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sexta-feira, 22 de julho de 2022

Líbia, Pequenas Tragédias Diárias

Guadi Calvo*

04/07/2022 

Imigrantes mortos no deserto líbio.


É difícil encontrar termos para definir a encenação da reunião de cúpula da OTAN, que acaba de terminar em Madrid, à qual, obviamente, todos os participantes compareceram com o roteiro feito pelos Estados Unidos, pelo que, sem fugir uma vírgula, concordaram de bom grado em continuar gerando ações contra a Rússia, aproximando o mundo de uma guerra nuclear, da qual, se conseguirmos nos livrar, teremos que agradecer a Deus. 

Hipócritas é um termo muito leve para definir a cúpula dos genocidas, que puxam as barbas diante da contra-ofensiva russa na Ucrânia, que foi instigada por eles mesmos ao encurralar Moscou a ponto de não deixar outro caminho, e agora , quando descobrem que a coisa é grave, como se fossem membros de uma colônia Menonita, apontam com espanto e indignação para o presidente Vladimir Putin, como se Putin tivesse sido aquele que destruiu o Iraque, a Síria, a Líbia, o Líbano, o Afeganistão, Iêmen, Iugoslávia e tantas outras nações. 

Não satisfeito com a situação na Ucrânia (onde eles precisavam de um servil como Volodymyr Zelensky, que ao preço de milhares de mortes e a devastação de seu país, segue a prolongar uma guerra sabendo que é impossível para ele sair vitorioso dela), Washington, pastoreando toda a OTAN com uma vara, começa a fazer piruetas na borda, também ameaçando a China, como se o presidente Xi Jinping fosse um pequeno e fofinho urso panda. 

Embora o que é realmente importante é que enquanto Biden estava descansando na Espanha, naquele mesmo país, parece mentira! Do "No Pasaran" e "El Alcanzar não se rende", Pedrito Sánchez, como a melhor mão, o cumprimenta devotadamente e fica alegre por ter o mestre em casa, executando um exercício de genuflexão ritual raramente visto. 

A cerca de três mil quilômetros da cidade de Oso e do Madronoo, exatamente a sudeste de Kufra, no deserto da Líbia, a uns 120 quilômetros da fronteira com o Chade, um caminhoneiro que transita regularmente por aquele setor pouco povoado e com temperaturas acima de quarenta graus centígrados, onde o menor passo em falso pode precipitar uma morte tão monstruosa quanto a das vinte pessoas que o transportador encontrou. 

Segundo a equipe de resgate, todos morreram de sede depois de ficarem encalhados no meio do deserto, após a quebra do veículo com o qual aspiravam chegar a um dos portos líbios, para de lá tentar chegar na Europa. Acredita-se que as vítimas tenham se perdido há duas semanas, pois uma última ligação foi gravada em um dos celulares encontrados em 13 de junho. 

Dois dos mortos são de origem líbia, provavelmente traficantes, enquanto os demais parecem ser todos chadianos. Jamais nos lembraremos de seus nomes ou dos motivos que os levaram a embarcar em tal aventura, embora não seja preciso ser um adivinho e para saber exatamente esses motivos. 

Se ignorarmos detalhes geográficos, circunstâncias e quantidades, podemos garantir que o evento seja o mesmo que aconteceu em San Antonio, Texas, perto da fronteira com o México, onde na segunda-feira, 27, em um caminhão abandonado, cerca de cinquenta pessoas foram encontradas mortas por calor, sede e o desespero de saber que estão trancados e indefesos. 

Seria um exagero dizer que as vítimas dos dois eventos vieram do mesmo lugar de pobreza, desesperança e tentavam voar para esse estado de bem-estar do qual as democracias do mundo tanto se orgulham? Então, neste caso, ao contrário do que se vê nos filmes, qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência. 

O "incidente" de Kufra não é o primeiro a ocorrer no deserto da Líbia. Embora nunca venhamos a conhecer todo este tipo de tragédias dada a ilegalidade da atividade, o desinteresse por parte da comunidade internacional em conhecer os números e o gigantesco movimento de pessoas que tentam chegar aos portos do sul do Mediterrâneo para cruzar para a Europa, arriscando tudo, pois estima-se que mais de um milhão de pessoas estão constantemente esperando nos portos líbios, pessoas que vêm não apenas de todos os cantos da África, mas também do Oriente Médio, Ásia Central e Sudeste Asiático. 

Com a recente tragédia em Melilla,  se verificou que a maioria dos que estão em Marrocos com a intenção de saltar as cercas e ir para os enclaves espanhóis de Ceuta e Melilla são originários do Sudão, a mais de 4.300 quilômetros de puro deserto do reino alauíta . A maioria dos trinta e sete mortos na última sexta-feira, dia são de origem sudanesa, mas bom, já faz muito tempo deste acontecimento, então está praticamente esquecido. 

A OTAN não paga pelos seus crimes 

Após a destruição da Líbia pelas mãos dos Estados Unidos e da OTAN, o país do Coronel Kadafi tornou-se um estado falido e todas as articulações que tentam armar tanto a Organização das Nações Unidas (ONU) quanto a União Européia (UE) falharam constantemente e de maneira trágica. 

A guerra civil latente, mas já crônica, mergulhou o antigo Estado das Massas  do Coronel Kadafi num território dominado por bandos armados que não conseguem se articular em um verdadeiro exército, associados a pequenas cidades-estados como Trípoli, Bengasi ou Tobruk, sustentado por diferentes países "amigáveis". 

É a anarquia prevalecente que possibilitou que inúmeros cartéis de drogas, traficantes de armas e pessoas, geralmente apoiados por alguma milícia, se instalassem no país e até pressionassem o poder político, supondo que exista algum, para continuar nessa situação. São estas organizações de tráfico de seres humanos que se encarregam de transferir os milhares de refugiados que todos os dias tentam chegar a um porto líbio para seguir rumo à Europa, depois de entrarem pelas fronteiras com o Chade, o Níger e o Sudão. Diferentes organizações internacionais têm apontado que, com o fim das restrições estabelecidas pela pandemia, os números referentes ao tráfico de refugiados voltaram a disparar. 

Destes grandes focos no sul da Líbia, o Níger é o maior centro de irradiação; Apesar do transporte de imigrantes estrangeiros ter sido proibido em 2016, Niamey tolera o tráfico de nacionais. 

Por sua vez, diferentes organizações humanitárias denunciam constantemente em fóruns internacionais o sofrimento que os refugiados devem suportar nas mãos das redes de contrabando: tortura, estupro e, se necessário, assassinato quando o “cliente” fica muito chateado. Não é segredo para ninguém que muitos são leiloados como escravos, para diversos fins, trabalho ou prostituição, na maioria dos casos, como é o caso da cidade líbia de Sabha, capital da província de Fezzan; em muitos casos, eles também são mantidos em campos diferentes, como Tazirbu em Kufra ou Bani Walid, este último na Cirenaica, esperando que o resgate seja pago por eles. 

Mais além da verdadeira vontade do Ocidente, todos agora sabem que ninguém pode controlar a situação na Líbia, onde a tentativa de chegar a um acordo para realizar eleições nacionais falhou mais uma vez. 

Agora sim, para grande pesar da Europa e dos Estados Unidos, que só estão interessados ​​em ajustar as margens de produção de petróleo, para suplantar a grave escassez, dadas as sanções russas no quadro da contra-ofensiva na Ucrânia. 

*Guadi Calvo, escritor e jornalista argentino, analista internacional especializado na África, Oriente Médio e Ásia Central.

Edição: Página 1917

Fonte: Rebelion

quinta-feira, 21 de julho de 2022

Crime, Castigo e Passagem de Pano Preventiva

André Lavinas* 


O oportunismo tem a goela larga.

O oportunismo de certa esquerda, realmente, não tem limites. 

Estas organizações tem produzido verdadeiras pérolas no afã de manter ao seu lado a militância honesta que ainda tem ilusões de que o PT e seus satélites ainda vislumbram o que Elias Jabour chama de "programa máximo", que no contexto só podemos supor que sejam reformas sociais em prol dos trabalhadores. 

Jabour já está dando uma desculpa para a provável manutenção, num futuro governo Lula, de todos os ataques perpetrados durante estes quase sete anos Temer / Bolsonaro. 

Nas suas palavras, “enquanto não tivermos no horizonte a transição socialista no Brasil, o programa máximo vai se adequando às tarefas estratégicas que comportam cada momento histórico...”. 

Quais seriam as tais “tarefas estratégicas que comportam cada momento histórico”, ele não revelou. 

Mas, deixando de lado a verborragia pseudomarxista e diversionista de Jabour, vamos ao que é revelado e compreensível do seu texto. 

Diante da afirmação de que o “programa máximo” deve ir se “adequando” ao “momento histórico” cabe a pergunta: 

 O “momento histórico” de hoje é o mesmo de 19 anos atrás, quando Lula assumiu e o PT iniciou o seu governo de mais de 14 anos ? 

Lembremo-nos que o PT não reverteu nenhuma privatização da "era" FHC, privatizou usinas elétricas, grandes aeroportos, leilooou a maior parte das reservas do Pré-sal, deu mais de 10 trilhões de dólares para banqueiros e grandes corporações via dívida pública, doou mais de um bilhão para a constituição do oligopólio da JBS, financiou a ocupação militar de favelas no RJ, foi cúmplice de Sérgio Cabral e Pezão durante todo o tempo que esses governos duraram, enfim, a lista é grande, vou parar por aqui. 

Este foi o resumo do PT no governo de 2002 à 2016. 

 Obviamente era outra conjuntura, diga-se de passagem, muito mais favorável em termos econômicos e de apoio popular para as ações do governo petista, só para citar dois aspectos. 

Se no "momento histórico" de 20 anos atrás o PT não foi capaz de mobilizar os trabalhadores para a “luta de classes em alta intensidade” necessária para reverter os retrocessos da era FHC, estará agora à altura desta tarefa? 

A resposta óbvia é não. 

A explícita operação “passa-pano preventiva” já nos diz que pouco ou nada se pode esperar do PT em termos de reverter os ataques sofridos durante o binomio Temer/Bolsonaro. 

Que dirá então avançar na reforma agrária, estatização dos bancos e das grandes corporações capitalistas, estatização do sistema de saúde e da universalização da educação pública e gratuita em todas as esferas? 

O PT já governou 15 anos em favor do grande capital e não esboçou nenhuma intenção de adotar mesmo reformas sociais dentro dos marcos da sociedade capitalista, como a reforma agrária, por exemplo. 

Esperar alguma iniciativa desta organização e suas adjacências no sentido de mobilizar os trabalhadores para a “luta de classes de alta intensidade” é de uma ingenuidade ímpar. 

Nem mesmo os fanáticos religiosos manteriam tamanha fé nesse tipo de messianismo cujo fracasso já é anunciado de antemão. 

Ou, talvez, Lula seja mesmo o novo messias e, como um outro messias mais famoso, promete uma vida de sofrimento e provações neste mundo, mas o paraíso, post mortem, é claro, para todos aqueles que acreditam nele cegamente e lhe darão seu voto ainda no primeiro turno.

*André Lavinas é bancário, poeta e diretor do Centro Cultural Octavio Brandão. 


 

sexta-feira, 15 de julho de 2022

Declaração Conjunta

Declaração conjunta dos secretários-gerais do Partido Comunista dos Trabalhadores da Espanha, do Partido Comunista da Grécia, do Partido Comunista do México e do Partido Comunista da Turquia

Em 8 de julho de 2022, uma reunião quadripartida entre o KKE, o PCTE, o PCM e o TKP ocorreu em Atenas, na sede do Comitê Central do KKE. 


Após o término da reunião, foi emitida a seguinte Declaração Conjunta dos Secretários Gerais dos quatro partidos comunistas: 

“Durante nosso encontro, realizado em Atenas em 8 de julho de 2022, tivemos a oportunidade de trocar opiniões sobre os acontecimentos em escala internacional e nacional, sobre a situação que está se desenvolvendo por causa da guerra imperialista na Ucrânia, bem como sobre o multifacetado ataque antioperário-antipopular, nas condições da chamada “transição verde”, da crise energética e, possivelmente, alimentar; em essência, da nova recessão econômica e crise iminente. 

As condições exigem que os partidos comunistas e operários de todo o mundo intensifiquem seus esforços de fortalecimento organizacional e ideológico-político para desenvolver sua luta comum sobre os princípios do comunismo científico, ou seja, o marxismo-leninismo e o internacionalismo proletário, a fim de avançar na o reagrupamento revolucionário do movimento comunista internacional. Em primeiro lugar, buscamos que nossos partidos, e os demais partidos comunistas, estreitem os laços com a classe trabalhadora e as camadas populares, deem passos e desempenhem um papel protagonista na luta de classes e, ao mesmo tempo, estabeleçam as bases por uma estratégia revolucionária única do movimento comunista internacional, na linha de ruptura com o sistema capitalista e todos os tipos de gestores do capital, na perspectiva de sua derrubada. Nossa época é a época de transição revolucionária do capitalismo para o socialismo. 

Nesse sentido, rejeitamos o apoio ou a participação em governos burgueses, combatendo tanto os partidos liberais quanto os socialdemocratas, em todos os tipos de governos burgueses que sirvam aos interesses dos monopólios. 

Nossos partidos consideram que o imperialismo não é apenas uma política agressiva, mas é o capitalismo monopolista, o capitalismo em sua era mais reacionária, ou seja, em sua fase superior. Essencialmente inerente a ela é a estagnação, a grande lacuna entre o potencial produtivo e a satisfação das necessidades contemporâneas dos trabalhadores, devido à exploração de classe, as contradições entre os monopólios e os estados burgueses que conduzem às guerras imperialistas. 

É o caso da guerra na Ucrânia, onde os interesses da Rússia capitalista colidem com os interesses e planos dos EUA, da OTAN, da UE, pelo controle de mercados, matérias-primas e rotas de transporte. 

Existe o risco de generalização da guerra ou de eclosão de novos conflitos imperialistas em países que surgiram após a dissolução da URSS, bem como em outras regiões do planeta, especialmente no Sudeste Asiático, onde se manifesta de maneira mais intensa a confrontação entre os EUA e a China pela primazia no sistema capitalista mundial. 

Tratamos todos os processos de secessão ou unificação dos Estados capitalistas do ponto de vista classista e lutamos contra a OTAN, a UE e todos os tipos de alianças imperialistas. Nos opomos à participação de nossos países em tais organizações antipopulares e intensificamos nosso esforço para que os trabalhadores não fiquem presos sob uma “bandeira alheia”, mas defendam seus próprios interesses em conflito com os exploradores e suas alianças internacionais. 

Consideramos que o reagrupamento ideológico-político e organizacional do movimento comunista internacional não pode ser realizado sem a luta inabalável contra todo tipo de administração burguesa do sistema de exploração, seja liberal ou social-democrata, contra o oportunismo no próprio movimento comunista. Nos opomos ao nacionalismo e ao cosmopolitismo do capital, ao racismo e o fascismo. Ao mesmo tempo, rechaçamos o  “falso” antifascismo e as diversas “frentes antifascistas”, utilizadas por forças políticas burguesas e oportunistas para atrelar as forças operárias e populares  na gestão burguesa, separando o fascismo do sistema capitalista que o engendra e o utiliza quando acha necessário. 

Damos todas as nossas forças para satisfazer as necessidades operárias e populares contemporâneas, através do reagrupamento do movimento operário-sindical, dos demais movimentos populares, na direção da luta contra os monopólios e o capitalismo. 

Nossos partidos destacam a validade e atualidade do socialismo-comunismo como única alternativa para os povos, e defendem a contribuição da Revolução Socialista de Outubro e do primeiro estado socialista, a URSS, enquanto estudam as causas de sua derrocada, que dizem respeito a questões da economia, da superestrutura política e da estratégia do Movimento Comunista Internacional. Acreditamos que o socialismo se rege por princípios e leis científicas: poder operário, socialização dos meios de produção e o planejamento científico central, rejeitamos posições de que se possa construir um socialismo com "mercado", mantendo empresas e mecanismos capitalistas, e o trabalho assalariado pelos proprietários dos meios de produção e da terra. 

Com base no exposto, as quatro partes concordaram com o seguinte: 

- Continuamos nossas iniciativas contra a guerra imperialista que começou formalmente com a inaceitável invasão da Rússia na Ucrânia. Opomo-nos às potências imperialistas, aos planos dos EUA, da OTAN, da UE e de qualquer outra aliança imperialista. 

- Destacamos o caráter imperialista da guerra na Ucrânia, exigimos a retirada de nossos países dos planos e organizações imperialistas. A solução para os povos não está nas ilusões alimentadas pelas forças burguesas de que pode haver uma "melhor arquitetura de segurança", ou uma OTAN "sem planos militares e sistemas de armas ofensivos em seu território" ou uma "UE pela paz", ou um “mundo multipolar pacífico”. A solução está no fortalecimento da luta de classes, pela retirada das alianças imperialistas, contra a guerra imperialista e sua “matriz”, ou seja, o sistema capitalista. 

- Continuamos nossos esforços para trocar experiências da ação de nossos partidos no movimento operário-sindical, nos demais movimentos populares, no movimento pela igualdade e emancipação das mulheres, para que as lutas em curso se tornem mais efetivas e que o os laços de nossos partidos com as forças operárias-populares sejam fortalecidos. 

- Intensificamos os nossos esforços no âmbito da RCI e da ICE para reforçar sua atividade, superar debilidades, lançar bases mais sólidas e enriquecer sua atividade no próximo período. 

- Mantemos nossa solidariedade com os comunistas da Ucrânia e de outros países que sofrem perseguição e proibições anticomunistas, bem como com outros combatentes que sofrem perseguição por sua ação sindical e política na Rússia, Cazaquistão e outros países. 

- Continuamos o esforço contra a difamação das conquistas do socialismo na União Soviética, que foi uma união multinacional de repúblicas socialistas iguais, e ao mesmo tempo destacamos o estudo das causas que levaram à sua dissolução, aproveitando o 100º aniversário de sua fundação. 

- Reforçamos nossa solidariedade com o povo e o Partido Comunista de Cuba, contra o bloqueio e os planos imperialistas dos EUA e da UE e contribuímos participando energicamente para o sucesso do 22º Encontro Internacional de Partidos Comunistas e Operários a ser realizado em outubro em Cuba”. 

Ástor García, Secretário Geral do CC do Partido Comunista dos Trabalhadores da Espanha (PCTE) 

Dimitris Koutsoubas, secretário-geral do CC do Partido Comunista da Grécia (KKE) 

Pável Blanco Cabrera, Primeiro Secretário do CC do Partido Comunista do México (PCM) 

KemalOkuyan , secretário-geral do CC do Partido Comunista da Turquia (TKP) 

Atenas, 8 de julho de 2022

quarta-feira, 29 de junho de 2022

MR-8 no Chile ou Jango no Uruguai?

Ivan Pinheiro*

 

"Os olhos de Jango marejavam, sobretudo quando se pronunciava a palavra Brasil. Dava vontade de botá-lo na mala do carro e trazê-lo de volta!".

  

Crédito: https://www.carlosromero.com.br/

Em julho de 1972, eu e meu amigo Francílio fomos ao Chile, com nossas companheiras, em uma viagem que misturava passeio e política. Allende era o Presidente chileno e a luta de classes no país atingia seu patamar mais alto. Eram momentos decisivos para o êxito da Unidade Popular. Era também uma grande oportunidade para revermos grandes amigos exilados em Santiago. 

Na ida, fomos de carro, passeando, do Rio a Montevidéu. Lá, deixamos o veículo em uma garagem e partimos para a capital portenha, no navio a vapor Ciudad de Buenos Aires, onde pegamos um avião para Santiago. 

A permanência no Chile foi emocionante. Reencontramos nossos amigos e conhecemos um pouco a experiência por que passava o país. Participamos da Marcha por los Cambios, uma imensa manifestação com mais de um milhão de pessoas no centro de Santiago, em apoio às mudanças que o governo Allende tentava implementar, em meio ao boicote da burguesia. 

Na volta ao Rio de Janeiro, fomos de avião até Montevidéu, onde pegamos o carro e nos colocamos na estrada, sem saber que algumas surpresas nos aguardavam no caminho. Passamos em Punta del Este, com muita fome, por volta das 14 horas. Como era inverno, parecia uma cidade fantasma. Depois de muita procura, descobrimos um restaurante aberto, que nos pareceu o melhor do mundo, apesar de simples. Só uma das mesas estava ocupada, por um homem bebendo vinho. 

Enquanto meu amigo ia ao banheiro, ocupamos uma mesa e descobrimos que as especialidades da casa eram sopas e vinhos. Nada melhor para famintos, no rigoroso inverno uruguaio. 

De repente, meu amigo volta esbaforido e sussurra: “Sabem quem está ali naquela mesa? O Presidente João Goulart!”. Pensei com meus botões: “Esse cara está louco; imagina o Jango aqui nesta espelunca!” Aproveitei para ir ao banheiro e conferir. Quando cheguei perto do homem, não tive dúvida: estávamos diante do nosso ex-presidente, deposto pela ditadura militar. E nós chegando do Chile, onde a burguesia, com a indefectível ajuda da CIA, tentava derrubar outro Presidente! 

Imediatamente, mudamo-nos para uma mesa próxima a Jango e tentamos conversar sobre política brasileira, mostrar-lhe as possibilidades de sua volta triunfal, com a derrubada da ditadura! Ele logo mostrou que este tema seria de mau tom. Parecia muito deprimido e desesperançado. 

A conversa acabou girando sobre cultura e futebol. Os olhos de Jango marejavam, sobretudo quando se pronunciava a palavra Brasil. Dava vontade de botá-lo na mala do carro e trazê-lo de volta! 

Não era uma época de ouro para a cultura brasileira. Ao mesmo tempo, havia a ofensiva ufanista da ditadura, o “Brasil: ame-o ou deixe-o”, o “milagre brasileiro”. Na América Latina, a esquerda avançava e a direita articulava grande ofensiva: ditaduras militares, torturas, desaparecimento de militantes. 

Perdi a noção de quanto tempo ficamos com Jango, até que seu filho João Vicente chegasse ao restaurante para levá-lo. 

Dois dias depois, na fronteira Brasil/Uruguai, fomos parados em um posto do exército por militares que já nos esperavam com armas no acostamento e olhavam, fixamente, a placa do carro. Habilmente, levaram-nos a uma sala, a pretexto de verificar documentos, enquanto o carro permaneceu fora de nossas vistas. Logo, desconfiei: descobriram nossa ligação com o MR-8 e nos pegaram. O que fariam de nossas companheiras, que não compartilhavam nossa militância? Para onde nos levariam para iniciar a tortura? 

Algum tempo depois, fomos liberados pelos militares, que devolveram a chave do carro e autorizaram nossa partida. Começamos a desconfiar que tudo havia sido revistado. A primeira coisa que percebemos foi o sumiço de vários rolos de filmes fotográficos, que guardávamos no porta-luvas, ainda virgens. 

A desconfiança nos acompanhou a viagem toda. Será que nos pegariam mais à frente, para evitar um incidente na fronteira? 

Praticamente, só paramos para nos alimentar, botar gasolina e nos revezarmos ao volante. Passaram o Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e São Paulo. Chegando à fronteira com o Rio de Janeiro, veio outra paranóia. Será que, por razões táticas, resolveram nos prender no Rio, já que éramos todos cariocas? Chegamos incólumes. O tempo foi passando e a desconfiança também. 

Uns sete anos depois, quando eu já militava clandestinamente no PCB e era candidato a Presidente do Sindicato dos Bancários do RJ, chego ao trabalho no Banco do Brasil e um colega me entrega um envelope apócrifo, deixado por um homem de terno. Quando abri, eram as fotos daquela viagem, sem os negativos e, por norma de segurança, sem que, em nenhuma delas, aparecessem camaradas com os quais estivemos em Santiago. 

Só podia ser um recado da repressão: “fomos nós; continuamos de olho!” A única dúvida, que perdurou por dez anos, era a razão de nos terem parado na fronteira. Teria sido o contato com dirigentes do MR-8 exilados no Chile ou o encontro fortuito com Jango no Uruguai, já que em ambos os países o SNI seguia brasileiros? 

O tempo passou mais um pouco até que, em 1982, fui preso, com cerca de 80 camaradas, quando a Polícia Federal desmontou um Congresso clandestino do PCB, em São Paulo. A invasão do local se deu de forma espalhafatosa, com dezenas de jovens agentes armados, tensos, gritando, mandando-nos botar as mãos para o alto. Na sede da Polícia Federal, dividiram-nos em pequenos grupos. No meu grupo, lembro-me do Armando Ziller, do Lourenço e do Takao Amano, que tinha fama de grande atirador e lutador de artes marciais, o único que ficou algemado. 

O responsável pelo meu interrogatório era o delegado Veronezi, que mais tarde veio a ser diretor da Polícia Federal em SP. Depois das costumeiras preleções ameaçadoras, o delegado, com minha ficha na mão, finalmente, faz a primeira pergunta: 

— Quer dizer que você era homem de ligação com o João Goulart no Uruguai? 

Ainda bem que ele não perguntou nada sobre o MR-8. Talvez por isso é que eu e Francílio ainda estivéssemos vivos. E ainda bem que, em 1982, a repressão já não tinha mais condições de torturar presos políticos, com a ditadura enfraquecida pela resistência democrática. Além do mais, a notícia da nossa prisão correra o mundo e, na porta da Polícia Federal, havia uma vigília de solidariedade, por onde passaram inúmeras personalidades, inclusive um sindicalista chamado Luiz Inácio da Silva, cujo irmão, Frei Chico, era um dos presos. 

Apesar de ser a mais pura verdade, minha resposta poderia parecer provocação. Disse ao delegado que devia haver algum engano do informante, pois meu único encontro com Jango foi casual, em uma adega uruguaia, onde bebemos vinho e conversamos apenas sobre música e futebol. 

Por sorte, era 1982. 

— Você acha que eu tenho cara de babaca? – aos berros, irado, perguntou o delegado e deu um murro forte na mesa. Em seguida, levantou-se para tomar café e se acalmar. Louco para me dar uma porrada! 

Fonte: “68 – A geração que queria mudar o mundo”, Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, 2011. 


*Ivan Pinheiro era diretor do Grêmio Estudantil no Colégio Pedro II no começo dos anos 60, após o golpe de 1964 foi diretor do Centro Acadêmico Luiz Carpenter (CALC) da Universidade Estadual da Guanabara e militante do MR-8. Em 1975 ingressa no Partido Comunista Brasileiro (PCB), é eleito presidente do Sindicato dos Bancários em 1978. Foi dirigente e secretário geral do PCB.

Edição: Página 1917

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