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sexta-feira, 10 de julho de 2020

Uma Admoestação*


Antonio Gramsci

     É o caso ou a sorte que pretende que o Congresso do Partido Socialista Italiano** se reúna em Livorno no aniversário do sacrifício de Karl Liebknecht? Não acreditamos nas datas fatais, nem nas fatídicas coincidências da história e muito menos acreditamos que o espírito dos mortos tenha o poder de regressar entre os vivos e de inspirá-los. Mas se aqueles de quem se comemora a morte são os “nossos” mortos, os que caíram com as armas levantadas no fervor da luta, e com o espírito tenso, nas alternativas desesperadas do combate, a resistir, a esperar – destes mortos, também nós sentimos a vitalidade eterna, sentimos também a permanência do seu espírito animador entre nós -, por estes mortos também nós quase nos sentimos repetir as palavras da esperançosa superstição cristã: estes estão ainda vivos e julgam e esperam. Na realidade, somos nós próprios que julgamos e esperamos, mas queremos pensar a ação e o juízo, nestes momentos supremos, como que inspirados, quase ditados por um ensinamento que brota da vida de quem mais intensamente do que nós, operou pela afirmação e vitória dos nossos princípios.

     Sob os auspícios do nome de Karl Liebknecht se abre, pois, o Congresso de Livorno. Quem evocar, com o nome, os fatos e os ensinamentos, só poderá extrair deles uma admoestação, de acordo com a nossa espera, a nossa confiança, os nossos propósitos.
     Com a morte de Karl Liebknecht, em janeiro de 1919, acabava no sacrifício cruel a primeira grande afirmação dos comunistas da Europa central e ocidental. A insurreição armada do proletariado alemão que ele dirigiu com a autoridade da sua pessoa, enorme quando comparada às meias figuras de traidores e de hesitantes, e com uma precisão de pensamento e de propósitos igual ao ardor e à tenacidade inquebrantável da vontade, aquela insurreição foi na verdade, a primeira, a única grande tentativa séria e dotada de probabilidades de sucesso, de inserir e compreender o desenvolvimento da crise europeia pós-bélica no mesmo quadro da revolução russa. A insurreição dos comunistas alemães pareceu por um instante realizar a soldagem entre a revolução russa vitoriosa e os esforços de minorias revolucionárias dos países da Europa central e ocidental. Se a soldagem se tivesse completado, em vez de esgotar-se numa série de tentativas esporádicas e no grande épico, mas doloroso esforço de um povo isolado, a revolução europeia teria tido a sua orientação natural numa revolta de todo o proletariado contra todos os governos da Aliança. Por isso nos dias trágicos de janeiro de 1919, o coração do mundo inteiro pulsou à volta de Berlim, e o destino do mundo inteiro pareceu suspenso do êxito dos confrontos raivosos nos quais vertia o seu sangue a flor dos proletários da Alemanha. O próprio nome de Liebknecht pareceu então a todo o mundo, de modo evidente, o que tinha parecido nos anos da guerra à fantasia de Henri Barbusse, uma síntese viva, um símbolo: a síntese e o símbolo da revolta proletária contra as infâmias, contra os horrores, contra a escravidão da guerra e da paz capitalistas.    
Karl Liebknecht
     Mas hoje, quando recordamos estes fatos à distância de dois anos, podemos acrescentar qualquer coisa àquela representação simbólica, podemos acrescentar a experiência de um período revolucionário aberto com as maiores esperanças e com a maior audácia, e ainda não concluído, embora a recordação dos acontecimentos, mais lenta e menos febril, pareça indicar uma depressão dos espíritos e da vontade de revolta. O desenvolvimento dos fatos apresenta-se hoje, também ele, mais claro, em conjunto com o lógico encadear das causas e dos efeitos, e o sacrifício de Liebknecht aparece-nos em toda a sua plenitude de valor que teve, não só na história da revolução europeia, mas na própria e íntima história da formação, nas fileiras do proletariado, de uma preciosa consciência e de uma válida capacidade de ação. Por isso, antes de qualquer outra coisa, ao recordar a morte atroz, recordamos que os seus instrumentos foram preparados ainda antes do que pela classe burguesa, pelos traidores saídos das filas do partido do proletariado. Comemoramos o mártir e o herói, o homem em cuja vida se resumiu, num instante, a sorte de toda a classe rebelde, e não podemos deixar de recordar, como parte essencial de um ensinamento que não se apaga, que a sua sorte foi traçada por aqueles que tinham menos fé, que tinham passado para as fileiras adversárias ou permanecido entre as fileiras dos combatentes para semear ali a dúvida, incerteza e ceticismo. A insurreição de Berlim, de janeiro de 1919, faliu porque encontrou contra si, organizadas pelos sociais-democratas, as forças da reação; depois dela, o proletariado alemão esteve impedido de ressurgir, válido e potente, pelos mesmos que um dia pareciam ser os guias da ação e depois se revelaram traidores escondidos sob a capa do teórico ou do funcionário, ou do parlamentar. Apenas atualmente, depois de um longo período de elaboração interior, depois de um período fatigante de libertação e de renovação, a classe operária alemã está encontrando a sua estrada. E encontra através das diretrizes de Karl Liebknecht.
     Mas nós dissemos que no seu nome e na sua ação víamos um exemplo para todos os povos. Mais do que um exemplo, é uma prova. Karl Liebknecht provou-nos da maneira mais válida, com o sacrifício, qual é a estrada e quais são os obstáculos.
     Quem evocar o seu nome no Congresso de Livorno saberá exprimir completamente a admoestação que esse fato contém?
     Sob os auspícios do seu nome – e agora parece-nos realmente que a coincidência é fatídica – queremos pôr a origem do Partido Comunista Italiano.

* Publicado em L"Ordine Nuovo, 15/01/1921.

** Congresso do Partido Socialista Italiano realizado em Livorno, Itália, de 15 a 21 de janeiro de 1921, nele ocorreu o rompimento dos comunistas, que se retiraram e reuniram-se na mesma cidade, para fundação do Partido Comunista Italiano.

Edição: Página 1917.
    
    


quarta-feira, 8 de julho de 2020

O Vírus "Contra-Revolucionário"

Ney Nunes

   Quando as esperanças de redenção diante de uma situação adversa, como essa que estamos enfrentando na atualidade, são depositadas na ação fatal de um vírus sobre uma determinada pessoa ou grupo de pessoas, por mais abjetas que sejam, isto significa que o sentimento de impotência está se tornando predominante entre nós. Ainda mais quando sabemos que os efeitos da doença são majoritariamente fatais entre os estratos mais desfavorecidos da população, ou seja, entre os que estão amontoados em moradias minúsculas e insalubres, os que são obrigados a se deslocar em busca do ganha-pão em transportes superlotados e, quando são contaminados pelo vírus, deparam-se com o desmonte e a insuficiência dos serviços de saúde.



Trabalhadores enfrentam transportes lotados na pandemia.

  Se as exceções acontecem, vimos políticos burgueses e até banqueiros serem contagiados e falecerem, elas não passam disso, exceções que apenas confirmam a regra e não mudam em nada a situação. Até porque, não faltam substitutos prontos para continuar executando a tarefa de lacaios rastejantes do capital e do imperialismo, podendo constituir soluções até mais eficazes, do ponto de vista das classes dominantes, para prosseguir com os planos de superexploração do povo trabalhador.

 O vírus mostrou-se um “contra-revolucionário”. Seus efeitos são pesadamente desmobilizadores, restringindo, até aqui, as possibilidades de reação das massas populares no enfrentamento com as medidas aplicadas pelo governo e empresários para salvar os negócios e os lucros, em detrimento das condições de vida e sobrevivência da maioria da população. Mas essas condições não são insuperáveis, os caminhos da organização e da luta começam a ser desbravados, ainda que de forma lenta. A necessidade acaba por exigir que as parcelas mais exploradas superem as posturas imobilistas e puramente defensivas recomendadas pelas forças políticas situadas no campo da enganosa conciliação de classes. 

   O sentimento de impotência precisa ser vencido, ele aprisiona nossa capacidade de ação e leva ao comodismo dos atalhos ilusórios. Justamente quando o que mais precisamos nesse momento é reforçar nossa confiança na ação coletiva, organizada e independente do proletariado e dos seus aliados, condição indispensável para derrotar os planos desse governo Bolsonaro, serviçal da burguesia e capacho do imperialismo em nosso país.

segunda-feira, 6 de julho de 2020

Atrocidades de Bill Clinton na Guerra da Sérvia Expostas em Nova Acusação



JAMES BOVARD

O combatente da liberdade favorito do presidente Bill Clinton acaba de ser indiciado por assassinato em massa, tortura, sequestro e outros crimes contra a humanidade. Em 1999, o governo Clinton lançou uma campanha de bombardeio de 78 dias que matou até 1500 civis na Sérvia e Kosovo, no que a mídia americana orgulhosamente retratou como uma cruzada contra o preconceito étnico. Essa guerra, como a maioria das pretensões da política externa dos EUA, sempre foi uma farsa.
 
Bil Clinton e o genocida Hashim Traci.
O presidente do Kosovo, Hashim Thaci, foi acusado de dez crimes de guerra e crimes contra a humanidade por um tribunal internacional em Haia, na Holanda, que acusou Thaci e nove outros homens de “crimes de guerra, incluindo assassinato, desaparecimento forçado de pessoas, perseguição e tortura”. Thaci e os outros suspeitos ​​foram acusados ​​de serem “criminalmente responsáveis ​​por quase 100 assassinatos” e a acusação envolveu “centenas de vítimas conhecidas do Kosovo albanês, sérvio, cigano e outras etnias e incluem oponentes políticos”. Mas o viés ridículo da mídia americana e / ou a incompetência sobre essa guerra continuam. O New York Times respondeu à acusação de Thaci com um tweet declarando que "O líder da Sérvia foi indiciado por crimes de guerra".

A carreira de Hashim Thaci ilustra como o antiterrorismo é uma bandeira de conveniência para os formuladores de políticas de Washington. Antes de se tornar presidente do Kosovo, Thaci era o chefe do Exército de Libertação do Kosovo (KLA), lutando para forçar os sérvios a sair do Kosovo. Em 1999, o governo Clinton designou os "combatentes da liberdade" do KLA, apesar de seu passado criminoso, e deu-lhes ajuda maciça. No ano anterior, o Departamento de Estado condenou "a ação terrorista do chamado Exército de Libertação do Kosovo". O KLA estava fortemente envolvido no tráfico de drogas e tinha laços estreitos com Osama bin Laden.

Mas armar o KLA e bombardear a Sérvia ajudou Clinton a se retratar como um cruzado contra a injustiça e a desviar a atenção do público após seu julgamento de impeachment. Clinton foi ajudado por muitos vergonhosos membros do Congresso, ansiosos por santificar as matanças dos EUA. O senador Joe Lieberman (D-CN) afirmou que os Estados Unidos e o KLA “representam os mesmos valores e princípios. Lutar pelo KLA é lutar pelos direitos humanos e pelos valores americanos.” E como as autoridades do governo Clinton compararam publicamente o líder sérvio Slobodan Milošević a Hitler, toda pessoa decente foi obrigada a aplaudir a campanha de bombardeio. (Alexander Cockburn foi um dos poucos jornalistas que condenaram a guerra injusta na época.)

Tanto os sérvios quanto os albaneses étnicos cometeram atrocidades no conflito amargo no Kosovo. Mas, para santificar sua campanha de bombardeios, o governo Clinton agitou uma varinha mágica e fez desaparecer as atrocidades do KLA. O professor britânico Philip Hammond observou que a campanha de bombardeios de 78 dias “não foi uma operação puramente militar: a OTAN também destruiu o que chamou de alvos de 'uso duplo', como fábricas, pontes da cidade e até o principal edifício de televisão no centro de Belgrado, numa tentativa de aterrorizar o país e se render." A OTAN repetidamente lançou bombas de fragmentação em mercados, hospitais e outras áreas civis. As bombas de fragmentação são dispositivos antipessoal projetados para serem espalhados pelas formações de tropas inimigas. A OTAN lançou mais de 1.300 bombas de fragmentação na Sérvia e Kosovo e cada bomba continha 208 bombas separadas que flutuavam de pára-quedas até cair na terra. Especialistas em bombas estimaram que mais de 10.000 bombas não explodidas estavam espalhadas pelo solo quando o bombardeio terminou e mutilaram crianças muito depois do cessar-fogo.

Nos últimos dias da campanha de bombardeios, o Washington Post relatou que "alguns assessores presidenciais e amigos estão descrevendo Kosovo em tom de Churchillianos, como a "melhor hora de Clinton". O Post também informou que, de acordo com um amigo de Clinton, o que Clinton acredita ter sido os motivos morais inequívocos para a intervenção da OTAN representavam uma chance de acalmar os arrependimentos da própria consciência de Clinton. O amigo disse que Clinton às vezes lamentou que a geração anterior a ele fosse capaz de servir em uma guerra com um propósito claramente nobre, e ele se sente 'quase enganado' que 'quando chegou a sua vez, ele não teve a chance de fazer parte de uma causa moral. Segundo o padrão de Clinton, o abate de sérvios era “suficientemente próximo para o trabalho do governo” de uma “causa moral”.

Logo após o final da campanha de bombardeio de 1999, Clinton enunciou o que seus assessores chamavam de doutrina Clinton: “Seja dentro ou fora das fronteiras de um país, se a comunidade mundial tem o poder de detê-lo, devemos parar o genocídio e a limpeza étnica.” Na realidade, a doutrina de Clinton era que os presidentes têm o direito de começar a bombardear terras estrangeiras com base em qualquer mentira descarada que a mídia americana regurgitará. Na realidade, a lição de bombardear a Sérvia é que os políticos americanos precisam apenas recitar publicamente a palavra "genocídio" para obter uma licença para matar.

Após o término do atentado, Clinton garantiu ao povo sérvio que os Estados Unidos e a OTAN concordaram em manter a manutenção da paz apenas "com o entendimento de que protegeriam os sérvios e os albaneses étnicos e que partiriam quando a paz se estabelecer". Nos meses e anos subsequentes, as forças americanas e da OTAN permaneceram, enquanto o KLA retomou sua limpeza étnica, matando civis sérvios, bombardeando igrejas sérvias e oprimindo qualquer não-muçulmano. Quase 250 mil sérvios, ciganos, judeus e outras minorias fugiram do Kosovo depois que Clinton prometeu protegê-los. Em 2003, quase 70% dos sérvios que viviam no Kosovo em 1999 haviam fugido, e o Kosovo era 95% albanês.

Mas Thaci permaneceu útil para os formuladores de políticas dos EUA. Embora tenha sido amplamente condenado por opressão e corrupção depois de assumir o poder no Kosovo, o vice-presidente Joe Biden saudou Thaci em 2010 como o "George Washington do Kosovo". Alguns meses depois, um relatório do Conselho da Europa acusou os agentes de Thaci e do KLA de tráfico de órgãos humanos. O The Guardian observou que o relatório alegava que o círculo interno de Thaci "levou cativos do outro lado da fronteira para a Albânia após a guerra, onde se diz que vários sérvios foram assassinados e seus rins vendidos no mercado negro". O relatório afirmava que, quando os “cirurgiões de transplante” estavam “prontos para operar, os cativos [sérvios] foram trazidos para fora da 'casa segura' individualmente, executados sumariamente por um atirador do KLA, e seus cadáveres foram transportados rapidamente para a clínica em operação”.

Apesar da acusação de tráfico de corpos, Thaci foi participante principal da conferência anual Global Initiative da Clinton Foundation em 2011, 2012 e 2013, onde posou para fotos com Bill Clinton. Talvez isso tenha sido uma vantagem do contrato de lobby de US $ 50.000 por mês que o regime de Thaci assinou com o The Podesta Group, co-gerenciado pelo futuro gerente de campanha de Hillary Clinton, John Podesta, como noticiou o Daily Caller .

Clinton continua sendo um herói no Kosovo, onde uma estátua dele foi erguida na capital, Pristina. O jornal Guardian observou que a estátua mostrava Clinton “com a mão esquerda levantada, um gesto típico de um líder cumprimentando as massas. Na mão direita, ele está segurando documentos gravados com a data em que a OTAN iniciou o bombardeio da Sérvia, em 24 de março de 1999.” Teria sido uma representação mais precisa mostrar Clinton em pé sobre uma pilha de cadáveres de mulheres, crianças e outros mortos na campanha de bombardeio nos EUA.

Em 2019, Bill Clinton e sua ex-secretária de Estado fanaticamente pró-bombardeio, Madeline Albright, visitaram Pristina, onde foram "tratados como estrelas do rock" enquanto posavam para fotos com Thaci. Clinton declarou: "Eu amo este país e sempre será uma das maiores honras da minha vida ter ficado com você contra a limpeza étnica (pelas forças sérvias) e pela liberdade". Thaci concedeu medalhas de liberdade a Clinton e Albright "pela liberdade que ele trouxe para nós e pela paz em toda a região". Albright se reinventou com um alerta visionário sobre o fascismo na era Trump. Na verdade, o único honorífico que Albright merece é "Açougueira de Belgrado".

A guerra de Clinton na Sérvia era uma caixa de Pandora na qual o mundo ainda sofre. Como os políticos e a maioria da mídia retrataram a guerra contra a Sérvia como um triunfo moral, era mais fácil para o governo Bush justificar o ataque ao Iraque, para o governo Obama bombardear a Líbia e para o governo Trump bombardear repetidamente a Síria. Todas essas intervenções semearam o caos que continua amaldiçoando os supostos beneficiários.

O bombardeio de Bill Clinton na Sérvia em 1999 foi uma fraude tão grande quanto a que levou George W. Bush a atacar o Iraque. O fato de Clinton e outros altos funcionários do governo dos EUA continuarem a glorificar Hashim Thaci, apesar das acusações de assassinato em massa, tortura e tráfico de corpos, é outro lembrete da venalidade de grande parte da elite política americana. Os americanos serão crédulos novamente na próxima vez que os formuladores de políticas de Washington e seus aliados da mídia inventarem pretextos falsos para instaurar o inferno em alguma  infeliz terra estrangeira?O 

* O original se encontra em:
https://www.counterpunch.org/2020/06/30/bill-clintons-serbian-war-atrocities-exposed-in-new-indictment/

Edição e tradução: Página 1917

segunda-feira, 22 de junho de 2020

Convergências Impossíveis

Ney Nunes
20/06/2020



    Quais seriam na atualidade, se é que existem, as convergências estratégicas e táticas entre os comunistas revolucionários (hoje é indispensável a qualificação dos comunistas, já que o termo “comunista” é usado por diferentes partidos e pessoas que se dedicam a prolongar a vida do capitalismo) e o Partido Comunista do Brasil (PC do B)?

   Existiriam na questão do anti-imperialismo, ou da defesa da soberania e dos interesses nacionais?

     Nesse caso basta nos fixarmos em dois pontos bem concretos e conhecidos: primeiro a atuação contra o monopólio da Petrobras, quando o PC do B esteve à frente da Agência Nacional do Petróleo (ANP) durante os governos Lula/Dilma, o segundo foi o posicionamento favorável ao recente acordo para uso da Base de Alcântara pelos EUA. Ambos os casos valem mais do que mil documentos ou discursos retóricos do PC do B, eles são suficientes para desmascarar seu anti-imperialismo de fachada.

     Talvez com relação a estratégia da revolução brasileira? A estratégia é bem clara: aliança com a burguesia, defesa da democracia (burguesa, é óbvio) e por um projeto de desenvolvimento nacional. Mas em questão de fundamental importância, é melhor deixarmos o próprio PC do B explicitar a sua estratégia:

 “A experiência demonstrou que as coalizões amplas e heterogêneas, decorrentes de uma realidade pluripartidária diversificada, são necessárias tanto às vitórias eleitorais quanto à governabilidade”
“O 13º Congresso apresenta ao povo e à coalizão que sustenta o governo, em especial às forças políticas de esquerda e aos movimentos sociais, a convicção de que a tarefa política central do momento é a de mobilização de apoio para que o governo realize as mudanças que a Nação reclama por meio das reformas estruturais democráticas, tendo como ideia-força um Novo Projeto Nacional de Desenvolvimento” (1)

      Quem sabe teríamos acordo sobre o balanço dos governos Lula/Dilma? Aqui também é melhor transcrever a resolução aprovada no congresso de 2013:
 
Nesta década se destacam quatro grandes realizações, ainda em movimento e em construção, mas delineadoras de um novo tipo de desenvolvimento que vai fortalecendo o país com o resgate do papel do Estado, afirmação da soberania nacional, ampliação da democracia e crescimento econômico com progresso social

A democracia voltou a florescer, a partir da diretriz do novo governo de respeitar e valorizar as manifestações do povo e dos trabalhadores fortalecendo suas entidades, estabelecendo o diálogo e a negociação como base para as relações entre o governo e os movimentos sociais” (1)

          Será que na linha política diante da atual conjuntura encontramos alguma convergência? A nota do Comitê Central do PC do B, publicada em abril/2020, não deixa margem para dúvidas:

 Neste contexto, o Partido mobiliza a sociedade para as medidas de prevenção, de continuidade do isolamento social; realiza firme combate às atitudes irresponsáveis e criminosas de Bolsonaro; empreende a defesa da vida, da democracia e da Constituição Federal.”(2)

“Persistir na articulação de uma ampla frente de salvação nacional, em defesa da vida, da democracia, do emprego e do Brasil. Uma frente capaz de impedir que Bolsonaro promova o caos e crie condições para o país livrar-se da crise e vencer a pandemia. Com esse propósito, o Partido deve intensificar o seu diálogo com amplas forças da sociedade, partidos, entidades, personalidades e lideranças. Nessa frente de salvação nacional, têm protagonismo o Congresso Nacional, os governadores, o STF, entidades e instituições da sociedade civil, como CNBB, Comissão Arns, OAB-Federal, SPBC, ABC, ABI, hoje conjugadas no Pacto pela Vida e pelo Brasil. Devem participar os partidos e parlamentares de um largo espectro político, personalidades do mundo da cultura e da ciência, as centrais sindicais, a UNE, a UBES, a Conam, a UBM, a CMB e um elenco de movimentos sociais e frentes desse setor”(2)

      Talvez na caracterização da China de Xi Jinping como o novo farol do socialismo?


“Sob a estratégia segura e a condução serena de Xi Jinping, a República Popular da China, sem declarações grandiloqüentes, sem adotar políticas de hostilidade contra nenhum país, propõe e pratica uma forma avançada de relações internacionais, baseada na cooperação e no ganho mútuo, na defesa de soluções pacíficas para as controvérsias, no respeito à autodeterminação dos povos e no rigoroso compromisso com o direito internacional e a Carta das Nações Unidas. A “Iniciativa um Cinturão e uma Rota” é um exemplo do que a China chama de desenvolvimento compartilhado.”
Viva o Socialismo com características chinesas!(3)

      Definitivamente fica impossível encontrar qualquer ponto de convergência ou aproximação dos comunistas revolucionários com o PC do B além do vocábulo “comunista”, do qual, pelo que se noticiou, a direção desse partido pretende se livrar, ou pelo menos esconder ao máximo, como já vinha fazendo nas suas últimas campanhas eleitorais.


1 - Resoluções do 13º Congresso do Partido Comunista do Brasil, São Paulo, 16 de novembro de 2013.

2 – Nota do Comitê Central do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), Brasília, 18 de abril de 2020.

3 – Nota da Comissão Política Nacional do Partido Comunista do Brasil.












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