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sexta-feira, 6 de setembro de 2024

Sobre a guerra no Oriente Médio

Artigo da seção de relações internacionais do CC do Partido Comunista da Grécia (KKE)


Gaza, genocídio, destruição e resistência (foto: Saleh Najm e Anas Sharif)


     Nos últimos meses, toda a humanidade testemunhou um ataque generalizado lançado pela máquina político-militar do Estado israelense contra o povo palestino, tendo a Faixa de Gaza como o seu principal alvo. É inútil para a maioria dos meios de comunicação burgueses, que apoiam Israel, tentar convencer as pessoas de que tudo começou em 7 de Outubro de 2023, quando o Hamas lançou um ataque a Israel, matando e capturando reféns israelenses. A grande maioria das pessoas sabe que o Estado burguês israelita, com o apoio dos Estados Unidos e dos seus outros aliados europeus, ocupou durante sete décadas os territórios onde, de acordo com as resoluções da ONU, o Estado da Palestina deveria ser estabelecido, e que oprime o povo palestino.

     O “apetite” voraz do Estado burguês israelense pelos territórios palestinos foi aberto pela divisão das terras palestinas em 1947-1948, por uma resolução da ONU, que estabeleceu o Estado de Israel, abrindo o caminho para a ocupação progressiva dos territórios palestinos por este último. A partir de então, milhões de palestinos foram expulsos das suas terras. Isto é um verdadeiro desenraizamento, uma apropriação de terras planejada e um deslocamento de uma população de 6 a 7 milhões de pessoas, ou mais. Israel assumiu o controlo de 774 cidades e aldeias palestinas, das quais 531 foram completamente destruídas e o resto ficou sob o controle do Estado ocupante. Milhões de pessoas que aí permaneceram, seja na Cisjordânia, onde está localizada a sede da Organização para a Libertação da Palestina, ou na Faixa de Gaza, viveram durante gerações sob um verdadeiro regime de exclusão, privação, discriminação, humilhação, em uma palavra, apartheid. Na verdade, cerca de 40% da Cisjordânia, que também está dividida em 3 “zonas de segurança” pelas forças de ocupação, já está hoje nas mãos dos colonos, que aumentaram sete vezes desde a assinatura dos acordos de colonização de Oslo em 1993, passando de 115 mil colonos para 750 mil. Ao longo do tempo, Israel violou todos os direitos do povo palestino e opôs-se a qualquer possibilidade de criação de um Estado palestino ao seu lado, conforme previsto nas resoluções da ONU. É característico que Netanyahu tenha discursado no ano passado na Assembleia Geral das Nações Unidas exibindo um mapa futuro do "novo Médio Oriente", sem, claro, um Estado palestino. Além disso, ao longo dos anos, Israel adotou medidas legislativas para se estabelecer como um “Estado Judeu”, violando todos os direitos de milhões de outras pessoas que vivem neste país de outras origens étnicas, outras tradições religiosas e culturais. Ele procura oprimi-los, exterminá-los e exilá-los. Mesmo no nosso país, os dados mostram que o maior número de perseguidos, que chegam como imigrantes, são provenientes da Palestina, o que não é uma coincidência.

    Este desenvolvimento suscita a reação das pessoas, bem como dos Estados e potências vizinhos. O “emaranhado” de contradições está a aumentar e o “fogo” da guerra ameaça engolir outros países. O Iémen (houthis) e o Irã já estão envolvidos, enquanto as hostilidades entre Israel e o Hezbollah libanês se intensificam, causando centenas de mortes no sul do Líbano (455 pessoas) e em Israel (25 pessoas), deslocando 150.000 israelenses do norte de Israel, bem como o deslocamento de dezenas de milhares de libaneses que vivem em regiões próximas da fronteira com Israel. [1] Deve-se notar que nos conflitos com o Hezbollah, o uso “generalizado” de munições de fósforo branco proibidas pelo exército israelense foi relatado em pelo menos 17 regiões do Sul do Líbano desde Outubro de 2023, mesmo em áreas densamente povoadas.

terça-feira, 3 de setembro de 2024

Convulsão, colapso e debate na esquerda venezuelana

Modesto Emílio Guerrero*
02/09/2024

Como se para a Venezuela faltassem crises, surgiu  uma outra, a político-ideológica.




Sua ampla e variada esquerda decidiu acrescentar sua própria convulsão.

Em 5 de maio, um grupo de ex-líderes guerrilheiros desgastados do partido maoísta Bandeira Vermelha concordou, através de um documento com González Urrutia e Corina Machado, em apoiar a candidatura presidencial.

Liderado pelo ex-comandante Gabriel Puerta, este grupo entende que a expulsão de Maduro do governo é razão suficiente para justificar o seu pacto com uma corrente de extrema direita e agente confesso de Washington e do seu Comando Sul, como o de Corina Machado.

Esta arrojada e valente mulher é a herdeira de um dos mais poderosos “Amos do Vale”. Com esta definição, o romancista Fco. Luque retratou, com luxo literário, os crimes, a autoconfiança e a brutalidade da classe que compunha a burguesia lumpen venezuelana do século XX.

Corina foi tão longe que transformou Leopoldo López, Capriles e os generais e coronéis com quem compartilhou golpes, guarimbas, rebeliões armadas, assassinatos de chavistas, incêndios de edifícios públicos em cerca de dez conspirações desde 2001, em querubins pacifistas.

terça-feira, 27 de agosto de 2024

Chico de Oliveira, uberização e informalidade digital

A jornada de trabalho — e os direitos inerentes a ela — tornou-se um obstáculo para a acumulação do capital, de modo que tende a ser paulatinamente desconstruída.

Matheus Silveira de Souza* - 11/07/2024

Se a configuração atual do mundo do trabalho não foi constituída a partir de grandes rupturas, mas é fruto de mudanças moleculares, que foram ocupando progressivamente os poros do universo laboral, alguns mestres do pensamento social brasileiro identificaram certas tendências quando elas ainda eram embrionárias e pouco perceptíveis, como é o caso de Francisco de Oliveira.


No clássico texto O Ornitorrinco, Chico de Oliveira identifica uma tendência progressiva de desaparecimento da jornada de trabalho, pois essa seria um obstáculo para o aumento da produtividade do capital. Segundo Chico, o aumento da produtividade depende da diminuição entre o tempo de trabalho total e o tempo de trabalho de produção. Isso porque, o capital tem uma luta constante para tentar diminuir a distância entre o tempo de trabalho e o tempo de não trabalho. Em termos didáticos, imaginem um trabalhador de escritório, assalariado, que dispõe de uma jornada diária de 8 horas. É óbvio que o indivíduo não produzirá durante as suas 8 horas de trabalho, pois será remunerado em momentos de não trabalho durante a jornada (idas ao banheiro, uso do celular, períodos ociosos e sem demanda, etc.).

domingo, 25 de agosto de 2024

Eleições e gestão da barbárie

Ney Nunes

25/08/2024

"Para manter sua hegemonia a burguesia necessita cada vez mais combinar contenção e repressão sobre uma sociedade mergulhada na violência cotidiana, onde milhões de pessoas são postas à margem do sistema, sobrevivendo na dependência de migalhas do Estado e de organizações filantrópicas."




Um frenesi toma conta da mídia e das redes sociais, novamente eleições e, desta vez, a sangrenta disputa é pelos cargos municipais. Nas regiões metropolitanas das grandes cidades "sangrenta" não é figura de linguagem, os atentados a bala contra candidatos são rotineiros. Rotineiras e repetitivas também são as velhas promessas, turbinadas por novas lorotas marqueteiras. Esse é o caldo de cultura de um sistema decadente  que segue acelerado em direção à barbárie e necessita continuamente domesticar as massas para a burguesia continuar sugando delas seus fabulosos lucros.

Não faltam receitas, velhas ou novas, visando melhorar "transportes", "habitação, "saúde", "educação" e etc., como se a mudança efetiva nas condições de vida das massas populares dependesse apenas da tal "vontade política" dos governantes. Como se tudo na sociedade burguesa não fosse regido pela dominação de classe, pelo objetivo de manter essa dominação e extrair a maior rentabilidade de todas as atividades possíveis. Por essa razão, o bem comum da coletividade é sempre deixado em último plano.

Para manter sua hegemonia a burguesia necessita cada vez mais combinar contenção e repressão sobre uma sociedade mergulhada na violência cotidiana, onde milhões de pessoas são postas a margem do sistema, sobrevivendo na dependência de migalhas do Estado e de organizações filantrópicas. Cresce assim o peso do lumpesinato na população. O volume da crise social transborda e os presídios, vistos também como fonte de lucros através da terceirização e privatização, estão superlotados. O judiciário, ciente disso, aplica tornozeleiras eletrônicas como paliativo. A repressão nas favelas e periferias também foi terceirizada, tropas regulares do Estado policial burguês agora dividem espaço com narcomilícias que controlam negócios e territórios.

É nesse tecido social apodrecido que viceja a extrema-direita, aqui entre nós conhecida como bolsonarismo. Um movimento político burguês, amálgama de bandidos, oportunistas e fascistas que tiram vantagem do desespero da população acuada entre a violência policial e o banditismo. Essa camarilha também tem suas "receitas". Exploram a podridão da democracia burguesa em proveito próprio, passando a falsa imagem de patriotas e contestadores do sistema, quando, na verdade, não passam de marionetes de algumas facções das classes dominantes, entreguistas e vassalos do imperialismo.

Da mesma forma, não faltam também os reformadores do sistema. Aqueles oportunistas que almejam se eleger jogando ilusões nos olhos das massas e legitimam com sua ação a democracia burguesa. Trazem a receita reciclada do desenvolvimentismo, da cidadania e dos gastos sociais, ou seja, querem dourar a pílula do capitalismo. Bastaria para tanto uma gestão mais humana dos negócios do Estado burguês. Apontam como vilão da vez o "Teto de Gastos" que estaria na raiz de todos os males. Rompendo esse teto, haveria recursos para investir no "social". Esquecem de dizer que, com teto ou sem teto, o orçamento público é insuficiente porque na atual etapa do capitalismo a maior parte dos recursos públicos é drenada em proveito direto ou indireto dos interesses empresariais. O que advogam, na verdade, é melhor distribuição das migalhas. São candidatos a meros gestores da barbárie capitalista.


Edição: Página 1917  



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