Ney Nunes
03/01/2023
Os tempos eram sombrios no Rio de Janeiro sob a ditatura empresarial-militar imposta no Brasil após o golpe de 1964. Corria o ano de 1977 e a juventude novamente se inquietava e dava sinais de que, apesar da derrota das mobilizações de 1968 e da luta armada, ansiava por mudanças. Na época eu tinha conseguido uma bolsa e cursava o ensino médio no GPI da Tijuca. No colégio nós dávamos os
primeiros passos na direção de reativar o movimento estudantil. Começamos com um
cineclube, depois o grupo de teatro e na sequência um jornal mural, que tinha o
sugestivo nome de “Mural Liberdade”. O diretor, entre assustado e
temeroso, começou a desconfiar de que aquilo ia além de um “movimento cultural”,
mas não confrontou nossas iniciativas, preferia negociar. Ele estava certo, o desfecho foi
político, nós estávamos participando da reconstrução das entidades estudantis
destruídas pela ditadura, culminando na fundação do Grêmio Estudantil com eleição direta para
a diretoria.
Foi nesse contexto que conheci Márcia Bassetto Paes. Ela vinha de São
Paulo, após ter sido presa e torturada, mas apesar de pertencermos a mesma
organização, que era clandestina nesses tempos, chamada “Liga Operária” e depois
“Convergência Socialista”, não fiquei sabendo dos detalhes do que sofreu durante
a prisão, assunto que ela evitava, mesmo entre nós que militávamos na mesma célula
de secundaristas, a qual, ela, com mais experiência de movimento estudantil, orientava.
Eram
tempos difíceis, usávamos codinomes, nossas reuniões eram furtivas, muitas
vezes realizadas em locais públicos, disfarçadas de piquenique no Parque do Flamengo
ou Quinta da Boa Vista. Nosso jornal, mimeografado, era lido e depois
destruído, só podia ser passado para pessoas de confiança, simpatizantes da
nossa causa. Lembro de um curso da organização que fizemos com a orientação da
Márcia e seu companheiro Ronaldo, uma dezena de jovens enclausurados, estudando durante todo
o fim de semana, num apartamento de quarto e sala em Petrópolis.
No
ano seguinte, 1978, fui trabalhar na Light e me afastei do movimento estudantil
para ingressar no sindical, que ressurgia com as greves do ABC. Recordo, apesar
da memória as vezes falhar, afinal, lá se vão 44 anos, de que Márcia ainda me deu
assistência nessa transição, orientando e ajudando na tarefa de formar uma
célula da nossa organização entre os trabalhadores da minha categoria, os “Eletricitários
e Gasistas”, que, nos anos oitenta, com a ampliação do sindicato abarcando o
pessoal da CEDAE, passaria a se chamar “Urbanitários”.
Desde
essa época, não tivemos mais contato, Márcia saiu do Rio de Janeiro e depois também
da Convergência. Só recentemente, através de um velho camarada, Alex, que me
enviou o depoimento que reproduzo abaixo, tomei conhecimento das barbaridades
sofridas por ela na prisão. Confesso que senti um misto de revolta e frustração,
revolta pelas covardias infligidas à camarada e frustração por não termos
empreendido nenhuma ação contra os psicopatas, essas verdadeiras bestas-feras a
serviço do capital, responsáveis pelos suplícios por que passaram Márcia e
outros camaradas. Não se trata de vingança, mas de justiça frente a crimes contra a humanidade, crimes estes que terminariam por ficar impunes com a lei da
anistia que protegeu assassinos e torturadores. Se não todos, pelo menos vários
deles estavam identificados, como se constata no depoimento de Márcia para a
Comissão Nacional da Verdade do qual transcrevo alguns trechos abaixo.
Relato da prisão e tortura de Márcia Bassetto Paes à
Comissão Nacional da Verdade em 28/08/2014
 |
| Márcia Bassetto Paees em depoimento na ALESP |
[...]Somam-se
alguns outros acontecimentos determinantes para o comportamento de muitos
jovens adolescentes já prestes a entrar na Faculdade: as eleições de 1974 – com
a vitória estrondosa do MDB, dita “oposição” – ano em que eu e a maioria dos
meus amigos votávamos pela primeira vez; o brutal assassinato de Vladimir
Herzog, em 1975, que nos moveu até a Catedral da Sé para participar do massivo
ato ecumênico, em 31 de outubro de 1975; e, em 16 de janeiro 1976, a morte do
operário metalúrgico Manuel Fiel Filho, no DOI-CODI.
Foi
assim que em março de 1976, ao entrar no curso de História da Universidade de
São Paulo (USP), eu já tinha a convicção da necessidade de participar mais
ativamente dos grupos estudantis e do Centro Acadêmico, ainda sob o decreto-lei
nº 477, de 26 de fevereiro de 1969, baixado pelo ditador Artur da Costa e
Silva. Esse decreto-lei previa a punição de professores, alunos e funcionários
das instituições de ensino que participassem de organizações de caráter
político.
Na
Universidade de São Paulo, assim como nas outras, atuavam vários grupos e
partidos proibidos pela ditadura de terem um funcionamento legal. Dentre eles o
Partido Comunista do Brasil (PC do B), a Ação Popular (AP), a Liga Operária, a
Organização Socialista Internacionalista; e grupos ligados a movimentos da
Igreja, como a Juventude Universitária Católica (JUC) entre outras. Na faculdade de História tive contato com o
pessoal da Liga Operária e, para dar mais sentido e fundamentação teórica à
minha militância política, ingressei nessa organização.
Em
um primeiro momento, como eu também pertencia a um grupo de teatro que era
composto, inclusive, por alguns integrantes vindos do colégio Alberto Levy, me
ofereci para desempenhar a militância em alguns bairros da periferia como São
Mateus e Guaianases. Este grupo apresentava as peças nos bairros da periferia
e, após a apresentação, fazía discussões e debates em torno do texto. Após
alguns meses de atividades achei que o trabalho militante em fábrica, como
operária, poderia ser uma atuação mais gratificante. Fui atrás de uma vaga em
empresas do ABC. Trabalhei na Rhodia, divisão química, em Santo André e em
seguida pleiteei uma vaga na Autometal – empresa metalúrgica fabricante de
componentes e acessórios para a indústria automobilística -, também na linha de
produção, como operária.
Já
morava com Ronaldo Almeida, meu companheiro e que tenho a felicidade de
desfrutar o convívio até hoje, e nos mudamos para São Bernardo do Campo a fim
de facilitar o meu acesso ao trabalho. Ronaldo continuava o curso de História
na USP e eu tranquei, naquele semestre, a minha matrícula sem perder o vínculo
com a Universidade.
Na
fábrica, comecei a participar de reuniões do sindicato dos metalúrgicos e a
fazer parte de alguns grupos de discussão dentro e fora do sindicato. A base
sindical também iniciava uma demanda por mudanças, desde o processo de eleições
de sua diretoria em 1975. Havia uma necessidade de sangue novo e um olhar
renovado para os problemas dos trabalhadores. Foi na eleição da diretoria
daquele ano que Luís Inácio Lula da Silva consegue articular, contando com um
bom grupo de apoio, uma chapa única.
Assim
me vi em um ambiente onde as atrocidades do regime autoritário também
incomodavam e instigavam ações de oposição.
Na
mesma época, dois outros episódios de horror corroboraram para o trauma dos
cidadãos brasileiros já inconformados com os abusos do regime instaurado há
doze anos: o bárbaro massacre da Lapa, comandado pessoalmente pelo delegado
Sérgio Paranhos Fleury, em 16 de dezembro de 1976, quando foram mortos Ângelo
Arroyo e Pedro Pomar e presos Elza Monnerat, Haroldo Lima, Aldo Arantes,
Joaquim de Lima e Maria Trindade; e o Pacote de Abril – um pacote de leis
aprovado pelo ditador Ernesto Geisel, em 13 de Abril de 1977-, que determinava
o fechamento temporário do Congresso Nacional, dentre outras medidas.
Cito
esses episódios para reafirmar que não existiu nenhuma brandura no governo do
ditador militar Ernesto Geisel em relação aos seus antecessores. A
caracterização divulgada, inclusive em alguns livros didáticos de que seria um
governo menos truculento e predisposto à abertura, não passa de um mito que faz
com que a visão do próprio processo, que culminou na extinção das leis de
exceção, tenha se dado por boa vontade dos militares, sem ter relação nenhuma
com o que acontecia nos meandros e setores organizados da sociedade civil.
Estes fatos, enfim, só fizeram aumentar a indignação de quem viveu a infância,
toda a adolescência e boa parte da vida adulta sob o autoritarismo de um
Governo Militar implantado pelo golpe desferido em 01 de abril de 1964.
Apesar
dos sinais de endurecimento, a Liga Operária fazia uma análise cujo viés
deslumbrava contradições e insatisfações crescentes, e decidiu que a data
daquele próximo primeiro de maio não poderia passar em brancas nuvens.
Escrevemos um panfleto, rodado precariamente em mimeógrafo, cujo teor lembrava
o caráter de luta do dia dos trabalhadores e, claro, nada tinha a ver com um
dia de festa como queriam fazer crer o governo ditatorial e o empresariado. O
texto, não muito longo, terminava com as palavras de ordem “contra a carestia”
e pela “restauração das liberdades democráticas”.
Formamos
dois grupos, com três pessoas cada, para pendurar esses panfletos em ganchos
nos muros das fábricas do ABC. Escolhemos o dia 27 de abril, e não exatamente
01 de maio, por questões de segurança. A intenção era abordar o pessoal que
saía do turno da noite e também o que chegava pela manhã. Por volta da 01h00,
já na madrugada do dia 28, fomos eu, Celso Brambilla e José Maria de Almeida abordados
por policiais militares nas imediações da Estação Ferroviária de Mauá, quando
estávamos dentro do fusca de José Maria de Almeida.
Fomos
truculentamente retirados do carro pelos policiais, algemados e colocados, os
três, na “gaiola” do camburão e em seguida levados para uma delegacia na cidade
de Mauá. Após o preenchimento de uma pequena ficha e vários telefonemas do
delegado responsável, fomos revistados,
novamente colocados na “gaiola” do camburão e iniciada a vinda para São
Paulo. Esses policiais não sabiam ao certo se deveriam nos levar para o
Doi-Codi ou para o DOPS.
Por
volta das 05h30 da manhã, depois de rodarmos por longo tempo, os policiais
estacionaram em frente ao prédio do DOPS, no centro da cidade de São Paulo, e
nos encaminharam para o interior do edifício. Foi feito o preenchimento formal
de uma ficha, levantados alguns dados. O delegado de plantão era o Tácito Pinheiro
Machado. Vale lembrar que recentemente, em 2012, foram encontrados e enterrados
no terreno de uma fazenda que pertenceu a este torturador, em Jaborandi, vários
documentos, relatórios confidenciais e fichas de supostos “subversivos”.
O
interrogatório começou nestas salas localizadas nos andares superiores, mas já
com muita truculência. Nos dez dias que se seguiram fui torturada quase que
ininterruptamente, sendo que nos quatro primeiros dias fiquei sem comer ou
dormir. Fui submetida a todo tipo de tortura, sempre nua, como aquela praticada
na “cadeira do dragão” (cadeira revestida de metal, para que os efeitos dos
choques elétricos fossem maximizados) e o pau-de-arara. Tanto na cadeira do
dragão como no pau-de-arara nos jogavam água, principalmente no rosto, para que
os choques também fossem amplificados. Outro tipo de tortura praticada comigo,
umas duas vezes, foi a simulação de afogamento. Seguravam-me pelos cabelos e
mergulhavam minha cabeça em uma tina de água.
A
tortura também incluía humilhações como dançar nua sobre uma mesa, os mamilos
torcidos por alicate, choques na vagina, no ânus, nos seios e na língua.
Fizeram-me andar com latas de conserva amarradas sob os pés. Sofri a ameaça de
ter um pedaço de pau introduzido na vagina, baratas andando pelo corpo e na
boca; submetida a socos, palmatórias, pontapés, além da constante ameaça de
morte aos outros amigos presos, e a mim. Uma destas ameaças foi ter o gatilho
de uma arma disparado na cabeça após a introdução de uma bala no tambor (roleta
russa).
Muitas
vezes as sessões de tortura eram praticadas juntamente com Celso Brambilla.
Também fui levada à frente de Cláudio Lúcio Gravina (estudante da PUC e preso
posteriormente), para reconhecimento, quando estava sendo torturado também nu
na “cadeira do dragão”. Algumas das sessões de tortura contavam com a presença
do delegado Luiz Walter Longo.
Por
muitas vezes perdi a noção do tempo e sofri frequentes desmaios.
Fui
retirada das dependências do DOPS duas vezes. Na primeira delas, fui algemada e
colocada na gaiola de um camburão e levada para a casa onde eu residia. Lá
arrombaram a porta e levaram tudo que havia dentro: móveis, roupas, livros,
quadros, gravuras. Não sabia precisar quanto tempo já durava aquele martírio.
Anos depois, através dos documentos levantados, constatei que esse episódio
ocorreu na noite do dia 29 de abril, um dia e meio depois da minha prisão. Não
me tiraram do camburão, porque eu estava desacordada quando o veículo chegou ao
local.
Na
segunda ocasião, fui amarrada com cordas nas mãos e nos pés, amordaçada,
encapuzada e jogada no piso da traseira de um carro pequeno (na volta vi,
através do capuz, tratar-se de um fusca azul claro, sem placa) por dois
policiais civis de codinomes Ronie Von e Capeta. Após rodarem por algum tempo
percebi, com o desaparecimento gradual dos sons urbanos, que estavam me levando
para algum lugar ermo. Pararam em uma estrada, fui arrancada do carro e jogada
no chão de terra, espancada a pontapés e soco inglês. Por vezes sentia o cano
de um revolver ora na fronte, ora na nuca. Os dois foram interrompidos por uma
comunicação através do rádio do carro que ordenava que retornassem com o “peixe
vivo”. Por conta disso, durante muito tempo, eu não conseguia entrar em taxi
que tivesse rádio transmissor, os sons de estática me deixavam absolutamente
desconfortável.
De
volta às dependências do DOPS, apesar da minha aparência evidenciar os maus
tratos com hematomas, inchaços e muita dificuldade para andar, fui levada à
presença de um oficial da aeronáutica que, dizendo-se conhecido da minha
família, pediu para eu assinar uma declaração negando qualquer tipo de mau
trato sofrido, me redimindo das posições contra o governo e, ainda, entregar nomes da minha
organização. Como me neguei a assinar essa declaração ou qualquer outra de
mesmo teor, e não acreditei que alguém da minha família pudesse fazer tal
pedido, principalmente através de alguém com tanta influência, o oficial disse
que tinha poderes para permitir a visita de quem eu quisesse para comprovar
essa história, embora eu estivesse sob o regime de incomunicabilidade. Foi
assim que recebi a visita de meus tios Sylvia Bassetto e Adhemar Bassetto e,
apesar do esquema de vigilância dos policiais ao nosso redor, soube que esse
oficial não falava em nome de ninguém da minha família.
Após
dez dias de incomunicabilidade, houve o pedido de prorrogação por mais dez
dias. Desta vez para sermos submetidos a tratamento médico. Todos os dias eu,
Anita Maria Fabbri, Celso Brambilla, Cláudio Lúcio Gravina e Fernando Oliveira
Lopes éramos levados a uma enfermaria para banhos de luz, massagens com pomadas
e ingestão de comprimidos. Após essas sessões de tratamento passávamos pela
vistoria, sempre todos nus, do delegado torturador Sérgio Paranhos Fleury e
pelo médico legista Harry Shibata. Este legista foi quem orientou um médico
para que assinasse o laudo onde não acusava nenhuma marca de tortura em meu
corpo, embora eu ainda apresentasse, na ocasião, um grande hematoma no seio
direito. Vale ressaltar que Celso Brambilla já estava surdo, com sérias
complicações em um dos tímpanos e lesões nas articulações.
Passei
todo esse período, na cela do DOPS, com Anita Maria Fabbri, presa
posteriormente e que também sofreu muitas torturas, e por um curto período com
Fortuna Dwek (hoje a atriz Tuna Dwek), também muito torturada e tirada do DOPS
e exilada, ainda no período de incomunicabilidade. Em outra cela estavam
Fernando de Oliveira Lopes, Cláudio Lucio Gravina e Celso Brambilla.
Em
16 de junho de 1977 eu e Anita fomos transferidas para o presídio do Carandiru.
Lá estavam presas Elza Monnerat e Maria Trindade. Tínhamos direito a um espaço
especial, por sermos universitárias, porém podíamos sair ao pátio somente por
um curto período pela manhã (duas horas, se não me engano).
Logo
após a transferência ao Carandiru, solicitei que fosse examinada pelo médico
que fazia plantão uma vez por semana no presídio. Além de estar me sentindo
demasiadamente fraca, desde que tinha sido presa não havia menstruado. Este
médico, após me ouvir, disse que “quando o organismo tem que tratar da própria
sobrevivência é normal que o aparelho reprodutor não funcione normalmente”.
Deu-me um comprimido para tomar. Este comprimido provocou uma forte hemorragia,
me deixando ainda mais debilitada por vários dias.
No
dia 12 de julho de 1977 alguns policiais chegam com uma ordem, expedida pelo
DOPS, exigindo um novo depoimento. Na época o presídio feminino era dirigido
por freiras o que me deu coragem para me recusar, terminantemente, a sair de
lá. Criado o impasse, exigi a presença de duas freiras, com a promessa de que
elas não sairiam de perto, nem em caso de eu precisar ir ao banheiro. Novamente
no DOPS, policiais repetiam sempre as mesmas perguntas sobre a organização, já
exaustivamente respondidas, O tempo desses depoimentos levou aproximadamente
seis horas. Tratava-se, na verdade, de uma sindicância aberta, em decorrência
às denúncias de torturas, feitas por Idibal Piveta, meu advogado e de
Brambilla. Acredito que essa sindicância tenha sido um fato inédito na época.
Na
presença do delegado Edsel Magnotti, me expuseram um álbum fotográfico com
cerca de 500 fotos, no formato três por quatro. Percebi, pelas marcas no cartão
do álbum, que muitas delas tinham sido retiradas. Eram investigadores,
escrivães e delegados do DOPS e queriam que eu apontasse quem eu poderia
identificar dentre as fotos mostradas e se por acaso eu havia sido maltratada
por essas pessoas. Apontei investigadores e delegados sendo que alguns
coincidiram com os reconhecidos por Celso Brambilla que, sem meu conhecimento,
prestava depoimento em outra sala.
Durante
todo esse interrogatório, os policiais tentavam me confundir, distorciam minhas
palavras, como em todos os depoimentos durante a prisão, além de desqualificar
Idibal Piveta. Importante salientar que o Dr. Idibal Piveta não estava presente
durante o depoimento.
Posso
citar ainda os delegados Alcides Singillo, Edsel Magnotti e Tácito Pinheiro
Machado que não participaram diretamente das sessões de tortura, mas
presenciaram vários interrogatórios em salas dos andares superiores onde muitas
torturas e sevícias foram praticadas.
Fui
indiciada em inquérito policial instaurado pelo DOPS (n. 25/77) e denunciada em
06/06/1977 como incursa nos artigos 14 e 43 da Lei de Segurança Nacional.
Em
21 de julho de 1977 foi relaxada a prisão preventiva e retorno à casa de meus
pais. Passadas duas semanas, tenho novamente uma forte hemorragia o que me leva
a consultar uma ginecologista particular – dra. Libia Poggetti – que atesta uma
gravidez já bastante avançada. Soube, pela doutora, que eu estava grávida de
algumas semanas no momento da prisão e, portanto, fui torturada grávida.
Este
era um complicador em um momento bastante indefinido do processo a que fui
submetida. As perspectivas ainda apontavam para a condenação. Uma crise se
instalou dentro dos setores militares com a disputa de poder por parte do
general Silvio Frota e alguns de seus apoiadores na tentativa de um maior
recrudescimento. Por isso decidi me submeter a um aborto, bastante delicado,
dado o avanço da gravidez – cinco meses.
Nesse
período de espera pelo julgamento, tentei retornar à faculdade e ter uma vida
normal, embora sempre sendo vigiada e seguida por policiais e sofrendo
frequentes processos depressivos.
Em
29 de novembro de 1977, as denúncias foram julgadas improcedentes e fui
absolvida junto com os outros colegas.
Durante
todo esse tempo, de abril a dezembro, fui alijada da companhia de meu marido,
Ronaldo Eduardo Almeida, que figurava no processo como réu revel. Em meados de
20 de dezembro consigo restabelecer contato com Ronaldo. Ele estava vivendo
clandestinamente: ficou cerca de um mês em uma fazenda em Goiás, foi para Belo
Horizonte e seguiu para o Rio de Janeiro. Em março de 1978 mudei para a cidade
do Rio de Janeiro na tentativa de reorganizarmos e reestruturarmos nossas
vidas.
Em
28 de agosto de 1978, Ronaldo é preso pelo DOPS do Rio de Janeiro e transferido
para o DOPS de São Paulo. Nesse período fui obrigada a me refugiar por mais de
um mês na clandestinidade. Tinha muito medo de ser envolvida em outro processo
e passar pelos mesmos maus tratos.
Em
14 de dezembro de 1979, o Superior Tribunal Militar (STM) comunica oficialmente
o julgamento do acórdão decretando a extinção da punibilidade.
[...]Bem,
quero ressaltar a importância das apurações da Comissão Nacional da Verdade.
Não podemos nos furtar de manter viva a luta pelo direito de resgate pleno da
memória e pelo acesso irrestrito aos arquivos da repressão. Restrições são
impostas, muitas vezes, motivadas para preservação de biografias maquiadas. E
aqui não posso deixar de citar o caso da matéria publicada na edição de 03 de
novembro de 2010 da revista Carta Capital sob o título “Servidor do Estado –
Romeu Tuma, exemplar responsável e muito competente”, em referência a morte
desse senhor.
A
matéria faz alusão a Romeu Tuma como tendo “atuado no DOPS ainda sob as ordens
de Sérgio Paranhos Fleury, na qualidade de ‘analista de informações’”. Afirma
despudoradamente que Romeu Tuma “sempre se declarou contra a violência e expressamente a proibiu desde sua nomeação
à chefia do DOPS em 1977”. Muitos outros órgãos de imprensa também veicularam
biografia deste policial semelhante a essa. No entanto, me espantou ser oriunda
da Carta Capital por tratar-se de uma publicação comprometida com um
posicionamento mais sério em relação ao respeito ao processo democrático.
Ora,
a indecisão da polícia militar em saber qual seria nosso destino, no momento da
prisão, se devia a uma disputa de poder travada entre os dois órgãos da
repressão (DOI e DOPS). Tal fato fez com que o Diretor da Divisão de Ordem
Social Sérgio Paranhos Fleury enviasse um memorando de esclarecimento, com data
de 30 de abril, ao “ILMO. Sr. Dr. Diretor do Departamento Estadual de Ordem
Política e Social Romeu Tuma” relatando as trapalhadas das polícias Militar,
Civil e Exército. Estes documentos, que conferem os cargos ocupados por esses
delegados, podem ser verificados no Arquivo do Estado. Anexado ao memorando
consta um relatório do então Delegado Adjunto da Divisão da Ordem Social Luiz
Walter Longo. O mesmo memorando culpa a confusão entre esses poderes pelo
vazamento da notícia à imprensa. Fato inventado porque a denúncia à imprensa
foi empreendida pelos meus companheiros de organização que tiveram a coragem de
conclamar o DCE da USP e da PUC a convocarem assembleias que desencadearam
várias mobilizações contra as nossas prisões e incitaram entidades
internacionais a enviar declarações de repúdio, dentre elas a própria Anisita
Internacional.
A
hierarquia do DOPS naquele ano de 1977 e no caso da equipe que investigou meu
caso, como atestam os documentos, era a seguinte:
Delegado
Luiz Walter Longo – chefiava a equipe de investigadores que torturaram a mim,
ao Celso Brambilla e ao Zé Maria, tendo, inclusive participado de várias
seções; que se reportava ao
Delegado
Sérgio Paranhos Fleury – desceu várias vezes aos porões para ver como iam os
“interrogatórios” e, inclusive, checar no período de tratamento as condições
para sermos apresentados ao advogado e familiares, que se reportava ao Sr.
Romeu Tuma, Diretor do Departamento Estadual de Ordem Política e Social.
Na
época o DOPS, segundo documentos do Arquivo do Estado, contava com 20 presos,
portanto era impossível um diretor “competente”, como setores da imprensa
biografaram o senhor Romeu Tuma, não saber o que se passava entre as salas de
tortura e as poucas (quatro ou seis) celas da carceragem. Este documento foi
assinado pelo sr. Amadeu Marastoni, então Guarda das Prisões (carcereiro) que
presenciou muito dos traslados dos presos das celas para as salas de torturas
quando saíamos das celas mais ou menos andando e voltávamos arrastados,
ensanguentados e desacordados.
Sr.
Romeu Tuma, apesar de ter conseguido um cargo de Senador da República – e só
ingressou no senado porque pessoas como eu e meus companheiros lutamos pela
restauração do Estado de Direito–, não pode, sob qualquer hipótese, ter a
biografia maquiada e contada por meias verdades. Porque meias verdades são
mentiras, portanto.
Quanto
à matéria da Carta Capital, me senti na obrigação de escrever ao editor,
jornalista Mino Carta, externando minha indignação. Para minha surpresa e indignação, nunca
recebi uma linha sequer de resposta, apesar de a carta ter tido uma grande
repercussão em vários blogs e portais de notícias.
O
processo de resgate da memória de tortura, como de qualquer outro processo traumático,
é bastante difícil. Não consigo me lembrar de tudo. Muitas vezes os depoimentos
e processos que estamos movendo ajudam emergir muitas situações que foram
“apagadas”. Zé Maria me surpreendeu ao descrever o momento em que me viu nua,
desmaiada, deitada no chão e com as pernas colocadas sobre uma cadeira em uma
das salas de um destes delegados que citei. Nestas mesmas salas ocorreu, por
exemplo, o episódio da barata.
Além
das torturas físicas e psicológicas, invasão de minha casa, roubo de todos os
meus pertences e ser obrigada a me afastar da companhia de meu marido, a casa
de minha mãe, de outros familiares e de muitos amigos ficaram, durante muito
tempo, sendo vigiadas, com os telefones grampeados e muitos ainda sendo
seguidos por policiais civis.
Enfrentei
vários problemas, principalmente com relação à maternidade, nos anos seguintes.
Tive dificuldade em segurar várias gestações, pois sempre entrava em processo
abortivo. Recorri a acompanhamento psicológico e ainda tenho muita dificuldade
em relatar tudo que passei neste período e nos anos posteriores. Eu e Ronaldo
levamos anos para reorganizar nossas vidas.
Agradeço,
portanto, aos que estão empenhados no resgate da verdadeira história deste
período que tanto envergonha os defensores dos direitos humanos e os que
batalham pela consolidação da democracia no Brasil. O devido desmascaramento e
punição, tanto dos que praticaram quanto daqueles que foram coniventes ou
silenciaram frente às atrocidades cometidas, inaugurará, sem dúvida, um
processo nunca antes conhecido na história do país. História esta marcada por
enormes períodos de autoritarismo e desrespeito aos direitos humanos sem que
nunca tenham sido devidamente contados pela boca dos que sofreram intimidações
e tiveram suas vidas ameaçadas. A impunidade dos policiais citados – alguns
ainda na ativa –, ao se estender por tanto tempo, permite que a prática da
tortura e as violações de direitos humanos básicos ainda sejam comuns nos
processos de investigação e atentam contra a vida de muitos. Agora não mais de
estudantes de classe média contra atrocidades de um regime ditador, mas de
jovens, mulheres, homens e negros, pobres e vítimas de exclusão, moradores da
periferia que não conseguem erguer a voz contra o abuso dos policiais.
Fonte:
https://bemblogado.com.br/site/tag/marcia-bassetto-paes/Edição: Página 1917