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terça-feira, 20 de setembro de 2022

Lula-Alckmin: de quem são amigos e de quem são inimigos? Essa é uma questão fundamental! (1ª parte)

A campanha presidencial do PT é repleta de acordos de bastidores com a nata da direita brasileira como Alckmin e FHC, Sarney e Calheiros, e Kassab. Esse acordão se ratificou com a indicação do conservador Alckmin para vice-presidente.

Cem Flores

19.09.2022

Em pleno clima de campanha eleitoral, a menos de um mês das eleições gerais de 2 de outubro, o começo do mês de setembro seria marcado por duas manifestações de rua, convocadas pelos dois principais campos eleitorais da disputa presidencial. De um lado, o presidente de extrema-direita, fascista, realizou intensa mobilização por meio de propaganda e verbas (ilegais) do governo federal e do aparelho de estado, das redes sociais e entre sua militância para atos no dia 7 de setembro em todo o país, principalmente em Brasília e no Rio de Janeiro. Do outro, a “esquerda” reformista, institucional e eleitoreira – chamada de “a mais legalista do mundo” –, por meio dos seus partidos, centrais sindicais (CUT, Força, UGT, CTB etc.) e movimentos (MST, MTST, CMP etc.), chamou uma “resposta” de rua em pelo menos 23 cidades para o sábado seguinte, 10 de setembro. Para concentrar esforços, evitar comparações e risco de confrontos no 7 de setembro, o PT atuou ativamente desconvocando o tradicional Grito dos Excluídos, realizado todos os anos em contraposição às comemorações oficiais da independência.

Os resultados dessas convocações foram diametralmente opostos. Bolsonaro conseguiu mobilizar dezenas de milhares de apoiadores em Brasília (estimadas 100 mil pessoas), Rio de Janeiro (entre 65 e 110 mil), São Paulo (33 mil) e diversas outras cidades. O próprio Bolsonaro esteve presente nos atos de Brasília e do Rio de Janeiro. Enquanto isso, as manifestações da “esquerda”, tanto o Grito dos Excluídos quanto o dia 10, foram esvaziadas (não conhecemos nenhuma estimativa de público), resultado intencional de convocatórias formais, para inglês ver, quando não explicitamente sabotadas.

Essa é uma evidência clara da fraqueza dessa “esquerda” nas mobilizações populares, fruto do longo abandono do trabalho cotidiano de organização de base dos/as trabalhadores/as e das massas. Ao invés do trabalho diário há o peleguismo de seus sindicatos, centrais e movimentos, que agem intencionalmente para desmobilizar e desorganizar trabalhadores/as e o povo em troca dos conchavos com os patrões e seu estado, e o mais reles institucionalismo e eleitoralismo de seus parlamentares e governos, que querem se impor como “intermediários” das reivindicações junto às instituições do estado capitalista.

Ou seja, enquanto nossa análise marxista-leninista, da luta de classes, mostra uma derrota da “esquerda” reformista, largamente suplantada pela mobilização da extrema-direita, fascista, a avaliação do próprio reformismo chega a conclusões totalmente diferentes. Uns viram ruas cheias em São Paulo. Para outros, era Bolsonaro quem tinha a perder, pois ao campo da “esquerda” só interessaria a “batalha” (sic!) de “acumular força eleitoral” (como que confirmando uma certa herança do PCdoB como “o esteio máximo da ordem e da lei”), enquanto a extrema-direita, fascista, atuaria “sobretudo fora da dimensão da influência exclusivamente da eleição”. Nessa mesma linha, houve elogios aos “representantes das organizações [que] defendiam, no microfone, a importância de a eleição presidencial ser decidida no primeiro turno”. E, de fato, enquanto a direita mobilizava nas ruas, a intenção da “esquerda” era apenas essa mesma: organizar pequenos atos eleitorais da chapa Lula-Alckmin e dar palanque a diversos candidatos estaduais. Quanto ao combate ao fascismo e à extrema-direita, isso não é lá mesmo com eles…

quinta-feira, 28 de julho de 2022

Marxismo-Leninismo e Combate Ideológico

Antonio Gramsci
1925 



[...] A luta econômica não pode ser separada da luta política, e nem uma nem outra pode ser separada da luta ideológica. 

Na primeira fase, sindical, a luta econômica é espontânea. Isto é, nasce inelutavelmente da própria situação em que se encontra o proletariado sob o regime burguês, mas ela não é, em si própria, revolucionária. Quer dizer, não leva necessariamente à destruição do capitalismo, como os sindicalistas há muito argumentam (com algum sucesso). 

Em qualquer caso, os reformistas e mesmo os fascistas permitem alguma luta sindical elementar. Ou melhor, eles sustentam que o proletariado como classe não pode se envolver em nenhuma luta senão a sindical. 

A luta sindical pode se tornar um fator revolucionário se o proletariado combiná-la com a luta política. Explicando de outro modo, se o proletariado se torna consciente de ser o protagonista em uma batalha muito mais ampla - aquela que assume todas as questões mais vitais sobre a organização da sociedade (ou seja, toma consciência de que está lutando pelo socialismo). 

O elemento de espontaneidade nunca é suficiente para uma luta revolucionária. Nunca levará a classe trabalhadora além dos limites da democracia burguesa existente. Para que isso ocorra, um elemento ideológico consciente é necessário. Isso implica uma compreensão das condições em que a classe luta, das relações sociais em que vivem os trabalhadores, das tendências fundamentais que operam nessas relações sociais e do desenvolvimento da sociedade (impulsionada pelos antagonismos irreconciliáveis em seu seio) etc. 

Essas três frentes da batalha proletária reduzem-se a uma só para o partido da classe operária. Ela cumpre esse papel precisamente porque retoma e representa todas as demandas da luta geral. 

Claro, não podemos pedir a cada trabalhador que tenha uma compreensão completa de todas as funções complexas que sua classe realizará no processo de desenvolvimento da humanidade. No entanto, devemos pedir isso aos membros do partido. 

Não se pode propor, antes da conquista do poder do Estado, a modificação completa da consciência de toda a classe trabalhadora. Isso seria utópico, porque a consciência de classe como tal só muda quando as condições de vida dessa classe também mudam. Em outras palavras, quando se torna a classe dominante e tem à sua disposição os meios de produção, de troca, e detém o poder do Estado. 

Mas o partido pode, e deve, em sua totalidade, representar essa consciência avançada. Caso contrário, o partido não estará na cabeça, mas na cauda das massas. Não será capaz de liderá-las - em vez disso, será arrastado atrás delas. É por isso que o partido deve assimilar o marxismo, e deve assimilá-lo em sua forma atual - o leninismo.

[...] Para lutar contra a confusão que assim se criou, o partido precisa intensificar e sistematizar sua atuação no campo ideológico. O partido deve deixar claro que seus militantes têm o dever de compreender a doutrina marxista-leninista, pelo menos em seus termos mais gerais. 

Nosso partido não é um partido democrático - pelo menos não no sentido vulgar que é comumente dado a essa palavra. O partido é centralizado de forma racional e internacional. Na arena internacional, nosso partido é uma seção simples de um partido muito maior, um partido do mundo inteiro. 

Pode ser uma necessidade absoluta de revolução, mas que repercussões esse tipo de organização pode ter? A própria Itália nos dá uma resposta a esta pergunta. Em reação às tendências usuais dentro do Partido Socialista (em que muito se discute, mas pouco se resolve, e cuja unidade é frequentemente destruída pelos confrontos contínuos de diferentes facções, tendências e camarilhas), nosso partido acabou por não discutir nada. 

A centralização do nosso partido e sua direção e concepções unificadas deram origem a uma estagnação intelectual. A necessidade constante de lutar contra o fascismo contribuiu para essa tendência. De fato, mesmo antes de o partido ser fundado, o fascismo havia passado para sua primeira fase ativa e ofensiva. 

No entanto, uma concepção errônea do partido - apresentada na Tese sobre táticas do congresso de Roma - também contribuiu para o mal-estar. Centralização e unidade foram concebidas de uma maneira muito mecânica: o comitê central (ou melhor, o comitê executivo) foi considerado o partido, ao invés de seu representante e guia. Se essa concepção fosse aplicada de forma permanente, o partido perderia suas características políticas distintivas. Seria, na melhor das hipóteses, um exército (e burguês). Ele perderia seus poderes de atração e se distanciaria das massas. 

Para que o partido viva e esteja em contato com as massas, cada membro precisa ser um elemento político ativo - ou seja, um líder. Especificamente porque o partido está fortemente centralizado, é necessária uma grande quantidade de propaganda e agitação entre suas fileiras. É preciso que o partido eduque seus militantes e eleve seu patamar ideológico de forma organizada. 

Centralização desse tipo significa que, em qualquer situação (mesmo que em estado de sítio, mesmo que os comitês dirigentes não possam funcionar por um determinado período ou não possam se articular com a periferia), todos os membros do partido podem se orientar em seus próprios círculos. Significa que cada um deles deve poder tirar da situação os elementos necessários para definir uma linha política - de modo a fazer com que a classe trabalhadora não desanime, mas sinta que tem um rumo, e ainda é capaz de lutar. A preparação ideológica das massas é, portanto, uma necessidade absoluta para a luta revolucionária. É uma das condições indispensáveis para a sua vitória.

Fonte: Escritos Políticos, Vol. 4, Para uma Preparação Ideológica das Massas, 1925.

Edição: Página 1917


 

 

 

 

segunda-feira, 25 de julho de 2022

Luta de Classes e Luta Ideológica

Charles Bettelheim
1977

 

É evidente que não se pode explicar as transformações de uma formação social dando centralidade às concepções teóricas daqueles que protagonizam as lutas ocorridas no âmbito desta formação social, mas também não se pode ignorar essas concepções. De modo geral, o curso e o resultado das lutas sociais são determinados pelas formas ideológicas no seio das quais as massas e as organizações políticas travam sua luta. De fato, como Marx aponta no Prefácio de 1859, é sempre através de determinadas formas ideológicas que as lutas sociais são travadas, e o resultado dessas lutas depende das formas ideológicas e representações que dominam a ação daqueles que lutam. Daí a importância da luta ideológica de classe: daí a atenção dada por Lênin à luta no front teórico, compreendendo aqui o front filosófico.


 Para voltar à formação social soviética do final da década de 1920 (que analiso no volume 2 de A Luta de Classes na URSS), são certamente as contradições sociais objetivas que desempenham um papel determinante nas transformações pelas quais esta formação social passa. Essas contradições são constituídas, notadamente, pela forma das relações entre o proletariado e o poder soviético, de um lado, e as massas camponesas, de outro; pela forma das relações entre a indústria e a agricultura, etc. No entanto, o tratamento dessas contradições pelo partido bolchevique não é um simples reflexo dessas contradições. Esse tratamento assinala uma linha política que é em si mesma o produto de uma ampla luta de classes, de uma luta de classes que também se desenvolve no plano teórico. O resultado do conjunto dessas lutas exerce uma ação decisiva sobre o movimento subsequente de contradições. É claro que a luta ideológica de classes não se desenrola no domínio das “ideias”. Ela se articula com as práticas sociais concretas, com as relações de forças entre as classes. Assim, a forma de industrialização com a qual a União Soviética se engajara em 1929-1930 não pode ser separada do papel desempenhado pelos dirigentes das grandes empresas, pelos dirigentes dos trustes soviéticos, pelos dirigentes da Comissão do Plano e do Conselho Superior da Economia Nacional. Estamos na presença de um conjunto de forças sociais que agem sobre o curso e a forma de industrialização, e que agem também sobre as transformações pelas quais passa a formação ideológica bolchevique. Contudo, essas transformações agem também em resposta às lutas de classe na URSS, à ideologia do partido bolchevique e – tendo em vista o papel decisivo desempenhado por este partido na Terceira Internacional – às lutas de classes em todos os países onde estão presentes seções da Terceira Internacional. 

No volume 2 de A Luta de Classes na URSS, procurei precisamente mostrar a articulação entre contradições sociais objetivas, transformações sociais e transformações da formação ideológica bolchevique. A análise concreta revela o papel desempenhado por estas últimas transformações na medida em que elas conduzem a uma interpretação determinada da realidade soviética e ao desenvolvimento de uma linha política. 

De modo geral, algumas das concepções que dominam cada vez mais o partido bolchevique durante os anos 1930 refletem uma prática (por exemplo, a da “revolução pelo alto” iniciada em 1929), mas, por sua vez, essas concepções permitem consolidar-se e mostrar-se como “teoricamente justificadas”. 

Novamente, se a teoria e as formas ideológicas não desempenhassem o papel que jogam nas lutas reais, a luta ideológica da classe – que é um dos aspectos essenciais da prática leninista – não teria a importância que merece na história do movimento revolucionário. 

É analisando a articulação das lutas sociais e fazendo um balanço dos seus efeitos, bem como do papel desempenhado pelas formas ideológicas dominantes, que podemos tirar lições e trazer à luz as consequências positivas ou negativas, da perspectiva da revolução proletária, deste ou daquele conjunto de posições teóricas. 

Assim, a análise concreta permite definir melhor como uma forma particular de marxismo historicamente constituído pode ser enriquecida através das lutas de classes e contribuir para o desenvolvimento do marxismo revolucionário. Este marxismo é susceptível de se desenvolver porque não é constituído apenas por tomadas de posições que seriam úteis ao proletariado apenas numa dada conjuntura: ele é também constituído por um conjunto de conhecimentos de alcance universal. Negar a capacidade de desenvolvimento do marxismo revolucionário é reduzir ao mínimo a experiência histórica e sua apropriação teórica; é supor que é quase sempre necessário “começar do zero”, porque só existiriam situações concretas particulares, e não conceitos que permitissem analisá-las. Rejeitar a ideia – confirmada pela experiência – de uma teoria marxista capaz de se desenvolver e de se enriquecer, é questionar o caráter científico do marxismo, sua capacidade de produzir conhecimentos de alcance universal, e assim reduzir o marxismo a um “ponto de vista” e a um “método”. 

Se a análise concreta da formação ideológica bolchevique e de suas transformações nos permite compreender melhor as condições nas quais o marxismo revolucionário foi capaz de se desenvolver, essa análise também nos permite compreender as regressões pelas quais passou a formação ideológica bolchevique, regressões que acabariam por transformar o bolchevismo em seu contrário, o que também comporta consequências internacionais. 

O problema da ruptura entre Lênin e Stálin deve ser colocado desta forma. Essa ruptura não se manifesta apenas no plano teórico (por exemplo, como transformação do marxismo de um instrumento crítico em um instrumento apologético), mas também, e acima de tudo, no plano prático. Neste plano, o que caracteriza a ruptura entre Lênin e Stálin é a tentativa efetuada, a partir de 1929, de impor “pelo alto” às massas transformações sociais que elas não estão dispostas a aceitar, de modo que o conteúdo das transformações realizadas (por exemplo, o desenvolvimento dos kolkhozes) é radicalmente diferente do que seria obtido com base num verdadeiro movimento de massas, com inúmeras consequências para a formação social soviética. 

Em toda uma série de domínios, podemos registrar tais rupturas entre as posições de Lênin e Stálin. É o caso, por exemplo, das relações entre grande e pequena indústria, do problema da diferenciação salarial, do abandono ou manutenção do partmax (ou seja, da proibição de um membro do partido receber um salário superior ao de um operário). De fato, tanto no plano prático como no plano teórico, observamos o desenvolvimento, durante a década de 1930, de um conjunto de concepções que irão contribuir maciçamente para as derrotas subsequentes do proletariado soviético. Há lições a serem tiradas daqui, e estas lições têm um alcance universal. 

Edição: Página 1917 

Fonte: https://cemflores.org/2022/07/15/sobre-o-marxismo-e-o-leninismo-debate-com-charles-bettelheim-e-robert-linhart/

 

 

sexta-feira, 22 de julho de 2022

Líbia, Pequenas Tragédias Diárias

Guadi Calvo*

04/07/2022 

Imigrantes mortos no deserto líbio.


É difícil encontrar termos para definir a encenação da reunião de cúpula da OTAN, que acaba de terminar em Madrid, à qual, obviamente, todos os participantes compareceram com o roteiro feito pelos Estados Unidos, pelo que, sem fugir uma vírgula, concordaram de bom grado em continuar gerando ações contra a Rússia, aproximando o mundo de uma guerra nuclear, da qual, se conseguirmos nos livrar, teremos que agradecer a Deus. 

Hipócritas é um termo muito leve para definir a cúpula dos genocidas, que puxam as barbas diante da contra-ofensiva russa na Ucrânia, que foi instigada por eles mesmos ao encurralar Moscou a ponto de não deixar outro caminho, e agora , quando descobrem que a coisa é grave, como se fossem membros de uma colônia Menonita, apontam com espanto e indignação para o presidente Vladimir Putin, como se Putin tivesse sido aquele que destruiu o Iraque, a Síria, a Líbia, o Líbano, o Afeganistão, Iêmen, Iugoslávia e tantas outras nações. 

Não satisfeito com a situação na Ucrânia (onde eles precisavam de um servil como Volodymyr Zelensky, que ao preço de milhares de mortes e a devastação de seu país, segue a prolongar uma guerra sabendo que é impossível para ele sair vitorioso dela), Washington, pastoreando toda a OTAN com uma vara, começa a fazer piruetas na borda, também ameaçando a China, como se o presidente Xi Jinping fosse um pequeno e fofinho urso panda. 

Embora o que é realmente importante é que enquanto Biden estava descansando na Espanha, naquele mesmo país, parece mentira! Do "No Pasaran" e "El Alcanzar não se rende", Pedrito Sánchez, como a melhor mão, o cumprimenta devotadamente e fica alegre por ter o mestre em casa, executando um exercício de genuflexão ritual raramente visto. 

A cerca de três mil quilômetros da cidade de Oso e do Madronoo, exatamente a sudeste de Kufra, no deserto da Líbia, a uns 120 quilômetros da fronteira com o Chade, um caminhoneiro que transita regularmente por aquele setor pouco povoado e com temperaturas acima de quarenta graus centígrados, onde o menor passo em falso pode precipitar uma morte tão monstruosa quanto a das vinte pessoas que o transportador encontrou. 

Segundo a equipe de resgate, todos morreram de sede depois de ficarem encalhados no meio do deserto, após a quebra do veículo com o qual aspiravam chegar a um dos portos líbios, para de lá tentar chegar na Europa. Acredita-se que as vítimas tenham se perdido há duas semanas, pois uma última ligação foi gravada em um dos celulares encontrados em 13 de junho. 

Dois dos mortos são de origem líbia, provavelmente traficantes, enquanto os demais parecem ser todos chadianos. Jamais nos lembraremos de seus nomes ou dos motivos que os levaram a embarcar em tal aventura, embora não seja preciso ser um adivinho e para saber exatamente esses motivos. 

Se ignorarmos detalhes geográficos, circunstâncias e quantidades, podemos garantir que o evento seja o mesmo que aconteceu em San Antonio, Texas, perto da fronteira com o México, onde na segunda-feira, 27, em um caminhão abandonado, cerca de cinquenta pessoas foram encontradas mortas por calor, sede e o desespero de saber que estão trancados e indefesos. 

Seria um exagero dizer que as vítimas dos dois eventos vieram do mesmo lugar de pobreza, desesperança e tentavam voar para esse estado de bem-estar do qual as democracias do mundo tanto se orgulham? Então, neste caso, ao contrário do que se vê nos filmes, qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência. 

O "incidente" de Kufra não é o primeiro a ocorrer no deserto da Líbia. Embora nunca venhamos a conhecer todo este tipo de tragédias dada a ilegalidade da atividade, o desinteresse por parte da comunidade internacional em conhecer os números e o gigantesco movimento de pessoas que tentam chegar aos portos do sul do Mediterrâneo para cruzar para a Europa, arriscando tudo, pois estima-se que mais de um milhão de pessoas estão constantemente esperando nos portos líbios, pessoas que vêm não apenas de todos os cantos da África, mas também do Oriente Médio, Ásia Central e Sudeste Asiático. 

Com a recente tragédia em Melilla,  se verificou que a maioria dos que estão em Marrocos com a intenção de saltar as cercas e ir para os enclaves espanhóis de Ceuta e Melilla são originários do Sudão, a mais de 4.300 quilômetros de puro deserto do reino alauíta . A maioria dos trinta e sete mortos na última sexta-feira, dia são de origem sudanesa, mas bom, já faz muito tempo deste acontecimento, então está praticamente esquecido. 

A OTAN não paga pelos seus crimes 

Após a destruição da Líbia pelas mãos dos Estados Unidos e da OTAN, o país do Coronel Kadafi tornou-se um estado falido e todas as articulações que tentam armar tanto a Organização das Nações Unidas (ONU) quanto a União Européia (UE) falharam constantemente e de maneira trágica. 

A guerra civil latente, mas já crônica, mergulhou o antigo Estado das Massas  do Coronel Kadafi num território dominado por bandos armados que não conseguem se articular em um verdadeiro exército, associados a pequenas cidades-estados como Trípoli, Bengasi ou Tobruk, sustentado por diferentes países "amigáveis". 

É a anarquia prevalecente que possibilitou que inúmeros cartéis de drogas, traficantes de armas e pessoas, geralmente apoiados por alguma milícia, se instalassem no país e até pressionassem o poder político, supondo que exista algum, para continuar nessa situação. São estas organizações de tráfico de seres humanos que se encarregam de transferir os milhares de refugiados que todos os dias tentam chegar a um porto líbio para seguir rumo à Europa, depois de entrarem pelas fronteiras com o Chade, o Níger e o Sudão. Diferentes organizações internacionais têm apontado que, com o fim das restrições estabelecidas pela pandemia, os números referentes ao tráfico de refugiados voltaram a disparar. 

Destes grandes focos no sul da Líbia, o Níger é o maior centro de irradiação; Apesar do transporte de imigrantes estrangeiros ter sido proibido em 2016, Niamey tolera o tráfico de nacionais. 

Por sua vez, diferentes organizações humanitárias denunciam constantemente em fóruns internacionais o sofrimento que os refugiados devem suportar nas mãos das redes de contrabando: tortura, estupro e, se necessário, assassinato quando o “cliente” fica muito chateado. Não é segredo para ninguém que muitos são leiloados como escravos, para diversos fins, trabalho ou prostituição, na maioria dos casos, como é o caso da cidade líbia de Sabha, capital da província de Fezzan; em muitos casos, eles também são mantidos em campos diferentes, como Tazirbu em Kufra ou Bani Walid, este último na Cirenaica, esperando que o resgate seja pago por eles. 

Mais além da verdadeira vontade do Ocidente, todos agora sabem que ninguém pode controlar a situação na Líbia, onde a tentativa de chegar a um acordo para realizar eleições nacionais falhou mais uma vez. 

Agora sim, para grande pesar da Europa e dos Estados Unidos, que só estão interessados ​​em ajustar as margens de produção de petróleo, para suplantar a grave escassez, dadas as sanções russas no quadro da contra-ofensiva na Ucrânia. 

*Guadi Calvo, escritor e jornalista argentino, analista internacional especializado na África, Oriente Médio e Ásia Central.

Edição: Página 1917

Fonte: Rebelion

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