Artigo da Seção de Relações Internacionais do CC do KKE
"A
luta pelos mercados e a pilhagem de outras nações, a aspiração de reprimir o
movimento revolucionário do proletariado e a democracia no seu próprio país, o
desejo de enganar, desunir e esmagar os proletários de todos os países,
incitando os escravos assalariados de uma nação contra os de outra em proveito
da burguesia, constituem o único conteúdo e sentido real da guerra.”
V.I.Lenin, Obras Completas,
t.26, p. 1 .
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| Ucrânia devastada pela guerra imperialista |
Tudo isso, apontado pelo
líder da Revolução de Outubro há mais de cem anos, ainda é absolutamente válido
para a guerra que está ocorrendo na Ucrânia. Em muitos artigos que publicamos até
agora, foram apontados aspectos da luta por mercados, matérias-primas, rotas de
transporte de mercadorias.
O KKE também expressou
posições claras no âmbito do Movimento Comunista Internacional. Infelizmente,
alguns partidos comunistas como o Partido Comunista da Federação Russa (PCFR)
expressam posições às quais nos opomos fortemente.
Algumas
informações sobre o PCFR
O PCFR, fundado em 1993, é
uma força importante na vida política da Rússia capitalista. Nas últimas
eleições parlamentares, em 2021, obteve 18,9% dos votos e tornou-se a segunda
força política, com 57 deputados (de 450). Nesses 30 anos após a dissolução da
URSS, o PCFR assumiu cargos governamentais, no período 1998-1999, sob a
administração de G. Primakov, que administrou a crise capitalista que então
eclodiu no país. O próprio programa do partido, que está na “linha” de
transformar gradualmente o capitalismo em socialismo, através de várias etapas,
favorece as várias soluções governamentais de “centro-esquerda”. O PCFR, apesar
de sua importante força parlamentar, não tem nenhuma participação significativa
no reagrupamento do movimento operário-sindical da Rússia, cujas forças principais
estão sob controle do Estado e da patronal.
A postura que este partido
assumiu antes mesmo do início da invasão russa estava alinhada com a do partido
governante Rússia Unida e do presidente V.Putin. O reconhecimento da
"independência" das chamadas "Repúblicas Populares" de
Donbass (Donetsk e Lugansk), o gatilho para a invasão russa na Ucrânia, foi uma
proposta sua e foi aprovada pela Duma de Estado. O PCFR aceita todos os
argumentos do governo russo sobre a necessidade de o exército russo derrotar o
fascismo na Ucrânia, para o qual está realizando uma "operação militar
especial" na Ucrânia, um termo imposto pela Rússia para que não se utilize
a palavra guerra. De fato, o PCFR considera que essa política externa
"antifascista" deve ser acompanhada de uma "virada à
esquerda" dentro do país, e pede repetidamente uma recomposição do governo
e sua participação nele.
1.“O
choque de civilizações”: O “bilhão de ouro” versus o “mundo russo”.
Mas, o pior de todos os
serviços oferecidos pelo PCFR é o total ocultamento das verdadeiras causas das
guerras imperialistas que, como a guerra que eclodiu na Ucrânia, são travadas
para servir os interesses dos monopólios e das classes burguesas e não dos
povos. São guerras por matérias-primas, recursos naturais, rotas de transporte
de mercadorias, pilares geopolíticos, quotas de mercado. Não é possível que o PCFR
não reconheça o quão importante para o capital russo, bem como para o capital
ocidental, são os recursos naturais da Ucrânia, seus recursos minerais, por
exemplo o titânio ucraniano, essencial para a indústria de construção de
aeronaves e outras, ou os portos de Mariupol e Odessa, ou as férteis terras
aráveis da
Ucrânia, ou a base industrial
da Ucrânia que encolheu em
comparação com o período do socialismo, mas
ainda é importante, assim como, a
enorme rede de tubos de energia que atravessa este país. Além disso, não é possível que o PCFR não esteja ciente do feroz
antagonismo que se desenvolve entre os estados burgueses em muitas regiões do
mundo, sobre recursos, rotas de transporte e dutos de energia, sobre as
participações dos monopólios no mercado de energia na Europa, armas quotas de
mercado, etc. É uma competição imperialista que envolve os monopólios e os
estados da UE, os EUA, a Rússia, a China e outros "atores" regionais
como a Turquia, Israel, as monarquias do Golfo, etc. não é possível que o PCFR
não esteja ciente do feroz antagonismo que se desenvolve entre os estados
burgueses em muitas regiões do mundo, sobre recursos, rotas de transporte e
oleodutos, sobre as participações dos monopólios no mercado de energia na
Europa, as participações do mercado de armas, etc. É uma disputa imperialista
que envolve os monopólios e os estados da UE, os EUA, a Rússia, a China e
outros "atores" regionais como a Turquia, Israel, as monarquias do
Golfo, etc.
O PCFR, com sua posição,
fica ao lado dos monopólios russo e chinês em seu antagonismo com os monopólios
ocidentais e outros, que juntos transformaram o povo da Ucrânia em um “saco de
pancadas”. Por muitos anos, esse partido cortejou abordagens e forças
nacionalistas que se apresentam como "patrióticas". O presidente da PCFR
em seu livro "Globalização e destino da humanidade" (2002) acolhe o
ponto de vista do americano Samuel Phillips Huntington sobre o "choque de
civilizações", segundo o qual os embates não são mais entre Estados, mas
entre potências com diferentes tradições culturais. Portanto, nos movimentos
para cercar a Rússia pela OTAN, a UE e os EUA, destaca-se uma "guerra total"
contra a Rússia, desencadeada pelos países do chamado "bilhão de
ouro", como se caracterizam os primeiros 30 países integrados à
Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), entre eles a
Grécia, com uma população total próxima a um bilhão. De acordo com essa
percepção, há uma mitigação das contradições sócio-classistas na sociedade do
“bilhão de ouro” e a contradição básica se expressa em nível internacional “a partir do eixo ‘Norte rico-Sul pobre’, não
menos nitidamente separaram o proletário de seu explorador dentro da estrutura
de um país”[1]. O documento programático do PCFR não reconhece o caráter
imperialista da Rússia atual, ao mesmo tempo em que considera que "a
Federação Russa se torna objeto de uma nova redistribuição do mundo, um
apêndice de matéria-prima para os estados imperialistas" e destaca ainda
que : “Na segunda metade do século XX,
devido à exploração predatória dos recursos do planeta, através da especulação
financeira, das guerras e do uso de novos métodos sofisticados de colonização,
um grupo de países capitalistas desenvolvidos, os chamados “bilhão de ouro ”
passou para a fase da “sociedade de consumo”, em que o consumo da função física
do corpo humano torna-se uma "obrigação sagrada" do indivíduo, cujo
cumprimento entusiástico determina completamente seu status social..."[2].
De acordo com essa abordagem não classista e enganosa, o chamado "mundo
russo" se opõe ao "bilhão de ouro", que é uma das principais
linhas da atual política externa do estado burguês russo. Sob este conceito
está o uso pela Rússia de milhões de russos e falantes de russo para as
decisões do capitalismo russo. “Todos
somos obrigados a defender o mundo russo (...) O mundo russo se reúne há mil
anos. E foi reunido não apenas por russos, mas também por ucranianos e
bielorrussos. Partilhamos uma fé comum, vitórias comuns, uma língua, uma
cultura.", disse o Presidente da PCFR em seu discurso no parlamento
russo durante a discussão para o reconhecimento das chamadas “Repúblicas
Populares”[3]. Com base nisso, o PCFR dá total apoio à política externa da
classe dominante russa, à formação de alianças capitalistas interestatais, que
forma no território da ex-URSS, como a União Econômica Eurasiática e a
Organização do Tratado de Segurança Coletiva (OTSC). É característico que em
janeiro passado o PCFR tenha apoiado a missão militar dos membros do OTSC no
Cazaquistão para reprimir o levante operário-popular.
Em suma, o PCFR declara
que seu objetivo é o socialismo, ao mesmo tempo em que seu programa, que
pretende implementar por meio de processos eleitorais-parlamentares, é um
programa de reformas para a gestão do sistema capitalista, plenamente de acordo
com os objetivos da burguesia russa, os planos do Estado burguês, o que também
se reflete em questões de política externa.



