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sexta-feira, 1 de outubro de 2021

Revolução chinesa, 72: o papel indispensável de Mao

Renildo Souza e Jorge Almeida*

 

Em seus primeiros 27 anos, processo coletivizou terras, alfabetizou milhões, enfrentou cerco imperialista e semeou a solidariedade internacional. Expectativa de vida dobrou. Avanço chinês não começou com reformas pró-mercado

 

Mao Tse-tung

Neste 1º de outubro, comemora-se os 72 anos da fundação da República Popular da China (RPC). Naquele dia de 1949 completou-se a conquista do poder político pelo exército revolucionário, mas a luta começou bem antes, com a fundação do Partido Comunista da China (PCCh) em 1921, que está comemorando seus 100 anos de vida.

Mas, se formos acreditar na imagem amplamente preponderante hoje, parece que tudo na China começou a partir das reformas pró-mercado iniciadas em 1978, sob a direção de Deng Xiaoping. Quase que só ouvimos falar sobre esse período “pós-reformas de mercado”.

A impressão é de que, antes disso, só havia atraso, miséria, fome generalizada, analfabetismo, estagnação econômica, retrocesso tecnológico, anarquia social e violência política.

Assim, este artigo procura comemorar a vitória da Revolução Chinesa, destacando o período “esquecido” no qual, apesar das grandes dificuldades enfrentadas num tipo inédito de revolução, ocorreram grandiosas conquistas.

Mesmo correndo um risco de simplificações condicionadas pelo espaço limitado, esperamos levantar questões que contribuam com quem deseja conhecer e entender melhor o que vem ocorrendo hoje.

Esse tipo de imagem ocorre por haver um certo consenso entre os liberais, parte da grande burguesia mundial e nacional e suas mídias. Mas também pela representação construída pelo próprio PCCh, setores nacional-desenvolvimentistas e parte da esquerda brasileira, inclusive marxistas. Uns por desconhecerem a história da China pós-1949. Outros, por preferirem fazer interpretações que facilitem a defesa da conversão da China ao capitalismo, sob a forma do chamado “socialismo de mercado” ou “socialismo com as características chinesas”.

Mas, se a China se transformou numa grande potência, foi porque, antes de tudo, em 1949, começou uma transição ao socialismo a partir da conquista do poder político. Processo que durou 29 anos, até o início das reformas que, independentemente das intenções originais do grupo pró-mercado no PCCh, acabaram levando a China ao capitalismo com as características singulares que tem.

Um pouco de história

O processo revolucionário na China ganhou uma nova dinâmica depois que o PCCh, sob a direção de Mao Tse-tung, reviu a estratégia anterior, influenciada pela Terceira Internacional e o PCUS (Partido Comunista da URSS), já dirigidos por Josef Stalin.

A nova estratégia partia de uma profunda e inovadora análise da realidade social e histórica chinesa, de sua ampla predominância rural, camponesa e pobre. Definia os latifundiários, o imperialismo e a grande burguesia comerciante como principais inimigos sociais e políticos e a formação de uma frente revolucionária tendo o proletariado como classe dirigente, o campesinato, que era a ampla maioria do povo explorado, como classe principal, e a burguesia nacional, que tinha um peso muito pequeno na vida econômica e política, como uma classe aliada, mas sem protagonismo.

O início da Grande Marcha em 1934 foi um marco estratégico decisivo, pois foi uma reconfiguração da estratégia do PCCh com a prioridade da luta revolucionária a partir do campo para a cidade, consolidando a liderança de Mao Tse-tung no partido.

O objetivo primeiro da revolução era a expulsão do imperialismo e a construção de uma “Nova Democracia” com uma ampla reforma agrária antilatifundiária (com a nacionalização estatal da terra e sua distribuição em posses para os camponeses), uma democratização da vida política, além de um forte estímulo ao processo de desenvolvimento nas forças produtivas. Como instrumento revolucionário, foi formado o Exército de Libertação Popular (ELP), que era dirigido pelo PCCh.

Ao contrário do que é propalado, o objetivo da revolução nunca foi o de construir uma república burguesa para desenvolver o capitalismo. Ao contrário, sempre foi o de, a partir das condições próprias e particulares da China, desenvolver um processo de transição ao socialismo.

A vitória do processo passou por momentos táticos variados, que incluíram acordos com o Kuomintang (partido originalmente nacionalista, mas que foi se tornando instrumento aliado do imperialismo ocidental), seguidos de um rompimento e guerra contra o Kuomintang, de nova “Frente Unida” contra invasão do imperialismo japonês e novo rompimento após a Segunda Guerra Mundial, quando o objetivo da conquista do poder, e derrubada do Kuomintang, veio para pauta imediata.

Nesse processo anterior, é importante ressaltar dois aspectos: 1) Os comunistas chineses receberam apoio da URSS mas, em diversos momentos, a direção chinesa não seguiu a orientação e preferências políticas do PCUS, que não acreditava na capacidade PCCh derrotar o Kuomintang e o imperialismo, e preferia uma aliança mais duradoura com Chiang Kai-chek (chefe do Kuomintang); 2) na medida em que ia avançando nas áreas rurais, já iam conquistando o poder de fato regionalmente, fazendo uma reforma agrária, empoderando o campesinato (material, política e militarmente) e o povo explorado e oprimido das regiões e iniciando um processo real e concreto de governo. Nesse processo, Mao Tse-tung consolidou sua liderança no partido, no exército e entre o povo.

O novo poder revolucionário

Após a conquista do poder em 1º de outubro de 1949, o partido e o governo iniciaram um processo de reconstrução nacional que tinha como objetivo a transição ao socialismo.

Foi feita a nacionalização/estatização da terra (com distribuição da posse da terra para os camponeses) e dos grandes meios de produção e da infraestrutura, impulsionando o desenvolvimento das forças produtivas e a industrialização. Garantida ampla liberdade sindical e direito de greve aos trabalhadores e os direitos das mulheres, rompendo o arraigado patriarcalismo tradicional chinês. Em 1953, foi lançado o 1º Plano Quinquenal e, já no início da década de 1950, a grande e a média burguesias na China se tornaram residuais.

Mas foram muitos percalços no caminho, a começar pela pobreza e o analfabetismo do povo e o muito baixo desenvolvimento das forças produtivas, o conservadorismo cultural nas relações sociais e políticas, e a luta pela consolidação territorial da China continental só se concluiu em 1950.

O novo governo enfrentou também o isolamento internacional, já que as potências imperialistas continuaram reconhecendo o governo títere montado por Chang Kai-chek na ilha de Taiwan, onde manteve o nome de “República da China”.

Houve, ainda, a necessidade de intervir diretamente com tropas na guerra da Coreia, já em 1950, contra as tropas imperialistas dos EUA e em apoio à revolução coreana, além do apoio à revolução vietnamita desde 1949.

Ao mesmo tempo, com a URSS houve uma relação tensa desde a fundação da RPC, em continuidade com as divergências já existentes anteriormente. Por um lado, a URSS contribuiu significativamente no apoio econômico, técnico, tecnológico e militar para um primeiro impulso industrializante chinês.

Por outro lado, tentava tutelar o processo chinês, o que nunca foi aceito pelo PCCh. Essas divergências se aprofundaram no final da década de 1950, quando a URSS formalizou uma concepção considerada pelo PCCh como de abandono do internacionalismo e da via revolucionária ao socialismo (trocada pela via pacífica) e de interferir nos assuntos internos da China e de outros países. O rompimento foi completo, chegando a ocorrer conflitos militares, na fronteira entre os dois países, no fim dos anos 1960.

O PCCh passou a caracterizar a URSS como um capitalismo de estado, denunciar a burocratização do Estado soviético, a interrupção de sua transição ao socialismo e de ter abandonado o marxismo, trocado por um “revisionismo”, e de ter uma relação “social-imperialista” com outros países.

Além disso, a China passou a competir com a URSS internacionalmente, apoiando movimentos revolucionários de outros países, especialmente os de libertação nacional, na Ásia, África e América Latina. Com isso, o isolamento da China aumentou ainda mais.

Ao mesmo tempo, o PCCh manteve uma linha de fazer avançar a revolução e a transição ao socialismo de modo ininterrupto e que combinasse dialeticamente o desenvolvimento das forças produtivas com a revolução nas relações de produção e no modo de vida.

Isso implicava uma combinação do desenvolvimento industrial, da ciência e da tecnologia (nunca negligenciados pelo PCCh no período chamado “maoísta”), via empresas estatais, com o empoderamento econômico e político do povo, principalmente via as “comunas” rurais e a produção coletiva, além da luta ideológica contra as heranças retrógradas e conservadoras, feudais e burgueses, existentes na sociedade e no estado e mesmo dentro do PCCh e do ELP.

Dois grandes acontecimentos históricos foram marcantes nesse processo. O primeiro foi o “Grande Salto à Frente” (2º Plano Quinquenal, 1958), que tinha o objetivo principal de avançar o processo de industrialização, de várias formas, através de uma ampla mobilização da força de trabalho e do incentivo político às iniciativas das massas trabalhadoras.

O outro foi a “Grande Revolução Cultural Proletária” (iniciada em 1966), com forte apoio na juventude, que visava combater as heranças ideológicas burguesas e conservadoras e o burocratismo presentes no Estado e no partido e, ao mesmo tempo, através desta luta, combater a ala direita do PCCh, que defendia uma linha economicista de exclusividade do desenvolvimento das forças produtivas, favorecendo o desenvolvimento de relações sociais burguesas, ligadas às relações de produção de tipo capitalistas, que, já naquela época, era a linha defendida por Deng Xiaoping.

Ambos os grandes movimentos tiveram resultados contraditórios. Por um lado, o projeto do “Grande Salto à Frente” traçou metas que superestimavam as condições objetivas e subjetivas existentes. Conseguiu conquistas importantes (mas abaixo das metas) e acabou desorganizando em parte o processo produtivo e, como consequência disso, e de uma confluência com desastres naturais não esperados, houve uma queda da produção de alimentos, a fome, sacrifícios e perdas significativas de vidas humanas.

Já a “Revolução Cultural” gerou um clima de forte instabilidade política e social, chegando a sair do controle no partido, com exageros e sectarismos, e gerando muitos conflitos de massa com uso de violência, inclusive mortes.

Por outro lado, também deve ser criticado o “Culto à Personalidade” de Mao Tsé-tung, que foi se desenvolvendo.

Entretanto, apesar de toda essa instabilidade e momentos de forte crise, como a guerra da Coreia, o rompimento com a URSS, o “Grande Salto à Frente” e a “Revolução Cultural”, num período de pouco mais de 27 anos, o resultado foi muito positivo, com grande crescimento econômico e avanço social e cultural.

Vejamos alguns dados

Apesar de todas as dificuldades que ocorreram, entre 1952 e 1978 (início das reformas pró-mercado), a produção industrial aumentou numa média de 9,4% ao ano. Como expressão disso, a produção de carvão cresceu 9 vezes, a de aço 32 vezes e a de energia multiplicou-se 36 vezes.

Durante aqueles 27 anos, o PIB chinês cresceu numa média de 6,2% ao ano, sendo que, nos últimos 10 anos antes das reformas pró-mercado, o PIB cresceu, em média, 6,8% ao ano.

Durante esse período, a população chinesa cresceu 57%, de 540 milhões para 950 milhões de habitantes e a expectativa de vida dobrou de 35 para 68 anos.

Isso foi reflexo da melhora exponencial na produção e nas condições de vida, alimentação, saúde e educação, direitos sociais e radical diminuição da desigualdade. Assim, a fome foi eliminada e houve uma significativa ampliação do mercado interno, da capacidade de produção e consumo de bens de consumo populares.

A juventude engajada na revolução.

Além disso, a China iniciou uma moderna indústria aeroespacial, enviando satélites ao espaço sideral, construindo uma potente Força Armada e fazendo testes nucleares, que foram necessários e suficientes para e inibir qualquer aventura militar imperialista, como as que aconteceram nos vizinhos Coreia e no Vietnã e outros países asiáticos.

Enfim, neste período a China consolidou um efetivo Estado soberano, depois de “Cem anos de Humilhação”. Portanto, o que veio após 1978 não partiu do zero. Ao contrário, partiu de grandes avanços já conquistados.

Mao Tsé-tung tinha consciência do risco de restauração do capitalismo na China e lutou contra isso enquanto pode. Sabia que o grande partido operário socialista alemão tinha sido corroído pela hegemonia burguesa e se adequado ao capitalismo, e que, na sua maneira de ver, também havia acontecido um retrocesso na transição ao socialismo na URSS. Portanto, o que ainda não tinha ocorrido na China, poderia vir a acontecer se fosse vitoriosa a linha de Liu Shaoqi, Deng Xiaoping e Xi Zhongxun, pai de Xi Jinping¹.

Note-se que, apesar de grandes conflitos e uma disputa muito dura após o “Grande Salto à Frente” e a “Revolução Cultural”, ocorreram muitos afastamentos de lideranças da ala direita do partido de posições de direção partidária e do Estado. Mas, como regra, sem medidas de condenações à prisão e muito menos execuções de dirigentes como havia acontecido no período stalinista na União Soviética. A maioria dos dirigentes da linha pró-desenvolvimento das relações capitalistas foi afastada dos postos dirigentes, mas se manteve no partido em posições nas bases partidárias e vinculados ao processo produtivo, muitos deles deslocados para o trabalho no campo.

Não foi o que aconteceu após a morte de Mao em 1976, quando lideranças da ala esquerda do partido, especialmente do chamado Grupo de Xangai, foram presas e duas delas condenados à morte, como Jiang Qing, membro do Secretariado do PCCh e companheira de Mao Tse-tung desde a Grande Marcha e que, posteriormente, teve a pena reduzida a prisão perpétua e morreu oficialmente por suicídio, em 1991.

O novo período da dominância do capital

Como sabemos, a China hoje é a segunda potência mundial, tem o maior PIB industrial, é a maior exportadora de mercadorias, grande exportadora de capitais, disputa a vanguarda tecnológica e tem a terceira capacidade bélica.

Mas, especialmente, nesta comemoração do 1º de outubro, cabe lembrar que o modelo atual foi uma ruptura com a transição ao socialismo desenvolvida sob a direção de Mao Tse-tung e discutir sobre a realidade da China atual, segundo o conceito de modo de produção. É crucial esclarecer a natureza do sistema social construído na China a partir de 1978.

A transição do capitalismo ao socialismo depende, entre outros aspectos, do nível de desenvolvimento das forças produtivas e da direção política dos trabalhadores, através do Estado e de suas próprias organizações. Assim, mercado, propriedade privada e relação com o mercado mundial podem ser fatores necessários à transição, como uma tarefa complexa.

Entretanto, na China, depois de 1978, o Partido-Estado deflagrou reformas que resultaram na predominância da propriedade privada dos meios de produção e prevalência da lógica de acumulação de capital. Em vez de crescente regulação da economia pela planificação no sentido do socialismo, os investimentos, a produção e o emprego são regulados pela lei do valor, segundo a finalidade do lucro.

Nesse cenário de prevalência da propriedade privada, há um caso exemplar, neste exato momento, sobre os limites da regulação estatal diante do impulso próprio da acumulação de capital: a crise da Evergrande.

Trata-se da segunda maior incorporadora imobiliária da China, com centenas de milhares de empregados. Esta gigantesca empresa privada entrou em colapso com dívidas impagáveis de cerca de US$ 300 bilhões de dólares. É patente que não se trata de um caso isolado, pois o endividamento grassa por muitas empresas e governos locais. 

É evidente que não é um problema que surgiu agora, decorre de um processo em que as condições, os recursos e as oportunidades foram colocadas tanto pelo mercado quanto pelo Estado para a ascensão da Evergrande. A cadeia de dívidas em cascata, em profusão, como se fosse uma pirâmide financeira, não foi contida pela mão do Estado. De certa forma, o Estado foi capturado pela ação da empresa. Não havia interesse de controle nesse sentido. Imóveis, obras de infraestrutura e projetos de urbanização são necessários para o crescimento econômico e empregos.

Nos limites das reformas de mercado, a forte e indiscutível regulação estatal chinesa serviu à implantação da economia capitalista, através de políticas industriais e tecnológicas, subsídios, incentivos fiscais, apoio às exportações, ao lado de mão de obra abundante, disciplinada e educada. Por isso, por exemplo, a China foi o país que mais atraiu capitais estrangeiros em 2020, superando os Estados Unidos.

Construiu-se, desde 1978, uma espécie de capitalismo de Estado, mas, na tentativa de provar que o regime ainda é socialista, recorre-se geralmente à argumentação sobre o poder de regulação e controle do Estado na economia, apontando para a propriedade estatal dos gigantescos conglomerados empresariais na produção e dos bancos. No entanto, este suposto predomínio estatal na economia é tão questionável quanto a operação reducionista que assimila socialismo a estatismo.

Há diferentes avaliações do tamanho dos setores privado e estatal na China, mas o traço comum, entre todas elas, é a predominância de empresas privadas. “Quanto as empresas estatais contribuem para o PIB e o emprego da China?”, pergunta o economista Chunlin Zhang (2019). Em suas estimativas, ele conclui “que a participação das estatais no PIB da China deve ser de 23-28% e sua participação no emprego pode estar em qualquer lugar entre 5% e 16% em 2017”.

As empresas estatais na indústria aumentaram sua produção em termos absolutos, no entanto, eles encolheram rapidamente em um sentido relativo, ao considerar que entre 1978 e 2015, o produto industrial do país cresceu 47 vezes, enquanto o produto das estatais cresceu 12 vezes, segundo Nicholas Lardy (2018).

No relatório do Quarto Censo Econômico Nacional, com dados do final de 2013 ao final de 2018, foi registrado que, neste último ano, mais de 84% das empresas chinesas eram privadas, sendo as outras estatais ou coletivas. Mas, 15,7% dos trabalhadores ocupados estavam em empresas estatais (China Daily, 2019).

Já pela análise de Branko Milanovic, “o papel do estado no PIB total, calculado a partir do lado da produção, é improvável que exceda 20%, enquanto a força de trabalho empregada nas estatais e empresas de propriedade coletiva é de 9% do emprego rural e urbano total” (Milanovic, 2019, p. 89).

A China sob Xi Jinping

As novas circunstâncias na China e no mundo exigiram novas formas de tratamento dos desafios chineses, segundo o governo de Xi Jinping. No decorrer da administração do presidente Hu Jintao (2003-2013), os líderes do PCCh tornaram-se plenamente conscientes do fato de que os antagonismos entre as classes sociais estavam se intensificando, ao lado das realizações econômicas significativas do desenvolvimentismo.

Claramente, nem Hu Jintao nem Xi Jinping reconheceriam isso. Pelo contrário, o slogan favorito era Sociedade Harmoniosa e Xi não se cansa de falar em Prosperidade Comum. O discurso público continua a propagar ilusões. No entanto, na prática, os líderes chineses estão sendo obrigados a voltar sua atenção para as explosivas desigualdades sociais de renda e riqueza, num país onde 1% das pessoas concentram 30% da riqueza, bem como eles aumentaram as referências ao marxismo.

Em fevereiro de 2021, o governo comemorou a vitória pela erradicação da pobreza absoluta na China. Mas as desigualdades e a pobreza permanecem alarmantes, como o primeiro-ministro chinês Li Keqiang reconheceu quando disse que 600 milhões de pessoas têm uma renda mensal de apenas ¥ 1.000 (US $141) que, segundo ele, é suficiente, com dificuldades, para apenas alugar um quarto em uma cidade de tamanho médio (China Daily, 2020).

“Expansão desordenada de capital” é o que vem acontecendo em alguns setores da China, nas palavras da reunião do Bureau Político do Comitê Central do PCCh em dezembro de 2020. Mas foi o próprio sistema Partido-Estado que impôs as reformas e políticas que levaram à “desordem”, ou seja, à realidade capitalista, com oligopólios, superlucros e irregularidades jurídicas e até a ascensão de bilionários nativos. Agora, o PCCh decidiu adotar medidas antitruste e prevenir os chamados distúrbios do capital de expansão. Assim, o governo implementou medidas regulatórias antitruste (contra a Ant, o braço financeiro do Alibaba, em 2020; outras grandes empresas de tecnologia como a Tencent; a Didi Global, um serviço de transporte tipo Uber; e escolas de reforço, em 2021).

A liderança chinesa deve explicar se eles acreditam que há uma expansão ordenada, harmoniosa e equilibrada dentro da economia capitalista, com mercado, propriedade privada, lucros. Com as políticas antitruste, as autoridades estão aparentemente buscando objetivos diferentes: aumentar o escrutínio governamental sobre as empresas, regular a concorrência, limitar as aquisições e fusões, evitar a dependência financeira e seus riscos para as empresas chinesas em relação aos mercados financeiros dos Estados Unidos e bloquear potenciais vulnerabilidades de segurança cibernética. O conflito com os Estados Unidos levou a China, em busca de autonomia, a aumentar a regulamentação de suas áreas tecnológicas e financeiras.

O novo cenário político na China, com o presidente Xi no comando, indica que os líderes chineses estão sendo forçados a lidar com os limites, contradições e perigos que aparecem quando o grande capital está dominando o navio. Os efeitos do processo para formar uma classe extremamente poderosa de chineses capitalistas, que possuem corporações que centralizam grandes quantidades de capital, estão gradualmente transbordando da economia para a política, ideologia e cultura.

*Renildo Souza é professor dos programas de pós-graduação em Relações Internacionais e Economia da UFBA. Autor de “Estado e Capital na China”, EDUFBA, 2018.

Jorge Almeida é professor associado de Ciência Política e dos programas de pós graduação em Ciências Sociais e Ciência Política da UFBA.

¹Pouco lembrado, Xi Zhongxun ocupou cargos importantes até a Revolução Cultural, quando foi afastado de funções dirigentes. Depois do início das reformas de mercado, voltou a posições dirigentes no partido e no estado, sendo um dos mais entusiastas da nova linha.  

Referências:

China Daily. (2019, November 28). Over 84% of companies in China are private.

http://www.china.org.cn/business/2019-11/28/content_75457219.htm

China Daily. (2020, June 10). Challenge remains as nations tries to scrap

absolute poverty. https://www.chinadaily.com.cn/a/202006/10/

WS5ee02eafa310834817251f8b.htm

CHUNLIN, Zhang. How Much Do State-Owned Enterprises Contribute to China’s GDP and Employment? World Bank, Washington, DC. July 15, 2019. Disponível em: http://hdl.handle.net/10986/32306. Acesso em 20 dez. 2020.

LARDY, Nicholas. Private sector development. In: GARNAUT, Ross.; LIGANG, Song; CAI, Fang. (Eds.). China’s 40 years of reform and development. Canberra: Australian National University Press, p. 329-342, 2018.

______. The state stikes back. The end of economic reform in China? Washington, DC: Peterson Institute for International Economics, 2019.

MILANOVIC, Branko. Capitalismo, nada más: el futuro del sistema que domina el mundo. Barcelona: Taurus, 2020.

Edição: Página 1917

Fonte: https://outraspalavras.net/geopoliticaeguerra/revolucao-chinesa-72-o-papel-indispensavel-de-mao/


 


quinta-feira, 23 de setembro de 2021

Trajetória de um Heroi

Jacob Gorender - 2005

Filho de general, não seria de estranhar que o jovem Apolonio de Carvalho¹ também seguisse a carreira militar. Assim, no começo da década de 30 do século passado, vestia a farda de tenente do Exército brasileiro. Manifestou, porém, desde cedo, simpatia pelas forças políticas da esquerda brasileira e, em 1935, ingressou, clandestinamente, na Aliança Nacional Libertadora (ANL), frente das correntes unidas para combater o governo de Getúlio Vargas.

 

Apolonio de Carvalho

Integrado numa unidade militar em Bagé, no Rio Grande do Sul, participou dos levantes armados da ANL em Natal, no Recife e no Rio de Janeiro. Mas, envolvido na conspiração aliancista, foi preso em janeiro de 1936 e, em abril, expulso do Exército. Mas logo encontrou campo apropriado para sua combatividade. 

Na Espanha, iniciara-se a guerra civil que fez o governo legal republicano se enfrentar com a insurgência do general Francisco Franco, apoiado pela Alemanha nazista e pela Itália fascista. Em defesa do governo republicano espanhol, formou-se, com amplitude mundial, uma legião que convocou militantes do mundo inteiro à luta antifascista no solo ibérico. Apolonio atende ao apelo e viaja para a Espanha. Sua formação militar permite que assuma o comando de uma bateria de artilharia do Exército republicano, no posto de capitão, em oposição ao avanço franquista. 

A derrota dos antifranquistas, em 1939, o levou, com milhares de companheiros, a atravessar a fronteira e passar para o território francês. Ali, foi internado num campo de prisioneiros. Inconformado e seguindo o impulso incessante de lutador, foge do campo e, em 1942, vincula-se à Resistência dos franceses contra o ocupante nazista. A destacada atuação na luta clandestina, que contribuiu para a libertação da região de Toulouse, levou o comando da Resistência a promovê-lo ao posto de coronel e motivou o governo francês, após a libertação do país, a conferir-lhe a condecoração da Legião de Honra. 

Na França, Apolonio vem a conhecer Renée, também militante, e com ela se casa, tornando-se seu companheiro até o fim da vida. O casal tem dois filhos (René Louis e Raul). 

Em 1946, Apolonio e família se transferem para o Brasil e o combatente das guerras na Espanha e na França se integra ao Partido Comunista do Brasil (PCB). Torna-se presidente da União da Juventude Comunista e se dedica a tarefas de ensino doutrinário, inclusive escrevendo artigos para a imprensa partidária. 

Militante incansável, Apolonio se faz presente e atuante em todas as campanhas e lutas do PCB, de 1947, quando o partido tem o registro legal cassado, a 1964, quando um golpe militar, apoiado nas forças civis de direita e, particularmente, nas correntes conservadoras da Igreja Católica, derruba o governo de João Goulart e instaura uma ditadura militar que se prolongaria durante 21 anos. 

Mais uma vez na clandestinidade, atuando no estado do Rio de Janeiro, Apolonio, inconformado com a passividade da direção do PCB, desliga-se do partido em 1967, juntamente com Carlos Marighella, Mário Alves e outros dirigentes. Em 1968, acompanha Mário Alves na fundação do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), que pretende desenvolver uma ação armada apoiada nas lutas de massas, diferenciando-se das numerosas organizações que praticavam assaltos e atentados sem nenhuma repercussão no movimento operário e popular.

Para desenvolver lutas de massas, em condições sumamente desfavoráveis, Apolonio permanece no posto de combate, assumindo riscos temerários. 

Em janeiro de 1970 é preso por agentes policiais. Submetido a torturas, comporta-se com firmeza exemplar e não cede a mínima informação aos torturadores. Não se verga nem se quebra. Sua prisão duraria poucos meses. Em junho do mesmo ano um comando da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) sequestra o embaixador da Alemanha e exige, em troca de seu resgate, a libertação de quarenta presos políticos, fornecendo uma lista na qual figura o nome de Apolonio. O governo Médici cede à exigência e Apolonio viaja para a Argélia, seguindo dali para a França. Dedica-se a dar conferências em vários países europeus, nas quais desmascara a propaganda da ditadura militar brasileira e revela as condições de feroz repressão policial, que resultam em torturas e assassinatos de centenas de cidadãos brasileiros. 

A anistia de 1979 permite que Apolonio e família regressem ao Brasil no ano seguinte. O combatente de sempre não interrompe a militância e dá contribuições importantes para a história política brasileira. Em 1980, faz parte dos fundadores do Partido dos Trabalhadores, no qual milita até o fim da vida. Em 1977 escreve o livro Vale a Pena Sonhar, editado pela Rocco, no qual expõe uma visão do socialismo organicamente democrático e esclarece várias questões relacionadas com sua trajetória de lutador. 

Apolonio de Carvalho era um homem sempre cordial, sempre amável, com os companheiros e com as pessoas amigas, conhecidas e desconhecidas. Nunca se exaltava nas discussões nem ofendia quem divergisse de suas posições. Era, mais que tudo, por convicção e temperamento, um otimista. Nas piores circunstâncias e diante de derrotas graves, sempre encontrava algum aspecto que podia ser considerado positivo, que podia significar um ganho para as organizações empenhadas na vitória da democracia e do socialismo. Uma ocasião, em sua casa no Rio de Janeiro, permiti-me dizer-lhe, com uma ponta de humor, que ele era um otimista profissional.


¹Apolonio de Carvalho (Corumbá, 9 de fevereiro de 1912 — Rio de Janeiro, 23 de setembro de 2005), tenente do exército brasileiro, militante do PCB, participou de levante militar da ALN em 1935, foi preso pelo governo Getúlio, combatente das Brigadas Internacionais na Guerra Civil Espanhola e herói da Resistência Francesa, durante a Segunda Guerra Mundial. Depois do golpe militar de 1964, Apolonio rompe com PCB e participa da fundação do PCBR ao lado de Mario Alves e Jacob Gorender, preso pela ditadura, é libertado junto com outros 39 presos políticos brasileiros, trocados pelo embaixador da Alemanha Ocidental, Ehrenfried von Holleben, sequestrado no Rio de Janeiro, numa ação conjunta da Ação Libertadora Nacional (ALN) e da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), na volta do exílio, em 1979, participa da fundação do PT.

Edição: Página 1917

Fonte: https://www.marxists.org/portugues/gorender/2005/11/01.htm



China e a "Prosperidade Comum"

Michael Roberts -14/09/21


Gigante  do  mercado imobiliário chinês balança.

Em maio, o governo chinês estabeleceu uma zona especial para implementar a "prosperidade comum" na província de Zhejiang, onde também estão localizadas as sedes de várias grandes empresas de Internet, incluindo a Alibaba. E no mês passado, o presidente chinês Xi Jinping anunciou planos para espalhar "prosperidade comum", anunciando uma dura  repressão às elites ricas , incluindo  crescente grupo de bilionários de tecnologia da China. Em sua reunião de agosto, o Comitê Econômico e Financeiro Central, presidido por Xi, confirmou que a "prosperidade comum" era "um requisito essencial do socialismo" e deveria ser acompanhada de um crescimento de alta qualidade. 

Nas últimas duas semanas, a administração tributária prometeu reprimir os sonegadores e multou Zheng Shuang, uma das atrizes mais populares do país, em US $ 46 milhões por sonegação de impostos. A Suprema Corte proibiu a semana de trabalho de 72 horas, comum em muitas empresas do setor privado. E o Ministério da Habitação disse na terça-feira que limitará os aumentos anuais dos aluguéis residenciais em 5 por cento. E uma nova camada de funcionários foi presa por corrupção.

Além disso, o governo está se movendo para restringir as empresas nacionais de listar nas bolsas de valores dos EUA, uma medida que ameaça restringir o crescimento de empresas de tecnologia que passaram a simbolizar as taxas recordes de crescimento econômico da China e o surgimento de líderes de empresas ricas. Os anos de especulação desenfreada por empresas privadas multibilionárias em parceria com algumas autoridades locais e nacionais para fazer o que quiserem, incluindo a usurpação do controle estatal do sistema bancário de varejo, acabaram.  

Bilionários em geral, e os mega-ricos beneficiários da indústria de tecnologia em particular, agora lutam para apaziguar o partido com doações de caridade e mensagens de apoio. O site de comércio eletrônico listado na Nasdaq, Pinduoduo, prometeu no início deste ano doar seus ganhos do segundo trimestre e todos os ganhos futuros para ajudar o desenvolvimento agrícola da China até que as doações atinjam pelo menos US $ 10 bilhões de yuans (US $ 1,5 bilhão). A mudança fez com que suas ações subissem 22%. A Tencent, listada em Hong Kong, lendo os mesmos sinais de Pequim, reservou 50 bilhões de yuans para programas de bem-estar que apoiam comunidades de baixa renda, elevando os compromissos filantrópicos deste ano para um total de 15 bilhões de dólares.

O anúncio dos planos de "prosperidade comum" foi precedido pela prisão do secretário-geral do Partido Comunista de Hangzhou (capital de Zhejiang), Zhou Jiangyong, por funcionários anticorrupção. Há rumores de que seus parentes enriqueceram investindo em ações locais da Internet.

quinta-feira, 16 de setembro de 2021

O povo, enquanto coletivo, não tem solução para os flagelos do capitalismo, do imperialismo, da guerra, porque é um aglomerado de classes com interesses diversos.

 Francisco Martins Rodrigues*


     É sem dúvida louvável este desejo de ver todas as forças antifascistas e anti-imperialistas unidas numa frente comum. Mas os bons desejos em política não são nada. Que objetivos fixar, que relações estabelecer entre as classes populares, para tornar possível uma luta eficaz, vitoriosa, contra a reação e o imperialismo? Esta é a única forma séria de pôr a questão em termos de marxismo.


Francisco Martins Rodrigues


     Raspemos a casca do bom-senso unitário, para lhe procurar o miolo de classe. «Unidade a todo o preço em torno dos objetivos comuns», «valorizar aquilo que une, pôr de lado tudo o que divide», «democracia, paz, independência, primeiro, a revolução virá depois», «democracia popular, um degrau para o socialismo» o que significa? Significa procurar, em cada situação, o máximo divisor comum das forças populares. Ou seja, alinhar o povo pelo nível mais moderado, comum a todos. Ou seja, pôr de lado os objetivos revolucionários da classe operária, que, obviamente, não são comuns.

     Pode objetar-se que a perspectiva unitária de Cunhal, em 1975, com a «batalha da produção pelo socialismo», era de qualquer modo muito mais avançada, do que a «Unidade dos portugueses honrados» de 1949. É certo. O unitarismo democrático e popular não é rígido. Pelo contrário, é extremamente flexível, elástico, criador, o que lhe permite acompanhar as grandes convulsões de massas. É esse outro segredo da sua vitalidade. Mas, por mais elástico que seja, há um limite ideal para que ele parece tender, mas que nunca atingiu e que, pelo contrário, bloqueia: a revolução proletária.

     O apelo para a «unidade a todo o preço contra a reação, a guerra e o imperialismo» veicula, pois, a exigência, não da Unidade, mas de uma certa unidade: unidade em torno das reivindicações limitadas da pequena burguesia, comuns a todo o povo, sacrificando para tal as reivindicações revolucionárias da classe operária. É este o sumo de classe do pensamento dimitroviano. É esta a fonte da sua fácil popularidade, que lhe assegura uma reprodução espontânea e diária em larga escala.

     Assim, a lógica unitária que funciona hoje automaticamente em todos os campos da luta de classes, política, econômica ou ideológica, é fácil de resumir: «Os operários que sacrifiquem (só por agora, claro!) uma parte das suas exigências, se não querem ficar isolados». É um ultimato. Que está presente, sem precisar de ser mencionado, nas manifestações pela liberdade como na negociação de um contrato coletivo, nas marchas da paz como na abstenção tácita de toda a crítica à religião, à família, à nação, à propriedade privada.

     Unidade pelo fim dos monopólios, do fascismo, da guerra, pela independência da nação, por uma democracia popular. Unidade até mesmo pelo socialismo, desde que seja «popular». A revolução proletária é que não tem aí lugar. Como poderia tê-lo, se não é uma questão comum ao povo?

     No tempo de Lenin, é sabido, a revolução russa fez-se com uma outra lógica. O povo, enquanto coletivo, não tem solução para os flagelos do capitalismo, do imperialismo, da guerra, porque é um aglomerado de classes com interesses diversos. O povo precisa do socialismo, mas só pode encontrá-lo se for arrastado pela dinâmica revolucionária da classe operária. E a classe operária só pode encontrar a via do socialismo e arrastar consigo o povo se for arrastada pela dinâmica revolucionária da sua vanguarda, capaz de assimilar o marxismo. A minoria, avançando para o seu alvo consciente, ganhará a maioria. Os objetivos gerais da luta não têm que ser fixados pelo máximo denominador comum, mas pelo conhecimento das tarefas objetivas que se colocam à sociedade. Cada luta particular, imediata, comum a todo o povo, em si mesma nada vale se não servir para acelerar o alinhamento das forças antagônicas dispostas a bater-se pela direção da sociedade. Por isso, o proletariado tem que se demarcar da pequena burguesia, a revolução tem que crescer à custa do reformismo, etc., etc.

     Porque deixou esta lógica, aparentemente, de servir? Porque «o mundo mudou», ou porque a classe operária foi submergida pela ideologia pequeno-burguesa? A ideia leninista de hegemonia do proletariado foi de fato ultrapassada pela História, ou está soterrada sob uma avalanche de democratismo reformista? Vivemos hoje uma etapa superior, de luta mais vasta contra o imperialismo, ou recuamos para uma plataforma mais estreita, cega, impotente? Há alguma esperança para o combate democrático unitário, ou ele é só um alçapão por onde se escoam continuamente as potencialidades revolucionárias do movimento operário?

     Para todos aqueles que já se libertaram dos «dogmas» marxistas (e que servem alegremente a ditadura «democrática» da burguesia), estas perguntas não passam de extravagâncias doutrinárias, que nem merecem refutação. Mas é instrutivo observar como os ditos «marxistas-leninistas» (revisionistas e anti-revisionistas) resolvem a dificuldade de associar Dimitrov com Lenin.

     Por estranho que pareça, a divisão do movimento comunista em campos antagônicos desde os anos 60 não beliscou o dimitrovismo. Revisionistas da escola soviética e «ortodoxos» da linha chinesa-albanesa, embora travando uma batalha furiosa em torno de Stalin e do «stalinismo», renegado por uns, exaltado pelos outros, mantiveram-se de acordo quanto às ideias políticas de Dimitrov.

     Uns e outros coincidem na opinião de que o 7.º congresso da Internacional Comunista fez uma aplicação criadora do leninismo nas novas condições históricas, deu nova vitalidade ao movimento comunista e proporcionou grandes êxitos aos povos. Uns e outros defendem a política das Frentes Populares, divergindo, quando muito, no que toca à sua aplicação. Uns e outros atacam como «dogmáticas», «sectárias» e «trotskistas» as objecções que eventualmente se manifestam a essa política.

     Existe de fato uma guerra entre revisionistas e anti-revisionistas acerca de Dimitrov, mas apenas para saber a quem pertence de direito a sua herança.

*Francisco Martins Rodrigues (1927 — 2008) 

Fonte: Anti-Dimitrov: 1935-1985 Meio Século de Derrotas da Revolução, Editora Ulmeiro, Portugal, 1985.

Edição: Página 1917

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