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quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

Daniel Ortega Traiu a Revolução Sandinista

Miguel Urbano Rodrigues*

Nota do editor

Reproduzimos este artigo de Miguel Urbano Rodrigues publicado logo após a reeleição de Daniel Ortega para o terceiro mandato consecutivo como presidente da Nicarágua em 2016. Decorridos cinco anos, Ortega assume seu quarto mandato e as traições a Revolução Sandinista denunciadas no artigo de Miguel Urbano se aprofundaram.

A trajetória pessoal e política de Ortega, agora reeleito presidente da Nicarágua, é um caso de estudo. De dirigente da luta armada anti-somozista a possuidor de uma fortuna pessoal que supera a que o próprio Somoza extorquiu ao seu povo, de lutador pelo socialismo a patriarca de uma família de oligarcas, o sucesso de Ortega é o insucesso da libertação do seu povo.

Miguel Urbano Rodrigues


Daniel Ortega foi reeleito presidente da Nicarágua. É o terceiro mandato consecutivo.

O principal partido da oposição apelou ao boicote, mas a abstenção foi inferior à prevista pelas sondagens.

A vitória do candidato sandinista foi bem recebida pelo governo de Obama. As relações econômicas dos EUA com a Nicarágua são aliás consideradas corretas pelo Departamento de Estado.

Paradoxalmente, Ortega não abdicou do discurso de esquerda, cultivando uma imagem anti-imperialista que lhe permitiu nos últimos anos manter relações privilegiadas com Cuba, Venezuela, Bolívia, Equador e alguns partidos comunistas.

Mas a fachada progressista do regime é hoje incompatível com a realidade política, social e econômica do país.

Desde que perdeu as eleições presidenciais em 1990 Daniel Ortega imprimiu à FSLN uma orientação que deslocou gradualmente para a direita o partido revolucionário fundado por Carlos Fonseca Amador, que destruiu a ditadura de Somoza numa luta épica de anos. Fonseca, que foi o ideólogo da guerrilha, era um marxista criativo e talentoso. Conseguiu o que parecia impossível: unificou as três tendências da organização revolucionária, obtendo no combate ao somozismo o apoio da Igreja, dos sindicatos, dos trabalhadores e de intelectuais liberais.

A Revolução Sandinista vitoriosa em 1979


A vitória da FSLN, dirigida por Daniel Ortega e um punhado de comandantes com prestígio internacional, gerou uma grande esperança na América Latina. Transcorrida mais de uma década da morte do Che na Bolívia, os Sandinistas demonstraram que em circunstâncias excecionais a luta armada podia enfrentar e derrotar regimes apoiados pelo imperialismo.

Tive a oportunidade em 1983 de visitar a Nicarágua revolucionária e conhecer alguns dos comandantes sandinistas nesses dias em que a FSLN mobilizava a solidariedade das forças progressistas da América Latina e da Europa.

No exercício do poder, o governo da FSLN não demonstrou porem a mesma lucidez e firmeza da organização guerrilheira.

Alvo de uma ofensiva permanente do imperialismo americano, que financiou e armou os mercenários contra-revolucionários, a Frente Sandinista fracassou na tarefa de reconstruir a economia e perdeu gradualmente o apoio de amplos setores da população.

Cedendo a pressões de Washington, Ortega – contra a opinião de Fidel Castro - convocou eleições para a Presidência em 1990. A campanha eleitoral da oposição foi generosamente financiada pelos EUA. O desfecho foi a eleição da liberal Violeta Chamorro e ficou a assinalar o fim inesperado da Revolução Sandinista.

A CRISE DA FSLN

A Frente Sandinista mergulhou numa crise profunda logo após o seu afastamento do governo.

Daniel Ortega candidatou-se à Presidência nas eleições seguintes, tendo perdido novamente. Mas não foi uma surpresa a sua eleição em 2006. O desfecho era esperado.

Alguns dos comandantes mais destacados que haviam participado da guerra contra Somoza tinham rompido com Ortega por discordarem da guinada à direita que o ex-presidente imprimira ao partido. Entre outros, Ernesto Cardenal, Luis Carrion e Victor Tirado.

Ortega tinha optado por uma política de alianças incompatível com os princípios e a ideologia do sandinismo. Firmou nomeadamente um acordo com o ex-presidente Arnoldo Aleman, condenado a 20 anos de prisão por corrupção e branqueamento de capitais. Aleman fora, sublinhe-se, um somozista esforçado.

 

ROSARIO MURILLO, «A BRUXA»

 

Foi sobretudo a mulher, Rosario Murillo, que teve um papel decisivo na metamorfose do dirigente máximo da FSLN.

Professora, escritora, poeta, Rosario, que foi também guerrilheira, é uma católica fervorosa.

Amiga pessoal desde a juventude do arcebispo de Manágua, defendeu sempre a necessidade de boas relações com a Igreja. Teve o descaramento de propor o seu nome para o Premio Nobel da Paz.

Fez o marido esquecer que Don Miguel Obando y Bravo fora admirador de Anastasio Somoza e apoiara a contra-revolução.

Elevado a Cardeal, Obando cimentou uma íntima aliança com Daniel Ortega quando este voltou à Presidência em 2007.

Rosario, reeleita vice-presidente, concentra hoje nas suas mãos um enorme poder e acumulou em negócios ilícitos, uma fortuna colossal.

Ocorreu o inimaginável. A família Ortega-Murillo concentra hoje mais riqueza do que Somoza no auge da sua ditadura.

Quatro dos filhos de Daniel são multimilionários. Laureano negociou com a China o projeto de construção do Canal que ligará através da Nicarágua o Atlântico ao Pacifico, obra faraônica que ameaça arruinar o Canal do Panamá. Juan controla o audiovisual. Outros irmãos enriqueceram com a distribuição de petróleo barato recebido da Venezuela bolivariana. Um regabofe!

Rosario, conhecida pela alcunha de “Bruxa”, é a personalidade que domina a família e o governo.

DE HERÓIS A GRANDES EMPRESÁRIOS

A crise da FSLN principiou com a deserção de Sergio Ramirez, que foi vice-presidente da República no primeiro governo de Ortega.

Sergio, que estudou na Alemanha, era um socialdemocrata mascarado de revolucionário. Escritor de talento, passou em tempo mínimo de sandinista a inimigo da Revolução.

Seguiram-se outras rupturas com o passado, mais graves.

Humberto Ortega, irmão de Daniel, foi durante a luta armada o principal estrategista da guerrilha. Ministro da Defesa após a vitória, reformou o exército e aderiu à esdruxula doutrina do «centrismo». Recebeu inclusive a medalha do mérito militar dos EUA. A sua adesão ao capitalismo não surpreendeu. Enriqueceu no negócio das madeiras.

O ministro da Agricultura de Daniel, Jaime Weelock, é hoje um próspero empresário. Bayardo Arce, outro dos comandantes da insurreição, também enriqueceu rapidamente.

Daniel Ortega repete com frequência que a situação económica do país melhorou acentuadamente. Mas não diz que a Nicarágua recebeu durante os seus governos 4 800 milhões de dólares de organizações financeiras internacionais tuteladas pelos EUA.

Do FMI tem recebido elogios.

Daniel Ortega insiste em afirmar que pratica uma política de esquerda. Não se abstém de criticar o imperialismo nos seus discursos enquanto elogia Cuba e a Venezuela bolivariana. Mas Washington considera inofensiva essa oratória.

Poder-se-ia inferir deste artigo que encaro com pessimismo o futuro do povo Nicaraguense. Seria uma conclusão errada. A memória de Sandino, de Carlos Fonseca e da gesta heroica da insurreição guerrilheira que destruiu a ditadura de Somoza permanece viva no povo da Nicarágua. Um dia ele retomará a luta rumo ao socialismo interrompida pela traição de Daniel Ortega.

Estou consciente de que um governo do partido de extrema-direita seria pior do que o de Ortega-Murillo. Mas indigna-me a hipocrisia da mídia e dirigentes de esquerda que insistem em caracterizar o governo de Ortega como revolucionário.

Vila Nova de Gaia, Novembro de 2016

*Miguel Urbano Rodrigues: (Moura, 2 de agosto de 1925 – Vila Nova de Gaia, 27 de maio de 2017) foi um jornalista, escritor e político português. Foi redactor do Diário de Notícias entre 1949 e 1956, chefe de redacção do Diário Ilustrado (1956 e 1957), antes de se exilar no Brasil, onde foi editorialista principal de O Estado de S. Paulo (1957 a 1974) e editor internacional da revista brasileira Visão (1970 a 1974). Após a Revolução dos Cravos retornou a Portugal, foi chefe de redacção do Avante! em 1974 e 1975 e director de O Diário entre 1976 e 1985. Assistente de História Contemporânea na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (1974-75), presidente da Assembleia Municipal de Moura em 1977 e 1978, deputado pelo Partido Comunista Português entre 1990 e 1995 e deputado às Assembleias Parlamentares do Conselho da Europa e da União da Europa Ocidental, tendo sido membro da comissão política desta última.

Edição: Página 1917

Fonte: https: https://www.odiario.info/daniel-ortega-traiu-a-revolucao-sandinista/

segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

Os Preconceitos Contra o Marxismo

 Henri Lefebvre*

   É necessário remontar aos princípios do cristianismo ou ao tempo das guerras de religião — embora o marxismo nada tenha de comum com uma nova religião — para encontrar na história uma doutrina tão atacada, tão caluniada e tão perseguida como é hoje a de Karl Marx.


Henri Lefebvre


   Tem-se desenvolvido uma violenta luta “ideológica” em torno deste grande pensador. Esta luta “ideológica” não é mais que uma manifestação e um aspecto de lutas de classes e de lutas políticas muito vastas, à escala de todo o mundo moderno. As “paixões” (isto é, os interesses) econômicas e políticas explicam a violência desta luta e o seu caráter pérfido e brutal.

   É sabido que, nos seus primórdios, a “ciência da natureza” suscitou a inquietação e a hostilidade dos poderes estabelecidos. A condenação de Galileu, ao afirmar que a terra gira, continua viva em todas as memórias. Esta condenação não passou, aliás, de um episódio, o mais conhecido, de uma longa, tenaz e dramática luta dos sábios pela liberdade da razão e pelo conhecimento científico. Censurava-se lhes, naquele tempo, a “impiedade” da ciência, pelo único fato de não explicarem todas as coisas pela “vontade de Deus” e pela “Providência”. Também neste caso a luta ideológica servia de capa a uma luta política. Quem paralisava a ciência nascente da natureza? Quem se opunha aos seus progressos? Os poderes estabelecidos originários da Idade Média, os mesmos que viriam a ser vencidos na Grade Revolução de 1789-1793, pelos princípios da Razão e da Liberdade.

   No entanto, muito raramente a reação contra os primeiros físicos ou químicos foi tão violenta como a ação empreendida nos tempos modernos contra os marxistas, como por exemplo na Alemanha hitleriana. Por que? Porque a ligação entre os objetivos da luta política e os da nova ciência era, então, menos clara e menos imediata que hoje. O Marxismo pretende ser essencialmente — e é — “ciência da sociedade e da história”. Ora, esse conhecimento científico da sociedade opõe-se direta e expressamente a certos “poderes estabelecidos” — os que representam a burguesia e o capitalismo —; mostra que o seu domínio perde toda a razão de ser e que será substituído por uma organização nova, mais racional e mais livre, da sociedade. Daí o ódio que suscita e que a hábil propaganda desses “poderes estabelecidos” espalha contra uma doutrina que, em si, se apresenta como exclusiva e simplesmente “científica”, com argumentos e provas “racionais”, e que apenas recorre a razão para se fazer compreender. (...)

*Henri Lefebvre (Hagetmau, 16 de junho de 1901 — Navarrenx, 29 de junho de 1991) filósofo marxista e sociólogo francês.

Edição: Página 1917

Fonte: Para Compreender o Pensamento de Karl Marx; Henri Lefebvre; Edições 70; 1981; Portugal.



 

sábado, 8 de janeiro de 2022

Afastar as ilusões! Reforçar a necessária resistência proletária diante da ofensiva burguesa!

Cem Flores

07.01.2022

 

A crise mundial do capital, aberta e exposta desde 2008, vem deixando cada vez mais claro as entranhas podres do imperialismo – o sistema global de exploração capitalista atual e de destruição. As recessões e a estagnação econômica generalizada, a sanha burguesa por manter ou retomar as taxas de lucro, têm acirrado todas as contradições desse sistema. A burguesia e seus estados avançam contra seus inimigos de classe, a classe operária e as massas exploradas de todos os países, ou contra seus concorrentes diretos.

O capitalismo aprofunda a miséria no Brasil e no mundo.


O conflito entre as potências imperialistas, com destaque à disputa entre os EUA e a China, nos coloca cada dia mais próximos de mais uma grande guerra. As disputas no Mar da China ou na fronteira da Ucrânia são exemplos dos limites intransponíveis que a concorrência entre os monopólios impõe. A ilusão de um sistema imperialista pacífico, regulado pela potência hegemônica, pela ONU ou outro instrumento qualquer desses, só existe na cabeça dos ideólogos burgueses, que buscam disseminar a ilusão de que o capital pode ser controlado pelas instituições que servem à sua reprodução.

O imperialismo, fase apodrecida do capitalismo em que vivemos, se expressa nas contradições entre os monopólios transnacionais em grau muito mais elevado; na disputa pelas fontes de matéria-prima, majoritariamente nos países dominados; pelo domínio das rotas geográficas estratégicas; pelo controle dos mercados necessários à expansão de seus capitais. Essa necessidade intrínseca de expansão dos monopólios e de seus blocos imperialistas determina, em última instância, a ampliação dos conflitos interimperialistas, as tensões aumentadas entre países e capitais, as disputas políticas e os confrontos armados espalhados pelo mundo hoje.

Mas é na ofensiva contra a classe operária e os povos de todos os países que esse sistema expõe de maneira mais clara seu apodrecimento. O aprofundamento da crise imperialista empurra a burguesia a avançar na luta de classes contra os/as trabalhadores/as de todos os países. A necessidade da retomada de suas taxas de lucro impõe o aumento da exploração capitalista, da criação de mais valor, que necessariamente passa pela ofensiva contra a classe operária e as massas. É necessário rebaixar o patamar estabelecido das relações de trabalho, ampliando o valor extraído da força de trabalho, seja com o implemento de novas tecnologias ou, principalmente, pelo aumento das jornadas, pelo maior controle e intensificação da produção e pela piora das condições com que essa força de trabalho é reproduzida e vendida ao capital. Todos os aparelhos ideológicos e repressivo da burguesia – justiça, parlamento, governos, mídia – e suas “políticas públicas” vêm atrás “sacramentando” e “legalizando” esse novo patamar da exploração que vemos avançar a cada dia em todo o mundo. Tentando transformar em “normal” e “suportável” esse mundo de horrores.

Mas não há ação sem reação! A luta de classes é um fato da realidade, existe objetivamente, seja maior ou menor a consciência dela. A classe operária e os/as trabalhadores/as resistem mesmo sem ter sua posição própria e independente, de classe, no comando dessa resistência.

Para manter bilhões nesse “novo” mundo de barbárie, miséria e exploração, todos os aparelhos ideológicos e repressivo do capital avançam. No mundo elevam-se os gastos militares, ampliam-se as estruturas de repressão e a fachada das democracias burguesas vão desmoronando crescentemente. Trata-se de, internamente aos países, garantir a ordem necessária ao capital e, externamente, proteger os interesses dos verdadeiros donos do estado: os monopólios financeiros e seus aliados de classe. O pânico da burguesia com as explosões sociais, recorrentes nos últimos anos, e seu potencial de transformação ainda embrionário e espontâneo, deixa claro a necessidade que as classes dominantes têm de desenvolver seus mecanismos militares, políticos, jurídicos e ideológicos de controle social.

Nada mais natural que nesse quadro resgatem-se as ideologias que justificam essa barbárie capitalista. O fascismo ou outras ideologias reacionárias retomam seu papel, funcional às necessidades da burguesia nos períodos de graves crises, e “justificam” a ofensiva burguesa encontrando “inimigos” seja nos imigrantes que chegam à Europa ou aos EUA, nas populações dos países imperialistas concorrentes, nos pobres e miseráveis que esse sistema criou, nos negros, nos povos indígenas etc., de forma similar aos nazistas em relação aos judeus, nas décadas de 1930 e 1940. E, como sempre, em todos os processos de crise e de fascistização, o centro da ofensiva ideológica da burguesia é o combate ao seu verdadeiro inimigo de classe, pânico constante das classes dominantes de todo o mundo: o comunismo, os comunistas, a revolução!

Os capitais, nessa ação para tentar manter suas taxas de lucro, encontram nos partidos reformistas, revisionistas e oportunistas, aliados úteis para tentar travar, dividir e confundir a resistência das classes dominadas.

Seria viável, ainda mais na atual ofensiva burguesa imposta pela crise do imperialismo, acreditarmos que é possível, usando os instrumentos que essa mesma burguesia controla (o estado, as instituições jurídicas e políticas, o aparelho repressivo), alterar o sentido dessa ofensiva na luta de classes? É coerente acreditarmos que esses aparelhos, que existem para garantir a reprodução do capital, se moverão contra sua função essencial e servirão de instrumento de controle à ofensiva burguesa? Faz sentido acreditarmos que esses instrumentos com os quais os nossos inimigos de classe garantem e reproduzem sua exploração e dominação poderão ser usados contra essa exploração/dominação? Seria possível gerenciar o estado capitalista para atender aos interesses das classes dominadas?

A todas essas perguntas a única resposta é um gigantesco NÃO!

Essas perguntas resumem a ilusão e a mentira que o reformismo, o revisionismo, o oportunismo de plantão tentam nos vender todos os dias! Essas posições burguesas, inimigas da classe operária, que agem em nosso meio, que desarmam nossa capacidade de combate, que dividem nosso campo, que esterilizam nossa resistência, estão hoje mais presentes do que nunca. Apresentam-se como a “alternativa” que poderia combater o fascismo quando o que verdadeiramente fazem é nos desarmar nesse combate. Não será acreditando nos instrumentos do inimigo, na posição das classes dominantes que atua em nossas fileiras, que iremos alterar a barbárie que nos está sendo imposta. Nem mesmo aliviá-la! Só a luta da classe operária e dos/as trabalhadores/as com sua posição de classe pode frear essa ofensiva!

Essa ofensiva burguesa – econômica, política, ideológica e repressiva – alterou a conjuntura em todo mundo. De um lado, gigantescos monopólios, riqueza, opulência, luxo e do outro, miséria, pobreza, desemprego, fome, morte!  A pandemia nesses dois últimos anos deixou claro a todos esse quadro horroroso, quadro que os povos de todo o mundo já conheciam de seu cotidiano. A barbárie do sistema capitalista está completamente exposta.

Que alternativas podemos pensar nesse quadro? Que soluções a esse mundo apodrecido são possíveis do ponto de vista dos/as trabalhadores/as, da classe operária, do povo? O que fazer?

Afastar as ilusões reformistas, revisionistas e oportunistas que infestam a mal denominada “esquerda” é um primeiro e fundamental passo. Combater e criticar essa ideologia estranha à classe operária nos possibilita remover a cortina de fumaça que nos impede de ver claramente nossos objetivos a curto e a longo prazo. Combater e criticar essa ideologia que nos confunde e nos impede de identificar claramente nossos inimigos e nossos amigos. Que afasta a compreensão da necessidade de superação, de ruptura revolucionária desse sistema e o caminho para atingir esse objetivo.

Ou seja, recolocar no horizonte da classe operária e das suas lutas a questão do poder, da revolução, da derrubada do regime de escravidão assalariada do capitalismo e da construção do socialismo. Esse é o nosso norte, a estrela que deve nos guiar.

Esse longo caminho passa, necessariamente, por retomar a iniciativa proletária na luta de classes, por recolocar a posição da classe operária e das classes dominadas no comando de nossas ações e de nossa luta. 

Para isso, não há atalho à necessidade de participar da vida cotidiana das massas operárias e trabalhadoras, compartilhar suas dificuldades concretas e lutar a seu lado. As lutas já existem e estão sendo travadas. Trata-se de mergulhar nelas, aprender com elas e, nesse processo de luta e vida conjunta, apontar nosso norte e organizar a luta em função desse objetivo.

Esse processo impõe, aprendendo com as formas de luta concreta existentes hoje e com a experiência de nossa classe, retomar o marxismo-leninismo, a teoria científica que nos permite compreender as tendências da luta de classes e agir para retomar e colocar no comando a posição proletária nessa luta. Nesse processo reconstruir nosso principal instrumento de combate: o Partido Comunista, o partido do proletariado.

Não há como indicar que esse caminho será curto e tranquilo. Mas nossas vidas já são uma constante luta para sobreviver a cada dia. Do que se trata é de caminhar no sentido justo. De colocar toda nossa energia no caminho que possibilite, mais cedo ou mais tarde, a destruição desse sistema podre e a construção da sociedade onde seremos donos do que produzimos. O caminho da revolução socialista e da construção do comunismo.

Edição: Página 1917

Fonte:https://cemflores.org/2022/01/07/afastar-as-ilusoes-reforcar-a-necessaria-resistencia-proletaria-diante-da-ofensiva-burguesa/

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

A Terceira Internacional e Seu Lugar na História

Lenin

Abril 1919

Os imperialistas dos países da “Entente”(1) bloqueiam a Rússia, tratando de isolar a República Soviética, como foco de contaminação, do mundo capitalista. Estas pessoas, que se gabam do caráter “democrático” de suas instituições, estão tão cegas pelo ódio à República Soviética que não percebem como eles próprios estão se fazendo de ridículos. Vejam: os países mais avançados, mais civilizados e “democráticos”, armados até os dentes, que têm todo o mundo sob domínio militar absoluto, temem como fogo o contágio  ideológico procedente de um país arruinado, faminto, atrasado e que, segundo eles, é inclusive um país semisselvagem!



Apenas esta contradição já abre os olhos das massas trabalhadoras de todos os países e ajuda a desmascarar a hipocrisia dos imperialistas como Clemenceau, Loyd George, Wilson(2) e seus governos.

Mas a nós, ajuda-nos não apenas a cegueira que o ódio aos Sovietes causa nos capitalistas, mas também as desavenças entre eles, que os levam a se atrapalharem mutuamente. Os capitalistas organizaram entre si uma verdadeira conspiração de silêncio, temendo mais que tudo a difusão de notícias verídicas sobre a República Soviética em geral, e de seus documentos oficiais em particular. Porém, o órgão principal da burguesia francesa,  Le Temps (3), publicou a notícia da fundação, em Moscou, da III Internacional, da Internacional Comunista.

Expressamos a este principal órgão da burguesia francesa, a este porta-voz do chauvinismo e do imperialismo francês, nosso mais respeitoso agradecimento. Estamos dispostos a enviar ao  Le Temps uma mensagem solene para manifestar nosso reconhecimento pela ajuda que nos presta de modo tão acertado e hábil.

A maneira com que o dito periódico redigiu sua matéria, baseando-se em nosso comunicado por rádio, mostra com evidente clareza a motivação desse órgão do dinheiro. Queria disparar um petardo contra Wilson, como para mortificá-lo, quando dizia: “Veja que pessoas são essas com as quais o senhor admite que se estabeleçam negociações!”. Os presunçosos que escrevem a mando dos ricos esquecem que seu empenho em aterrorizar Wilson com os bolcheviques se transforma, aos olhos das massas trabalhadoras, em uma propaganda a favor dos bolcheviques. Outra vez, nosso mais respeitoso agradecimento ao órgão dos milionários franceses!

A III Internacional foi fundada numa situação mundial na qual nem as proibições nem os pequenos e mesquinhos subterfúgios dos imperialistas da “Entente” ou dos lacaios do capitalismo, como Scheidemann, na Alemanha, e Renner, na Áustria, são capazes de impedir que entre a classe trabalhadora do mundo inteiro se difundam as notícias acerca desta Internacional e as simpatias que ela desperta. Esta situação foi criada pela revolução proletária que, de modo evidente, está sendo incrementada em todas as partes a cada dia, a cada hora. Esta situação foi criada pelo movimento das massas trabalhadoras em prol  dos Soviets, o qual já alcançou uma potência tal que se converteu verdadeiramente em um movimento  internacional.

A I Internacional (1864-1872) lançou as bases da organização internacional dos operários para a preparação de sua ofensiva revolucionária contra o capital. A II Internacional (1889-1914) foi uma organização internacional do movimento proletário, cujo crescimento se realizava  em amplitude, à custa de um declínio temporário do nível revolucionário, do fortalecimento temporário do oportunismo, que no fim das contas levou a dita internacional a um colapso vergonhoso.

De fato, a III Internacional foi fundada em 1918, quando o longo processo da luta contra o oportunismo e o social-chauvinismo conduziu, sobretudo durante a guerra, à formação de partidos comunistas em diversas nações. Formalmente, a III Internacional foi fundada em seu I Congresso(4), celebrado em março de 1919 em Moscou. E o aspecto mais característico desta Internacional, sua missão, é cumprir, colocar em prática os preceitos do marxismo e realizar os ideais seculares do socialismo e do movimento operário. Este aspecto, o mais característico da III Internacional, manifestou-se imediatamente no fato de que, a nova, a terceira “Associação Internacional dos Trabalhadores”, começou a  identificar-se já, desde agora, em certo grau, com  a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

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