A Atualidade de O Capital*
Jacob Gorender
19-05-1993
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| Jacob Gorender (1923-2013) |
*Este artigo, derivado da conferência realizada em 19/05/93, na PUC-SP, visa demonstrar a existência de uma estreita relação entre as formulações teóricas contidas em O Capital, de Karl Marx, e as características centrais da fase atual do capitalismo.
A minha
conferência hoje é o início de um ciclo. Ninguém aqui deve esperar que eu
ofereça um painel completo de uma obra como O Capital em
uma única noite. Hoje, pretendo apresentar um quadro geral dessa obra de Karl Marx, referir-me à
sua atualidade e chamar a atenção para algumas questões que dizem respeito
exatamente ao seu caráter geral. Os aspectos mais particulares, as muitas
contribuições especiais dessa obra ficarão a cargo dos conferencistas
seguintes.
Falarmos na atualidade de O Capital não
parecerá, porventura, uma arrogância depois dos desmoronamentos dos regimes do
Leste Europeu que se diziam baseados na teoria marxista, tanto em Marx, quanto em seus
principais seguidores, particularmente em Lenin (daí ter se
criado o termo marxismo-leninismo)? Ou depois do sucedido nesses países e do
fato de que, em todos eles ou na grande maioria, se faz um esforço enorme para
a implantação do capitalismo? Como então afirmar que a obra de Marx tem
atualidade? Não será ela uma obra ultrapassada, que os fatos desmentiram e, com
isso, merece a atenção apenas dos eruditos como um capítulo encerrado na
história das idéias? Será isso?
Obviamente, a ofensiva do neoliberalismo, tanto prática como
teórica e ideologicamente, desde os fins dos anos 70, quer fazer com que
acreditemos na falência do marxismo. E o que sucedeu nesses últimos anos, com o
esfacelamento dos regimes dirigidos pelos partidos comunistas do Leste Europeu
e a dissolução da própria União Soviética, parece confirmar o prognóstico do
neoliberalismo. Quero frisar, aqui, que me refiro precisamente ao
neoliberalismo e não ao liberalismo do século XVIII. Embora um provenha do
outro, eles pertencem a épocas muito diferentes e têm sinais diferentes.
O liberalismo, seja dos iluministas franceses, dos naturalistas,
de economistas como Adam Smith e Ricardo, era uma
ideologia realmente anti-operária, mas progressista para a época.
Revolucionária mesmo, porque se dirigia contra o feudalismo e em certos
aspectos até mesmo contra o colonialismo.
O neoliberalismo de hoje é uma ideologia das grandes empresas
multinacionais, dos monopólios que, em número de algumas centenas, dominam o
sistema capitalista mundial. E esse neoliberalismo se voltou com todos os
canhões contra o marxismo e também alvejou o keynesianismo. Mas, este último
foi um alvo, digamos, lateral, situado no próprio campo das idéias burguesas.
Como então e
a obra marxista mantêm sua atualidade? No mesmo ano de 1989, quando ruiu o Muro
de Berlim, surgiu um artigo que logo a mídia internacional se encarregou de
divulgar com grande alarde, um artigo que anunciava o fim da História, de
autoria do politólogo norte-americano Francis Fukuyama. Depois desse artigo,
Fukuyama compendiou sua obra num livro que já foi traduzido aqui no Brasil.
Para o autor, o fim da História se dá com a proclamação de vitória final do
liberalismo, da democracia liberal apoiada no sistema capitalista, no mercado
capitalista.
Contudo, pouco depois, já no começo dos anos 90, iniciava-se nos
Estados Unidos e, logo em seguida, também na Alemanha, no Japão e em outros
países do sistema capitalista, uma recessão, que, não sendo muito profunda, se
revela, entretanto, demorada, já se prolongando por dois anos. Eis porque se
fala em estagnação e até mesmo em crise sistêmica, o que se ouve de economistas
que nada têm de marxistas.
Junto a isso, vários fenômenos chamam a atenção, justamente
fenômenos que colocam em foco a obra de Marx. Em primeiro lugar,
o renitente e crescente desemprego, que é um fenômeno tanto de países
adiantados quanto atrasados. É universal, pode-se dizer.
Percebe-se que a produção cresce, mas cresce também o desemprego,
o que está ligado a uma revolução tecnológica e ao fato de que a classe
operária, os trabalhadores intelectuais e manuais, desempregados por essa
revolução, não têm tido a capacidade de resistir à ofensiva do capital começada
já nos anos 70.




