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domingo, 1 de outubro de 2023

Carta aos Dirigentes e Militantes do PCB*

    


    *Essa carta foi enviada ao Comitê Central do PCB em 18 de agosto de 2020, nela eu comunicava minha saída do CC e do partido, explicando as razões da decisão. O texto não foi divulgado pela direção, permanecendo assim desconhecido pela grande maioria dos militantes. Decorridos três anos, resolvi torná-la pública na íntegra, por acreditar que possa trazer alguma luz sobre o processo que desaguou na recente crise do PCB. 

    Naquela ocasião, conforme explico em detalhes na carta, a maioria do CC já tinha colocado na gaveta os pressupostos da política de Reconstrução Revolucionária instituídos no XIV e XV congressos assim como em resoluções anteriores do próprio CC. O descumprimento das diretivas emanadas pela instância máxima do partido era consequência natural do giro político à direita iniciado pela direção alguns anos antes, em 2016.

    O conluio entre reformistas e oportunistas consolidou essa maioria vigente até hoje no Comitê Central, composta de dirigentes acomodados e adaptados à institucionalidade burguesa. Sua política de direita, os seus métodos burocráticos e mandonistas estão na raiz da crise  atual. O desfecho para o PCB não poderia ter sido outro, que não essa verdadeira "crônica de uma morte anunciada".                 

                                                                Ney Nunes, 30/09/2023.

 

 

 

Carta aos Dirigentes e Militantes do PCB


    Por vezes o “otimismo da vontade” tem a capacidade de nos turvar a visão durante longo tempo. Hoje chego à conclusão que nos últimos quatro anos foi exatamente isso o que me aconteceu. Por mais que os fatos indicassem um claro giro em nossa linha política na direção oposta às resoluções aprovadas nos dois últimos Congressos do Partido, assim como o progressivo abandono dos pressupostos da estratégia de Reconstrução Revolucionária do PCB, demorei muito para enxergar o verdadeiro alcance dos posicionamentos e atitudes que foram se consolidando no interior do Comitê Central ao longo desse tempo, especialmente entre os membros da atual CPN. O desejo de ver aplicada a Reconstrução Revolucionária, com a consequente adoção de uma estrutura partidária leninista, a construção de um partido de quadros revolucionários efetivamente inserido na vanguarda da classe operária e que levasse à prática um programa anticapitalista, anti-imperialista e socialista, obstruiu a minha visão sobre a dinâmica do processo revisionista em curso no partido.

    A verdade é que a Reconstrução Revolucionária se transformou em letra morta. As “letras vivas” passaram a ser as concessões cada vez mais significativas ao pós-modernismo e ao seu filho dileto, o identitarismo. Passamos a promover os “coletivos” em vez de valorizar e impulsionar as células. Assim foi se deturpando o centralismo democrático que só pode existir a partir de células fortes e atuantes, caso contrário, torna-se uma via de mão única, vira centralismo burocrático. Essa estrutura adaptada à democracia burguesa mantém o partido no gueto da pequena-burguesia, sem condições, sem política e sem disposição (a despeito do esforço meritório de alguns militantes da UC e da UJC) para empreender qualquer tentativa mais séria de inserção efetiva junto ao proletariado.

    Não tardaria para que essa tendência de giro à direita se consolidasse com a adoção de táticas em completa contradição com a estratégia aprovada desde o XIV Congresso (1) e reafirmada no XV Congresso do Partido (2). Passamos a priorizar cada vez mais a institucionalidade burguesa, inclusive aprofundando a dependência do Fundo Partidário, contrariando as resoluções da Conferência de Organização de 2008 (3) e apesar dos diversos alertas posteriores à Conferência feitos por camaradas nas reuniões do CC.

    Nas eleições de 2016 e 2018 ficamos inteiramente a reboque da socialdemocracia, partindo de avaliações completamente fora da realidade de que com essa tática eleitoral teríamos chances de eleger algum parlamentar. O resultado foi que não elegemos ninguém e, como de costume, não houve um balanço autocrítico dos responsáveis na direção por esse completo fiasco. Os recursos materiais e de militância teriam sido melhores empregados numa campanha eleitoral centrada no objetivo de construir o partido no seio do proletariado e nas camadas populares, com a nossa política e nosso programa, afirmando a independência de classe. Ao contrário disso, ficamos reféns do PSOL e do discurso pós-moderno, deseducando a classe, acantonados nos guetos da pequena burguesia intelectualizada.

    Da correta posição de frente única contra os ataques aos direitos dos trabalhadores e às liberdades democráticas, que vinham sendo desferidos desde os governos Dilma e Temer, portanto, sob a tutela da democracia burguesa, passamos a respaldar o denominado “Estado Democrático de Direito” ao assinarmos notas conjuntas com partidos da ordem e da conciliação de classes (4), encobertas pela falsa justificativa da “unidade de ação contra o fascismo”. Desde quando, para os comunistas, se trata de “unidade de ação” o endosso à política de colaboração de classes e de respaldo as instituições da democracia burguesa? Unidade de ação se dá em torno de alguma luta específica, concreta, como por exemplo, uma mobilização contra qualquer medida antidemocrática ou de retirada de direitos levadas a cabo pelo governo burguês de turno, o Congresso ou o Poder Judiciário.

    A vitória eleitoral da extrema direita e o receio de um possível golpe fascista serviram de biombo para concluir a virada em nossa política. A tática praticada pela CPN e depois ratificada pelo CC para as próximas eleições consegue ser ainda mais rebaixada. Ao não lançarmos candidaturas majoritárias ficaremos a reboque do PSOL, além de jogarmos o PCB na vala comum dos partidos (PT, PC do B, PDT, PSB, etc.) que nos estados e municípios onde governam estão aprovando o ajuste fiscal, reforma da previdência e reprimindo os protestos do funcionalismo.

    No âmbito das relações internacionais o giro à direita foi incisivo, ocorreu o abandono da articulação privilegiada com o polo revolucionário do MCI, especialmente com o Partido Comunista da Grécia e o Partido Comunista do México. Pelo contrário, passamos a endossar documentos conjuntos (5) com partidos adeptos da política reformista, do oportunismo eleitoreiro e das alianças com suas respectivas burguesias. Estes são partidos revisionistas que de “comunistas” só conservam o nome no intuito de ludibriar os trabalhadores, ou se livram dele, quando lhes parece mais conveniente do ponto de vista eleitoral. Para completar o giro, passamos a ser coniventes com a ideologia do “socialismo de mercado chinês”, novo farol do revisionismo e da traição à luta revolucionária do proletariado, contra todas as evidências e dados concretos que indicam a completa restauração do capitalismo na China, transformada no paraíso de novos bilionários, como afirma o KKE desde 2010. (6)

    Por fim, a consolidação da hegemonia do grupo que orienta esse giro vem levando a uma degradação do método partidário, permitindo que acusações e rotulações levianas contra camaradas prosperem com o intuito evidente de desvirtuar e suprimir o debate interno. Não por coincidência, os mesmos termos usados pelos liquidacionistas de 1992 voltam agora a ser proferidos contra quem ousa questionar a atual linha hegemônica, sendo estes logo taxados de ultraesquerdistas, ortodoxos, sectários e coisas do tipo. Essa prática nefasta, típica dos que não confiam na coerência dos seus próprios argumentos, já causou graves prejuízos ao movimento comunista internacional.

    Tenho enorme respeito e admiração pelos comunistas revolucionários que, mesmo em franca minoria, permanecem militando no PCB. Com vocês aprendi bastante nesses dez anos de trabalho comum, foi para mim um orgulho conviver e militar ao lado dos camaradas desde quando ingressei no Partido em 2010. Faço votos de que, apesar do meu “pessimismo da razão”, tenham sucesso na luta para recolocar o Partido nos trilhos da Reconstrução Revolucionária. Da minha parte, saio do Partido por onde entrei: pela porta da frente. Nunca almejei nada além de ser um simples militante. Continuarei fazendo o que faço desde 1976, quando aos 18 anos de idade decidi lutar, dentro das minhas modestas capacidades, pela Revolução Socialista.

    O projeto fundado no Brasil em 25 de março de 1922 não tem dono, seu legado pertence ao proletariado brasileiro.

Ney Nunes    

Rio de Janeiro, 18 de agosto de 2020.

Notas:

(1) Resoluções XIV Congresso Nacional, pág. 22.

A definição da estratégia da revolução como socialista não significa ausência de mediações políticas na luta concreta, nem é incompatível com as demandas imediatas dos trabalhadores. No entanto, a estratégia socialista determina o caráter da luta imediata e subordina a tática à estratégia e não o inverso, como formulam equivocadamente algumas organizações políticas e sociais. Pelo contrário, os problemas que afligem a população, como baixos salários, moradia precária, pobreza, miséria e fome, mercantilização do ensino, do atendimento à saúde, a violência urbana, a discriminação de gênero e etnia, são manifestações funcionais a ordem capitalista e à sociedade baseada na exploração. A lógica da inclusão subalterna e da cidadania rebaixada acaba por contribuir para a sobrevida do capital e a continuidade da opressão.

O que hoje impede a satisfação das necessidades mais elementares da vida em nosso país não é a falta de desenvolvimento do capitalismo. Pelo contrário, nossas carências são produto direto da lógica de desenvolvimento capitalista adotado há décadas sob o mesmo pretexto, de que nossos problemas seriam resolvidos pelo desenvolvimento da economia capitalista. Hoje, a perpetuação e o agravamento dos problemas que nos afligem, depois de gerações de desenvolvimento capitalista, são a prova de que este argumento é falso.

Portanto, nossa estratégia socialista ilumina a nossa tática, torna mais claro quem são nossos inimigos e os nossos aliados, permite identificar a cada momento os interesses dos trabalhadores e os da burguesia e entender como as diferentes forças políticas concretas agem no cenário imediato das lutas políticas e sociais. Esse posicionamento também busca sepultar as ilusões reformistas, que normalmente levam desorientação ao proletariado, e educa-lo no sentido de que só as transformações socialistas serão capazes de resolver os seus problemas.

(2) Resoluções XV Congresso Nacional do PCB, pág. 37/38/40

41-Afirmamos que a Revolução Brasileira é uma Revolução Socialista, considerando que o Brasil é uma formação social capitalista desenvolvida e monopolista...

43-Portanto, as tarefas estratégicas colocadas ao conjunto dos trabalhadores e, em especial, a classe operária, núcleo estratégico e central do sujeito revolucionário, o proletariado, não podem se realizar nos limites de uma sociedade capitalista...

45-Toda a experiência histórica dos trabalhadores demonstrou que qualquer forma de pacto com a burguesia é uma miragem que confunde os trabalhadores, desorienta a luta de classes e apaga o horizonte socialista... Esses pactos não nos levarão a conquistas parciais que cumulativamente poderiam desembocar em uma sociedade justa e igualitária. Pelo contrário, fortalecerão ainda mais o capital e seu sistema de poder mundial. Toda experiência histórica e presente, nos comprova que o capital e a propriedade privada capitalista, ao se perpetuarem, concentram riquezas, acumulam desigualdades e geram periodicamente as crises que terão que ser pagas pelos trabalhadores para salvar o lucro dos grandes capitalistas.

50-O PCB reafirma que esta transformação histórica não se dará através de um projeto reformista, mas por uma ruptura radical, na qual desempenha papel central a questão do poder, ou seja, a destruição do poder e da dominação política burguesa e a construção de um novo Estado do proletariado da cidade e do campo, comprometido com a construção histórica da capacidade dos trabalhadores chegarem ao autogoverno e, portanto, a superação do Estado. Isto implica que nossa política de alianças deve se materializar no campo proletário popular. A aliança de classes capaz de formar o Bloco Revolucionário do Proletariado deve ser fundamentalmente estruturada entre os trabalhadores urbanos e rurais, os setores médios proletarizados e as massas de proletários precarizados que compõem a superpopulação relativa.

(3) PCB Política e Organização – Resoluções de Conferências Políticas, pág. 148.

144-O encaminhamento desta importante questão passa pelo seu enfrentamento do ponto de vista ideológico. A subestimação das finanças ordinárias do PCB tem como origem o tempo em que o partido vivia da solidariedade internacional e, nos anos 80, do reforço dos recursos obtidos por conta da política de aliança com setores da chamada burguesia nacional. Hoje em dia, outro fator tem contribuído para esta subestimação: os recursos oriundos da distribuição do Fundo Partidário.

145-Não podemos contar com nenhuma dessas fontes de arrecadação citadas: a solidariedade internacional hoje em dia não tem o componente de troca que teve no passado; nossa linha política de ruptura com o capitalismo não comporta ilusões com aliados burgueses. O Fundo Partidário pode deixar de existir a qualquer momento.

(4) https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=2495758870691360&id=1775994142667840

https://pt.org.br/rede-e-pcb-ampliam-para-sete-os-partidos-do-forum-da-oposicao/

(5) https://pcb.org.br/portal2/22960/encontro-dos-partidos-comunistas-da-america-do-sul/

http://www.comunistas-mexicanos.org/%E2%80%A6/2213-por-cuestion-de-?fbclid=IwAR1HmKE9C1408WnWiBj2uWSZ1glq3w7Nee2BMLhUxHYcbyPyaF3tqa6GVVU

(6) O Papel Internacional da China, Elisseos Vagenas, membro do CC do KKE, responsável pela seção internacional do CC, publicado na Revista Comunista 6ª edição 2010.

https://inter.kke.gr/en/articles/The-International-role-of-China/

Em conclusão, o domínio das relações capitalistas na China, hoje é um fato, lenta ou rapidamente, levará a uma maior conformidade do sistema político, da ideologia dominante e de todos os elementos da superestrutura cujo caráter capitalista se refletirá em seus símbolos. A intensificação das contradições de classe amadurecerá e também a necessidade de o movimento operário revolucionário ser representado por seu próprio partido contra o poder capitalista.”

Edição: Página 1917


sexta-feira, 29 de setembro de 2023

SYRIZA, No Ponto mais Baixo da Degeneração Política

Por Partido Comunista da Grécia - KKE

28/09/2023



No dia 24/09/23 ocorreu o segundo turno para a eleição do novo presidente do SYRIZA. Este partido foi a continuação da “Coligação de Esquerda, dos Movimentos e da Ecologia” (SYN) que foi constituída por uma seção de quadros do KKE que, corroídos pelo oportunismo, pelas ideias da contrarrevolução e de Gorbachev, abandonaram o KKE no período 1989-1991, depois de haver tentado dissolver o nosso Partido sem êxito. Esta seção colaborou dentro do SYN com outras forças oportunistas que já tinham deixado o KKE, em 1968, e pertenciam à chamada corrente “eurocomunista”.

O SYN evoluiu então em 2004 para a “Coligação da Esquerda Radical” (SYRIZA), com a participação de outros grupos da esquerda extraparlamentar, grupos trotskistas, maoistas e alguns socialdemocratas.

Depois de 2010 e do colapso do principal partido socialdemocrata, o PASOK, grande parte deste partido aderiu ao SYRIZA, tornando-o no principal veículo da socialdemocracia na Grécia. O SYRIZA venceu as eleições e formou um governo (2015-2019) aplicando uma dura política antipopular também nas relações internacionais, estreitando as relações da Grécia com os EUA e Israel, envolvendo ainda mais profundamente o país nos planos da OTAN, expandindo as bases dos EUA. Governou com o partido ultradireitista “Gregos Independentes” (ANEL) e após o desaparecimento político deste partido, uma parte dos quadros da ANEL integrou-se ao SYRIZA, que acrescentou ao seu nome as palavras “Aliança Progressista” (SYRIZA-PS).

Depois do colapso eleitoral nas últimas eleições de junho de 2023, o presidente do SYRIZA e ex-primeiro-ministro, Alexis Tsipras, demitiu-se e começou a corrida pela sua sucessão. Em 24 de Setembro, Stefanos Kasselakis foi eleito presidente do SYRIZA, obtendo 56,69% ​​dos votos em comparação com 43,31% do antigo Ministro do Trabalho do SYRIZA, Efi Achtsioglou.

Nestas eleições, em que podiam participar inclusive pessoas que até o primeiro turno não eram membros do SYRIZA, mas podiam aderir e votar pagando 2 euros, participaram 149 mil pessoas no primeiro turno (com 5 candidatos) e 134 mil no segundo.

Stefanos Kasselakis, que foi eleito presidente do SYRIZA, é residente não permanente da Grécia e há um mês era um desconhecido no país. Vivia nos EUA, é empresário e armador e segundo suas declarações trabalhou no banco Goldman Sachs e como voluntário na campanha eleitoral de Joe Biden. Ele realizou uma campanha dispendiosa e agressiva nos meios de comunicação social no mês passado, prometendo converter o SYRIZA num partido contemporâneo, como é, segundo sua opinião, o “Partido Democrata” dos EUA, para que o SYRIZA volte a governar. Concluiu-se assim mais uma fase do percurso predeterminado de integração e degeneração política deste partido que só provoca repugnância a quem se sente honestamente progressista e de esquerda.

O Secretário do Comitê Central do KKE, Dimitris Koutsoumbas, no seu discurso no Festival da Juventude Comunista da Grécia (KNE) destacou o seguinte:

Aqueles que querem que as coisas mudem de uma vez por todas não podem esperar nada da reconstrução da criminosa socialdemocracia.

Reflitam sobre a promoção aberta que fazem, nestes dias, todos os meios de comunicação do sistema, enquanto as posições e atividades do KKE estão completamente ausentes desses meios de comunicação, é indicativo do papel que vão desempenhar no dia seguinte.

Para aqueles que se sentem surpreendidos ou mesmo aborrecidos com relação aos acontecimentos no SYRIZA, simplesmente dizemos-lhes para pensarem num aspecto que talvez não tenham pensado:

Que, infelizmente, este é precisamente o resultado predestinado de todo um percurso de integração ao sistema que este partido político tem seguido.

Este curso de degeneração política nas posições, nas propostas, na postura política e no movimento, tem sido apoiado e promovido, durante muitos anos, em nome da suposta “modernização”, do “possível”, da “governabilidade dentro do sistema”, pelos atuais quadros do SYRIZA e por aqueles que hoje aparecem como supostamente defensores de um caráter mais “de esquerda”.

A situação atual no SYRIZA é a fase superior da lógica do “mal menor” que os seus líderes e, claro, todos os seus atuais candidatos têm servido durante anos, e trouxeram Mitsotakis e a ND ao poder mais uma vez.

É a lógica, inclusive desde a época do eurocomunismo, que apela aos povos para que reduzam constantemente as suas exigências, aceitem compromissos inaceitáveis, engulam decepções, em nome de uma melhor gestão - supostamente humana - do sistema atual, o que é mais improvável do que uma “Segunda Vinda”.

E onde essa lógica leva com grande precisão? À degeneração, à decadência, à política vulgar da imagem, à sua transformação num partido puramente burguês com os valores podres da competição...

Desta modo, desapareceram da face da terra os partidos eurocomunistas, como o Partido Comunista Francês, o Partido Comunista Italiano, entre outros, dos quais 30% já nem sequer estão representados nos parlamentos dos seus países.

E assim hoje chegamos a que seja majoritária neste partido uma agenda que copia ao pé da letra a agenda do ND, com as conhecidas referências à “excelência”, aos “bons currículos”, às “possibilidades de promoção”, etc.

Que mais provas necessitam os combatentes honestos, as pessoas verdadeiramente de esquerda, as pessoas progressistas não têm nada a esperar do SYRIZA ou de qualquer outra versão dele que surja no futuro?

Hoje eles têm uma alternativa: a que seguiram todos aqueles que antes deles não quiseram fazer parte deste curso de transformação negativa do SYRIZA, abandonaram-no, mantiveram elevados os seus valores e ideais e hoje unem forças com o KKE."

O Secretário Geral do Comité Central do KKE destacou noutra passagem do seu discurso:

“Enquanto houver quem chame de esperança as ideias mais sistêmicas e estéreis vindas do tubo de ensaio do outro lado do Atlântico e da criminosa socialdemocracia, estaremos sempre aqui lançando luz sobre a única esperança de progresso: a luta de classes inquebrantável contra o sistema e seu poder.

Fonte:https://inter.kke.gr/es/articles/SYRIZA-en-el-punto-mas-bajo-de-la-degeneracion-politica/

Edição: Página 1917







quarta-feira, 27 de setembro de 2023

Esquerda Socialista ou Esquerda Falida?

Ney Nunes

27/09/2023




Os integrantes desse amálgama reformista-identitarista autodenominado “esquerda socialista” estão imersos num debate sobre ser ou não ser oposição ao governo Lula. Na sua grande maioria, esses debatedores fazem parte ou apoiam de alguma forma o governo burguês da frente ampla Lula-Alckmin, algo que, por si só, já expressa o grau de degeneração a que chegaram esses ditos “socialistas”. Não surpreende que tenham ido tão longe, afinal, sua direção e o grosso da sua base social são compostas pela pequena-burguesia assalariada e proprietária, uma classe sem projeto próprio, historicamente subordinada aos interesses da burguesia e do imperialismo.

O debate é tão raso que se limita a questão de ser oposição ao governo de turno, passando ao largo do capitalismo, do Estado burguês e das suas instituições, onde efetivamente reside o poder da classe dominante. E não poderia ser de outra forma, porque o horizonte político estratégico dessa gente é a disputa eleitoral nos marcos da institucionalidade burguesa. Contentam-se em ocupar carguinhos na máquina governamental e no parlamento, para melhor desenvolver sua tática diversionista, centrada em questões que podem ser absorvidas pelo capitalismo e, em geral, bem distantes da luta de classes.

Para justificar seu apoio a um governo burguês, apoio explícito em alguns casos, disfarçado em outros, continuam a agitar o espantalho do fascismo, assim como fizeram durante a campanha eleitoral. Esquecem de duas questões elementares: primeiro: o fascismo obviamente não está morto, mas já foi tocado pelo setor burguês hegemônico para dentro do seu “cercadinho” (claro que vai ficar ali sendo bem alimentado e cuidado para uso em qualquer emergência), segundo: o governo Lula-Alkmin já disse ao que veio nesses nove meses, veio para gerir a barbárie. Sem falar nos treze anos e meio dos governos Lula e Dilma. Ou seja, usaram e continuam usando a ameaça fascista, que é permanente sob o capitalismo, para colaborar com a gestão do regime político burguês.

Faz tempo que essa esquerda socialista se recolheu no gueto pequeno-burguês. Abandonou qualquer perspectiva de construção orgânica no seio do proletariado e das massas populares visando sua preparação para situações pré-revolucionárias e revolucionárias que inevitavelmente vão eclodir devido à agudização das contradições capitalistas. Adepta de um etapismo permanente, está falida para a revolução.


Edição: Página 1917




quarta-feira, 20 de setembro de 2023

Arrastando Tudo para a Ruína

Götz Eisenberg*

2007

Violência juvenil, vandalismo, amok¹. Há uma relação entre o mercado desenfreado e o aumento da violência extrema?


 

    No passado, diz um texto de Jean-Paul Sartre, de 1960, crianças de classe média rebeldes ou mesmo apenas infelizes de repente diziam “merda” aos pais, levantavam-se da mesa de jantar, saíam de casa e “iam de malas prontas para a esquerda”. Ali seu mal-estar difuso encontrava seus conceitos e códigos estratégicos. A raiva construída em processos violentos de socialização e sua “repulsa existencial” pelas formas de relacionamento burguesas e pequeno-burguesas encontraram formas de expressão político-racionais no movimento de protesto. A resistência à etiqueta pequeno-burguesa, a revolta contra formas de renúncia e obediência sem sentido e contra uma moral sexual rígida fundiram-se com a luta contra a exploração e a opressão em seu próprio país e com movimentos de libertação no Terceiro Mundo.

    A esquerda radical, posso dizer por experiência própria, foi também um lugar que reunia todos os tipos de figuras estranhas que traziam consigo suas idiossincrasias psicológicas e seus danos biográficos e em parte também agiam em conformidade com eles. Na maioria dos casos, o grupo e as ideias que os sustentavam atuavam para corrigir isso, garantindo que as ilusões privadas dos indivíduos não dessem o tom e mantendo a ligação entre violência e razão, meios e fins.

    Mas o que os jovens devem fazer, perguntava Sartre na época, “se seus pais são de esquerda”, têm Marx e Marcuse em suas prateleiras e escutam Rolling Stones e Bob Dylan à noite, após o trabalho? E se não houver mais nenhuma esquerda radical a qual se juntar? Então, ou a direita se apropria de todo o material bruto das energias rebeldes e das experiências de sofrimento para invertê-las de acordo com seus próprios objetivos, ou ela permanece ociosa.

Utopias vitais

    As utopias podem ter pouco significado para adultos adequados à realidade, mas para crianças e jovens elas são vitais. Crianças e jovens privados de ideais sociais e históricos não são apenas prejudicados em seu crescimento, mas também desmotivados em suas atitudes diante da vida e empurrados para sentimentos substitutos. A violência difusa, o ataque rebelde contra as restrições que determinam a ordem vigente, pode ser, segundo Oskar Negt, “a expressão de uma força vital que carece de ideais sociais”. Os movimentos de busca da juventude não vão a lugar algum, a raiva gira em círculos, voltando-se contra si mesma ou é descarregada em qualquer direção. O vandalismo e o amok florescem por trás das fachadas neoliberais bem ordenadas e cintilantes.

    No isolamento social, onde os indivíduos são deixados à sua própria sorte, o caminho para a construção coletiva de novas formas de vida não burguesas que tenham em conta suas próprias necessidades é barrado e trancado. O vandalismo pode ser entendido como uma resposta à incapacidade de seus atores de canalizar a raiva em uma direção produtiva e racional, como acontecia, por exemplo, nos movimentos políticos. A agressão permanece crua. Cegos e inconscientes, aqueles que caíram e foram declarados supérfluos golpeiam a fachada social. A fúria dos vândalos se limita à tentativa de atacar com um taco de beisebol o nevoeiro que paira sobre as circunstâncias e bloqueia a visão de suas estruturas. O que chamamos de vandalismo é uma raiva que, ao perder seu objeto, se transforma em um ódio que flutua livremente.

    A dominação no capitalismo tardio tornou-se despersonalizada e anônima; ela se disfarça cada vez mais perfeitamente como tecnologia e aparece às pessoas como a chamada necessidade (Sachzwang). Contra quem ou o que deve se voltar a raiva reprimida? Quem podemos responsabilizar? Quem é o culpado pelo nosso mal-estar difuso e pela nossa miséria? Jean Baudrillard, recentemente falecido, disse: “se a violência surge da opressão, o ódio surge do esvaziamento”.

    O irmão grande e necrófilo do vândalo é aquele que mata indiscriminadamente (Amokläufer). Aqui eu discordo categorialmente de Mark Ames que, após o massacre na Virginia Tech, argumentou em entrevista ao Freitag (edição 17/2007) que o amok é uma forma contemporânea de revolta e resistência, uma espécie de “rebelião escrava do século XXI”. Segundo Mark Ames, as razões dos massacres aleatórios não estão na estrutura de personalidade dos perpetradores, nem nos jogos de computador ou na falta de valores cristãos. Eles devem ser encontrados onde os massacres acontecem: em nossos escritórios e em nossas escolas. A riqueza está concentrada em poucas mãos, os patrões ganham muitas vezes mais do que um empregado. “As pessoas estão sendo cada vez mais espremidas – por que não revidariam?”.

    É claro, mas será que revidar significa voltar ao seu local de trabalho atual ou perdido e atirar nos seus (antigos) colegas? Se você sofre com escolas inóspitas e com a pressão do desempenho, se está se sentindo marginalizado e cercado de “idiotas”, então precisa abrir fogo contra seus colegas e professores? A única coisa que jovens como Klebold e Harris, os atiradores da Columbine High School, perto de Littleton, têm é ódio sem sujeito, para o qual todas as verbalizações – de Hitler a “assholes“ ou qualquer outra – são apenas cifras.

Declínio social

    O massacre é realmente, como diz Ames, “um modelo de como se defender”, ou não seria, antes, a expressão do fato de que as pessoas carecem de modelos de solidariedade para se defender? Quando as sociedades perdem sua capacidade de integração social, seus suportes e instituições se desintegram, seus valores e normas se corroem e não são mais compartilhados por muitos, então, junto com o medo, também são liberadas as formas de agressão, hostilidade e violência. Estas precisam urgentemente de controle intelectual e moral e devem ser conduzidas em uma direção esclarecida, pois, caso contrário, desencadearão potenciais destrutivos inimagináveis que poderiam arruinar não apenas esta sociedade, mas qualquer sociedade. O amok não é, portanto, um ato de resistência, mas um sintoma da autodestruição da sociedade burguesa tardia e da correspondente falta de grupos sociais e estratégias que poderiam dar a essa desintegração uma guinada emancipatória.

    No sentido do etnopsicanalista George Devereux, pode-se até perguntar se o “amok”, originário do sudeste asiático, não está se estabelecendo como um “modelo de comportamento anormal” nas metrópoles capitalistas do Ocidente. Para Devereux, cada cultura fornece a seus membros modelos segundo os quais os estados de excitação e de tensão podem ser descarregados sem que o sistema como um todo seja questionado. Assim como o “duelo pela honra” surgiu na França e na Itália no início do século XVI, que ditava a um nobre precisamente quando ele era obrigado a desafiar alguém e como seria a escolha das armas, assim parece que sob nossos olhos o School Shooting e os massacres estão se estabelecendo como uma horrível “válvula de escape” para homens (jovens) gravemente ofendidos ou que sofreram um trauma pesado e sentem seu orgulho ferido e, portanto, “odeiam”.

    Mas mesmo que o massacre viesse a se tornar um “modelo de comportamento anormal”, devemos ter cuidado para não falar de resistência às condições sociais vigentes no contexto de violência cega e assassinato em massa. Aqui se exige discernimento de nossa parte, à esquerda, e devemos insistir que toda ação que vise a libertação deve refletir sobre a adequação dos meios em relação ao fim a ser alcançado. Há formas de violência que nem mesmo uma situação revolucionária poderia justificar, porque negam o próprio objetivo para o qual se supõe que a revolução seja um meio: a ampliação da margem de liberdade humana e das possibilidades de felicidade. Tais são a violência aleatória, a crueldade e o terror cego e indiscriminado.

Antítese do revolucionário

    O ato vândalo de quebrar cabines telefônicas ou incendiar carros ainda pode conter traços de uma “intenção de fazer a coisa certa” (Georg Lukács) e pode ser integrado em uma perspectiva histórica e política. Em todos os aspectos fundamentais, a ação do amok é exatamente o oposto do revolucionário: se este último quer superar os bloqueios históricos e sociais que impedem a melhoria das condições de desenvolvimento dos vivos e do humano, o primeiro se sente mais atraído pelos mortos do que pelos vivos e nisso ele quer converter a vida em morte: “nenhum movimento do lado de fora e internamente nenhum sentimento” (Klaus Theweleit).

    O amok se baseia em um modo de produção mortal e é totalitário na aplicação do princípio da aniquilação. Em última análise, o motivo que impulsiona aquele que mata indiscriminadamente é arrastar tudo para sua grandiosa queda encenada sob o feitiço de um narcisismo que se tornou nocivo na primeira infância. “Em vez de esperar”, diz Lothar Baier em seu livro “Sem tempo!” (Keine Zeit) “que o mundo devore a própria vida, ele deve ser devorado em autodestruição, “a fim de que o tempo do mundo coincida com o da vida”.

    Dos 75 tiroteios em escolas documentados em todo o mundo entre 1974 e 2002, 62 ocorreram nos EUA, seguidos pela Alemanha e pelo Canadá, ambos com quatro casos. A violência bélica neo-imperial originada nas metrópoles do capitalismo global atinge de volta as metrópoles na forma de asselvajamento e brutalização das formas de mediação social (Verkehrsformen)? É possível demonstrar a conexão entre fundamentalismo de mercado, disseminação da “cultura do ódio” (Eric J. Hobsbawm) e aumento da violência? O lema “depois de nós, o dilúvio” não se aplica a todos os lugares?

    Em nome do lucro de curto prazo, estruturas sociais que cresceram ao longo de décadas e ofereceram às pessoas uma proteção contra os piores excessos do princípio do capital estão sendo rebaixadas. Há flexibilização, desregulamentação e privatização, os custos são reduzidos sem levar em conta as consequências sociais e ecológicas. Os países altamente desenvolvidos consomem recursos naturais em um ritmo descontrolado. Um capitalismo desmedido e selvagem está prestes a destruir as suas e as nossas condições de existência. Um mundo completamente capitalista provará ser inabitável e disfuncional. Se nós – as pessoas desta geração – falharmos em modificar isso e deter a insanidade do mercado sem freios, corremos o risco de testemunhar um massacre indiscriminado (Amoklaufs) de livre mercado que nos afetará a todos.

Tradução: Marcos Barreira

* Götz Eisenberg trabalhou como psicólogo penitenciário na prisão de Butzbach. Escreveu, entre outros, Amok – Kinder der Kälte. Über die Wurzeln von Wut und Haß. Rowohlt-Taschenbuch-Verlag, Reinbek bei Hamburg 2000 [Filhos de tempos insensíveis. Sobre as raízes da raiva e do ódio]; Gewalt, die aus der Kälte kommt. Amok, Pogrom, Populismus. Psychosozial-Verlag, Gießen 2002 [A violência que vem da frieza: amok, pogrom e populismo]. Colaborou também com a publicação do Grupo Krisis, Fim de turno! Onze investidas contra o trabalho, Krisis (Org), 1999.

(1) Síndrome de Amok é uma síndrome que consiste em uma súbita e espontânea explosão de raiva selvagem, que faz a pessoa afetada atacar e matar indiscriminadamente pessoas e animais que aparecem à sua frente, até que o sujeito se suicide

Fonte: https://utopiasposcapitalistas.com/2023/04/07/arrastando-tudo-para-a-ruina-gotz-eisenberg/

Edição: Página 1917

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