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sábado, 29 de agosto de 2020

Um Problema de Consciência

Alvaro Cunhal

1939

O exterior parece terrivelmente inimigo. Como se nas ruas só passassem funerais. Como se nos roubassem a família, os amigos e quedássemos sós e desamparados.

A tragédia intensa do presente emprenha a visão do futuro de sombrias expectativas. Afigura-se a muitos que no futuro haverá sempre rostos empalidecidos e cheiro a pólvora e a sangue quente. Ontem parecia que o dia de hoje havia de ser risonho e acolhedor. E agora, agora, que grande serenidade para poder crer no dia de amanhã!

 Quando a vida é incerta e baila ante os homens a perspectiva da morte, inunda-os uma ansiedade traduzível assim: «irei tão cedo deixar de ser?»

Só um grito desesperado de momento pode afirmar que esta vida não vale ser vivida. Quando se marcha em direção ao espectro, mesmo que os passos sejam voluntariosos e firmes, o bater do coração compassa a ansiedade. O futuro é negro: mas na própria negrura não há ausência de luz.

Por isso, ante os perigos, a expectativa traduz-se: «irei tão cedo deixar de ser?» E, quanto mais desalentadora é a visão do mundo que fica, quanto mais fundo é o remorso de pouco se ter feito para deixar aos filhos mais valiosa herança, mais dura e brutal aparece a visão da morte.

A admissão da estabilidade de um mundo a que se não podem mostrar os corações, força a lançar rápido e iluminado olhar ao tempo em que se esperou, em que os ora desalentados ainda tinham fé no que hoje não é presente e então parecia vir a ser futuro. Uma derrota profunda e dorida leva muitos a pensar que haverá sempre e só derrotas. Ver morrer os outros vencidos; talvez também morrer vencido. No vasto mundo muitas vezes se apagam vidas, ao procurarem derrubar velhos e endurecidos troncos. E há sempre quem represente o papel de irmão desalentado: «Para quê viver? Coisas que sempre foram e hão-de ser... O homem vive encadeado a leis irresistíveis. Inúteis os sacrifícios dos que procuram modificar os seus ditames». Como se os homens não pudessem construir a sua própria história. Como se as leis da evolução das sociedades não reservassem lugar à vontade humana.

Horas de dor, de sofrimento, de tragédia. Horas em que a expectativa da morte baila com insistência ante os olhos.

Então o homem sente necessidade de justificar a sua própria existência. Há que dar uma resposta às perguntas: «que andei e que ando por cá a fazer? Que tenho feito pelos outros e pela história?»

O homem teme deixar de ser na terra. Um sono sem despertar choca violentamente contra a estrutural vontade de viver. O ser recusa-se a aceitar o próprio desaparecimento. O apagamento total e sem apelo é incompatível com a existência atual.

Por isso, aqueles que acreditaram e não creem fogem, afastam-se, renunciam. Por isso também há homens que projetam a sua existência para além da morte. Uma alma que voe para rumo extra-terreno. Ou um ser que se desintegra para subsistir integrado em novos seres. Qualquer coisa que justifique o caminho percorrido entre o nascimento e a morte. Sonha-se para fora da terra com uma vida que nesta se não tem. Ou sonha-se com o que fica...

A morte é elemento essencial da vida. Mas isso não basta para que se aceite sem mágoa. É que a pergunta: «deixarei de ser hoje? amanhã?» — intensifica e aproxima o grande problema de consciência: «O que andei por cá fazendo? Que fica sobre a terra da minha passagem sobre a terra?»

Não satisfaz uma vida além-túmulo, mesmo que a imaginação empreste à alma asas imateriais. É esta terra donde brotou o pão que manteve o corpo e a água que matou a sede, esta terra donde tudo (mesmo pouco) nos veio e para onde iremos — e é esta humanidade a que pertencemos, este grande coletivo a que nos liga o sangue, o amor, o ódio e a interdependência — é esta terra e esta humanidade que nos exigem uma explicação.

Assim o problema da morte é o problema da vida. Depois que desapareça tudo o que de nós houve! Ou que subsista a alma! Ou que os vermes perpetuem a existência do nosso corpo!

Mas a expectativa da morte ou dum futuro de sombras perpétuas (que derrotas intensificam) chama a recordação do passado. Que poderia ter feito para que meu irmão não fosse vencido? Não lhe deixei só a ele uma tarefa que também me pertencia? E ainda... Que foi feito de toda esta energia dispendida em vida e tão sofregamente sugada? Que fica — não do meu corpo ou da minha alma — que fica das minhas ações duma vida inteira?

E a perpetuidade da nossa vida, a resistência contra um breve deixar de ser, fixa-se neste ponto vital: a justificação e perpetuidade das próprias ações, do que se fez no caminho percorrido entre o nascimento e a morte.

Haverá espetáculo mais doloroso que o do velho que olha atentamente o passado, medindo cada passo, avaliando o efeito de cada gesto, e por fim tem um grito de desalento, remorso e desespero: «uma vida inútil...?» Haverá constatação mais angustiosa que a da própria inutilidade? Não será precisamente essa constatação que as mais das vezes leva ao desejo de não ser? A inutilidade da vida é a afirmação de que nada fica das ações praticadas, de que se gastou o tempo a queimar tempo.

E então talvez valha a pena fitar a morte e esperar o para lá. A não ser que se olhe em frente — mesmo que o limite se espeque num amanhã irrefutável — e se marque uma finalidade à vida.

Quando a perspectiva da morte ou dum futuro trágico baila ante todos, até os jovens, como os velhos, olham o passado. E, depois, quantas vezes o desinteresse e a renúncia não vêm juntar a uma derrota ou a um momentâneo recuo coletivo, uma irremissível derrota individual.

...Porém, quando assim se não voga ao sabor da corrente, mas antes se escolhe caminho e se marcha, novamente o futuro sorri, à nossa vida ou à nossa morte. Sorri porque nele se adivinham marcadas as ações que vão ser praticadas. Porque a nossa vitalidade é afinal a direção do que vem. Porque se ganha confiança na perpetuidade dos nossos atos. Subsiste a alma? O apodrecimento e desintegração é a última etapa? Que interessa isso, se ganhamos uma nova eternidade!

Enquanto a humanidade for humanidade, as ações que hoje praticamos estarão sempre presentes, resistindo ao tempo e ao esquecimento a que nos votarão os nossos netos. Já os nossos corpos terão perdido a forma humana, já as suas partículas viverão separadas e dispersas e ainda nas sociedades futuras os efeitos dos efeitos das nossas ações evocarão a nossa passada existência. Com esta concepção, sentimo-nos (hoje) obreiros anônimos do futuro. Ao problema da morte, do não ser, responde satisfatoriamente a certeza consoladora deste prolongamento da nossa existência. Se se pudesse falar em eternidade, esta seria a única eternidade da nossa vida, como seres pensantes e voluntariosos.

Por isso, quanto mais sorridente é a visão do mundo que fica, quanto mais funda é a consciência de que tudo se fez para deixar aos filhos valiosa herança, menos dura e menos brutal aparece a visão da morte.

Não se trata de olhar para trás e perguntar com angústia: «que fiz? que fiz?» Trata-se de olhar em frente e perguntar com confiança e serenidade: «que poderei ainda fazer?» Não é só um exame de consciência que urge fazer: é também um apelo à consciência!

Com tal procedimento não se visa conquistar a absolvição dum juiz que após a nossa morte nos venha a ter em frente sentados no banco dos réus. Além da história, ninguém nos pedirá contas. Nem a nós, nem aos nossos espectros. Somos nós que nos devemos interrogar e julgar. Isso nos exige a vontade de viver e de perpetuar a nossa existência. Isso nos exige a gratidão. Isso nos exige a lembrança dos irmãos que morreram ao pretender desenraizar endurecidos troncos. Pode não conhecer-se o triunfo. Mas pode soçobrar-se, sem que no mundo fiquem só trevas. Talvez assim nos venha acalentar a necessidade dum sacrifício heroico. E então, porque não falar em felicidade?

Num mundo em que não há risos sem lágrimas, a felicidade nunca pode ser uma situação com caracteres próprios e momentâneos. A felicidade não pode existir, não existe, como situação particular: nem quando dependente de fatos estranhos à própria vontade; nem como ideia abstrata. A felicidade só pode existir como um atributo de toda uma vida. Só a satisfação pela vida que se vive poderá tornar feliz. Há então que não subordinar as ações ao alcance dum prazer. Mas antes amoldar a ideia de felicidade à vida que se vive.

Quando não nos sentimos meros joguetes da evolução mas, pelo contrário, sentimos que, mesmo ao de leve, as nossas energias modificam o seu ritmo. Quando sabemos ser leais, retos e solidários. Quando amamos profunda e extensamente e nos sentimos capazes de sacrificadas demonstrações do nosso amor. Somos felizes porque não desejamos outra vida, porque sentimos preenchida a própria função humana. A felicidade só existe assim como condição da consciência da própria utilidade. Não dispersar atividades. Proceder com um critério. Ser coerente em todas as atitudes. Agir com uma só linha de conduta. Ter fé na própria vontade, embora aceitando as suas determinantes. Convicção de impotência e felicidade excluem-se.

Assim far-se-á da própria vida uma vida feliz. Feliz nas horas de ascenso e nas horas de derrota. Feliz na alegria e na tristeza. Porque, na felicidade, prazer e dor interpenetram-se. Até o estertor final pode conduzir à felicidade pela convicção de que se morre bem. Não pode haver felicidade sem dor, porque esta é inseparável da vida. Que se sofra! Mas que as vontades saibam amordaçar o sofrimento para triunfar. E para isso, é necessário forjar nos peitos o desinteresse pessoal por prazeres efémeros, a rijeza de aço para lutar, o esclarecimento das exigências dos sentidos. Através da dor e da angústia, corações ao alto!

Se a felicidade é dada pela satisfação da linha de conduta, pela satisfação de que se procede bem, nada, nada, nem os gritos da própria carne esfacelada, nem lágrimas de emoção, nem a revolta instante e desesperada, pode destruí-la. Porque, acima dos próprios gritos, das próprias lágrimas, do próprio desespero, fica sempre a certeza duma vida voluntariosa e independente ou – se se preferir a expressão – reta, leal, digna.

Então suporta-se a dor e ama-se a vida. Podem as leis da natureza esfrangalhar o corpo. Podem os órgãos começar cansando. E as pernas vergando de fadiga. Amortecendo-se a percepção. O corpo começar em vida o seu desagregamento. Poderá bailar ante os olhos a perspectiva da morte e o fim especar-se num amanhã irremissível.

E haverá sempre vontade de continuar, procedendo sempre e sempre duma forma escolhida, marchando sempre para um destino humano e uma missão terrena voluntariosamente traçada. Haverá sempre anseio de continuidade e aperfeiçoamento.

Atravessar-se-ão tragédias com lágrimas nos olhos, um sorriso nos lábios e uma fé nos peitos.

Edição Página 1917.

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

O Socialismo e a Religião

Lenin

3 de Dezembro de 1905

   A sociedade contemporânea assenta toda na exploração das amplas massas da classe operária por uma minoria insignificante da população, pertencente às classes dos proprietários agrários e dos capitalistas. Esta sociedade é escravista, pois os operários «livres», que trabalham toda a vida para o capital, só «têm direito» aos meios de subsistência que são necessários para manter os escravos que produzem o lucro, para assegurar e perpetuar a escravidão capitalista.

   A exploração econômica dos operários causa e gera inevitavelmente todos os tipos de opressão política, de humilhação social, de embrutecimento e obscurecimento da vida espiritual e moral das massas. Os operários podem alcançar uma maior ou menor liberdade política para lutarem pela sua libertação econômica, mas nenhuma liberdade os livrará da miséria, do desemprego e da opressão enquanto não for derrubado o poder do capital. A religião é uma das formas de opressão espiritual que pesa em toda a parte sobre as massas populares, esmagadas pelo seu perpétuo trabalho para outros, pela miséria e pelo isolamento. A impotência das classes exploradas na luta contra os exploradores gera tão inevitavelmente a fé numa vida melhor além-túmulo como a impotência dos selvagens na luta contra a natureza gera a fé em deuses, diabos, milagres, etc. Àquele que toda a vida trabalha e passa miséria a religião ensina a humildade e a paciência na vida terrena, consolando-o com a esperança da recompensa celeste. E àqueles que vivem do trabalho alheio a religião ensina a beneficência na vida terrena, propondo-lhes uma justificação muito barata para toda a sua existência de exploradores e vendendo-lhes a preço módico bilhetes para a felicidade celestial. A religião é o ópio do povo. A religião é uma espécie de má aguardente espiritual na qual os escravos do capital afogam a sua imagem humana, as suas reivindicações de uma vida minimamente digna do homem.

   

   Mas o escravo que tem consciência da sua escravidão e se ergueu para a luta pela sua libertação já quase deixou de ser escravo. O operário consciente moderno, formado pela grande indústria fabril, educado pela vida urbana, afasta de si com desprezo os preconceitos religiosos, deixa o céu à disposição dos padres e dos beatos burgueses, conquistando para si uma vida melhor aqui, na terra. O proletariado moderno coloca-se ao lado do socialismo, que integra a ciência na luta contra o nevoeiro religioso e liberta os operários da fé na vida de além-túmulo por meio da sua união para uma verdadeira luta por uma melhor vida terrena.

terça-feira, 25 de agosto de 2020

Os Dois Dias que Abalaram o Brasil

   Transcorridos setenta e oito anos desde os afundamentos dos navios mercantes brasileiros pela ação covarde do submarino alemão U507, quem poderia imaginar que um notório nazifascista, apologista da tortura, lacaio desprezível do imperialismo norteamericano e dos capitalistas, ocupasse a presidência em nosso país?

   O único objetivo do seu governo é atacar os mínimos direitos do povo trabalhador, favorecendo o grande empresariado e as multinacionais, além de destruir a saúde e educação públicas. Sua ânsia desvairada em servir a ganância dos poderosos o transformou no principal responsável pelo morticínio da pandemia de covid-19.

   Que a memória dos homens, mulheres e crianças que morreram vítimas dos torpedos nazistas, em agosto de 1942, assim como dos soldados brasileiros que tombaram em solo italiano combatendo o nazifascismo, não seja esquecida e que sirva de exemplo para as novas gerações de brasileiros. 







segunda-feira, 24 de agosto de 2020

A Revolução Tecnológica no Coração das Contradições do Capitalismo Senil

Samir Amin

2004

1- A revolução tecnológica contemporânea é um fato importante, que não ponho em dúvida, e considero inclusive o ponto de partida necessário da análise do que é "novo" na evolução do capitalismo. 

A diferença está em, por um lado, a análise que se faz da natureza desta revolução, em comparação com as precedentes, e, por outro, nas consequências políticas que daí se podem extrair. 

Tal como creio que há que fazer, analiso as revoluções tecnológicas em termos da lei do valor. Nesta análise, a produção é, em definitivo, o produto do trabalho social e o progresso da sua produtividade manifesta-se por meio da redução da quantidade de trabalho social total necessário para a produção de uma unidade de valor de uso. 

2- As revoluções tecnológicas anteriores na história do capitalismo (a primeira, a da máquina a vapor e das máquinas têxteis dos finais do século XVIII, princípios do XIX; a segunda, a do ferro, do carvão e dos caminhos de ferro, em meados do século XIX; a terceira, a da eletricidade, do petróleo, do automóvel e do avião em princípios do século XX) traduziram-se todas elas numa redução da quantidade de trabalho social total necessário para a produção dos valores de uso considerados, mas também no aumento da proporção que representa a quantidade de trabalho indireto (atribuído à produção dos meios de produção) em relação à de trabalho direto (atribuído à produção final). A revolução tecnológica em curso inverte esta tendência. Permite o progresso da produtividade do trabalho social por meio da adoção de tecnologias que se traduzem na redução da proporção do trabalho indireto

Resumo estas observações no seguinte esquema quantitativo simplificado: 

Quantidade de trabalho necessário (para a produção de uma unidade de valor de uso dada) 

 

Trabalho total 
(1)

Trabalho direto 
(2)

Trabalho indireto 
(3)

Relação 
(3)/(2)

1- Ponto de partida

100

80

20

0,25

2- Primeiras revoluções

50

25

25

1,00

3- Revoluções em curso

25

17

8

0,50

A produtividade do trabalho social duplica quando se passa de 1 a 2 à custa de uma intensificação capitalista das tecnologias adotadas, enquanto que um progresso da produtividade, idêntico quando se passa de 2 a 3 (o dobro desta) vem acompanhado de uma inversão do movimento da intensidade capitalista dos métodos de produção. 

3- As relações de produção capitalistas implicam que a entrada na produção esteja reservada aos que possuem um capital suficiente para instalar os equipamentos necessários. Assim, o aumento da intensidade capitalista através da qual se manifestaram as sucessivas revoluções industriais nos séculos XIX e XX proporcionou ao capital um domínio crescente sobre os trabalhadores desprovidos de outros meios de vida que não fossem a venda da sua força de trabalho (incapazes, pois, de "produzir" por si mesmos – isto é, sem capital – bens competitivos). 

A inversão do movimento através do qual se manifesta o progresso científico e tecnológico tende a "abolir" o poder do capital abrindo o acesso à produção? 

Há pelo menos duas razões para que não o seja em absoluto. 

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