Lenin (janeiro/1916)
"Do reconhecimento de uma guerra como guerra de libertação nacional decorre uma tática, do seu reconhecimento como guerra imperialista decorre outra. O manifesto aponta claramente essa outra tática. A guerra "provocará uma crise econômica e política" que deverá ser "aproveitada": não para atenuar a crise, não para defender a pátria, mas, pelo contrário, para "sacudir" as massas, para "apressar a queda do domínio do capital"."
A II Internacional deixou
realmente de existir? Os seus representantes mais autorizados, como Kautsky e
Vandervelde, negam-no obstinadamente. Nada aconteceu além de uma ruptura das
relações; tudo está bem; tal é o seu ponto de vista.
A fim de esclarecer a
verdade, vejamos o manifesto do congresso de Basileia de 1912, que se refere
precisamente à atual guerra mundial imperialista e foi adotado por todos os
partidos socialistas do mundo. Deve-se assinalar que nenhum socialista ousará,
em teoria, negar a necessidade de uma avaliação histórica concreta de cada
guerra.
Agora que a guerra eclodiu,
nem os oportunistas declarados nem os kautskistas se resolvem nem a negar o
manifesto de Basileia nem a confrontar com as suas exigências o comportamento
dos partidos socialistas durante a guerra. Por quê? Pois porque o manifesto os
desmascara inteiramente a uns e a outros.
Nele não há nem uma única
palavrinha sobre a defesa da pátria, nem sobre a diferença entre a guerra
ofensiva e a guerra defensiva, nem uma palavra sobre tudo que afirmam agora aos
quatro ventos os oportunistas e os kautskistas(1) da Alemanha e da quádrupla
Entente. O manifesto não podia falar disso, dado que aquilo que ele diz exclui
absolutamente qualquer emprego desses conceitos. Ele indica de maneira
absolutamente concreta uma série de conflitos econômicos e políticos que
prepararam esta guerra durante decênios, que se tinham revelado plenamente em
1912 e provocaram a guerra de 1914. O manifesto recorda o conflito
russo-austríaco a propósito da "hegemonia nos Balcãs", o conflito
entre a Inglaterra, a França e a Alemanha (entre todos estes países!) a
propósito da sua "política de conquista na Ásia Menor", o conflito
austro-italiano a propósito da "aspiração ao domínio" na Albânia,
etc. O manifesto define numa palavra todos esses conflitos como conflitos no
terreno do "imperialismo capitalista". Deste modo, o manifesto
reconhece com toda a clareza o caráter espoliador, imperialista, reacionário,
escravista desta guerra, isto é, o caráter que transforma a admissibilidade da
defesa da pátria numa insensatez do ponto de vista teórico e num absurdo do
ponto de vista prático. Está em curso uma luta dos grandes tubarões para
devorar "pátrias" estrangeiras. O manifesto tira as conclusões
inevitáveis de fatos históricos indiscutíveis: esta guerra não pode ser "justificada por qualquer pretexto de
interesse popular"; ela é preparada "a bem dos lucros dos capitalistas e das ambições das dinastias".
Seria "um crime" se os
operários "começassem a disparar uns contra os outros". Assim diz
o manifesto.
A época do imperialismo
capitalista é a época do capitalismo maduro e mais que maduro, do capitalismo
que está em vésperas da sua derrocada, que amadureceu o suficiente para dar
lugar ao socialismo. O período de 1789 a 1871 foi a época do capitalismo
progressista, em que na ordem do dia da história estava o derrube do feudalismo
e do absolutismo, a libertação do jugo estrangeiro. Nesse terreno, e só nele
era admissível a "defesa da pátria", isto é, a defesa contra a opressão.
Este conceito poderia ainda hoje ser aplicado a uma guerra contra as grandes
potências imperialistas, mas seria absurdo aplicá-lo à guerra entre as grandes
potências imperialistas, à guerra na qual se trata de saber quem pilhará mais
os países balcânicos, a Ásia Menor, etc. Não
é por isso de espantar que os "socialistas" que reconhecem a
"defesa da pátria" na presente guerra evitem o manifesto de Basileia
como o ladrão evita o lugar do roubo. É
que o manifesto demonstra que eles são sociais-chauvinistas, isto é,
socialistas em palavras e chauvinistas na realidade, que ajudam a
"sua" burguesia a pilhar países estrangeiros, a subjugar outras
nações. O que é essencial na noção de "chauvinismo" é a defesa da
"sua" pátria mesmo quando as ações desta visam escravizar as pátrias
alheias.
Do reconhecimento de uma
guerra como guerra de libertação nacional decorre uma tática, do seu
reconhecimento como guerra imperialista decorre outra. O manifesto aponta
claramente essa outra tática. A guerra "provocará uma crise econômica e política" que deverá ser
"aproveitada": não para
atenuar a crise, não para defender a pátria, mas, pelo contrário, para
"sacudir" as massas, para "apressar
a queda do domínio do capital". Não se pode apressar aquilo cujas
condições históricas ainda não amadureceram. O manifesto reconhecia que a
revolução social é possível, que as premissas para ela amadureceram, que ela
virá precisamente em relação com a guerra: as "classes dominantes"
temem "a revolução proletária", declara o manifesto, invocando o exemplo
da Comuna de Paris e da revolução de 1905 na Rússia, isto é, os exemplos das
greves de massas, da guerra civil. É uma mentira afirmar, como faz Kautsky, que
a atitude do socialismo para com esta guerra não foi esclarecida. Esta questão
não só foi discutida como foi decidida em Basileia, onde foi adotada a tática
da luta proletária revolucionária de massas.
É uma revoltante hipocrisia
passar em silêncio, totalmente ou nas partes mais essenciais, o manifesto de
Basileia e em lugar dele citar discursos de dirigentes ou resoluções de certos
partidos que, em primeiro lugar, foram proferidos antes de Basileia, em segundo
lugar não eram decisões dos partidos de todo o mundo, em terceiro lugar
referiam-se a diferentes guerras possíveis, mas não à presente guerra. O fundo
da questão está em que a época das guerras nacionais entre as grandes potências
europeias foi substituída pela época das guerras imperialistas entre elas e em
que o manifesto de Basileia teve pela primeira vez de reconhecer oficialmente
esse fato.
Seria um erro pensar que o
manifesto de Basileia é uma declamação oca, uma fraseologia oficial, uma ameaça
pouco séria. É assim que gostariam de apresentar a questão aqueles que esse
manifesto desmascara. Mas isso é falso. O manifesto é apenas o resultado de um
grande trabalho de propaganda de toda a época da II Internacional, é apenas um
resumo de tudo aquilo que os socialistas lançaram entre as massas em centenas
de milhares de discursos, artigos e apelos em todas as línguas. Ele apenas
repete aquilo que escreveu, por exemplo, Jules Guesde em 1899, quando fustigava
o ministerialismo(2)dos socialistas em caso de guerra: ele falava da guerra
provocada pelos "piratas capitalistas" (En garde!, p. 175); apenas
repete aquilo que escreveu Kautsky em 1909 em O Caminho do Poder, onde
reconhecia o fim da época "pacifica" e o início de uma época de
guerras e revoluções. Apresentar o manifesto de Basileia como fraseologia ou
como um erro significa considerar como fraseologia ou como um erro todo o
trabalho socialista nos últimos 25 anos. A contradição entre o manifesto e a
sua não aplicação é tão intolerável para os oportunistas e kautskistas porque
ela revela a profundíssima contradição no trabalho da II Internacional. O
caráter relativamente "pacifico" do período de 1871 a 1914 alimentou
o oportunismo primeiro como estado de espírito, depois como tendência e
finalmente como grupo ou camada da burocracia operária e dos companheiros de
jornada pequeno-burgueses. Estes elementos só podiam submeter o movimento
operário reconhecendo em palavras os objetivos revolucionários e a tática
revolucionária. Eles só podiam conquistar a confiança das massas através da
afirmação solene de que todo o trabalho "pacífico" constitui apenas
uma preparação para a revolução proletária. Esta contradição era um abcesso que
alguma vez haveria de rebentar, e rebentou. Toda a questão consiste em saber se
se deve tentar, como fazem Kautsky e Cia, reintroduzir de novo esse pus no
organismo em nome da "unidade" (com o pus) ou se, para ajudar à
completa cura do organismo do movimento operário, se deve, o mais depressa
possível e o mais cuidadosamente possível, livrá-lo desse pus, apesar da
temporária dor aguda causada por esse processo.
E evidente a traição ao
socialismo por parte daqueles que votaram pelos créditos de guerra, entraram
para os ministérios e advogaram a ideia da defesa da pátria em 1914-1915. Só os
hipócritas podem negar este fato. É necessário explicá-lo.