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quarta-feira, 25 de novembro de 2020

Revolução, um Fantasma que não foi Esconjurado.*

 Florestan Fernandes

   Hobsbawm, em um livro inteligente e provocativo, procurou demonstrar que o drama da Europa consistia na conjunção (ou tradição) de intelectuais revolucionários e uma sociedade que repele a revolução. Durante a leitura senti o historiador, que vivera o pós-bolchevismo, lidando sutilmente com convicções íntimas e a justificação dos erros da União Soviética nas questões internas do partido, dentro de suas fronteiras, e na política internacional de concessões à "guerra fria".



   Nós, no Brasil, nem isso poderíamos fazer. Os nossos partidos de esquerda viram-se forçados a um oportunismo tortuoso, compensado com momentos de exaltação teórica, e só uma vez chegaram à prática, com a experiência da Aliança Nacional Libertadora (ANL), em 1935. Esse "revolucionarismo subjetivo" começou a sofrer retificações, exatamente na época em que ruiu a "guerra fria" e se proclamou o novo credo burguês da "morte do socialismo". Os intelectuais, na maioria, quando desligados da prática preferem salvar a pele, para não sacrificar a consciência... houve um deslocamento nem sempre coerente e encoberto em direção à social democracia, que não seria um mal em si. O mal procedeu na disposição de ceder terreno sem luta e na instrumentalização da social democracia para a condição de mão esquerda da burguesia. Esse processo continua e nos ameaça com a perda das poucas alternativas partidárias de construção de uma sociedade nova.

   Gostaria de tratar do tema como sociólogo. Na PUC, por exemplo, onde passei a lecionar no último trimestre de 1977, deparei com uma oferta rica de cursos. Havia um que focalizava a organização social. Em um ímpeto automático, perguntei por que não havia um curso que tratasse não apenas da mudança social, mas especificamente da revolução social. Aí estariam dados os dois polos: a ordem e a sua reprodução; a ordem e sua transformação radical ou pelo avesso. Meus colegas do curso de pós-graduação, que eram abertos à reflexão crítica, logo endossaram essa complementação necessária.

    De uma perspectiva macrossociológica, a revolução é mais importante que a estabilidade social, vistas como assuntos específicos. Os evolucionistas foram combatidos por causa da predominância de abordagens mecanicistas e positivistas. Não existiria, porém, "evolução social da humanidade" ignorando-se mudanças sociais abruptas, provenientes de invasões, difusão cultural e mudanças sociais que adaptassem a ordem a inovações que conduziam à reforma social e à revolução.

   Se ultrapassássemos os raciocínios circulares, a ordem social não ganharia muito com a obsessão comparativa. Especialmente em sociedades estratificadas, nas quais a ordem social pode conter contradições e tensões mais ou menos violentas em virtude de sua constituição. É um mito postular que os dinamismos reprodutivos são mais importantes que os transformadores. Nessas sociedades, a estabilidade procede do monopólio do poder por uma categoria social, uma casta, um estamento ou uma classe. Como explicaram Marx e Engels em A ideologia alemã, o monopólio do poder e a estabilidade vinculam-se à supremacia ou à dominação predominante.

   Isso não pressupõe, por si só, a existência de tensões e de contradições que exijam algum tipo de mudança social. E a revolução (como a reforma social, de outro ângulo) cria as motivações da rebelião. A dominação de classe, que nos interessa aqui, tende a reforçar a estabilidade e a prolongar a ordem social existente além da capacidade de tolerância e submissão de outras classes ou dos sem-classes, que chegam a uma visão negativa da ordem social e terminam por desejar explodi-la, eliminando a ordem prevalecente e a dominação de classe.

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Vocação Subalterna

Ney Nunes

23/11/2020

"A experiência das alianças, dos acordos, dos blocos com o liberalismo social-reformista no Ocidente e com o reformismo liberal (democratas-constitucionalistas) na revolução russa, demonstrou, de maneira convincente, que esses acordos não fazem senão embotar a consciência das massas, não reforçando, mas debilitando o significado real da sua luta, unindo os lutadores aos elementos menos capazes de lutar, aos elementos mais vacilantes e traidores."¹

   É pura perda de tempo esperarmos que indivíduos, partidos ou classes sociais, impregnados de uma vocação subalterna, expressem qualquer proposição que avance além da dependência e da colaboração com propostas e projetos das classes dominantes.

 


   Esse é o caso da pequena burguesia, seja ela proprietária dos meios de produção ou assalariada (vulgarmente denominada classe média). Em todo o desenvolvimento histórico do capitalismo a pequena burguesia nunca pretendeu substituir a classe dominante. Nos períodos de calmaria da luta de classes, quando uma certa estabilidade econômica e política prevalece, a pequena burguesia apresenta-se geralmente atrelada aos partidos da grande burguesia. Já quando esse sistema entra em crise, a luta de classes e a polaridade política agudizam-se, é muito comum ocorrerem embates onde segmentos pequeno-burgueses ficam dilacerados entre a grande burguesia e o proletariado. Nos dois casos, estabilidade ou crise do sistema, não se verifica um projeto de poder independente da pequena burguesia com relação às duas classes fundamentais no capitalismo. 

Os partidos vinculados à pequena burguesia, inclusive os chamados “de esquerda”, sejam eles socialistas ou comunistas, não podem fugir dessa “vocação subalterna” típica da classe predominante nos seus órgãos dirigentes, como na sua base social. Isso explica o contorcionismo político dos reformistas e revisionistas de todos os matizes. Mesmo quando usam e abusam de uma fraseologia radical, esses embusteiros vulgares não conseguem ocultar suas contradições porque, negam hoje o que pregavam ainda ontem. Se antes falavam em ruptura, revolução, etc., ao verem-se diante de uma rotineira disputa eleitoral, são sugados pela lógica do capital que tanto criticavam anteriormente. Correm como galinhas desesperadas em busca das migalhas, dando respaldo político aos que falam em “governar para todos”, “inclusão social”, “defesa da democracia” e outros enganos do mesmo tipo, quando, na prática, já aplicaram ou se colocam a disposição para gerir os planos de exploração capitalista. 

O partido que tem projeto de poder, um programa socialista, anti-imperialista e revolucionário, não pode, de forma alguma, ficar refém de uma classe social com essa miserável “vocação subalterna”. Para ser digno desse programa e do nome comunista é preciso estar vinculado organicamente ao proletariado, a classe que está no polo oposto da grande burguesia, portanto, aquela que reúne condições de abraçar esse programa e desempenhar um papel dirigente na revolução.

¹ Lenin, em "Marxismo e Revisionismo"

Edição: Página 1917.

   

  

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

Homens Brancos Sem Estudos

Quando a Esquerda Assume o Discurso Neoliberal

Francesc Xavier Ruiz Collantes*


No atual panorama político e ideológico, encontramos o fato de que a direita tem duas posições extremistas. Uma é a posição da direita nacional-nativista ou mesmo nacional-etnista, nesse sentido temos casos como Trump, Bolsonaro, Le Pen, etc. Outra posição extremista é a do neoliberalismo. O liberalismo mudou nas últimas décadas para um liberalismo extremo que busca a extensão da lógica do mercado, controlada pelas elites, em todas as esferas da vida política e social e a substituição da sociedade e do Estado pelo mercado global. 

Na ausência da esquerda no palco do debate, a disputa política e ideológica está se estabelecendo entre as duas posições extremas da direita. A esquerda dos países ocidentais e desenvolvidos parece ter identificado o nacional-nativismo como seu principal inimigo e, nessa situação, começou a assimilar o discurso do neoliberalismo em alguns aspectos fundamentais. Se trata de um passo a mais no caminho do seu desaparecimento como alternativa.

Biden e Harris, o neoliberalismo ditando o discurso da esquerda pós-moderna.


Temos visto como, diante da disputa entre o nacional-nativismo e o neoliberalismo nas últimas eleições presidenciais norte-americanas, a esquerda internacional optou pelos representantes do neoliberalismo, Biden e Harris. É bem possível que em alguns casos fosse para apoiar o "mal menor", mas nesta operação foi assumido o discurso próprio daquele que se considera "mal menor". 

A atribuição de um discurso político ou social a uma determinada ideologia baseia-se em algumas características fundamentais desse discurso. Por exemplo: quais personagens, individuais ou coletivos, aparecem; quais funções cada um desses personagens desempenha; quais valores sustentam a estrutura do discurso, seu desenvolvimento e suas conclusões, como esses valores são compreendidos, etc.

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Sobre os sujeitos emergentes:

 A validade do caráter revolucionário da classe trabalhadora e de seu partido de vanguarda.

Diego Torres*

O papel da classe trabalhadora

Desde sua criação, o socialismo científico se distingue de outras teorias ao identificar na sociedade existente uma força social destinada a destruir o capitalismo e edificar uma nova sociedade. Essa força social é a classe trabalhadora. Desde os primeiros trabalhos marxistas, desde os primeiros manuscritos, como por exemplo, A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra, O Manifesto Comunista ou Os Princípios do Comunismo, “o principal elemento da doutrina de Marx e Engels foi a clarificação do papel histórico do proletariado como o criador da sociedade socialista” [1].

Manifestação operária na França.

Marx e Engels basearam suas proposições em uma profunda análise da economia capitalista. Quais são as condições, características e qualidades da classe trabalhadora para ser destinada a cumprir esse papel?

Em primeiro lugar, é a classe mais explorada na sociedade capitalista. Suas condições de vida são determinadas pelo fato de que sua existência, prazeres e pesares, vida e morte, dependem exclusivamente da venda de sua força de trabalho a um capitalista e das condições desta venda, dadas por flutuações de mercado. Essas condições de vida, esse interesse vital, os levam a lutar constantemente até a morte contra a classe capitalista, e torna o proletariado o adversário mais consequente e firme do sistema capitalista.

Isso não é puramente uma observação empírica; é baseada na descoberta da teoria do mais-valor, que permanece completamente válida. A presente crise capitalista de superprodução e superacumulação vieram para destruir as últimas ilusões daqueles que pensam que na economia a esfera da circulação poderia se desenvolver independentemente da esfera da produção e das leis que a governam.

Em segundo lugar, a classe trabalhadora está ligada ao desenvolvimento das forças produtivas. Enquanto trabalhadores, não estão ligados ao passado da produção, com os remanescentes de antigos sistemas de produção, mas sim com o desenvolvimento e o futuro da produção.

Isso significa, contra muitas avaliações, que o desenvolvimento material do capitalismo, a grande indústria, não ameaça a existência do proletariado enquanto uma classe, não destrói suas posições na sociedade; na verdade, esse desenvolvimento impele o crescimento numérico dos trabalhadores e aumenta seu papel na vida social.

É metodologicamente inconsistente tomar um período curto de tempo para avaliar o desaparecimento do proletariado. A lei da proletarização da população mostra seu impressionante alcance quando nós analisamos o capitalismo como um todo. Por exemplo, em meados do século XIX nos EUA, a classe trabalhadora, trabalhadores e suas famílias, constituíam menos de 6% da população. Na Alemanha, não passavam de 3%. Em meados do século XX, essa cifra havia crescido para metade da população em ambos os casos. Hoje em dia, de acordo com a OIT, em escala global, a classe dos trabalhadores que não possuem meios de produção e que vendem sua força de trabalho em troca de um salário tem oscilado em torno de 65% da população desde os anos 1980.

Isso significa que os interesses e aspirações da classe trabalhadora coincidem com a orientação geral do desenvolvimento das forças produtivas. O nível de desenvolvimento atingido pelas forças produtivas requer a supressão da propriedade privada dos meios de produção. Na verdade, isso é anunciado pela supressão relativa da propriedade privada sobre meios concentrados e centralizados, mesmo sob o capitalismo, com o crescimento das sociedades anônimas e monopólios [2]. Desprovida de toda a propriedade privada sobre os meios de produção, a classe trabalhadora não pode ter grande estima por ela. Na verdade, a propriedade privada dos meios de produção é a base para a exploração do trabalhador pelo capitalista, motivo pelo qual a sua supressão e substituição pela propriedade social é a única forma que a classe trabalhadora tem para se emancipar.

O fato de que, apesar disso tudo, a classe trabalhadora conta com qualidades, derivadas de sua posição na produção, consideradas indispensáveis para o trabalho revolucionário, não escapou aos mestres do socialismo científico.

Por exemplo, nós já falamos sobre seu crescimento numérico constante, “o movimento proletário” – disseram Marx e Engels no Manifesto Comunista – “é o movimento independente da grande maioria pelo interesse da grande maioria”.

Não se trata, no entanto, apenas do aspecto quantitativo, mas também da agência da própria burguesia que ao concentrar os meios de produção, junta milhares de trabalhadores sob os tetos das fábricas, normalmente situadas em polos da concentração de capital, ou seja, nas grandes cidades. Assim, o proletariado supera a dispersão e a isolação. Conforme problemas de ordem subjetiva são superados e o nível de consciência de classe aumenta, os trabalhadores podem se unir e se organizar melhor do que qualquer outra classe.

Essa concentração da classe trabalhadora é independente de certos processos temporais. Pode haver períodos de tempo e países em que uma seção dos capitalistas opta por descentralizar ou seccionar o processo produtivo. Essa opção obedece, geralmente às condições em que é conveniente para capturar mais mais-valor ou dispersar temporariamente a classe trabalhadora e dificultar sua organização, quando o sacrifício é considerado necessário. De toda forma, essa opção é revertida após algum tempo, e o processo geral mostra que a tendência do capital aponta para a concentração. Isso é comprovado pelo crescimento ininterrupto dos monopólios, pelo fato que uma grande porcentagem da classe trabalhadora trabalha diretamente para eles e o seu reflexo no crescimento ininterrupto das concentrações urbanas.

Além disso, a classe trabalhadora é a classe mais capaz, por meio de suas próprias condições, de se organizar. O trabalho nas grandes empresas acostuma o trabalhador ao espírito do coletivismo, de disciplina severa, a ações conjuntas e à solidariedade. Por exemplo, Engels fala sobre sua rigorosa disciplina, adjetivada como militar, em A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra, e Lenin sublinha em seus Cadernos sobre o Imperialismo como o capitalista acostuma a classe trabalhadora a uma extraordinária precisão em cada movimento. E tudo isso antes da vigilância e controle que as novas tecnologias de informação e telecomunicações permitiram!

De todas as classes oprimidas, a classe trabalhadora é a mais capaz de desenvolver sua consciência e aceitar uma ideologia científica. O avanço da indústria demandou mais e mais trabalhadores educados. A manipulação de máquinas complexas e valiosas que sustentam a produção hoje demanda um alto grau de preparação científica e um nível cultural muito maior do que formações econômicas precedentes.

Essa é a soma de todas as condições históricas e econômicas que tornam a classe trabalhadora a classe mais militante e revolucionária da sociedade. Essas condições históricas e econômicas mantém sua força nos dias de hoje.

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