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terça-feira, 3 de outubro de 2023

O ornitorrinco vinte anos depois e Lula 03

Quantos não se regozijam com os ares civilizados que agora sopram de Brasília? Isso, contudo, é uma ilusão.

28/08/2023 

Thiago Canettieri



Chico de Oliveira, em 2003, publicou seu ensaio “O ornitorrinco”. O texto saiu juntamente com uma reedição do clássico “Crítica da Razão Dualista”, que o autor publicou em 1972. De uma certa maneira, Chico atualizou sua leitura da formação nacional. O que ele descrevia em plena ditadura assumia novas formas com a promessa emplacada pelo primeiro governo de Lula, iniciado, também, em 2003. “O ornitorrinco” não é um ensaio qualquer: trata-se de uma interpretação sobre o Brasil, na qual soma-se um diagnóstico de época e um sonoro rompimento com o otimismo do petismo e os “direitos do antivalor” que se anunciava. Rapidamente o ensaio se tornou um clássico – uma importante chave interpretativa para se compreender o Brasil contemporâneo [1].

A meu ver, a questão central do ensaio é aquilo que Chico chamou de “Revolução Molecular-Digital”. Essa revolução chegou aos países periféricos-dependentes-colonizados com força sem alterar as desigualdades históricas, confirmando seu diagnóstico de 1972 quando escreveu que, por aqui, existia uma espécie de simbiose entre o arcaico e o moderno – se se quiser manter a nomenclatura, afinal, esta combinação indicava exatamente o sentido da modernização capitalista em países periféricos. Chico, em 2003, percebia que o desenvolvimento técnico-científico das forças produtivas num país como o Brasil abolia a forma molar da exploração industrial e garantiu sua dispersão molecular numa miríade de atividades mal-remuneradas e sub-empregadas e informais.

De forma quase premonitória, Chico afirmava em 2003 que com isso “os trabalhadores foram transformados numa soma indeterminada de exército da ativa e da reserva, que se intercambiam não nos ciclos de negócios, mas diariamente” [2]. Mudam de uma posição à outra não nos ciclos de negócios ou nos momentos de crise, mas durante a jornada diária de trabalho. Afinal, prossegue o autor, “a tendência moderna do capital” – já descrita por Marx e, desde então, cada vez mais desenvolvida – “é a de suprimir o adiantamento de capital: o pagamento dos trabalhadores não será um adiantamento do capital, mas dependerá dos resultados das vendas dos produtos-mercadorias” [3]. Qualquer semelhança com o trabalho plataformizado de entregadores e motoristas de aplicativo (entre tantos outros) não é mera coincidência. O app é um exemplo muito concreto desta “revolução molecular-digital” que alterou substancialmente a dinâmica social aprofundando desigualdades e dinâmicas de exploração e espoliação.

Chico de Oliveira, de maneira muito acertada, pensa sobre como as formas do trabalho na periferia do capitalismo, ou, mais especificamente, no ornitorrinco brasileiro, estariam se conformando como uma fusão da mais-valia absoluta e relativa. Segundo o autor: “na forma absoluta, o trabalho informal não produz mais do que uma reposição constante, por produto, do que seria o salário; e o capital usa o trabalhador somente quando necessita dele; na forma relativa, é o avanço da produtividade do trabalho nos setores hard da acumulação molecular digital que permite a utilização do trabalho informal”.

É nesse sentido que Chico apresenta a noção de um “trabalho sem forma”, se opondo, mesmo que não explicitamente, a um “trabalho com forma”. Enquanto este seria a expressão ideal de uma certa organização da mediação social historicamente determinada, com um certo ordenamento claro dos critérios desta socialização – salário, regulação pelo mercado, cidadania laboral -; aquela indica uma mediação social que ocorre fora destes critérios ou, se preferirmos, uma mediação social negativa – isto é, a constituição desta categoria se expressa negativamente, manifestando seu contrário: informalidade, precariedade, regulação por instituições violentas, ausência de cidadania, entre outros.

Pareceria extemporâneo alguém afirmar isso em 2003, afinal, um operário industrial acabava de sentar na cadeira de Presidente da República. Não foi por menos que Chico foi muito criticado – isso é pessimismo. Mas como diria Saramago: não se trata de pessimismo, o mundo que é uma merda.

Muito rapidamente, a tese do ensaio de Chico foi se mostrando mais extensa do que normalmente se supôs. Lula em seu primeiro governo e depois durante o governo de sua reeleição logrou produzir instâncias participativas e formas de inclusão cidadã no país – mas estas já ocorriam não mais sob o signo do “trabalho com forma”.

Nesse período, apesar da histórica formalização do emprego e da baixa recorde na taxa de desemprego (4,6% em dezembro de 2012), olhar somente para esses dados nos faz perceber erroneamente a questão. É preciso qualificá-los. Quase 95% dos novos empregos criados na primeira década do século XXI não ultrapassaram 1,5 salário-mínimo. Em 2014, quase a totalidade dos novos postos de trabalho estavam nessa faixa de renda. Nessa mesma década, a taxa de rotatividade do trabalho aumentou cerca de 10%, em especial entre aqueles que ganham menos. Em 2009, entre os trabalhadores que recebiam até 1,5 salário-mínimo, essa taxa foi de 86%, um aumento de 42% em comparação com 1999. Além disso, entre 1996 e 2010, aumentou a taxa de terceirização do trabalho em uma média de 14% ao ano. A maior parte desses empregos foi gerada no setor de serviços, especialmente aqueles mais precários. Também nesse período se observou o aumento de acidentes de trabalho e de formas de adoecimento derivadas da atividade laboral. Consolidou-se, assim, o processo de degradação do trabalho [4]. Assim, mesmo com o boom de criação de empregos, a classe trabalhadora vacilava entre o improvável acesso ao emprego formal estável e a inevitável viração cotidiana.

Este processo, desde então, não cessou de se aprofundar, afinal, diz respeito a uma dinâmica interna do próprio capitalismo. Em sua ânsia por mais acumular, o capital dissolve suas próprias formas de mediação social constituídas historicamente. Assim, o trabalho entra em um processo irreversível de erosão [5].

Seja como for, um de seus efeitos foi a dissolução da identidade política e de reconhecimento baseada no trabalho. Esta foi constituída muito solidamente ao longo do século XX, mas, mesmo assim, se desmanchou no ar. Como notou o Grupo de Militantes na Neblina, analogamente à estrutura social de um “trabalho sem forma” se produziu uma “luta de classe sem forma”.

A política foi convertida pelo Partido dos Trabalhadores em um instrumento de gestão. O projeto de cidadania, reduzido a acesso ao consumo, só foi possível financiado pela economia extrativa violenta e alavancado por capital fictício.

Vale lembrar que Paulo Arantes já havia decifrado está esfinge ainda em seu nascedouro. Enquanto muitos viam uma promessa de “refundação nacional” baseada no pacto lulista – expectativa compartilhada de setores da esquerda institucional com a revista liberal The Economist, e, por que não, com Barak Obama, entre outros – Paulo dava a letra: “Ao prometer consumo, prometem guerra civil”. Uma entrevista de junho de 2003 [6]. Vendo a coisa vinte anos depois, parece premonição, mas não é bola de cristal – e sim uma boa análise de conjuntura. Muitos achavam que era apenas um prazer sádico de jogar creolina no chantilly alheio, mas parece que o diagnóstico estava mais acertado do que se gostaria.

A degradação do trabalho com forma decorrente deste processo é, também, a degradação de uma política de transformação social – sobretudo enquanto esta insiste anacronicamente a se vincular a forma social caduca do trabalho. Chico já apontava a perda da musculatura de iniciativas sociais capazes de fazer frente ao movimento cego do capital. Os movimentos, sindicatos, partidos de esquerda agora eram co-gestores da crise, sócios minoritários da administração do colapso nacional – até começarem a falhar.

De lá para cá a situação brasileira degringolou ainda mais – chegou a um “fim de linha”. Em 2018 aconteceu a eleição de Jair Messias Bolsonaro e muitos foram pegos com a calça na mão. Como isso seria possível? Bom, a chave d’O ornitorrinco ajuda a destrancar, também, este calabouço, eu acho.

Paulo Arantes, num texto comentando exatamente a atualidade do ensaio de Chico, escreve:

"Nossa primeira tarefa para levar essa investigação a cabo começaria pela morfologia, pela anatomia dessa nova reencarnação do Ornitorrinco: onde está a patinha dele espalmada, onde está o bico de pato, onde está o rabo de pato, onde está o ferrão do macho, tudo aquilo que é descrito na epígrafe do Chico. Onde é que eles estão? Teremos assim uma fusão patológica ou teratológica de um bico militar, uma patinha miliciana, uma mama teocrática da qual escorre leite e os filhotes são alimentados, e um ventre dilatado que é o fisiologismo, chamado “centrão” – fisiologismo juntando com milícias, militares, teocracia e uma família reinante delinquente."

O que é esse monstro? Como ele foi gerado? Ora, ele foi gerado no ventre do Ornitorrinco: trata-se do Ornitorrinco 2.0, não há a menor dúvida. Chico diagnosticou isso. Ele só não imaginava que fosse possível que esse mecanismo de controle de populações pudesse sair do controle. Acontece que esse controle de populações é tão forte que ele se reconfigura. Por mais monstruosa que seja a configuração atual, ela é uma espécie de decalque demoníaco da forma anterior do Ornitorrinco.

Ao longo da pandemia de COVID-19, acompanhamos greves selvagens dos entregadores de aplicativo – essa expressão tão clara como o sol de meio-dia do chamado “trabalho sem forma”. Contudo, é importante notar, como faz o Grupo de Militantes na Neblina, que essas lutas nada acumulam.

Saídos da gestão de Bolsonaro, um governo petista parece um alívio. Quantos não se regozijam com os ares civilizados que agora sopram de Brasília? Isso, contudo, é uma ilusão. Não há solução a vista do ponto de vista social para essa catástrofe que não passe pela superação da forma social do valor que, mesmo decadente, se perpetua como critério superior da socialização. Nesse contexto, a massa de pessoas estropiadas, espoliadas, esfoladas continuará crescendo. Essa dinâmica continuará a erodir as bases das instituições desenvolvidas para e pela modernidade, dando lugar a uma dinâmica de circulação da violência. Ou seja, é bem provável que o processo social a que chamamos de bolsonarismo continuará a se aprofundar, independentemente do governo eleito. Os efeitos da crise continuarão a se acumular em uma pilha de destroços no horizonte. A dinâmica cega do capital continuará seu curso autodestrutivo, a dissolução do trabalho não será revertida simplesmente por atos de benevolência de quem veste a faixa presidencial no turno vigente.

Imaginar esse “Ornitorrinco 2.0” num governo “Lula 03”. Embora eu não tenha muitas ideias sobre isso, espero que este texto sirva para indicar a possibilidade desta chave de leitura ser ainda pertinente. As transformações do ornitorrinco apontam para o processo perene de erosão das formas sociais, algo que passa completamente fora da alçada de qualquer governo. Ainda mais quando um governo só pode prometer memórias de um passado recente – “make Brasil 2003 again”, como se o horizonte de expectativas ideal fosse retornar 20 anos. Contudo, já em 2003 as contradições de um país em fim de linha já estavam suficientemente expostas.

Notas:

[1]  São várias as apropriações do ensaio de Chico para pensar o Brasil de hoje. Para citar apenas algumas: Isadora Guerreiro, colunista deste site é uma das herdeiras deste pensamento. O importante texto Incêndio: trabalho e revolta no fim de linha brasileiro utiliza “O ornitorrinco” como um instrumento interpretativo para fenômenos recentes. Ludmila Costhek Abílio lê o fenômeno da uberização a partir da mesma chave. Cibele Rizek interpreta as mutações da vida urbana pensando a partir do “O ornitorrinco”. Paulo Arantes, recentemente, em uma homenagem ao pensamento de Chico de Oliveira, pensou a transformação do Ornitorrinco em uma outra coisa (um monstro; um ornitorrinco 2.0).

[2] Francisco de Oliveira, Crítica da Razão Dualista – O Ornitorrinco (Boitempo, 2003, p.136).

[3] Idem.

[4] Estas informações estão compiladas nos livros de Márcio Pochmann, O mito da classe média: capitalismo e estrutura social (Boitempo, 2014); Ricardo Antunes, O privilégio da servidão: o novo proletariado de serviços na era digital (Boitempo, 2018); Ruy Braga, A rebeldia do precariaddo: trabalho e neoliberalismo no Sul Global (Boitempo, 2017). Contudo, apesar da crítica à gestão petista, as interpretações destes autores parecem indicar uma certa expectativa com a restituição do lugar político de um “trabalho com forma”, algo que, eu diria, seria improvável – para não dizer impossível.

[5] Esta é a tese da corrente teórica “crítica do valor”. Em outros textos (neste site e em outros lugares), eu tento aprofundar nessa direção.

[6] Vale conferir a entrevista completa, disponível aqui: https://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u49895.shtml

Fonte: https://passapalavra.info/2023/08/149811/

Edição: Página 1917

domingo, 1 de outubro de 2023

Carta aos Dirigentes e Militantes do PCB*

    


    *Essa carta foi enviada ao Comitê Central do PCB em 18 de agosto de 2020, nela eu comunicava minha saída do CC e do partido, explicando as razões da decisão. O texto não foi divulgado pela direção, permanecendo assim desconhecido pela grande maioria dos militantes. Decorridos três anos, resolvi torná-la pública na íntegra, por acreditar que possa trazer alguma luz sobre o processo que desaguou na recente crise do PCB. 

    Naquela ocasião, conforme explico em detalhes na carta, a maioria do CC já tinha colocado na gaveta os pressupostos da política de Reconstrução Revolucionária instituídos no XIV e XV congressos assim como em resoluções anteriores do próprio CC. O descumprimento das diretivas emanadas pela instância máxima do partido era consequência natural do giro político à direita iniciado pela direção alguns anos antes, em 2016.

    O conluio entre reformistas e oportunistas consolidou essa maioria vigente até hoje no Comitê Central, composta de dirigentes acomodados e adaptados à institucionalidade burguesa. Sua política de direita, os seus métodos burocráticos e mandonistas estão na raiz da crise  atual. O desfecho para o PCB não poderia ter sido outro, que não essa verdadeira "crônica de uma morte anunciada".                 

                                                                Ney Nunes, 30/09/2023.

 

 

 

Carta aos Dirigentes e Militantes do PCB


    Por vezes o “otimismo da vontade” tem a capacidade de nos turvar a visão durante longo tempo. Hoje chego à conclusão que nos últimos quatro anos foi exatamente isso o que me aconteceu. Por mais que os fatos indicassem um claro giro em nossa linha política na direção oposta às resoluções aprovadas nos dois últimos Congressos do Partido, assim como o progressivo abandono dos pressupostos da estratégia de Reconstrução Revolucionária do PCB, demorei muito para enxergar o verdadeiro alcance dos posicionamentos e atitudes que foram se consolidando no interior do Comitê Central ao longo desse tempo, especialmente entre os membros da atual CPN. O desejo de ver aplicada a Reconstrução Revolucionária, com a consequente adoção de uma estrutura partidária leninista, a construção de um partido de quadros revolucionários efetivamente inserido na vanguarda da classe operária e que levasse à prática um programa anticapitalista, anti-imperialista e socialista, obstruiu a minha visão sobre a dinâmica do processo revisionista em curso no partido.

    A verdade é que a Reconstrução Revolucionária se transformou em letra morta. As “letras vivas” passaram a ser as concessões cada vez mais significativas ao pós-modernismo e ao seu filho dileto, o identitarismo. Passamos a promover os “coletivos” em vez de valorizar e impulsionar as células. Assim foi se deturpando o centralismo democrático que só pode existir a partir de células fortes e atuantes, caso contrário, torna-se uma via de mão única, vira centralismo burocrático. Essa estrutura adaptada à democracia burguesa mantém o partido no gueto da pequena-burguesia, sem condições, sem política e sem disposição (a despeito do esforço meritório de alguns militantes da UC e da UJC) para empreender qualquer tentativa mais séria de inserção efetiva junto ao proletariado.

    Não tardaria para que essa tendência de giro à direita se consolidasse com a adoção de táticas em completa contradição com a estratégia aprovada desde o XIV Congresso (1) e reafirmada no XV Congresso do Partido (2). Passamos a priorizar cada vez mais a institucionalidade burguesa, inclusive aprofundando a dependência do Fundo Partidário, contrariando as resoluções da Conferência de Organização de 2008 (3) e apesar dos diversos alertas posteriores à Conferência feitos por camaradas nas reuniões do CC.

    Nas eleições de 2016 e 2018 ficamos inteiramente a reboque da socialdemocracia, partindo de avaliações completamente fora da realidade de que com essa tática eleitoral teríamos chances de eleger algum parlamentar. O resultado foi que não elegemos ninguém e, como de costume, não houve um balanço autocrítico dos responsáveis na direção por esse completo fiasco. Os recursos materiais e de militância teriam sido melhores empregados numa campanha eleitoral centrada no objetivo de construir o partido no seio do proletariado e nas camadas populares, com a nossa política e nosso programa, afirmando a independência de classe. Ao contrário disso, ficamos reféns do PSOL e do discurso pós-moderno, deseducando a classe, acantonados nos guetos da pequena burguesia intelectualizada.

    Da correta posição de frente única contra os ataques aos direitos dos trabalhadores e às liberdades democráticas, que vinham sendo desferidos desde os governos Dilma e Temer, portanto, sob a tutela da democracia burguesa, passamos a respaldar o denominado “Estado Democrático de Direito” ao assinarmos notas conjuntas com partidos da ordem e da conciliação de classes (4), encobertas pela falsa justificativa da “unidade de ação contra o fascismo”. Desde quando, para os comunistas, se trata de “unidade de ação” o endosso à política de colaboração de classes e de respaldo as instituições da democracia burguesa? Unidade de ação se dá em torno de alguma luta específica, concreta, como por exemplo, uma mobilização contra qualquer medida antidemocrática ou de retirada de direitos levadas a cabo pelo governo burguês de turno, o Congresso ou o Poder Judiciário.

    A vitória eleitoral da extrema direita e o receio de um possível golpe fascista serviram de biombo para concluir a virada em nossa política. A tática praticada pela CPN e depois ratificada pelo CC para as próximas eleições consegue ser ainda mais rebaixada. Ao não lançarmos candidaturas majoritárias ficaremos a reboque do PSOL, além de jogarmos o PCB na vala comum dos partidos (PT, PC do B, PDT, PSB, etc.) que nos estados e municípios onde governam estão aprovando o ajuste fiscal, reforma da previdência e reprimindo os protestos do funcionalismo.

    No âmbito das relações internacionais o giro à direita foi incisivo, ocorreu o abandono da articulação privilegiada com o polo revolucionário do MCI, especialmente com o Partido Comunista da Grécia e o Partido Comunista do México. Pelo contrário, passamos a endossar documentos conjuntos (5) com partidos adeptos da política reformista, do oportunismo eleitoreiro e das alianças com suas respectivas burguesias. Estes são partidos revisionistas que de “comunistas” só conservam o nome no intuito de ludibriar os trabalhadores, ou se livram dele, quando lhes parece mais conveniente do ponto de vista eleitoral. Para completar o giro, passamos a ser coniventes com a ideologia do “socialismo de mercado chinês”, novo farol do revisionismo e da traição à luta revolucionária do proletariado, contra todas as evidências e dados concretos que indicam a completa restauração do capitalismo na China, transformada no paraíso de novos bilionários, como afirma o KKE desde 2010. (6)

    Por fim, a consolidação da hegemonia do grupo que orienta esse giro vem levando a uma degradação do método partidário, permitindo que acusações e rotulações levianas contra camaradas prosperem com o intuito evidente de desvirtuar e suprimir o debate interno. Não por coincidência, os mesmos termos usados pelos liquidacionistas de 1992 voltam agora a ser proferidos contra quem ousa questionar a atual linha hegemônica, sendo estes logo taxados de ultraesquerdistas, ortodoxos, sectários e coisas do tipo. Essa prática nefasta, típica dos que não confiam na coerência dos seus próprios argumentos, já causou graves prejuízos ao movimento comunista internacional.

    Tenho enorme respeito e admiração pelos comunistas revolucionários que, mesmo em franca minoria, permanecem militando no PCB. Com vocês aprendi bastante nesses dez anos de trabalho comum, foi para mim um orgulho conviver e militar ao lado dos camaradas desde quando ingressei no Partido em 2010. Faço votos de que, apesar do meu “pessimismo da razão”, tenham sucesso na luta para recolocar o Partido nos trilhos da Reconstrução Revolucionária. Da minha parte, saio do Partido por onde entrei: pela porta da frente. Nunca almejei nada além de ser um simples militante. Continuarei fazendo o que faço desde 1976, quando aos 18 anos de idade decidi lutar, dentro das minhas modestas capacidades, pela Revolução Socialista.

    O projeto fundado no Brasil em 25 de março de 1922 não tem dono, seu legado pertence ao proletariado brasileiro.

Ney Nunes    

Rio de Janeiro, 18 de agosto de 2020.

Notas:

(1) Resoluções XIV Congresso Nacional, pág. 22.

A definição da estratégia da revolução como socialista não significa ausência de mediações políticas na luta concreta, nem é incompatível com as demandas imediatas dos trabalhadores. No entanto, a estratégia socialista determina o caráter da luta imediata e subordina a tática à estratégia e não o inverso, como formulam equivocadamente algumas organizações políticas e sociais. Pelo contrário, os problemas que afligem a população, como baixos salários, moradia precária, pobreza, miséria e fome, mercantilização do ensino, do atendimento à saúde, a violência urbana, a discriminação de gênero e etnia, são manifestações funcionais a ordem capitalista e à sociedade baseada na exploração. A lógica da inclusão subalterna e da cidadania rebaixada acaba por contribuir para a sobrevida do capital e a continuidade da opressão.

O que hoje impede a satisfação das necessidades mais elementares da vida em nosso país não é a falta de desenvolvimento do capitalismo. Pelo contrário, nossas carências são produto direto da lógica de desenvolvimento capitalista adotado há décadas sob o mesmo pretexto, de que nossos problemas seriam resolvidos pelo desenvolvimento da economia capitalista. Hoje, a perpetuação e o agravamento dos problemas que nos afligem, depois de gerações de desenvolvimento capitalista, são a prova de que este argumento é falso.

Portanto, nossa estratégia socialista ilumina a nossa tática, torna mais claro quem são nossos inimigos e os nossos aliados, permite identificar a cada momento os interesses dos trabalhadores e os da burguesia e entender como as diferentes forças políticas concretas agem no cenário imediato das lutas políticas e sociais. Esse posicionamento também busca sepultar as ilusões reformistas, que normalmente levam desorientação ao proletariado, e educa-lo no sentido de que só as transformações socialistas serão capazes de resolver os seus problemas.

(2) Resoluções XV Congresso Nacional do PCB, pág. 37/38/40

41-Afirmamos que a Revolução Brasileira é uma Revolução Socialista, considerando que o Brasil é uma formação social capitalista desenvolvida e monopolista...

43-Portanto, as tarefas estratégicas colocadas ao conjunto dos trabalhadores e, em especial, a classe operária, núcleo estratégico e central do sujeito revolucionário, o proletariado, não podem se realizar nos limites de uma sociedade capitalista...

45-Toda a experiência histórica dos trabalhadores demonstrou que qualquer forma de pacto com a burguesia é uma miragem que confunde os trabalhadores, desorienta a luta de classes e apaga o horizonte socialista... Esses pactos não nos levarão a conquistas parciais que cumulativamente poderiam desembocar em uma sociedade justa e igualitária. Pelo contrário, fortalecerão ainda mais o capital e seu sistema de poder mundial. Toda experiência histórica e presente, nos comprova que o capital e a propriedade privada capitalista, ao se perpetuarem, concentram riquezas, acumulam desigualdades e geram periodicamente as crises que terão que ser pagas pelos trabalhadores para salvar o lucro dos grandes capitalistas.

50-O PCB reafirma que esta transformação histórica não se dará através de um projeto reformista, mas por uma ruptura radical, na qual desempenha papel central a questão do poder, ou seja, a destruição do poder e da dominação política burguesa e a construção de um novo Estado do proletariado da cidade e do campo, comprometido com a construção histórica da capacidade dos trabalhadores chegarem ao autogoverno e, portanto, a superação do Estado. Isto implica que nossa política de alianças deve se materializar no campo proletário popular. A aliança de classes capaz de formar o Bloco Revolucionário do Proletariado deve ser fundamentalmente estruturada entre os trabalhadores urbanos e rurais, os setores médios proletarizados e as massas de proletários precarizados que compõem a superpopulação relativa.

(3) PCB Política e Organização – Resoluções de Conferências Políticas, pág. 148.

144-O encaminhamento desta importante questão passa pelo seu enfrentamento do ponto de vista ideológico. A subestimação das finanças ordinárias do PCB tem como origem o tempo em que o partido vivia da solidariedade internacional e, nos anos 80, do reforço dos recursos obtidos por conta da política de aliança com setores da chamada burguesia nacional. Hoje em dia, outro fator tem contribuído para esta subestimação: os recursos oriundos da distribuição do Fundo Partidário.

145-Não podemos contar com nenhuma dessas fontes de arrecadação citadas: a solidariedade internacional hoje em dia não tem o componente de troca que teve no passado; nossa linha política de ruptura com o capitalismo não comporta ilusões com aliados burgueses. O Fundo Partidário pode deixar de existir a qualquer momento.

(4) https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=2495758870691360&id=1775994142667840

https://pt.org.br/rede-e-pcb-ampliam-para-sete-os-partidos-do-forum-da-oposicao/

(5) https://pcb.org.br/portal2/22960/encontro-dos-partidos-comunistas-da-america-do-sul/

http://www.comunistas-mexicanos.org/%E2%80%A6/2213-por-cuestion-de-?fbclid=IwAR1HmKE9C1408WnWiBj2uWSZ1glq3w7Nee2BMLhUxHYcbyPyaF3tqa6GVVU

(6) O Papel Internacional da China, Elisseos Vagenas, membro do CC do KKE, responsável pela seção internacional do CC, publicado na Revista Comunista 6ª edição 2010.

https://inter.kke.gr/en/articles/The-International-role-of-China/

Em conclusão, o domínio das relações capitalistas na China, hoje é um fato, lenta ou rapidamente, levará a uma maior conformidade do sistema político, da ideologia dominante e de todos os elementos da superestrutura cujo caráter capitalista se refletirá em seus símbolos. A intensificação das contradições de classe amadurecerá e também a necessidade de o movimento operário revolucionário ser representado por seu próprio partido contra o poder capitalista.”

Edição: Página 1917


sexta-feira, 29 de setembro de 2023

SYRIZA, No Ponto mais Baixo da Degeneração Política

Por Partido Comunista da Grécia - KKE

28/09/2023



No dia 24/09/23 ocorreu o segundo turno para a eleição do novo presidente do SYRIZA. Este partido foi a continuação da “Coligação de Esquerda, dos Movimentos e da Ecologia” (SYN) que foi constituída por uma seção de quadros do KKE que, corroídos pelo oportunismo, pelas ideias da contrarrevolução e de Gorbachev, abandonaram o KKE no período 1989-1991, depois de haver tentado dissolver o nosso Partido sem êxito. Esta seção colaborou dentro do SYN com outras forças oportunistas que já tinham deixado o KKE, em 1968, e pertenciam à chamada corrente “eurocomunista”.

O SYN evoluiu então em 2004 para a “Coligação da Esquerda Radical” (SYRIZA), com a participação de outros grupos da esquerda extraparlamentar, grupos trotskistas, maoistas e alguns socialdemocratas.

Depois de 2010 e do colapso do principal partido socialdemocrata, o PASOK, grande parte deste partido aderiu ao SYRIZA, tornando-o no principal veículo da socialdemocracia na Grécia. O SYRIZA venceu as eleições e formou um governo (2015-2019) aplicando uma dura política antipopular também nas relações internacionais, estreitando as relações da Grécia com os EUA e Israel, envolvendo ainda mais profundamente o país nos planos da OTAN, expandindo as bases dos EUA. Governou com o partido ultradireitista “Gregos Independentes” (ANEL) e após o desaparecimento político deste partido, uma parte dos quadros da ANEL integrou-se ao SYRIZA, que acrescentou ao seu nome as palavras “Aliança Progressista” (SYRIZA-PS).

Depois do colapso eleitoral nas últimas eleições de junho de 2023, o presidente do SYRIZA e ex-primeiro-ministro, Alexis Tsipras, demitiu-se e começou a corrida pela sua sucessão. Em 24 de Setembro, Stefanos Kasselakis foi eleito presidente do SYRIZA, obtendo 56,69% ​​dos votos em comparação com 43,31% do antigo Ministro do Trabalho do SYRIZA, Efi Achtsioglou.

Nestas eleições, em que podiam participar inclusive pessoas que até o primeiro turno não eram membros do SYRIZA, mas podiam aderir e votar pagando 2 euros, participaram 149 mil pessoas no primeiro turno (com 5 candidatos) e 134 mil no segundo.

Stefanos Kasselakis, que foi eleito presidente do SYRIZA, é residente não permanente da Grécia e há um mês era um desconhecido no país. Vivia nos EUA, é empresário e armador e segundo suas declarações trabalhou no banco Goldman Sachs e como voluntário na campanha eleitoral de Joe Biden. Ele realizou uma campanha dispendiosa e agressiva nos meios de comunicação social no mês passado, prometendo converter o SYRIZA num partido contemporâneo, como é, segundo sua opinião, o “Partido Democrata” dos EUA, para que o SYRIZA volte a governar. Concluiu-se assim mais uma fase do percurso predeterminado de integração e degeneração política deste partido que só provoca repugnância a quem se sente honestamente progressista e de esquerda.

O Secretário do Comitê Central do KKE, Dimitris Koutsoumbas, no seu discurso no Festival da Juventude Comunista da Grécia (KNE) destacou o seguinte:

Aqueles que querem que as coisas mudem de uma vez por todas não podem esperar nada da reconstrução da criminosa socialdemocracia.

Reflitam sobre a promoção aberta que fazem, nestes dias, todos os meios de comunicação do sistema, enquanto as posições e atividades do KKE estão completamente ausentes desses meios de comunicação, é indicativo do papel que vão desempenhar no dia seguinte.

Para aqueles que se sentem surpreendidos ou mesmo aborrecidos com relação aos acontecimentos no SYRIZA, simplesmente dizemos-lhes para pensarem num aspecto que talvez não tenham pensado:

Que, infelizmente, este é precisamente o resultado predestinado de todo um percurso de integração ao sistema que este partido político tem seguido.

Este curso de degeneração política nas posições, nas propostas, na postura política e no movimento, tem sido apoiado e promovido, durante muitos anos, em nome da suposta “modernização”, do “possível”, da “governabilidade dentro do sistema”, pelos atuais quadros do SYRIZA e por aqueles que hoje aparecem como supostamente defensores de um caráter mais “de esquerda”.

A situação atual no SYRIZA é a fase superior da lógica do “mal menor” que os seus líderes e, claro, todos os seus atuais candidatos têm servido durante anos, e trouxeram Mitsotakis e a ND ao poder mais uma vez.

É a lógica, inclusive desde a época do eurocomunismo, que apela aos povos para que reduzam constantemente as suas exigências, aceitem compromissos inaceitáveis, engulam decepções, em nome de uma melhor gestão - supostamente humana - do sistema atual, o que é mais improvável do que uma “Segunda Vinda”.

E onde essa lógica leva com grande precisão? À degeneração, à decadência, à política vulgar da imagem, à sua transformação num partido puramente burguês com os valores podres da competição...

Desta modo, desapareceram da face da terra os partidos eurocomunistas, como o Partido Comunista Francês, o Partido Comunista Italiano, entre outros, dos quais 30% já nem sequer estão representados nos parlamentos dos seus países.

E assim hoje chegamos a que seja majoritária neste partido uma agenda que copia ao pé da letra a agenda do ND, com as conhecidas referências à “excelência”, aos “bons currículos”, às “possibilidades de promoção”, etc.

Que mais provas necessitam os combatentes honestos, as pessoas verdadeiramente de esquerda, as pessoas progressistas não têm nada a esperar do SYRIZA ou de qualquer outra versão dele que surja no futuro?

Hoje eles têm uma alternativa: a que seguiram todos aqueles que antes deles não quiseram fazer parte deste curso de transformação negativa do SYRIZA, abandonaram-no, mantiveram elevados os seus valores e ideais e hoje unem forças com o KKE."

O Secretário Geral do Comité Central do KKE destacou noutra passagem do seu discurso:

“Enquanto houver quem chame de esperança as ideias mais sistêmicas e estéreis vindas do tubo de ensaio do outro lado do Atlântico e da criminosa socialdemocracia, estaremos sempre aqui lançando luz sobre a única esperança de progresso: a luta de classes inquebrantável contra o sistema e seu poder.

Fonte:https://inter.kke.gr/es/articles/SYRIZA-en-el-punto-mas-bajo-de-la-degeneracion-politica/

Edição: Página 1917







quarta-feira, 27 de setembro de 2023

Esquerda Socialista ou Esquerda Falida?

Ney Nunes

27/09/2023




Os integrantes desse amálgama reformista-identitarista autodenominado “esquerda socialista” estão imersos num debate sobre ser ou não ser oposição ao governo Lula. Na sua grande maioria, esses debatedores fazem parte ou apoiam de alguma forma o governo burguês da frente ampla Lula-Alckmin, algo que, por si só, já expressa o grau de degeneração a que chegaram esses ditos “socialistas”. Não surpreende que tenham ido tão longe, afinal, sua direção e o grosso da sua base social são compostas pela pequena-burguesia assalariada e proprietária, uma classe sem projeto próprio, historicamente subordinada aos interesses da burguesia e do imperialismo.

O debate é tão raso que se limita a questão de ser oposição ao governo de turno, passando ao largo do capitalismo, do Estado burguês e das suas instituições, onde efetivamente reside o poder da classe dominante. E não poderia ser de outra forma, porque o horizonte político estratégico dessa gente é a disputa eleitoral nos marcos da institucionalidade burguesa. Contentam-se em ocupar carguinhos na máquina governamental e no parlamento, para melhor desenvolver sua tática diversionista, centrada em questões que podem ser absorvidas pelo capitalismo e, em geral, bem distantes da luta de classes.

Para justificar seu apoio a um governo burguês, apoio explícito em alguns casos, disfarçado em outros, continuam a agitar o espantalho do fascismo, assim como fizeram durante a campanha eleitoral. Esquecem de duas questões elementares: primeiro: o fascismo obviamente não está morto, mas já foi tocado pelo setor burguês hegemônico para dentro do seu “cercadinho” (claro que vai ficar ali sendo bem alimentado e cuidado para uso em qualquer emergência), segundo: o governo Lula-Alkmin já disse ao que veio nesses nove meses, veio para gerir a barbárie. Sem falar nos treze anos e meio dos governos Lula e Dilma. Ou seja, usaram e continuam usando a ameaça fascista, que é permanente sob o capitalismo, para colaborar com a gestão do regime político burguês.

Faz tempo que essa esquerda socialista se recolheu no gueto pequeno-burguês. Abandonou qualquer perspectiva de construção orgânica no seio do proletariado e das massas populares visando sua preparação para situações pré-revolucionárias e revolucionárias que inevitavelmente vão eclodir devido à agudização das contradições capitalistas. Adepta de um etapismo permanente, está falida para a revolução.


Edição: Página 1917




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