Chico diagnosticou isso. Ele só não imaginava que fosse possível que esse mecanismo de controle de populações pudesse sair do controle. Acontece que esse controle de populações é tão forte que ele se reconfigura. Por mais monstruosa que seja a configuração atual, ela é uma espécie de decalque demoníaco da forma anterior do Ornitorrinco.

Ao longo da pandemia de COVID-19, acompanhamos greves selvagens dos entregadores de aplicativo – essa expressão tão clara como o sol de meio-dia do chamado “trabalho sem forma”. Contudo, é importante notar, como faz o Grupo de Militantes na Neblina, que essas lutas nada acumulam.

Saídos da gestão de Bolsonaro, um governo petista parece um alívio. Quantos não se regozijam com os ares civilizados que agora sopram de Brasília? Isso, contudo, é uma ilusão. Não há solução a vista do ponto de vista social para essa catástrofe que não passe pela superação da forma social do valor que, mesmo decadente, se perpetua como critério superior da socialização. Nesse contexto, a massa de pessoas estropiadas, espoliadas, esfoladas continuará crescendo. Essa dinâmica continuará a erodir as bases das instituições desenvolvidas para e pela modernidade, dando lugar a uma dinâmica de circulação da violência. Ou seja, é bem provável que o processo social a que chamamos de bolsonarismo continuará a se aprofundar, independentemente do governo eleito. Os efeitos da crise continuarão a se acumular em uma pilha de destroços no horizonte. A dinâmica cega do capital continuará seu curso autodestrutivo, a dissolução do trabalho não será revertida simplesmente por atos de benevolência de quem veste a faixa presidencial no turno vigente.

Imaginar esse “Ornitorrinco 2.0” num governo “Lula 03”. Embora eu não tenha muitas ideias sobre isso, espero que este texto sirva para indicar a possibilidade desta chave de leitura ser ainda pertinente. As transformações do ornitorrinco apontam para o processo perene de erosão das formas sociais, algo que passa completamente fora da alçada de qualquer governo. Ainda mais quando um governo só pode prometer memórias de um passado recente – “make Brasil 2003 again”, como se o horizonte de expectativas ideal fosse retornar 20 anos. Contudo, já em 2003 as contradições de um país em fim de linha já estavam suficientemente expostas.

Notas:

[1]  São várias as apropriações do ensaio de Chico para pensar o Brasil de hoje. Para citar apenas algumas: Isadora Guerreiro, colunista deste site é uma das herdeiras deste pensamento. O importante texto Incêndio: trabalho e revolta no fim de linha brasileiro utiliza “O ornitorrinco” como um instrumento interpretativo para fenômenos recentes. Ludmila Costhek Abílio lê o fenômeno da uberização a partir da mesma chave. Cibele Rizek interpreta as mutações da vida urbana pensando a partir do “O ornitorrinco”. Paulo Arantes, recentemente, em uma homenagem ao pensamento de Chico de Oliveira, pensou a transformação do Ornitorrinco em uma outra coisa (um monstro; um ornitorrinco 2.0).

[2] Francisco de Oliveira, Crítica da Razão Dualista – O Ornitorrinco (Boitempo, 2003, p.136).

[3] Idem.

[4] Estas informações estão compiladas nos livros de Márcio Pochmann, O mito da classe média: capitalismo e estrutura social (Boitempo, 2014); Ricardo Antunes, O privilégio da servidão: o novo proletariado de serviços na era digital (Boitempo, 2018); Ruy Braga, A rebeldia do precariaddo: trabalho e neoliberalismo no Sul Global (Boitempo, 2017). Contudo, apesar da crítica à gestão petista, as interpretações destes autores parecem indicar uma certa expectativa com a restituição do lugar político de um “trabalho com forma”, algo que, eu diria, seria improvável – para não dizer impossível.

[5] Esta é a tese da corrente teórica “crítica do valor”. Em outros textos (neste site e em outros lugares), eu tento aprofundar nessa direção.

[6] Vale conferir a entrevista completa, disponível aqui: https://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u49895.shtml

Fonte: https://passapalavra.info/2023/08/149811/

Edição: Página 1917

domingo, 1 de outubro de 2023

Carta aos Dirigentes e Militantes do PCB*

    


    *Essa carta foi enviada ao Comitê Central do PCB em 18 de agosto de 2020, nela eu comunicava minha saída do CC e do partido, explicando as razões da decisão. O texto não foi divulgado pela direção, permanecendo assim desconhecido pela grande maioria dos militantes. Decorridos três anos, resolvi torná-la pública na íntegra, por acreditar que possa trazer alguma luz sobre o processo que desaguou na recente crise do PCB. 

    Naquela ocasião, conforme explico em detalhes na carta, a maioria do CC já tinha colocado na gaveta os pressupostos da política de Reconstrução Revolucionária instituídos no XIV e XV congressos assim como em resoluções anteriores do próprio CC. O descumprimento das diretivas emanadas pela instância máxima do partido era consequência natural do giro político à direita iniciado pela direção alguns anos antes, em 2016.

    O conluio entre reformistas e oportunistas consolidou essa maioria vigente até hoje no Comitê Central, composta de dirigentes acomodados e adaptados à institucionalidade burguesa. Sua política de direita, os seus métodos burocráticos e mandonistas estão na raiz da crise  atual. O desfecho para o PCB não poderia ter sido outro, que não essa verdadeira "crônica de uma morte anunciada".                 

                                                                Ney Nunes, 30/09/2023.

 

 

 

Carta aos Dirigentes e Militantes do PCB


    Por vezes o “otimismo da vontade” tem a capacidade de nos turvar a visão durante longo tempo. Hoje chego à conclusão que nos últimos quatro anos foi exatamente isso o que me aconteceu. Por mais que os fatos indicassem um claro giro em nossa linha política na direção oposta às resoluções aprovadas nos dois últimos Congressos do Partido, assim como o progressivo abandono dos pressupostos da estratégia de Reconstrução Revolucionária do PCB, demorei muito para enxergar o verdadeiro alcance dos posicionamentos e atitudes que foram se consolidando no interior do Comitê Central ao longo desse tempo, especialmente entre os membros da atual CPN. O desejo de ver aplicada a Reconstrução Revolucionária, com a consequente adoção de uma estrutura partidária leninista, a construção de um partido de quadros revolucionários efetivamente inserido na vanguarda da classe operária e que levasse à prática um programa anticapitalista, anti-imperialista e socialista, obstruiu a minha visão sobre a dinâmica do processo revisionista em curso no partido.

    A verdade é que a Reconstrução Revolucionária se transformou em letra morta. As “letras vivas” passaram a ser as concessões cada vez mais significativas ao pós-modernismo e ao seu filho dileto, o identitarismo. Passamos a promover os “coletivos” em vez de valorizar e impulsionar as células. Assim foi se deturpando o centralismo democrático que só pode existir a partir de células fortes e atuantes, caso contrário, torna-se uma via de mão única, vira centralismo burocrático. Essa estrutura adaptada à democracia burguesa mantém o partido no gueto da pequena-burguesia, sem condições, sem política e sem disposição (a despeito do esforço meritório de alguns militantes da UC e da UJC) para empreender qualquer tentativa mais séria de inserção efetiva junto ao proletariado.

    Não tardaria para que essa tendência de giro à direita se consolidasse com a adoção de táticas em completa contradição com a estratégia aprovada desde o XIV Congresso (1) e reafirmada no XV Congresso do Partido (2). Passamos a priorizar cada vez mais a institucionalidade burguesa, inclusive aprofundando a dependência do Fundo Partidário, contrariando as resoluções da Conferência de Organização de 2008 (3) e apesar dos diversos alertas posteriores à Conferência feitos por camaradas nas reuniões do CC.

    Nas eleições de 2016 e 2018 ficamos inteiramente a reboque da socialdemocracia, partindo de avaliações completamente fora da realidade de que com essa tática eleitoral teríamos chances de eleger algum parlamentar. O resultado foi que não elegemos ninguém e, como de costume, não houve um balanço autocrítico dos responsáveis na direção por esse completo fiasco. Os recursos materiais e de militância teriam sido melhores empregados numa campanha eleitoral centrada no objetivo de construir o partido no seio do proletariado e nas camadas populares, com a nossa política e nosso programa, afirmando a independência de classe. Ao contrário disso, ficamos reféns do PSOL e do discurso pós-moderno, deseducando a classe, acantonados nos guetos da pequena burguesia intelectualizada.

    Da correta posição de frente única contra os ataques aos direitos dos trabalhadores e às liberdades democráticas, que vinham sendo desferidos desde os governos Dilma e Temer, portanto, sob a tutela da democracia burguesa, passamos a respaldar o denominado “Estado Democrático de Direito” ao assinarmos notas conjuntas com partidos da ordem e da conciliação de classes (4), encobertas pela falsa justificativa da “unidade de ação contra o fascismo”. Desde quando, para os comunistas, se trata de “unidade de ação” o endosso à política de colaboração de classes e de respaldo as instituições da democracia burguesa? Unidade de ação se dá em torno de alguma luta específica, concreta, como por exemplo, uma mobilização contra qualquer medida antidemocrática ou de retirada de direitos levadas a cabo pelo governo burguês de turno, o Congresso ou o Poder Judiciário.

    A vitória eleitoral da extrema direita e o receio de um possível golpe fascista serviram de biombo para concluir a virada em nossa política. A tática praticada pela CPN e depois ratificada pelo CC para as próximas eleições consegue ser ainda mais rebaixada. Ao não lançarmos candidaturas majoritárias ficaremos a reboque do PSOL, além de jogarmos o PCB na vala comum dos partidos (PT, PC do B, PDT, PSB, etc.) que nos estados e municípios onde governam estão aprovando o ajuste fiscal, reforma da previdência e reprimindo os protestos do funcionalismo.

    No âmbito das relações internacionais o giro à direita foi incisivo, ocorreu o abandono da articulação privilegiada com o polo revolucionário do MCI, especialmente com o Partido Comunista da Grécia e o Partido Comunista do México. Pelo contrário, passamos a endossar documentos conjuntos (5) com partidos adeptos da política reformista, do oportunismo eleitoreiro e das alianças com suas respectivas burguesias. Estes são partidos revisionistas que de “comunistas” só conservam o nome no intuito de ludibriar os trabalhadores, ou se livram dele, quando lhes parece mais conveniente do ponto de vista eleitoral. Para completar o giro, passamos a ser coniventes com a ideologia do “socialismo de mercado chinês”, novo farol do revisionismo e da traição à luta revolucionária do proletariado, contra todas as evidências e dados concretos que indicam a completa restauração do capitalismo na China, transformada no paraíso de novos bilionários, como afirma o KKE desde 2010. (6)

    Por fim, a consolidação da hegemonia do grupo que orienta esse giro vem levando a uma degradação do método partidário, permitindo que acusações e rotulações levianas contra camaradas prosperem com o intuito evidente de desvirtuar e suprimir o debate interno. Não por coincidência, os mesmos termos usados pelos liquidacionistas de 1992 voltam agora a ser proferidos contra quem ousa questionar a atual linha hegemônica, sendo estes logo taxados de ultraesquerdistas, ortodoxos, sectários e coisas do tipo. Essa prática nefasta, típica dos que não confiam na coerência dos seus próprios argumentos, já causou graves prejuízos ao movimento comunista internacional.

    Tenho enorme respeito e admiração pelos comunistas revolucionários que, mesmo em franca minoria, permanecem militando no PCB. Com vocês aprendi bastante nesses dez anos de trabalho comum, foi para mim um orgulho conviver e militar ao lado dos camaradas desde quando ingressei no Partido em 2010. Faço votos de que, apesar do meu “pessimismo da razão”, tenham sucesso na luta para recolocar o Partido nos trilhos da Reconstrução Revolucionária. Da minha parte, saio do Partido por onde entrei: pela porta da frente. Nunca almejei nada além de ser um simples militante. Continuarei fazendo o que faço desde 1976, quando aos 18 anos de idade decidi lutar, dentro das minhas modestas capacidades, pela Revolução Socialista.

    O projeto fundado no Brasil em 25 de março de 1922 não tem dono, seu legado pertence ao proletariado brasileiro.

Ney Nunes    

Rio de Janeiro, 18 de agosto de 2020.

Notas:

(1) Resoluções XIV Congresso Nacional, pág. 22.

A definição da estratégia da revolução como socialista não significa ausência de mediações políticas na luta concreta, nem é incompatível com as demandas imediatas dos trabalhadores. No entanto, a estratégia socialista determina o caráter da luta imediata e subordina a tática à estratégia e não o inverso, como formulam equivocadamente algumas organizações políticas e sociais. Pelo contrário, os problemas que afligem a população, como baixos salários, moradia precária, pobreza, miséria e fome, mercantilização do ensino, do atendimento à saúde, a violência urbana, a discriminação de gênero e etnia, são manifestações funcionais a ordem capitalista e à sociedade baseada na exploração. A lógica da inclusão subalterna e da cidadania rebaixada acaba por contribuir para a sobrevida do capital e a continuidade da opressão.

O que hoje impede a satisfação das necessidades mais elementares da vida em nosso país não é a falta de desenvolvimento do capitalismo. Pelo contrário, nossas carências são produto direto da lógica de desenvolvimento capitalista adotado há décadas sob o mesmo pretexto, de que nossos problemas seriam resolvidos pelo desenvolvimento da economia capitalista. Hoje, a perpetuação e o agravamento dos problemas que nos afligem, depois de gerações de desenvolvimento capitalista, são a prova de que este argumento é falso.

Portanto, nossa estratégia socialista ilumina a nossa tática, torna mais claro quem são nossos inimigos e os nossos aliados, permite identificar a cada momento os interesses dos trabalhadores e os da burguesia e entender como as diferentes forças políticas concretas agem no cenário imediato das lutas políticas e sociais. Esse posicionamento também busca sepultar as ilusões reformistas, que normalmente levam desorientação ao proletariado, e educa-lo no sentido de que só as transformações socialistas serão capazes de resolver os seus problemas.

(2) Resoluções XV Congresso Nacional do PCB, pág. 37/38/40

41-Afirmamos que a Revolução Brasileira é uma Revolução Socialista, considerando que o Brasil é uma formação social capitalista desenvolvida e monopolista...

43-Portanto, as tarefas estratégicas colocadas ao conjunto dos trabalhadores e, em especial, a classe operária, núcleo estratégico e central do sujeito revolucionário, o proletariado, não podem se realizar nos limites de uma sociedade capitalista...

45-Toda a experiência histórica dos trabalhadores demonstrou que qualquer forma de pacto com a burguesia é uma miragem que confunde os trabalhadores, desorienta a luta de classes e apaga o horizonte socialista... Esses pactos não nos levarão a conquistas parciais que cumulativamente poderiam desembocar em uma sociedade justa e igualitária. Pelo contrário, fortalecerão ainda mais o capital e seu sistema de poder mundial. Toda experiência histórica e presente, nos comprova que o capital e a propriedade privada capitalista, ao se perpetuarem, concentram riquezas, acumulam desigualdades e geram periodicamente as crises que terão que ser pagas pelos trabalhadores para salvar o lucro dos grandes capitalistas.

50-O PCB reafirma que esta transformação histórica não se dará através de um projeto reformista, mas por uma ruptura radical, na qual desempenha papel central a questão do poder, ou seja, a destruição do poder e da dominação política burguesa e a construção de um novo Estado do proletariado da cidade e do campo, comprometido com a construção histórica da capacidade dos trabalhadores chegarem ao autogoverno e, portanto, a superação do Estado. Isto implica que nossa política de alianças deve se materializar no campo proletário popular. A aliança de classes capaz de formar o Bloco Revolucionário do Proletariado deve ser fundamentalmente estruturada entre os trabalhadores urbanos e rurais, os setores médios proletarizados e as massas de proletários precarizados que compõem a superpopulação relativa.

(3) PCB Política e Organização – Resoluções de Conferências Políticas, pág. 148.

144-O encaminhamento desta importante questão passa pelo seu enfrentamento do ponto de vista ideológico. A subestimação das finanças ordinárias do PCB tem como origem o tempo em que o partido vivia da solidariedade internacional e, nos anos 80, do reforço dos recursos obtidos por conta da política de aliança com setores da chamada burguesia nacional. Hoje em dia, outro fator tem contribuído para esta subestimação: os recursos oriundos da distribuição do Fundo Partidário.

145-Não podemos contar com nenhuma dessas fontes de arrecadação citadas: a solidariedade internacional hoje em dia não tem o componente de troca que teve no passado; nossa linha política de ruptura com o capitalismo não comporta ilusões com aliados burgueses. O Fundo Partidário pode deixar de existir a qualquer momento.

(4) https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=2495758870691360&id=1775994142667840

https://pt.org.br/rede-e-pcb-ampliam-para-sete-os-partidos-do-forum-da-oposicao/

(5) https://pcb.org.br/portal2/22960/encontro-dos-partidos-comunistas-da-america-do-sul/

http://www.comunistas-mexicanos.org/%E2%80%A6/2213-por-cuestion-de-?fbclid=IwAR1HmKE9C1408WnWiBj2uWSZ1glq3w7Nee2BMLhUxHYcbyPyaF3tqa6GVVU

(6) O Papel Internacional da China, Elisseos Vagenas, membro do CC do KKE, responsável pela seção internacional do CC, publicado na Revista Comunista 6ª edição 2010.

https://inter.kke.gr/en/articles/The-International-role-of-China/

Em conclusão, o domínio das relações capitalistas na China, hoje é um fato, lenta ou rapidamente, levará a uma maior conformidade do sistema político, da ideologia dominante e de todos os elementos da superestrutura cujo caráter capitalista se refletirá em seus símbolos. A intensificação das contradições de classe amadurecerá e também a necessidade de o movimento operário revolucionário ser representado por seu próprio partido contra o poder capitalista.”

Edição: Página 1917


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