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quarta-feira, 18 de maio de 2022

Triste Sina de uma Sociedade Traumatizada

André Lavinas. 

A pior maneira de superar um trauma é tentar escondê-lo, deixando de falar sobre ele e proibindo a simples menção de fatos que nos relembrem dos difíceis momentos que nos feriram a alma.




Isso é verdade tanto para os traumas pessoais e familiares como para os traumas sociais brutais que afligem a humanidade e permanecem como feridas abertas que preferimos, como sociedade, não tocá-las. 

Os traumas não devidamente "tratados" voltam, com força, a cada momento de crise para nos atormentar. Mas há uma razão para que os traumas não sejam conversados e possam ser totalmente revelados e superados, eles incomodam. 

As pessoas não conversam sobre as suas questões traumáticas em família para evitar as brigas nas reuniões familiares. 

Pais não conversam com filhos e vice-versa, sobre os temas traumáticos, para manterem um clima menos tenso na sua convivência. Enfim, os traumas são tratados como tabus. 

Mas para quem tem o privilégio de ter um acompanhamento psicológico há sempre uma chance de resolver os traumas ou, pelo menos, evitar que eles retornem com força suficiente para destruir lhe a vida. 

Com os traumas da nossa sociedade, não há outra forma de tratamento senão o esclarecimento constante acerca de todos os fatos que envolvem as origens, o desenvolvimento o desfecho do evento traumático, bem como as suas consequências. 

Hoje, o nazismo, um dos maiores traumas da nossa História, está retomando força, e já é reúne milhões de seguidores mundo afora. Segundo este incontroverso diagnóstico, está claro que não "tratamos" adequadamente deste traumatizante evento. 

Por que, após quase um século do surgimento do nazismo ele continua um tabu? 

Por que, mesmo dentro de partidos de esquerda e universidades, onde se espera que haja um debate mais aprofundado sobre o nazismo e suas raízes, esta discussão é negligenciada? 

A resposta não é óbvia, mas não é difícil.

sexta-feira, 13 de maio de 2022

Liberalismo e Escravidão*

Jacob Gorender

19 de Setembro de 2002

"O Brasil foi o país de mais prolongada escravidão nos tempos modernos. Tivemos 350 anos de escravidão aproximadamente e também fomos os maiores absorvedores de escravos da África."


Família brasileira servida por escravos, Jean-Baptiste Debret, 1830.


ESTUDOS AVANÇADOS - Por que a política econômica que regeu o Brasil a partir da abertura dos portos (1808) pode ser considerada estruturalmente liberal? O que levou D. João e seu conselheiro José da Silva Lisboa a abrir a economia ao mercado internacional?

Jacob Gorender - Quero de início precisar que a economia anterior e posterior à abertura dos portos, até o fim do século XIX, é definida por mim como economia escravista colonial. Ou seja, por seu caráter objetivo, deve ser definida como modo de produção escravista colonial.

Naquele momento, porém, já havia chegado ao Brasil a influência da teoria econômica liberal que dominou a Inglaterra no século XVIII e que teve seu expoente em Adam Smith. Essa influência também vinha da Revolução Francesa, a qual deu fundamento ao lema Laissez faire, laissez passer, à liberdade de transação, de produção e circulação. A teoria liberal surgiu e se fortaleceu na Europa em contraposição aos cânones feudais da monarquia absolutista e isso se fez sentir também no Brasil.

Os plantadores brasileiros e os comerciantes radicados no Brasil se mostraram receptivos a essa pregação de política econômica liberal. E, no caso, José da Silva Lisboa foi coerente com essas idéias, conhecedor que era de Adam Smith. Quando esteve com o príncipe regente João de Bragança, no momento em que este aportou em Salvador, recomendou a abertura dos portos brasileiros.

Devo observar que a abertura dos portos já vinha sendo uma reivindicação bem anterior. Havia uma pressão dos plantadores e comerciantes residentes no Brasil pelo rompimento com o monopólio português.

Portugal cumpria um papel meramente de intermediário, era um consumidor de importância secundária dos produtos brasileiros. O que os comerciantes portugueses e a Coroa faziam consistia em intermediar, receber os produtos brasileiros e depois redistribuí-los no mercado europeu. Portugal, nessa altura, era uma metrópole ineficiente, fraca, cujo monopólio deixara de convir aos interesses dos plantadores e comerciantes. Já havia antes da abertura dos portos um grande contrabando de mercadorias inglesas, que entravam no Brasil, à margem do monopólio lusitano. Navios ingleses não tinham dificuldade de chegar ao Brasil e vender suas manufaturas, que encontravam compradores aqui. A reivindicação era que cessassem as limitações legais e o comércio se fizesse livremente, o que interessava à Inglaterra, que fazia pressão para a abertura dos portos. Quando veio o ato do príncipe regente, correspondeu a uma pressão que ocorria anteriormente e se concretizou a partir daí.

A influência das ideias liberais europeias chegou ao Brasil e se adequou a interesses aqui radicados, expressos naquela circunstância pelo futuro visconde de Cayru.

segunda-feira, 9 de maio de 2022

A Mais Heroica de Todas as Batalhas.

André Lavinas

 

     Neste nove de maio, comemora-se mais um aniversário da derrota da Alemanha na 2ª Guerra Mundial. Esta derrota significou para a humanidade uma vitória sobre um dos mais bárbaros regimes que o mundo já viu, o regime nazista de Adolf Hitler.




                  Falar desta vitória magnífica sobre uma das mais poderosas máquinas de guerra jamais vistas na história, é falar da heroica resistência do povo soviético em Stalingrado. Durante quase 7 meses o exército vermelho, sozinho, travou uma batalha terrível contra nada menos que 2/3 de todo o exército nazista representado por mais de 3/4 das tropas mais bem treinadas, melhor equipadas e experientes das forças alemães. Lembro que com menos de 1/3 de suas tropas, este mesmo exército alemão ocupava a França, o Norte da África, quase toda a Europa e, até 6 junho de 1944, a única força que os enfrentava numa luta desigual era a URSS. Depois de travar a mais feroz batalha da história, o exército vermelho derrotou as tropas do Marechal Von Paulus em fevereiro de 1943.

          Foi o começo do fim para o odioso regime nazista.

     Ao contrário do que a mídia tenta fazer crer, a libertação da Europa foi fundamentalmente obra do exército vermelho, pois já no início de 1944 havia destruído o grosso das tropas alemães e estava às portas da Alemanha. A tão esperada 2ª frente só foi aberta em 05 de junho de 1944, com o desembarque de tropas aliadas na Normandia.

     Para quem ainda duvida de que a fúria nazista era dirigida principalmente contra a União Soviética, basta lembrar que mais de 20 milhões de soviéticos pereceram na luta contra a Alemanha Nazista. Este foi o maior holocausto perpetrado pelos Nazistas na 2ª GM.

     Ao final da batalha de Stalingrado mais de 2 milhões de pessoas haviam morrido. Na cidade, antes conhecida por ser próspera e moderna, já não havia mais nenhuma construção de pé. Mas de pé estavam os seus heroicos defensores.

     Aliás, jamais se curvaram, jamais se renderam, jamais deixaram de encarar de frente o pior inimigo que se poderia ter e a pior das barbáries que pode se abater sobre um povo.

     Tinham por trás de si a maior obra que o proletariado consegui construir em toda a sua história de lutas até hoje: A União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

     Nestes tempos obscuros, onde a derrota do proletariado parece um fato consumado, onde a realidade perversa da superexploração do trabalhador, do desespero, da insegurança, da falta de saúde, de educação, se impõe às massas trabalhadoras como algo eterno e imutável, voltar algumas páginas na história e ver que diante da nuvem de escuridão nazista que cobriu a Europa com destruição, miséria e desesperança, o povo soviético, e em particular os seus heróis de Stalingrado, se levantou e mostrou que a vitória do proletariado sobre a barbárie é possível, nos enche de esperança.

     A vitória soviética sobre o nazismo nos ensina que uma nova história para a humanidade pode começar a ser escrita, basta que o protelariado se levante novamente, assim como se levantou em Stalingrado e escreveu uma das mais gloriosas páginas da história humana.

Viva a heroica resistência do povo soviético!

Viva o Socialismo!

O capitalismo é a desgraça dos povos!


Edição: Página 1917


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quinta-feira, 5 de maio de 2022

Sobre a Guerra Imperialista na Ucrânia e a Posição do PCFR

 Artigo da Seção de Relações Internacionais do CC do KKE

"A luta pelos mercados e a pilhagem de outras nações, a aspiração de reprimir o movimento revolucionário do proletariado e a democracia no seu próprio país, o desejo de enganar, desunir e esmagar os proletários de todos os países, incitando os escravos assalariados de uma nação contra os de outra em proveito da burguesia, constituem o único conteúdo e sentido real da guerra.”

V.I.Lenin, Obras Completas, t.26, p. 1 .

 

Ucrânia devastada pela guerra imperialista

Tudo isso, apontado pelo líder da Revolução de Outubro há mais de cem anos, ainda é absolutamente válido para a guerra que está ocorrendo na Ucrânia. Em muitos artigos que publicamos até agora, foram apontados aspectos da luta por mercados, matérias-primas, rotas de transporte de mercadorias.

O KKE também expressou posições claras no âmbito do Movimento Comunista Internacional. Infelizmente, alguns partidos comunistas como o Partido Comunista da Federação Russa (PCFR) expressam posições às quais nos opomos fortemente.

Algumas informações sobre o PCFR

O PCFR, fundado em 1993, é uma força importante na vida política da Rússia capitalista. Nas últimas eleições parlamentares, em 2021, obteve 18,9% dos votos e tornou-se a segunda força política, com 57 deputados (de 450). Nesses 30 anos após a dissolução da URSS, o PCFR assumiu cargos governamentais, no período 1998-1999, sob a administração de G. Primakov, que administrou a crise capitalista que então eclodiu no país. O próprio programa do partido, que está na “linha” de transformar gradualmente o capitalismo em socialismo, através de várias etapas, favorece as várias soluções governamentais de “centro-esquerda”. O PCFR, apesar de sua importante força parlamentar, não tem nenhuma participação significativa no reagrupamento do movimento operário-sindical da Rússia, cujas forças principais estão sob controle do Estado e da patronal.

A postura que este partido assumiu antes mesmo do início da invasão russa estava alinhada com a do partido governante Rússia Unida e do presidente V.Putin. O reconhecimento da "independência" das chamadas "Repúblicas Populares" de Donbass (Donetsk e Lugansk), o gatilho para a invasão russa na Ucrânia, foi uma proposta sua e foi aprovada pela Duma de Estado. O PCFR aceita todos os argumentos do governo russo sobre a necessidade de o exército russo derrotar o fascismo na Ucrânia, para o qual está realizando uma "operação militar especial" na Ucrânia, um termo imposto pela Rússia para que não se utilize a palavra guerra. De fato, o PCFR considera que essa política externa "antifascista" deve ser acompanhada de uma "virada à esquerda" dentro do país, e pede repetidamente uma recomposição do governo e sua participação nele.

1.“O choque de civilizações”: O “bilhão de ouro” versus o “mundo russo”.

Mas, o pior de todos os serviços oferecidos pelo PCFR é o total ocultamento das verdadeiras causas das guerras imperialistas que, como a guerra que eclodiu na Ucrânia, são travadas para servir os interesses dos monopólios e das classes burguesas e não dos povos. São guerras por matérias-primas, recursos naturais, rotas de transporte de mercadorias, pilares geopolíticos, quotas de mercado. Não é possível que o PCFR não reconheça o quão importante para o capital russo, bem como para o capital ocidental, são os recursos naturais da Ucrânia, seus recursos minerais, por exemplo o titânio ucraniano, essencial para a indústria de construção de aeronaves e outras, ou os portos de Mariupol e Odessa, ou as férteis terras aráveis ​​da Ucrânia, ou a base industrial da Ucrânia que encolheu em comparação com o período do socialismo, mas ainda é importante, assim como, a enorme rede de tubos de energia que atravessa este país. Além disso, não é possível que o PCFR não esteja ciente do feroz antagonismo que se desenvolve entre os estados burgueses em muitas regiões do mundo, sobre recursos, rotas de transporte e dutos de energia, sobre as participações dos monopólios no mercado de energia na Europa, armas quotas de mercado, etc. É uma competição imperialista que envolve os monopólios e os estados da UE, os EUA, a Rússia, a China e outros "atores" regionais como a Turquia, Israel, as monarquias do Golfo, etc. não é possível que o PCFR não esteja ciente do feroz antagonismo que se desenvolve entre os estados burgueses em muitas regiões do mundo, sobre recursos, rotas de transporte e oleodutos, sobre as participações dos monopólios no mercado de energia na Europa, as participações do mercado de armas, etc. É uma disputa imperialista que envolve os monopólios e os estados da UE, os EUA, a Rússia, a China e outros "atores" regionais como a Turquia, Israel, as monarquias do Golfo, etc.

O PCFR, com sua posição, fica ao lado dos monopólios russo e chinês em seu antagonismo com os monopólios ocidentais e outros, que juntos transformaram o povo da Ucrânia em um “saco de pancadas”. Por muitos anos, esse partido cortejou abordagens e forças nacionalistas que se apresentam como "patrióticas". O presidente da PCFR em seu livro "Globalização e destino da humanidade" (2002) acolhe o ponto de vista do americano Samuel Phillips Huntington sobre o "choque de civilizações", segundo o qual os embates não são mais entre Estados, mas entre potências com diferentes tradições culturais. Portanto, nos movimentos para cercar a Rússia pela OTAN, a UE e os EUA, destaca-se uma "guerra total" contra a Rússia, desencadeada pelos países do chamado "bilhão de ouro", como se caracterizam os primeiros 30 países integrados à Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), entre eles a Grécia, com uma população total próxima a um bilhão. De acordo com essa percepção, há uma mitigação das contradições sócio-classistas na sociedade do “bilhão de ouro” e a contradição básica se expressa em nível internacional “a partir do eixo ‘Norte rico-Sul pobre’, não menos nitidamente separaram o proletário de seu explorador dentro da estrutura de um país”[1]. O documento programático do PCFR não reconhece o caráter imperialista da Rússia atual, ao mesmo tempo em que considera que "a Federação Russa se torna objeto de uma nova redistribuição do mundo, um apêndice de matéria-prima para os estados imperialistas" e destaca ainda que : “Na segunda metade do século XX, devido à exploração predatória dos recursos do planeta, através da especulação financeira, das guerras e do uso de novos métodos sofisticados de colonização, um grupo de países capitalistas desenvolvidos, os chamados “bilhão de ouro ” passou para a fase da “sociedade de consumo”, em que o consumo da função física do corpo humano torna-se uma "obrigação sagrada" do indivíduo, cujo cumprimento entusiástico determina completamente seu status social..."[2]. De acordo com essa abordagem não classista e enganosa, o chamado "mundo russo" se opõe ao "bilhão de ouro", que é uma das principais linhas da atual política externa do estado burguês russo. Sob este conceito está o uso pela Rússia de milhões de russos e falantes de russo para as decisões do capitalismo russo. “Todos somos obrigados a defender o mundo russo (...) O mundo russo se reúne há mil anos. E foi reunido não apenas por russos, mas também por ucranianos e bielorrussos. Partilhamos uma fé comum, vitórias comuns, uma língua, uma cultura.", disse o Presidente da PCFR em seu discurso no parlamento russo durante a discussão para o reconhecimento das chamadas “Repúblicas Populares”[3]. Com base nisso, o PCFR dá total apoio à política externa da classe dominante russa, à formação de alianças capitalistas interestatais, que forma no território da ex-URSS, como a União Econômica Eurasiática e a Organização do Tratado de Segurança Coletiva (OTSC). É característico que em janeiro passado o PCFR tenha apoiado a missão militar dos membros do OTSC no Cazaquistão para reprimir o levante operário-popular.

Em suma, o PCFR declara que seu objetivo é o socialismo, ao mesmo tempo em que seu programa, que pretende implementar por meio de processos eleitorais-parlamentares, é um programa de reformas para a gestão do sistema capitalista, plenamente de acordo com os objetivos da burguesia russa, os planos do Estado burguês, o que também se reflete em questões de política externa.

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