Índice de Seções

quarta-feira, 27 de outubro de 2021

A Atualidade de O Capital

A Atualidade de O Capital*

Jacob Gorender

19-05-1993

Jacob Gorender (1923-2013)

*Este artigo, derivado da conferência realizada em 19/05/93, na PUC-SP, visa demonstrar a existência de uma estreita relação entre as formulações teóricas contidas em O Capital, de Karl Marx, e as características centrais da fase atual do capitalismo.

A minha conferência hoje é o início de um ciclo. Ninguém aqui deve esperar que eu ofereça um painel completo de uma obra como O Capital em uma única noite. Hoje, pretendo apresentar um quadro geral dessa obra de Karl Marx, referir-me à sua atualidade e chamar a atenção para algumas questões que dizem respeito exatamente ao seu caráter geral. Os aspectos mais particulares, as muitas contribuições especiais dessa obra ficarão a cargo dos conferencistas seguintes.

Falarmos na atualidade de O Capital não parecerá, porventura, uma arrogância depois dos desmoronamentos dos regimes do Leste Europeu que se diziam baseados na teoria marxista, tanto em Marx, quanto em seus principais seguidores, particularmente em Lenin (daí ter se criado o termo marxismo-leninismo)? Ou depois do sucedido nesses países e do fato de que, em todos eles ou na grande maioria, se faz um esforço enorme para a implantação do capitalismo? Como então afirmar que a obra de Marx tem atualidade? Não será ela uma obra ultrapassada, que os fatos desmentiram e, com isso, merece a atenção apenas dos eruditos como um capítulo encerrado na história das idéias? Será isso?

Obviamente, a ofensiva do neoliberalismo, tanto prática como teórica e ideologicamente, desde os fins dos anos 70, quer fazer com que acreditemos na falência do marxismo. E o que sucedeu nesses últimos anos, com o esfacelamento dos regimes dirigidos pelos partidos comunistas do Leste Europeu e a dissolução da própria União Soviética, parece confirmar o prognóstico do neoliberalismo. Quero frisar, aqui, que me refiro precisamente ao neoliberalismo e não ao liberalismo do século XVIII. Embora um provenha do outro, eles pertencem a épocas muito diferentes e têm sinais diferentes.

O liberalismo, seja dos iluministas franceses, dos naturalistas, de economistas como Adam Smith e Ricardo, era uma ideologia realmente anti-operária, mas progressista para a época. Revolucionária mesmo, porque se dirigia contra o feudalismo e em certos aspectos até mesmo contra o colonialismo.

O neoliberalismo de hoje é uma ideologia das grandes empresas multinacionais, dos monopólios que, em número de algumas centenas, dominam o sistema capitalista mundial. E esse neoliberalismo se voltou com todos os canhões contra o marxismo e também alvejou o keynesianismo. Mas, este último foi um alvo, digamos, lateral, situado no próprio campo das idéias burguesas.

Como então  e a obra marxista mantêm sua atualidade? No mesmo ano de 1989, quando ruiu o Muro de Berlim, surgiu um artigo que logo a mídia internacional se encarregou de divulgar com grande alarde, um artigo que anunciava o fim da História, de autoria do politólogo norte-americano Francis Fukuyama. Depois desse artigo, Fukuyama compendiou sua obra num livro que já foi traduzido aqui no Brasil. Para o autor, o fim da História se dá com a proclamação de vitória final do liberalismo, da democracia liberal apoiada no sistema capitalista, no mercado capitalista.

Contudo, pouco depois, já no começo dos anos 90, iniciava-se nos Estados Unidos e, logo em seguida, também na Alemanha, no Japão e em outros países do sistema capitalista, uma recessão, que, não sendo muito profunda, se revela, entretanto, demorada, já se prolongando por dois anos. Eis porque se fala em estagnação e até mesmo em crise sistêmica, o que se ouve de economistas que nada têm de marxistas.

Junto a isso, vários fenômenos chamam a atenção, justamente fenômenos que colocam em foco a obra de Marx. Em primeiro lugar, o renitente e crescente desemprego, que é um fenômeno tanto de países adiantados quanto atrasados. É universal, pode-se dizer.

Percebe-se que a produção cresce, mas cresce também o desemprego, o que está ligado a uma revolução tecnológica e ao fato de que a classe operária, os trabalhadores intelectuais e manuais, desempregados por essa revolução, não têm tido a capacidade de resistir à ofensiva do capital começada já nos anos 70.

domingo, 24 de outubro de 2021

Reformismo e Revisionismo: Duas Moléstias Incuráveis!

 Ney Nunes

"Não é possível derrotar o exército do inimigo de classe enquanto as fileiras proletárias estiverem sabotadas pela quinta coluna reformista-revisionista."

     No início deste século XXI, duas enfermidades continuam a se abater sobre a luta do proletariado pela libertação do jugo da exploração capitalista: o reformismo e o revisionismo. Na verdade, são duas faces da mesma moléstia.  Essas duas vertentes alimentam a expectativa ilusória de que mudanças graduais no capitalismo e alianças com o inimigo de classe podem conduzir a uma situação melhor para o proletariado.

     Essa ilusão é disseminada tanto nos países secularmente dominados pela burguesia, quanto naqueles onde revoluções proletárias iniciaram a transição para o socialismo e que foram abortadas pela restauração capitalista comandadas pelo burocratismo contra-revolucionário, a exemplo do ocorrido na China e União Soviética.




     Não é possível derrotar o exército do inimigo de classe enquanto as fileiras proletárias estiverem sabotadas pela quinta coluna reformista-revisionista. Isso foi fartamente demonstrado por todas as revoluções vitoriosas no século XX. O combate ideológico e político, sem tréguas, aos elementos traidores e vacilantes é imprescindível para depurar o exército proletário dessa quinta coluna que age, em última instância, no sentido de preservar o poder das classes dominantes.

    Acobertados por uma fraseologia pretensamente radical, esses farsantes pequeno-burgueses procuram de toda a forma dividir e desviar o proletariado do caminho da independência de classe, da revolução socialista e da ditadura do proletariado. Seu projeto sempre foi, e continua sendo, a colaboração de classes, subalterno à burguesia e ao imperialismo.

      Combatê-los e destruí-los é questão de vida ou morte para a revolução proletária no Brasil e no mundo!

sexta-feira, 22 de outubro de 2021

A Batalha de Moscou



Na "Batalha de Moscou", travada entre outubro de 1941 e janeiro de 1942, os exércitos nazistas foram barrados as portas de Moscou, essa foi a primeira grande derrota dos alemães durante a invasão da União Soviética na Segunda Guerra Mundial.

A Batalha de Moscou 1941

 

quarta-feira, 20 de outubro de 2021

Reencontrando Giocondo e Prestes


Ivan Pinheiro

14/9/2021

Eu não poderia deixar de socializar ao meu círculo de amizade e camaradagem um resumo dos pensamentos e sentimentos que me envolvem e fazem refletir, desde quando, há poucos dias, li um texto de Luiz Carlos Prestes, de março de 1981 (“Aprender com os erros do passado, para construir um partido novo, efetivamente revolucionário”), e, logo em seguida, assisti o documentário “Giocondo Dias – um clandestino ilustre”, do cineasta Wladimir Carvalho, lançado recentemente.

Como se sabe, Prestes e Giocondo protagonizaram uma intensa luta interna que levou à divisão do PCB no início da década de 1980. Prestes era o Secretário Geral antes da divisão e Giocondo passou a sê-lo em seguida, até sua morte em 1987.

A coincidência dessas leituras foi impactante. Esses dois camaradas foram – em épocas e por razões diferentes – as minhas principais referências políticas no PCB, inclusive no momento em que, como militante do partido, fui obrigado a fazer uma escolha dramática entre os distintos caminhos que os dois seguiriam. Como minha militância sindical à época resultava em alguma exposição pública, foi natural ter sido convidado para conversas particulares com ambos e que obviamente eu as aceitasse. No meu caso, esses encontros foram muito mais para ouvir do que dialogar, até porque havia poucas informações sobre as divergências, além dos rumores.

Depois de conhecer opiniões de outros quadros e de intermináveis debates na célula em que militava, consolidei uma opinião que me dividia ao meio: concordava (e ainda concordo) com a maioria das críticas do camarada Prestes expostas na Carta aos Comunistas (de março de 1980), mas não com sua decisão de sair do PCB antes do seu próximo Congresso Nacional, que iniciou-se em 13 de dezembro de 1982 [¹], o que pode ter sido um dos fatores que inviabilizaram o seu projeto de criar um novo partido, efetivamente revolucionário, como anuncia no texto.

Respeito a opinião dos que consideram que naquele momento já não havia mais espaço no partido para a luta interna, mas penso que essa conclusão só é razoável se a análise daquela correlação de forças levar em conta apenas a que existia no interior do então Comitê Central, em que Prestes não só era minoritário, mas vítima de isolamento e apagamento político, que ficam evidentes em alguns depoimentos no filme sobre Giocondo e que percebi no dia em que o Cavaleiro da Esperança foi recebido calorosamente no aeroporto do Galeão, ao retornar de um longo exílio em Moscou após a anistia política, no final de 1979.

Alguns dias antes desse evento, fui procurado por um dos poucos membros do CC que ficaram clandestinos no Brasil e escaparam de ser presos e desaparecidos, como os camaradas que Prestes homenageia no texto. Os demais membros do CC estavam no exílio, uma parte em Moscou e Praga, outra em Paris, Roma, Lisboa e outros destinos. Este camarada, com quem me encontrava em “pontos” [²] e que me dava assistência em questões que extrapolavam o âmbito da célula de bancários a que eu pertencia, orientou-me, segundo ele em nome do Secretariado do CC, a não comparecer à recepção do camarada Prestes, porque a ditadura podia “desconfiar” que eu fosse militante do partido! Em vão, ponderei que a figura de Prestes, um herói nacional, extrapolava em muito as fronteiras do partido e que uma recepção expressiva a ele seria um importante ato público contra a ditadura e favorável à imagem do PCB.

Apesar de desconfiado, respeitando essa orientação levei de carro ao Galeão três camaradas bancários, entre os quais minha então companheira, e os fiquei aguardando no estacionamento do aeroporto, decepcionado porque o som dos discursos não descia ao subsolo! Só tive certeza de que se tratara de uma manobra para esvaziar a recepção a Prestes quando, alguns dias depois, veio a público a luta interna, desconhecida até então por todos os militantes de base do partido.

Luiz Carlos Prestes

Minha opinião divergente da posição de Prestes, de romper com o partido sem insistir mais na luta interna (que fatos como o mencionado explicam), era baseada na vivência que eu tinha entre os camaradas que atuavam no movimento sindical, não só no Rio de Janeiro, onde eu era presidente do Sindicato dos Bancários e coordenava a Intersindical estadual, mas em outros Estados. Entre minhas tarefas vinculadas à Fração Sindical do CC, estava o esforço do partido para criar articulações intersindicais estaduais, na perspectiva de uma central sindical nacional. Eu circulava, portanto, entre camaradas que atuavam diretamente nas lutas em defesa dos interesses dos trabalhadores, em geral mais refratários à conciliação de classe.

Caro leitor, ajude a divulgar o Página 1917, compartilhe nossas publicações nas suas redes sociais.

Comentários ofensivos e falsidades não serão publicados.