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segunda-feira, 7 de novembro de 2022

Sobre a Nossa Revolução

A Propósito das Notas de N. Sukhánov (01)

Lenin

16 e 17 de Janeiro de 1923




Folheei nestes dias as notas de Sukhánov sobre a revolução. O que salta sobretudo à vista é o pedantismo de todos os nossos democratas pequeno-burgueses, bem como de todos os heróis da II Internacional. Sem falar já de que são extraordinariamente covardes e de que mesmo os melhores deles se enchem de reservas quando se trata do menor desvio relativamente ao modelo alemão, sem falar já desta qualidade de todos os democratas pequeno-burgueses, suficientemente manifestada durante toda a revolução, salta à vista a sua servil imitação do passado.

Todos eles se dizem marxistas, mas entendem o marxismo duma maneira extremamente pedante. Não compreenderam de modo nenhum aquilo que é decisivo no marxismo: precisamente a sua dialética revolucionária. Não compreenderam em absoluto nem mesmo as indicações diretas de Marx, dizendo que nos momentos de revolução é necessária a máxima flexibilidade (02), e nem sequer notaram, por exemplo, as indicações de Marx na sua correspondência, referente, se bem me recordo, a 1856, na qual expressava a esperança de que a guerra camponesa na Alemanha, capaz de criar uma situação revolucionária, se unisse ao movimento operário (03) — eludem mesmo esta indicação direta, dando voltas no entorno dela como o gato em volta do leite quente.

Em toda a sua conduta revelam-se uns reformistas covardes que temem afastar-se da burguesia e, mais ainda, romper com ela, e ao mesmo tempo ocultam a sua covardia com a fraseologia e a jactância mais descarada. Mas, mesmo do ponto de vista puramente teórico, salta à vista em todos eles a sua plena incapacidade de compreender a seguinte ideia do marxismo: viram até agora um caminho determinado de desenvolvimento do capitalismo e da democracia burguesa na Europa Ocidental. E eis que eles não são capazes de imaginar que este caminho só pode ser considerado como modelo mutatis mutandis(*), só com algumas correções (absolutamente insignificantes, do ponto de vista do curso geral da história universal).

Primeiro — uma revolução ligada à primeira guerra imperialista mundial. Numa tal revolução deviam manifestar-se traços novos ou modificados. Precisamente em consequência da guerra, porque nunca houve no mundo tal guerra em tal situação. Vemos que até agora a burguesia dos países mais ricos não pode organizar relações burguesas «normais» depois dessa guerra, enquanto os nossos reformistas, pequenos burgueses que se armam em revolucionários, consideravam e consideram como um limite (além disso insuperável) as relações burguesas normais, compreendendo esta "norma" duma maneira extremamente estereotipada e estreita.

Segundo — é-lhes completamente alheia qualquer ideia de que dentro das leis gerais do desenvolvimento em toda a história mundial não estão de modo nenhum excluídas, mas, pelo contrário, pressupõem-se determinadas etapas de desenvolvimento que apresentam peculiaridades, quer na forma quer na ordem desse desenvolvimento. Nem sequer lhes passa pela cabeça, por exemplo, que a Rússia, situada na fronteira entre os países civilizados e os países que pela primeira vez são arrastados definitivamente por esta guerra para o caminho da civilização, os países de todo o Oriente, os países não europeus, que a Rússia podia e devia, por isso, revelar certas peculiaridades, que naturalmente estão na linha geral do desenvolvimento mundial, mas que distinguem a sua revolução de todas as revoluções anteriores dos países da Europa Ocidental e que introduzem algumas inovações parciais ao deslocar-se para os países orientais.

Por exemplo, não pode ser mais estereotipada a argumentação por eles usada, que aprenderam de memória na época do desenvolvimento da social-democracia da Europa Ocidental, e que consiste no fato de que nós não estamos maduros para o socialismo, de que não existem no nosso país, segundo a expressão de vários "doutos" senhores dentre eles, as premissas econômicas objetivas para o socialismo. E não passa pela cabeça de nenhum deles perguntar: não podia um povo que se encontrou numa situação revolucionária como a que se criou durante a primeira guerra imperialista, não podia ele, sob a influência da sua situação sem saída, lançar-se numa luta que lhe abrisse pelo menos algumas possibilidades de conquistar para si condições que não são de todo habituais para o crescimento ulterior da civilização?

"A Rússia não atingiu um nível de desenvolvimento das forças produtivas que torne possível o socialismo." Todos os heróis da II Internacional, e entre eles, naturalmente, Sukhánov, se comportam como se tivessem descoberto a pólvora. Ruminam esta tese indiscutível de mil maneiras e parece-lhes que é decisiva para apreciar a nossa revolução.

Mas que fazer, se uma situação peculiar levou a Rússia, primeiro à guerra imperialista mundial, na qual intervieram todos os países mais ou menos influentes da Europa Ocidental, e colocou o seu desenvolvimento no limite das revoluções do Oriente, que estão a começar e em parte já começaram, em condições que nos permitiram levar à prática precisamente essa aliança da «guerra camponesa» com o movimento operário sobre as quais escreveu um "marxista" como Marx em 1856 como uma das perspectivas possíveis em relação à Prússia?

Que fazer se uma situação absolutamente sem saída, decuplicando as forças dos operários e camponeses, abria perante nós a possibilidade de passar de maneira diferente de todos os outros países da Europa Ocidental criação das premissas fundamentais da civilização? Alterou-se por isso a linha geral de desenvolvimento da história universal? Alteraram-se por isso as correlações fundamentais das classes fundamentais em cada país que se integra e integrou já no curso geral da história mundial?

Se para criar o socialismo é necessário um determinado nível de cultura (ainda que ninguém possa dizer qual é precisamente esse determinado "nível de cultura", pois ele é diferente em cada um dos Estados da Europa Ocidental), porque é que não podemos começar primeiro pela conquista, por via revolucionária, das premissas para esse determinado nível, e já depois, com base no poder operário e camponês e no regime soviético, pôr-nos em marcha para alcançar os outros povos?

II

Para criar o socialismo, dizeis, é necessária civilização. Muito bem. Mas então, porque não havíamos de criar primeiro no nosso país premissas da civilização como a expulsão dos latifundiários e a expulsão dos capitalistas russos e, depois, iniciar um movimento para o socialismo? Em que livros lestes que semelhantes alterações da ordem histórica habitual são inadmissíveis ou impossíveis? 

Lembro que Napoleão escreveu: "On s'engage et puis . . . on voit." Traduzido livremente para russo isto quer dizer: ."Primeiro lançamo-nos no combate sério e depois logo vemos." E nós, em outubro de 1917, iniciamos primeiro o combate sério e depois logo vimos os pormenores do desenvolvimento (do ponto de vista da história universal trata-se indubitavelmente de pormenores), tais como a Paz de Brest ou a NEP, etc. E hoje não há dúvida de que, no fundamental, alcançámos a vitória. 

Os nossos Sukhánov, sem falar já daqueles sociais-democratas que estão mais à direita, nem sonham sequer que as revoluções em geral não se podem fazer doutra maneira. Os nossos filisteus europeus não sonham sequer que as futuras revoluções nos países do Oriente, com uma população incomparavelmente mais numerosa e que se diferenciam muito mais pela diversidade das condições sociais, apresentarão sem dúvida mais peculiaridades do que a revolução russa. 

Nem é preciso dizer que o manual redigido segundo Kautsky foi, na sua época, uma coisa muito útil. Mas já é tempo de renunciar à ideia de que esse manual tinha previsto todas as formas de desenvolvimento ulterior da história mundial. Àqueles que pensam desse modo é tempo já de os declarar simplesmente imbecis.

Notas: 

(*) "mudando o que deve ser mudado". 

(01) O artigo de Lenin Sobre a Nossa Revolução foi escrito a propósito do terceiro e do quarto livros de Notas Sobre a Revolução, do menchevique N. Sukhánov. O artigo foi entregue à redacção do Pravda por N. K. Krúpskaia sem título; o título foi dado pela redação do jornal. 

(02) Lenin refere-se aparentemente à caracterização da Comuna de Paris como "uma forma política altamente maleável" na obra de K. Marx A Guerra Civil em França e à apreciação feita por Marx da "flexibilidade dos parisienses" na sua carta a L. Kugelmann de 12 de Abril. In Karl Marx und Friedrich Engels, Ausgewãhlte Scbriften in zwei Bänden, Bd. I, Berlin, 1960, S. 494, e Bd. II, Berlin, 1960, S. 435/436.

(03) Lenin refere-se à seguinte passagem da carta de K. Marx a F. Engels de 16 de Abril de 1856: "Tudo na Alemanha dependerá da possibilidade de apoiar a revolução proletária por qualquer segunda edição da guerra camponesa. Nesse caso, tudo correrá maravilhosamente." In Karl Marx und Friedrich Engels, Ausgewãhlte Scbriften in zwei Bänden, Bd. II, Berlin, 1960, S. 425/426.

Edição: Página 1917

Fonte: Obras Escolhidas, 1977, Edições Avante! - Lisboa, Edições Progresso - Moscou.

quinta-feira, 3 de novembro de 2022

Contribuição do Partido Comunista da Grécia (KKE) no 22º Encontro Internacional de Partidos Comunistas e Operários (EIPCO) em Havana

29/10/2022

Giorgos Marinos, membro do BP do CC do KKE

Giorgios Marinos 
Caros camaradas: 

Celebramos a 22ª EIPCO superando as dificuldades da pandemia e nos encontramos aqui, em Havana, para dar continuidade ao esforço que começou em 1998 em Atenas, e que nos anos seguintes percorreu muitas regiões do mundo.

O Partido Comunista da Grécia saúda os Partidos Comunistas participantes e agradece ao Partido Comunista de Cuba a organização do 22º EIPCO e sua hospitalidade.

Expressa sua permanente solidariedade internacionalista ao Partido Comunista de Cuba e ao povo cubano, que atualmente enfrenta sérias dificuldades econômicas.

Condena o imperialismo norte-americano e seus aliados, o inaceitável bloqueio de 62 anos imposto à ilha da revolução para minar suas conquistas. Denuncia a campanha anticomunista e as ações contrarrevolucionárias orquestradas. Exige o fim do bloqueio imperialista e de todas as formas de intervenção nos assuntos internos de Cuba.

A luta de Fidel, Che e Raúl e outros revolucionários, a heroica luta armada, a vitória da revolução em 1º de janeiro de 1959, a proclamação de seu caráter socialista e a longa luta contra o imperialismo, inspiram os povos.

A 22ª EIPCO está sendo realizada numa conjuntura muito perigosa.

O sistema capitalista é marcado pela intensificação das rivalidades que levam às guerras e intervenções imperialistas, a intensificação da exploração, a expansão da pobreza e do desemprego, as ondas de refugiados e imigrantes em busca de um futuro melhor.

As cidades sofrem de fome insuportável, baixos salários e pensões, pobreza energética. A pandemia revelou o caráter de classe dos Estados burgueses e a deficiência dos sistemas públicos de saúde, os trágicos resultados da política de comercialização. Nosso partido valoriza especialmente as medidas adotadas por Cuba durante a pandemia para proteger a saúde e a vida de seu povo e sua contribuição internacionalista. 

A chamada “transição verde” sob o pretexto de salvar o meio ambiente, assim como a chamada 4ª revolução industrial, são as ferramentas modernas do capitalismo para a exploração do capital acumulado, a serviço dos interesses das classes burguesas que intensificam o ataque contra os povos e intensificam a exploração da classe trabalhadora.

O fortalecimento da luta dos comunistas pela derrubada da barbárie capitalista é uma tarefa particularmente importante, e nesse sentido queremos levantar algumas questões fundamentais de importância estratégica que dizem respeito ao movimento comunista, em cujas fileiras se trava uma intensa e necessária luta ideológica e política. Referimo-nos a isso, estimando que as novas condições da luta de classes e o confronto com o capitalismo criaram grandes demandas e o movimento comunista está atrasado. O seu reagrupamento e a realização da unidade político-ideológica continuarão a ser um desejo se o seu curso não for reexaminado com os princípios revolucionários, a teoria marxista-leninista e a valiosa experiência da Revolução Socialista de Outubro como bússola. 

O KKE tenta contribuir para esta causa e, ao mesmo tempo, tenta aproveitar as possibilidades de desenvolvimento da ação conjunta dos partidos comunistas e operários. No entanto, deve-se notar que a exortação “avançar o que nos une e deixar o que nos divide” embeleza a situação e funciona como um obstáculo à discussão necessária e substancial para tirar conclusões dos retrocessos contrarrevolucionários e da crise do movimento comunista. . Impede a identificação de causas, problemas e erros, cujo estudo é necessário para fortalecer a luta contra qualquer tendência ao compromisso com o sistema, contra o oportunismo, e intensificar os esforços para alcançar uma estratégia revolucionária unificada contra os monopólios e o capitalismo.

sexta-feira, 28 de outubro de 2022

POR QUE É QUE AS CRIANÇAS PALESTINIANAS ATIRAM PEDRAS?

SOBRE A MORTE DE RAYAN SULIMAN E O SEU MEDO DE MONSTROS

28.10.22

 Ramzy Baroud 

Embora as crianças palestinianas desenvolvam a consciência política numa idade muito jovem, muitas vezes a sua ação de protestar contra os militares israelitas, entoando cantos contra soldados invasores ou mesmo atirando pedras não são compelidas pela política, mas por algo totalmente diferente: o seu medo de monstros.

Criança palestina presa por soldado israelense.


As crianças do meu campo de refugiados de Gaza raramente tinham medo de monstros, mas de soldados israelitas. Isto é tudo o que conversávamos antes de ir para a cama. Ao contrário dos monstros imaginários no armário ou debaixo da cama, os soldados israelitas são reais, e eles podem aparecer a qualquer minuto – na porta, no telhado ou, como era frequentemente o caso, mesmo no meio da casa.

A recente trágica morte de um menino de 7 anos, Rayan Suliman, um menino palestiniano da vila de Tuqu, perto de Belém, na Cisjordânia ocupada, despertou muitas memórias. O menino com pele cor de oliva, rosto inocente e olhos brilhantes caiu no chão enquanto era perseguido por soldados israelitas, que o acusaram e aos seus amigos de atirar pedras. Ele caiu inconsciente, o sangue jorrou da sua boca e, apesar dos esforços para reanimá-lo, deixou de respirar.

Este foi o fim abrupto e trágico da vida de Rayan. Todas as coisas que ele poderia ter sido, todas as experiências que ele poderia ter vivido e todo o amor que ele poderia ter transmitido ou recebido, tudo terminou de repente, como o menino deitado de bruços na calçada de uma estrada empoeirada, numa aldeia pobre, sem nunca experimentar um único momento de ser verdadeiramente livre, ou mesmo sentir-se seguro.

Ryan Suleiman


Os adultos muitas vezes projetam a sua compreensão do mundo sobre as crianças. Queremos acreditar que as crianças palestinianas são guerreiras contra a opressão, a injustiça e a ocupação militar. Embora as crianças palestinianas desenvolvam consciência política numa idade muito jovem, muitas vezes a sua ação de protestar contra os militares israelitas, entoando cantos contra soldados invasores ou mesmo atirando pedras, não são compelidas pela política, mas por algo totalmente diferente: o seu medo de monstros.

Essa ligação veio-me à mente quando li os detalhes da experiência angustiante que Rayan e muitas crianças da aldeia suportam diariamente.

Tuqu é uma aldeia palestiniana que, era uma vez, existia numa paisagem incontestável. Em 1957, o colonato ilegal judeu de Tekoa foi estabelecido em terras palestinianas roubadas. O pesadelo tinha começado.

As restrições israelitas às comunidades palestinianas nessa área aumentaram, juntamente com a anexação de terras, as restrições de viagem e o aprofundamento do apartheid. Vários moradores, na sua maioria crianças da aldeia, foram feridos ou mortos por soldados israelitas durante repetidos protestos: os moradores queriam ter a sua vida e a sua liberdade de volta; os soldados queriam garantir a contínua opressão de Tuqu em nome da salvaguarda da segurança de Tekoa. Em 2017, um garoto palestiniano de 17 anos, Hassan Mohammad al-Amour, foi baleado e morto durante um protesto; em 2019, outro, Osama Hajahjeh, ficou gravemente ferido.

As crianças de Tuqu tinham muito a temer, e os seus medos eram todos bem fundamentados. Uma viagem diária para a escola,  que Rayan e muitos dos seus amigos faziam, acentuou esses medos. Para chegar à escola, as crianças tinham de atravessar o arame farpado militar israelita, muitas vezes vigiado por soldados israelitas fortemente armados.

Às vezes, as crianças tentavam evitar o arame farpado para evitar o terrível encontro. Os soldados antecipavam isso. "Tentamos caminhar pelos olivais ao lado do caminho, mas os soldados escondem-se nas árvores apanham-nos lá", disse um menino de 10 anos de Tuqu, Mohammed Sabah, citado num artigo de Sheren Khalel, publicado há anos atrás.

O pesadelo está a acontecer há anos. Rayan experimentou aquela jornada aterrorizante durante mais de um ano, de soldados esperando atrás de arames farpados, criaturas misteriosas escondidas atrás de árvores, mãos a agarrar os pequenos corpos, crianças a gritar pelos seus pais, implorando a Deus e correndo em todas as direções.

Após a morte de Rayan em 29 de setembro, o Departamento de Estado dos EUA, o governo britânico e a União Europeia exigiram uma investigação, como se a razão pela qual o menino sucumbiu aos seus medos paralisantes fosse um mistério, como se o horror da ocupação militar israelita e da violência não fosse uma realidade quotidiana.

A história de Rayan, embora trágica além das palavras, não é única, mas uma repetição de outras histórias vividas por inúmeras crianças palestinianas.

Quando Ahmad Manasra foi atropelado por um carro de um colono israelita, e o seu primo, Hassan, foi morto em 2015, a mídia israelita e os apologistas apagaram as chamas da propaganda alegando que Manasra, de 13 anos na época, era uma representação de algo maior. Israel alegou que Manasra foi baleado por tentar esfaquear um guarda israelita, e que tal ação refletia o ódio palestiniano profundo pelos judeus israelitas, outra prova conveniente da doutrinação de crianças palestinianas pela sua cultura supostamente violenta. Apesar dos ferimentos e da pouca idade, Manasra foi julgado em 2016 e condenado a doze anos de prisão.

Manasra vem da cidade palestiniana de Beit Hanina, perto de Jerusalém. A sua história é, em muitos aspetos, semelhante à de Rayan: uma cidade palestiniana, um colonato judeu ilegal, soldados, colonos armados, limpeza étnica, roubo de terras e monstros reais por toda a parte. Nada disso importava para os tribunais israelitas ou para a mídia corporativa. Em vez disso, eles transformaram um garoto de 13 anos num monstro e usaram a sua imagem como  um cartaz da propaganda do terrorismo palestiniano ensinado numa idade muito jovem.

A verdade é que as crianças palestinianas atiram pedras nos soldados israelitas, nem só por causa do seu ódio, supostamente inerente, aos israelitas, nem como atos puramente políticos. Eles fazem isso porque é sua única maneira de enfrentar os seus próprios medos e   ajustar contas com a sua humilhação diária.

Pouco antes de Rayan conseguir escapar da multidão de soldados israelitas e ser perseguido até a morte, houve uma troca entre o seu pai e os soldados. O pai de Rayan disse à Associated Press que os soldados ameaçaram que, se Rayan não fosse entregue, voltariam à noite para prendê-lo juntamente com os seus irmãos mais velhos, de 8 e 10 anos. Para uma criança palestiniana, um ataque noturno de soldados israelitas é a perspectiva mais aterrorizante. O coração jovem de Rayan não podia suportar esse pensamento. Caiu inconsciente.

Médicos do hospital palestiniano de Beit Jala deram uma explicação médica convincente sobre a razão por que Rayan morreu. Um especialista em pediatria falou sobre o aumento dos níveis de estresse causado pelo "excesso de secreção de adrenalina" e aumento dos batimentos cardíacos, levando a uma paragem cardíaca. Para Rayan, os seus irmãos e muitas crianças palestinianas, a culpa é de outra coisa: os monstros que voltam à noite e aterrorizam as crianças adormecidas.

As chances são de que os irmãos mais velhos de Rayan estejam de volta às ruas de Tuqu, de pedras e fisgas na mão, prontos para enfrentar os seus medos de monstros, mesmo que paguem o preço com as suas próprias vidas.

Edição: Página 1917

Fonte: https://pelosocialismo.blogs.sapo.pt/por-que-e-que-as-criancas-palestinianas-221725


quinta-feira, 27 de outubro de 2022

O Dilema das Jaulas

Ney Nunes

"Antes de aceitarmos a imposição para entrar na jaula do leão ou na do tigre, devemos considerar que apesar desses felinos serem bem diferentes, suas garras e mandíbulas são igualmente poderosas."

 



     Quando a contradição e a desorientação predominam, é natural que os argumentos se tornem rasos. Neste segundo turno eleitoral é justamente isso o que presenciamos e de forma ainda mais intensa do que no primeiro. De forma geral, aqueles que se reivindicam à esquerda do petismo dizem que o prioritário é derrotar o fascista nas urnas para impedir um segundo mandato que aprofundaria o “retrocesso civilizatório”. Diante do horror despertado pelo avanço da extrema direita, apontam que existem apenas dois caminhos possíveis: seguir a reboque da frente ampla social-liberal ou sucumbir ao bolsonarismo.

     Em reforço dessa tese, afirmam que os defensores da abstenção ou do voto nulo colocam um sinal de igual entre Lula e Bolsonaro ao não reconhecer que em muitos aspectos os dois candidatos são diferentes: Lula defende a democracia, Bolsonaro a ditadura; Lula respeita a independência dos poderes, Bolsonaro quer manietar o STF e etc. Mas esquecem, de forma conveniente, de verificar as semelhanças. Elas existem e a principal delas é estratégica, os dois candidatos têm como horizonte político atender aos interesses gerais da classe dominante, servindo como administradores do Estado burguês no âmbito da inserção subalterna do Brasil no sistema imperialista, tendo, inclusive, já fornecido suficientes provas disso durante seus mandatos presidenciais.

     Ao falarem de um “retrocesso civilizatório”, estão, na verdade, defendendo a continuidade dessa sociedade burguesa em tempos de barbárie. Ignoram ou, fingem ignorar, que o bolsonarismo (assim como o nazifascismo na Europa dos anos 1930) é subproduto da barbárie capitalista, nasceu dos escombros de nossas derrotas, do retrocesso da consciência de classe, da desorganização e fragmentação do proletariado nos últimos trinta anos de hegemonia socialdemocrata no movimento de massas aqui no Brasil.

     Está mais do que evidente que a burguesia se apresenta dividida nesse segundo turno eleitoral e essa divisão expressa sua crise diante de um capitalismo agonizante que exige doses cavalares de superexploração. A diferença entre os dois blocos burgueses é quanto a melhor forma de manter a dominação político-ideológica sobre as massas, sobre o grau de coerção e consenso necessários para atingir esse objetivo. Mas o horizonte estratégico é o mesmo, ou seja, manter o país atrelado de forma subalterna ao sistema imperialista mundial, preservando assim os seus lucros bilionários e confinando a imensa maioria dos brasileiros na situação de miséria.

     O desfecho dessa verdadeira guerra de classes não virá do resultado dessas eleições burguesas, as batalhas decisivas ainda estão por vir e inevitavelmente serão cada vez mais violentas face ao avanço da barbárie capitalista. O caminho gradual e pacífico desde sempre foi interditado pela burguesia e o imperialismo, ele segue vigente apenas nos devaneios reformistas daqueles que perderam o referencial da luta de classes. Reconstruir o bloco proletário pelo socialismo, independente da burguesia e preparado para o enfrentamento em todos os terrenos, é a única alternativa para não sermos massacrados nesses futuros combates.

     Antes de aceitarmos a imposição para entrar na jaula do leão ou na do tigre, devemos considerar que apesar desses felinos serem bem diferentes, suas garras e mandíbulas são igualmente poderosas.

 27/10/2022  

Edição: Página 1917     

 

    

    

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