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sexta-feira, 14 de abril de 2023

Sobre a chamada Plataforma Mundial Anti-imperialista e sua Posição Danosa e Desorientadora

Artigo da Seção de Relações Internacionais do CC do Partido Comunista da Grécia (KKE).




A eclosão da guerra imperialista na Ucrânia acirrou as contradições dentro do movimento comunista internacional em torno de graves questões político-ideológicas que o atormentam há anos e expressam a influência oportunista em suas fileiras. Naturalmente, o foco estava na postura em relação ao caráter imperialista da guerra que está sendo travada entre os EUA-OTAN-UE e a Rússia capitalista no território da Ucrânia, à postura em relação à burguesia e seus representantes políticos, como a social-democracia, às análises problemáticas do sistema imperialista e da posição da China e da Rússia, e outras questões, mais profundamente ligadas à questão da estratégia errônea de etapas rumo ao socialismo, de apoio e participação nos governos burgueses.

Nessas circunstâncias, às vésperas do 22º Encontro Internacional dos Partidos Comunistas e Operários (EIPCO), realizado em Havana em outubro passado, surgiu em Paris uma nova organização internacional denominada “Plataforma Mundial Anti-Imperialista” (PMAI), que já organizou uma série de atividades em Belgrado, Atenas e recentemente em Caracas, organizadas pelo governante Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV). O evento da PMAI na Venezuela coincidiu com o ataque antipopular lançado pelo governo social-democrata do PSUV à classe trabalhadora e às camadas populares da Venezuela, no momento em que chegou a acordos com a oposição de direita e os EUA, intensificando o ataques anticomunistas e ações subversivas contra o PC da Venezuela.

É importante observar quais as forças que a compõem, bem como as principais posições problemáticas da PMAI.

Um peculiar amálgama de forças políticas

Uma amálgama de forças políticas está envolvida nas atividades da PMAI, em que as forças social-democratas, como o já mencionado PSUV e uma organização sul-coreana (Partido Democracia do Povo) que surgiu do nada, desempenham o papel principal, juntamente com alguns Partidos comunistas e operários, como o Partido dos Trabalhadores Húngaros, o Partido Comunista (Itália), o Novo Partido Comunista da Iugoslávia, o Partido Comunista dos Trabalhadores Russos, o Partido Comunista Libanês, o maoísta Partido Comunista da Grã-Bretanha (ML), o Polo do Renascimento Comunista na França etc.

Além disso, como denunciou o Partido Comunista do México [1], até forças políticas nacionalistas, racistas e reacionárias participaram dos eventos em Caracas. Assim foi, por exemplo, a organização nacionalista espanhola “Vanguardia Española”, cujas raízes remontam ao filósofo nacionalista Gustavo Bueno, ativo combatente falangista e apoiador do ditador fascista Franco na década de 1950. A “Vanguardia Venezolana” (Vanguarda venezuelana) é de um tipo semelhante.

Da PMAI participam duas organizações desconhecidas da Grécia, carentes de ação de massas e base social: o “Coletivo de Luta pela Unificação Revolucionária da Humanidade” (D. Patelis) e a “Plataforma pela Independência” (V. Gonatas), que ultimamente foram marcados por uma intensificação dos sentimentos anti-KKE, muitas vezes escolhendo a ladeira escorregadia de ataques provocativos via Internet.

quarta-feira, 12 de abril de 2023

O início do governo Lula-Alckmin: a consolidação da ofensiva burguesa e a volta da política de cooptação

Coletivo Cem Flores

27/03/23

A ofensiva burguesa prossegue com o governo Lula/Alckmin


[...] Em toda a história do proletariado e das classes dominadas em sua luta contra a exploração capitalista, sempre houve grupos e forças políticas cujo objetivo é iludir os/as trabalhadores/as em luta, dificultar o avanço de sua organização e do enfrentamento contra os patrões. Fazem isso apostando na “conciliação” entre trabalhador/a e patrão, em fajutas soluções para o proletariado via eleições e instituições burguesas. Esses grupos, que fingem estar do lado do proletariado, na verdade atuam como verdadeiros representantes dos capitalistas em suas fileiras. Ajudam a manter o sistema de exploração capitalista, legitimam a democracia burguesa e as instituições do estado capitalista, atam o proletariado à burguesia e seus representantes políticos, enfim, emperram o caminho da nossa verdadeira emancipação.

Esses grupos reformistas e oportunistas são a verdadeira “esquerda” do capital. Bastante influentes nas camadas médias e na aristocracia operária, querem mesmo é a manutenção do capitalismo, com a miséria minimamente sob controle, assim como a luta dos/as trabalhadores/as (como se isso fosse possível no capitalismo!). De preferência com eles em cargos dirigentes e de liderança no estado capitalista, ou seja, com influência na política burguesa – e todas as mordomias que isso significa.

Desde sempre também os/as comunistas buscam independência de tal gente, assim como combatê-las e denunciá-las aos olhos das massas. No Manifesto Comunista, contra aqueles que buscavam “atenuar a luta de classes e conciliar os antagonismos”, Marx e Engels afirmavam: “nunca, em nenhum momento, esse partido se descuida de despertar nos operários uma consciência clara e nítida do violento antagonismo que existe entre a burguesia e o proletariado”. Lênin, no Estado e Revolução, denunciou abertamente os oportunistas que viam no estado capitalista um órgão de uma fajuta “conciliação de classes”. Acusou aqueles que se desligavam da massa e “se ‘arranjam’ bastante bem sob o capitalismo”, vendendo sua independência por cargos nesse estado.

Como expressão maior do reformismo e do oportunismo no Brasil, o petismo desde seu início defende a sujeição do proletariado à burguesia, com um projeto de desenvolvimento capitalista “inclusivo” e “democrático”, buscando a ocupação dos espaços no aparelho de estado burguês e alianças com a burguesia – mesmo sob certa verborragia “socialista” em seu surgimento. Na prática, se construiu ao longo dos anos, de sua atuação sindical nos anos 1980 à presidência da república, como um fator fundamental na desorganização e bloqueio da luta proletária no país, a partir da “conciliação” com os patrões e da “institucionalização” dos enfrentamentos, ou seja, na subordinação das massas aos interesses burgueses.

Nos governos do PT, o proletariado e as demais classes trabalhadoras não tiveram avanços em sua organização e instrumentos de luta. Pelo contrário. Como já afirmamos, tais governos cumpriram um papel “desorganizador dessas massas trabalhadoras, iludindo-as com a institucionalidade do estado burguês e rebaixando-as politicamente a meros apêndices do aparelho sindical pelego ou à passividade eleitoral e, assim, enfraquecendo-as para a luta de classes, desarmando-as de sua posição política própria e independente”.

O único fortalecimento que o petismo proporcionou foi o fortalecimento do pelego e de “lideranças”, que começaram a ganhar cargos que nunca antes ocuparam e a gerenciar volumes de dinheiro inéditos. Enquanto o petismo catapultava um Jair Meneguelli de sindicalista a milionário que negocia cavalos de luxo, juntava a burguesia e representantes de operários para discutirem o “futuro da nação”, em harmoniosas reuniões nos palácios de Brasília, a taxa de sindicalização caia de 20% para 16%; a exploração aumentava a passos largos e os salários reais dos operários das indústrias de origem do PT ficavam estagnados.

E quando a massa resolveu lutar fora dessas correias de transmissão, o PT demonstrou também seu lado abertamente repressivo: só ver as greves nas grandes construções (Jiaru, Santo Antônio, Belo Monte) e nos estádios da copa, nas alianças entre CUT e guarda nacional, ou na aliança Haddad-Alckmin para reprimir os manifestantes de SP em 2013, dez anos atrás.

O novo governo Lula-Alckmin, desde a transição governamental no final do ano passado, tem mostrado interesse e prioridade em dar continuidade a essa história nas condições concretas de hoje. Está reconstruindo no coração do estado capitalista toda a máquina de cooptação de movimentos sindicais e populares e suas lideranças, todo seu aparato de desmobilização e sabotagem da luta independente de classe.

Até por saber dessa possibilidade, diversos grupos e movimentos da “esquerda” do capital apoiaram sem críticas a chapa Lula-Alckmin e seu programa de consolidação e continuidade da recente ofensiva burguesa. Como o caso do PSOL, que fingiu inicialmente impor “compromissos programáticos” para seu apoio nas eleições – compromissos que não foram, nem nunca serão, praticados por Lula-Alckmin, sabidamente. Após a encenação, tal partido hoje compõe o governo, ocupando um ministério e indicando cargos, inclusive no ministério de Jader Barbalho Filho, até ontem “golpista” MDB.

Grupos de discussão e espaços consultivos, envolvendo “representantes” de trabalhadores/as e patrões foram usados amplamente nos governos petistas anteriores. E agora voltam a funcionar. O gabinete de transição, dirigido pelo “companheiro” Alckmin, contou com um tamanho impressionante: cerca de 5 mil participantes! O ministério do trabalho já está com grupos de trabalho junto às centrais sindicais pelegasUm conselho de “participação popular” já foi criado, e um novo “conselhão”, que reúne também diversos nomes da burguesia, está em construção.

A pelegagem defende tais espaços como “democráticos”, “participativos”, “de diálogo”. Mas na prática, trata-se de uma tática de enrolação e de cooptação do governo, feita para empregar essa pelegagem, desviar o foco das lutas e mobilizações para reuniões em Brasília e amarrar todos os movimentos à política de subordinação aos interesses da burguesia. No período em que esses espaços estavam em funcionamento, a organização das massas não avançou e nenhuma conquista tivemos nessas rodas de conversa e nos inúmeros relatórios gerados!

Esses mesmos pelegos e movimentos populares reformistas, também como nos governos anteriores do PT, estão ganhando cargos e tendo novas perspectivas de financiamento. Não à toa se mantêm como correia de transmissão desse governo, tutelados pela agenda governamental. Ex-presidentes da CUT ganharam seus assentos no ministério do trabalho, Marinho e Vagner, mas esse último já saiu para ganhar bem mais no Sesi… O MST, depois de muito chiar, tem conseguido mais cargos e controlará, por exemplo, uma pasta bilionária no ministério do desenvolvimento agrário e agricultura familiar.

Aos/Às trabalhadores/as é preciso ficar bastante claro que acreditar e se integrar à máquina estatal é concomitante o abandono da luta e da organização das massas exploradas. Ao se tornarem ainda mais agentes do governo e da ordem, essas “lideranças” pelegas agem diretamente para sabotar qualquer mobilização que choque os interesses da burguesia e seu governo. Um exemplo recente foi a desmarcação de uma paralisação dos entregadores por parte de lideranças que foram recebidas na mesa de enrolação do ministério do trabalho. Por sua vez, o ministro do desenvolvimento agrário do PT se reúne com empresa dona de terra, diz que a invasão do MST foi caso isolado e defende a desocupação da terra. Enquanto isso, fazendeiros, extrema-direita e PM expulsam violentamente militantes do MST na Bahia

Somando-se a essa política de cooptação de lideranças e movimentos, há também por parte do governo a distribuição de migalhas para bases eleitorais nas classes populares e camadas médias, cujo objetivo é evitar explosões de revoltas e manter índices de popularidade. Com o espaço fiscal garantido com a PEC do ano passado, o governo iniciou o ano com várias medidas “populares”, como aumento real do salário mínimoampliação do bolsa família e reajustes em bolsas de estudosDevemos sim exigir melhorias nos salários, nas bolsas e mais rendas emergenciais diante do imenso desemprego, sem, no entanto, entrarmos no jogo deste governo que, como vimos, é um governo dos patrões.



Todos esses eventos precisam ser analisados concretamente, longe dos discursos ilusionistas do governo e da “esquerda”. Devemos perguntar com Lênin“esta política representa as massas, serve as massas, isto é, a libertação das massas do capitalismo, ou representa os interesses de uma minoria, a sua conciliação com o capitalismo?”.

Ora, a política de “conciliação” e todos os mecanismos de cooptação, antes e agora, servem no fundamental para a continuidade da escravidão assalariada e da dominação burguesa. As migalhas e os espaços abertos nesse processo seguem uma determinada linha política oportunista, cujo objetivo é renovar a legitimidade e aperfeiçoar as instituições burguesas e sua capacidade de desmobilização das massas. Tal política pode até significar mudanças reais para uma minoria de “lideranças” pelegas, que ganham cargos e destaque, mas para as bases, as grandes massas, em nada altera a vida dura, as condições cada vez piores de trabalho.

Enfim, o objetivo de todos esses reformistas e desse novo governo não é fazer avançar a luta contra a burguesia e seu estado. Não são solução para nós! E quando essa luta de fato avançar, a postura supostamente democrática vai ser substituída pela repressão e pela violência, como já visto anos atrás.

Edição: Página 1917

Fonte:https://cemflores.org/2023/03/27/o-inicio-do-governo-lula-alckmin-a-consolidacao-da-ofensiva-burguesa-e-a-volta-da-politica-de-cooptacao/


segunda-feira, 10 de abril de 2023

As Divergências no Movimento Operário Europeu

Lenin

Dezembro, 1910

"Uma parte dos operários, uma parte dos seus representantes, deixam-se por vezes enganar por concessões aparentes. Os revisionistas proclamam que a doutrina da luta de classes está "ultrapassada" ou começam a levar a cabo uma política que na prática concretiza a renúncia a ela."

Lenin, combate sem tréguas ao reformismo.

As principais divergências no movimento operário contemporâneo da Europa e da América reduzem-se à luta contra as duas grandes tendências que se desviam do marxismo, que se tornou de fato a teoria dominante nesse movimento. Essas duas tendências são o revisionismo (oportunismo, reformismo) e o anarquismo (anarco-sindicalismo, anarco-socialismo). Ambos esses desvios da teoria marxista e da tática marxista, dominantes no movimento operário, se observam sob diferentes formas e com diferentes matizes em todos os países civilizados, ao longo de história de mais de meio século do movimento operário de massas.

Este simples fato torna já evidente que se não pode explicar esses desvios nem pelo acaso nem pelos erros de determinadas pessoas ou grupos, nem mesmo pela influência de particularidades ou tradições nacionais, etc. Deve haver causas essenciais, assentes no regime econômico e no caráter do desenvolvimento de todos os países capitalistas e que geram constantemente esses desvios. O pequeno livro do marxista holandês Anton Pannekoek, As Divergências Tácticas no Movimento Operário (Anton Pannekoek. Die Taktischen Differenzen in der Arbeiterbewegung. Hamburg, Erdmann Dubber, 1909), publicado no ano passado, constitui uma interessante tentativa de estudar cientificamente essas causas. Na exposição que se segue daremos a conhecer ao leitor as conclusões de Pannekoek, que se não pode deixar de reconhecer como inteiramente corretas.

Uma das causas mais profundas que geram as divergências periódicas a propósito da tática é o próprio fato do crescimento do movimento operário. Se não se medir este movimento pela medida de um qualquer ideal fantástico, encarando-o antes como um movimento prático de homens comuns, torna-se evidente que a incorporação constante de novos "recrutas", a participação de novas camadas da massa trabalhadora, têm inevitavelmente de ser acompanhadas por vacilações no domínio da teoria e da tática, por repetições de velhos erros, pelo regresso temporário a concepções caducas e a métodos caducos, etc. O movimento operário de cada país gasta periodicamente na "instrução" dos recrutas reservas mais ou menos importantes de energia, de atenção, de tempo.

Continuemos. A rapidez de desenvolvimento do capitalismo não é igual nos diferentes países e nos diferentes setores da economia nacional. É nas condições do máximo desenvolvimento da grande indústria que o marxismo é assimilado mais facilmente, mais rápida, completa e solidamente pela classe operária e pelos seus ideólogos. As relações econômicas atrasadas ou que se atrasam no seu desenvolvimento conduzem constantemente ao surgimento de partidários do movimento operário que assimilam apenas alguns aspectos do marxismo, apenas certas partes da nova concepção do mundo ou certas palavras de ordem e reivindicações, não sendo capazes de romper decididamente com todas as tradições da concepção do mundo burguesa em geral e da concepção do mundo democrática burguesa em particular.

Seguidamente, uma fonte constante de divergências é o caráter dialético do desenvolvimento social, que avança nas contradições e por meio das contradições. O capitalismo é progressivo porque suprime os velhos modos de produção e desenvolve as forças produtivas, e ao mesmo tempo, num determinado grau de desenvolvimento, entrava o crescimento das forças produtivas. Ele desenvolve, organiza, disciplina os operários — e esmaga-os, oprime-os, à degenerescência, à miséria, etc. O capitalismo cria ele próprio o seu coveiro, cria ele próprio os elementos do novo regime, e ao mesmo tempo, sem um "salto", esses elementos isolados não modificam em nada o estado de coisas geral, não afetam o domínio do capital. O marxismo, como teoria do materialismo dialético, consegue apreender essas contradições da vida viva, da história viva do capitalismo e do movimento operário. Mas é por si mesmo evidente que as massas aprendem na vida e não nos livros, e é por isso que determinadas pessoas ou grupos exageram continuamente, erigem numa teoria unilateral, num sistema unilateral de tática, ora um ora outro traço do desenvolvimento capitalista, ora uma ora outra "lição" deste desenvolvimento.

Os ideólogos burgueses, liberais e democratas, não compreendendo o marxismo, não compreendendo o movimento operário contemporâneo, saltam constantemente de um extremo impotente para outro. Ora explicam tudo pelo fato de que pessoas más "lançam" classe contra classe, ora se consolam a si próprios dizendo que o partido operário é "um partido pacífico de reformas". Devem considerar-se produto direto dessa concepção do mundo burguesa e da sua influência tanto o anarco-sindicalismo como o reformismo, que se agarram a um único aspecto do movimento operário, que erigem esse caráter unilateral em teoria, que declaram que se excluem mutuamente tendências ou traços deste movimento que constituem uma particularidade específica de um ou outro período, de umas ou outras condições da atividade da classe operária. Mas a vida real, a história real, contêm essas diferentes tendências, tal como a vida e o desenvolvimento na natureza contêm tanto a evolução lenta como os saltos rápidos, as soluções de continuidade.

Os revisionistas consideram como meras frases todas as considerações acerca dos "saltos" e do antagonismo essencial entre o movimento operário e toda a velha sociedade. Eles consideram as reformas como realização parcial do socialismo. O anarco-sindicalista rejeita o "pequeno trabalho", particularmente a utilização da tribuna parlamentar. Na realidade esta última tática reduz-se a esperar os "grandes dias", ao mesmo tempo que é incapaz de reunir as forças que criam os grandes acontecimentos. Tanto uns como outros entravam a tarefa mais importante, mais vital: a coesão dos operários em organizações grandes, fortes, que funcionem bem, que sejam capazes de funcionar bem em todas as condições, impregnadas do espírito da luta de classe, que tenham uma clara consciência dos seus objetivos, educadas na concepção do mundo verdadeiramente marxista.

Permitir-nos-emos aqui uma pequena digressão e assinalaremos entre parênteses, para evitar possíveis mal-entendidos, que Pannekoek ilustra a sua análise exclusivamente com exemplos retirados da história da Europa ocidental, principalmente da Alemanha e da França, não tendo de modo nenhum em vista a Rússia. Se parece por vezes que ele alude à Rússia, isso depende apenas do fato de que as tendências fundamentais que geram determinados desvios da tática marxista se manifestam também no nosso país, apesar das enormes diferenças culturais, de costumes e histórico-econômicas entre a Rússia e o Ocidente.

Por fim, uma causa extremamente importante que gera divergências entre os participantes no movimento operário são as mudanças de tática das classes governantes em geral e da burguesia em particular. Se a tática da burguesia fosse sempre uniforme, ou pelo menos sempre semelhante, a classe operária rapidamente aprenderia a responder-lhe com uma tática igualmente uniforme ou semelhante. Na realidade a burguesia em todos os países elabora inevitavelmente dois sistemas de governo, dois métodos de luta pelos seus interesses e pela salvaguarda da sua dominação, e estes dois métodos, ora se sucedem um ao outro ora se entrelaçam em combinações diversas. Trata-se em primeiro lugar do método da violência, do método da recusa de quaisquer concessões ao movimento operário, do método do apoio a todas as instituições velhas e caducas, do método da negação intransigente das reformas. Tal é a essência da política conservadora, que na Europa ocidental deixa cada vez mais de ser a política das classes detentoras da terra e se torna cada vez mais uma das variantes da política burguesa geral. O segundo método é o método do "liberalismo", das medidas no sentido do desenvolvimento dos direitos políticos, no sentido das reformas, das concessões, etc.

A burguesia não passa de um método para o outro por cálculo malévolo de determinadas pessoas nem por acaso, mas em consequência da contradição fundamental da sua própria situação. Uma sociedade capitalista normal não pode desenvolver-se com êxito sem um regime representativo consolidado, sem determinados direitos políticos da população, que não pode deixar de apresentar uma exigência relativamente elevada no aspecto "cultural". Essa exigência quanto a um certo mínimo de cultura é gerada pelas condições do próprio modo de produção capitalista, com a sua elevada técnica, complexidade, flexibilidade, mobilidade, rapidez do desenvolvimento da concorrência mundial, etc. As flutuações na tática da burguesia, as passagens do sistema da violência ao sistema de pretensas concessões, são em consequência disso, características da história de todos os países europeus no último meio século, desenvolvendo alguns países principalmente a utilização de um ou outro método durante determinados períodos. Por exemplo, a Inglaterra foi, nos anos 60 e 70 do século XIX, o país clássico da política burguesa "liberal", a Alemanha dos anos 70 e 80 ateve-se ao método da violência, etc.

Quando na Alemanha reinava este método, um efeito unilateral desse sistema de governo burguês foi o crescimento do anarco-sindicalismo ou, como se dizia então, do anarquismo no movimento operário (os "jovens" no início dos anos 90(n42), Johann Most  no princípio dos anos 80). Quando em 1890 se iniciou uma viragem para as "concessões", essa viragem revelou-se, como sempre, ainda mais perigosa para o movimento operário, gerando o efeito igualmente unilateral do "reformismo" burguês: o oportunismo no movimento operário. 

"O objetivo positivo, real, da política liberal da burguesia", diz Pannekoek, "é induzir em erro os operários, introduzir a cisão no seu seio, transformar a sua política num apêndice impotente de um pretenso reformismo impotente, sempre impotente e efêmero."

Frequentemente a burguesia alcança por um certo tempo o seu objetivo por meio da política "liberal", que constitui, segundo a justa observação de Pannekoek, uma política "mais sutil". Uma parte dos operários, uma parte dos seus representantes, deixam-se por vezes enganar por concessões aparentes. Os revisionistas proclamam que a doutrina da luta de classes está "ultrapassada" ou começam a levar a cabo uma política que na prática concretiza a renúncia a ela. Os ziguezagues da tática burguesa provocam o reforço do revisionismo no movimento operário e levam não poucas vezes as divergências no seu seio até à cisão aberta.

Todas as causas deste gênero provocam divergências relativamente à tática no interior do movimento operário, nos meios proletários. Mas não há nem poderia haver uma muralha da China entre o proletariado e as camadas da pequena burguesia, incluindo o campesinato, que lhe estão próximas. Compreende-se que a passagem de determinadas pessoas, grupos e camadas da pequena burguesia para o proletariado não pode deixar de gerar, por sua vez, vacilações na tática deste último.

A experiência do movimento operário de diferentes países ajuda a esclarecer, com base em questões concretas da prática, a essência da tática marxista, ajuda os países mais jovens a discernir mais claramente o verdadeiro significado de classe dos desvios do marxismo e a combater mais eficazmente esses desvios.

Notas: (N42) Jovens: grupo pequeno-burguês semianarquista na social-democracia alemã no princípio dos anos 90 do século XIX. O seu núcleo central era constituído por jovens literatos e estudantes (daí a sua designação), que aspiravam ao papel de teóricos e dirigentes do partido. Os "jovens" pronunciavam-se contra a utilização das possibilidades legais que se abriram à social-democracia depois da abolição, em 1890, da lei de exceção contra os socialistas. Em Outubro de 1891 o congresso de Erfurt da social-democracia alemã expulsou do partido uma parte dos dirigentes dos "jovens".

Edição: Página 1917

Fonte: https://www.marxists.org/portugues/lenin/1910/12/16.htm




sexta-feira, 7 de abril de 2023

Devanir José de Carvalho, Um Exemplo de Resistência e de Luta da Classe Operária

Thainá Siudá e Fernanda Toscano

Novembro de 2006

Mineiro, nascido no dia 15 de julho de 1943, na cidade de Muriaé, Devanir era filho de José Carvalho e Esther Campos de Carvalho e irmão de Derli, Daniel, Joel, Jairo e Helena. Na década de 1950, sua família, de origem camponesa, mudou-se para São Paulo, para a região do ABCD. Era a época do início da instalação das indústrias metalúrgicas e automobilísticas na região.Juntamente com seus irmãos Derli, Daniel e Joel, com quem aprendeu o ofício de torneiro mecânico desde a adolescência, trabalhou nas indústrias da região – Villares e Toyota, entre outras. Em 1963, casou-se com Pedrina, com quem teve dois filhos: Carlos Alberto José de Carvalho e Ernesto Devanir José de Carvalho.


Devanir, operário metalúrgico e militante da resistencia armada contra a ditadura.


A clandestinidade

Em 1963, logo que se empregou, uniu-se ao Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, militou por reformas de base e participou de greves, passeatas operárias e outras formas de mobilização. Nesse mesmo ano ingressou no Partido Comunista do Brasil, no qual militou até 1964. Depois do golpe militar, mudou-se para o Rio de Janeiro, devido às perseguições, e lá continuou sua militância na clandestinidade, trabalhando como motorista de táxi.

Em 1967, Devanir uniu-se à Ala Vermelha, dissidência do PCdoB. Em 1969, voltou para São Paulo e, depois de se desligar da Ala Vermelha, fundou o Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT).

O que foi a Ala Vermelha

A Ala Vermelha originou-se do Partido Comunista do Brasil (PCdoB). Este, por sua vez, é fruto de uma cisão no Partido Comunista Brasileiro (PCB), mas considera-se o verdadeiro continuador do partido fundado em 1922. A ruptura deu-se a partir da crítica ao pacifismo do PCB, que se definira por mudar o sistema pela via institucional.

Com o golpe de Estado de 1964, o PCdo B reafirma a Guerra Popular como caminho da luta revolucionária no Brasil, diferenciando-se do pacifismo do PCB e também da via da guerrilha urbana adotada pelas novas dissidências do PCB, a exemplo de Aliança Libertadora Nacional (ALN).
A Conferência do PCdoB realizada em 1967 provocou divisões internas, entre as quais se situa a do grupo de militantes oriundos, em sua maioria, do movimento estudantil, e em menor escala de setores operários do ABCD paulista e de integrantes das Ligas Camponesas. Este grupo fundou uma nova organização chamada Ala Vermelha.

A Ala Vermelha fez a crítica do PCdo B, fundamentalmente, em três aspectos:

1) – Análise da realidade brasileira, caracterizada como semifeudal, que exigiria uma etapademocrático-nacional. A Ala tendia a afirmar o caráter capitalista da economia brasileira;
2) – relegação, a segundo plano, da preparação da guerra popular. A Ala se propunha a“organizar um partido de novo tipo em função da luta armada”;
3) – autoritarismo dos dirigentes do PCdoB na condução dos debates relativos àsdivergências internas.

Embora reafirmando a estratégia maoísta da Guerra Popular Prolongada, com o cerco das cidades pelo campo, a Ala Vermelha considerava a necessidade de implantação imediata de um foco guerrilheiro rural como embrião do futuro Exército Popular e a formação de grupos armados na área urbana, para ações de apoio ao campo.

Partiu para a ação e foi o primeiro grupo a realizar ações armadas no Brasil, durante a ditadura militar, já no ano de 1968. Essas ações eram dirigidas pelo Grupo Especial Nacional (GEN), do qual participava Devanir Carvalho.

Uma intensa repressão desencadeada em 69 levou a Direção Nacional a conduzir uma profunda reflexão interna, a qual levou às conclusões contidas num documento de 16 pontos. A autocrítica considerava que a organização vinha tendo uma prática militarista e reorientava a linha política para a realização de trabalho de massa, especialmente no meio operário e nos bairros populares.

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