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sexta-feira, 12 de julho de 2024

A Greve Ignorada

Ney Nunes

"A forte e valente greve dos metalúrgicos da Renault não foi ignorada por acaso, resultou da prioridade dada aos setores sindicais de classe média e aos movimentos identitários por aqueles que, do alto da sua arrogância, se dizem "vanguarda da revolução brasileira" ."

 

Os metalúrgicos da Renault no Paraná protagonizaram em maio um duro embate contra a multinacional francesa. Fora do noticiário local, pouco ou quase nada se ouviu falar sobre essa importante batalha da classe operária. Mesmo a autoproclamada "esquerda revolucionária" a ignorou por completo.


Greve Renault
Metalúrgicos da Renault decidem pela greve.

A greve, que durou um mês, enfrentou a clássica intransigência da patronal que está sempre em busca de aprofundar a exploração dos seus trabalhadores, além do respaldo canino da "justiça" do trabalho que decretou a greve ilegal e aplicou multa diária de 100 mil reais por dia ao sindicato da categoria.

A direção do sindicato dos metalúrgicos, filiado a Força Sindical, considerou que o acordo assinado após a greve "contém avanços", quando na verdade, excluindo o aumento no vale mercado para R$ R$ 1.400, de resto não houve avanço algum. Os salários foram reajustados pelo INPC + 0,5% e as novas contratações ficaram limitadas a 100 quando a reivindicação eram 300, mantendo assim o ritmo absurdo de produção exigido pela Renault que vem adoecendo os trabalhadores. 

Avaliando o movimento, podemos constatar que os bravos metalúrgicos paranaense enfrentaram a um só tempo a patronal, a justiça burguesa e a quinta coluna instalada no sindicato. Foi a consciência de classe e a determinação dos operários que impediu uma derrota completa, possibilitando  assim a emergência de uma nova vanguarda entre os metalúrgicos.

A forte e valente greve dos metalúrgicos da Renault não foi ignorada por acaso, resultou da prioridade dada aos setores sindicais de classe média e aos movimentos identitários por aqueles que, do alto da sua arrogância, se dizem "vanguarda da revolução brasileira" .

As ditas organizações da "esquerda revolucionária" que se limitam a escrever extensos programas de intenções e a fazer proselitismo  nas redes sociais vão continuar refletindo o gueto pequeno-burguês identitário onde estão atoladas. E por mais histriônicas que sejam, elas é que acabarão por ser ignoradas pelo inevitável avanço da luta proletária em nosso país.


Edição: Página 1917

segunda-feira, 8 de julho de 2024

Frente Popular — Os Comunistas a serviço da Democracia Burguesa

As recentes eleições na França despertaram atenção e geraram muitas expectativas entre aqueles que empunham ou, pelo menos, dizem empunhar a bandeira da revolução socialista. Face ao crescimento eleitoral dos partidos neofacistas, o resultado obtido pela denominada Nova Frente Popular (NFP) tem sido objeto de comemorações apressadas e injustificadas. Esse bloco eleitoral da NFP reúne desde apoiadores da OTAN até defensores das reformas que atacam direitos duramente conquistados pelos trabalhadores franceses. Portanto, a ascensão dessa frente nas ultimas eleições não significa um enfraquecimento da extrema direita, que por sinal aumentou bastante sua representação no parlamento francês e europeu e muito menos enfraquece a hegemonia burguesa no interior do Estado imperialista francês.

Tentando contribuir para o esclarecimento sobre o significado dessa tática política das "Frentes Populares" e dos resultados advindos da sua aplicação, publicamos abaixo um pequeno enxerto do livro "O Anti-Dimitrov" de Francisco Martins Rodrigues.


 

 Francisco Martins Rodrigues*

A política de frente popular foi a grande criação histórica do 7.º congresso da III Internacional Comunista (IC). Surpreendentemente, apenas três páginas do relatório de Dimitrov lhe são dedicadas. Mais estranho ainda, nelas não se encontra qualquer justificação de princípio para a virada que levou os partidos comunistas a alterar tão radicalmente a sua atitude face ao reformismo e ao democratismo burguês.

Isto não significa contudo que Dimitrov não tenha justificado à sua maneira a nova política. Ao longo do relatório foi introduzindo, como se se tratasse de evidências indiscutíveis, uma série de pontos de vista novos acerca das relações entre as classes na época do fascismo, as quais conduziam indiretamente à conclusão de que já não tinha validade o conceito leninista de hegemonia do proletariado.

A nossa tarefa consiste portanto, antes de mais, em pôr a descoberto os pressupostos de classe em que assenta a política dimitrovista de frente popular, para lhes medir a solidez, à luz do leninismo. Pressupostos de classe que só se encontram se passarmos para além da aparência exterior da argumentação, recheada de expressões marxistas-leninistas e de testemunhos de fidelidade aos interesses da classe operária e da revolução, para a lógica interna do raciocínio. Só então estaremos em condições de descobrir porque é que as profissões de fé “bolcheviques”, “leninistas-stalinistas” de Dimitrov redundaram em soluções políticas tão abertamente oportunistas como os pactos com os partidos burgueses, os governos de coligação, a dissolução da corrente sindical revolucionária, a fusão do partido comunista com a social-democracia, o aprisionamento da luta de classe do proletariado nos limites da democracia burguesa.

quarta-feira, 3 de julho de 2024

O direito de greve foi abolido no Brasil

Assembleia dos rodoviários de São Paulo.


Estava anunciada para hoje uma greve dos trabalhadores em empresas de ônibus urbanos de São Paulo. As manchetes da mídia burguesa falavam em "greve de ônibus", esquecendo que ônibus ou qualquer outra máquina não faz greve. Quem faz greve são os seres humanos obrigados a vender sua força de trabalho para sobreviver, eles pertencem a uma classe social denominada "classe trabalhadora". 

A mesma notícia, informa que uma decisão da  "Justiça" determinou que, em caso de greve, 100% da frota de ônibus opere nos horários de pico e que nos demais horários, pelo menos 50% dos coletivos devem circular. Determina ainda que o sindicato sofrerá multa diária de R$ 100 mil caso descumpra a ordem judicial.

Decisões judiciais como esta vem sendo aplicadas faz tempo, sejam em greves no setor público ou privado. Os sindicatos ficam assim encurralados pelo poder judiciário. Se cumprem a decisão judicial, a greve passa a não ter praticamente nenhuma efetividade, não alcançando seu objetivo de pressionar os patrões por uma negociação mais favorável. Em caso de descumprimento, o sindicato pode ter suas finanças arruinadas e seu funcionamento inviabilizado. Na prática, portanto, o direito de greve inscrito na constituição é abolido por decisões do poder judiciário.

Os trabalhadores não devem se iludir, esta denominada "democracia" não tem nada de democrática. A constituição e as leis só valem enquanto interessam à classe dominante que tudo controla. Vivemos na verdade é uma ditadura dos capitalistas. E ditadura não pode ser enfrentada apenas "por meios legais", porque suas instituições e suas leis não são legítimas. Se os sindicatos que representam os trabalhadores estão impedidos de fazer greve, que as greves sejam feitas pelos comitês de luta e mobilização eleitos e organizados nas assembleias. Era dessa forma que se fazia quando os sindicatos estavam proibidos ou sob intervenção, é assim que precisamos fazer na atualidade se quisermos avançar na luta por melhores salários e condições de trabalho.

 





terça-feira, 2 de julho de 2024

O Marxismo e a Questão Nacional

Andrés Nin*

1935

O problema de emancipação das nacionalidades oprimidas, particularmente agravado depois da guerra imperialista de 1914-1917 (que destruiu o monstruoso império plurinacional austro-húngaro em troca da balcanização da Europa, cheia de perigos e ameaças para a paz mundial), oferece indiscutível interesse para o movimento operário, que não pode desvincular-se de nenhum aspecto da luta emancipadora dos homens e dos povos e, em especial, para aqueles países que, como o nosso, já o expuseram tão vivamente.


Andrés Nin discursa em 15 de novembro de 1936, durante a Guerra Civil Espanhola, sob proteção da guarda da milícia feminina do POUM.


A revolução social não se processa em linha reta, não é o Grand Soir, com que sonhavam os revolucionários ingênuos do século passado, a destruição espetacular do regime capitalista, como consequência de um ato de força breve e decidido, e a substituição quase automática da velha por uma sociedade mais justa e mais humana, surgida num abrir e fechar de olhos com todos os atributos de um mecanismo perfeito e regular.

Por mais surpreendente que pareça e apesar da experiência dos últimos anos, esta concepção ingênua e falsa ainda continua bem viva na consciência de numerosos militantes do movimento operário de nossos dias. Ela os impede de rechaçar todas as ações que não comportem, de maneira imediata, esta "revolução" maravilhosa que realizará a transformação catastrófica e radical da sociedade em vinte e quatro horas. Nem é preciso salientar que revolucionários desta categoria consideram com altivo menosprezo ou com absoluta indiferença problemas como o da libertação das nacionalidades oprimidas.

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