Por José Valenzuela Feijóo [*]
Outubro/2020
A pandemia do coronavírus
gerou uma crise de ordem maior. A princípio, diante do desconhecimento do vírus
e da consequente ausência de uma vacina eficaz, a única linha de defesa
possível foi recuar: encerrar fábricas, lugares públicos e outros. No próximo ano,
2021, uma vez conhecida e usada a nova vacina, o impacto da pandemia deveria
reduzir-se. Mas não se deveria esquecer nisto: há uma crise de ordem maior,
estritamente ligada ao sistema capitalista. Que já se vinha perfilando e que se
pode esperar que opere ainda com maior força. Quais são os fatores principais
desta crise de ordem estrutural? No que se segue, procuramos uma apresentação
simples e curta dos fatores básicos em jogo.
1) O problema estrutural central: a realização da mais-valia.
Indicando os problemas económicos centrais podemos assinalar: a) baixos ritmos de crescimento da produtividade e do PIB; b) baixos níveis do investimento; c) distribuição do rendimento extremamente regressivo. Com salários que descem inclusive em termos absolutos.
Todos estes problemas estão entrelaçados e por baixo de todos eles está o problema agudo da realização que foi gerado no período neoliberal. Em que consiste o problema da realização? Marx indicava que "a mais-valia produz-se tão logo a quantidade de trabalho excedente que se pode exprimir materializa-se em mercadorias. Mas esta produção de mais-valia finaliza apenas o primeiro ato do processo (...). A seguir, "começa o segundo ato do processo. A massa total de mercadorias, o produto total, tanto a parte que repõe o capital constante e o variável como a que representa a mais-valia, precisa ser vendida". Além disso, assinala o nosso autor que "as condições da exploração direta e as da sua realização não são idênticas. Não só diferem quanto ao tempo e ao lugar como também quanto ao conceito". [2] Também se poderia dizer: uma vez terminado o processo de produção, começa o processo de vender o produzido. E não há nada que assegure que as grandezas produzidas coincidam com as grandezas vendidas.
Para simplificar a explicação, podemos deixar de lado o consumo intermédio e concentrar-nos no Produto Agregado (o Rendimento Nacional). Neste podemos distinguir duas partes: a) o "Produto Necessário"; b) o Produto Excedente ou mais-valia potencial.
O "Produto Necessário" é igual à parte do Produto Agregado que vai parar às mãos dos trabalhadores assalariados que participam nas tarefas de produção. Ou seja, os salários dos trabalhadores produtivos (ou capital variável gasto pelo capital) coincidem com essa parte do produto que denominamos "Produto Necessário". Portanto, se adoptamos a suposição habitual de que os assalariados "gastam o que ganham", temos que com esse gasto (que são compras de bens de consumo), os capitalistas conseguem vender a parte do Produto Agregado que corresponde com o chamado "Produto Necessário". Sendo assim as coisas, o que resta por vender é o Produto Excedente ou mais-valia potencial. A qual, obviamente, é o que mais interessa aos capitalistas pois nele estão encarnados os lucros que todo capital procura obter. É aí que radica a razão de ser de todo capitalista. Como bem indicava Marx, "a finalidade do capital não é satisfazer necessidades e sim produzir lucros". Ou então: o capital "só produz o que pode ser produzido com lucro e na medida em que este pode ser obtido". [3]



