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sexta-feira, 10 de junho de 2022

A Face Oculta de Volodymyr Zelensky

A Face Oculta de Volodymyr Zelensky

Nota do editor: 

     Nesse artigo de Guy Mettan* é detalhada a verdadeira face do governo Zelensky que transformou a Ucrânia numa marionete da OTAN, arrastando o seu povo para uma carnificina. Está à vista de todos que a guerra na Ucrânia envolve interesses em conflito no interior do sistema imperialista, nela o proletariado Russo e Ucraniano nada têm a ganhar. Sublinhamos que a Rússia de Putin é uma potência capitalista, atua política e militarmente no sentido de proteger e ampliar o domínio dos seus monopólios naquela região. Os dois lados nessa guerra são inimigos do proletariado e da paz, estão a serviço das suas burguesias e da disputa interimperialista. 

Guy Mettan 

“Herói da Liberdade”, “Hero of our time”, “Der Unbeugsame (O indomável)”, “The Unlikely Ukrainian Hero Who Defied Putin and United the World”, “Zelensky, l’Ukraine dans le sang”: os jornalistas e os líderes ocidentais já não sabem que mais superlativos utilizar para cantar louvores ao presidente ucraniano, tão fascinados estão pela “surpreendente resiliência” do ator milagrosamente transformado em “cabo de guerra” e “salvador da democracia”. 

                                                                    Ilustração, Yann Caradec

Há três meses que o chefe de Estado ucraniano vem a encher as primeiras páginas das revistas, a abrir os noticiários, a inaugurar o Festival de Cinema de Cannes, a discursar nos parlamentos, a felicitar e repreender os seus colegas chefes de Estado dez vezes mais poderosos que ele e com uma sorte e um sentido tático que nenhum ator de cinema ou líder político antes dele tinham conhecido. 

Como não cair no encanto deste improvável Mr. Bean que, depois de ter conquistado o público com as suas caretas e as suas extravagâncias (por exemplo, a andar nu numa loja e a imitar um pianista a brincar com o seu pênis), soube numa só noite trocar as suas ousadas travessuras e trocadilhos por uma camiseta verde-acinzentada, uma barba de uma semana e palavras sérias para galvanizar as suas tropas cercadas pelo malvado urso russo? 

Desde 24 de fevereiro, Volodymyr Zelensky deu, sem dúvida, a prova de que é um artista da política internacional com um grande talento. Aqueles que acompanharam a sua carreira de comediante não ficaram surpresos porque conheciam o seu sentido inato de improvisação, as suas faculdades miméticas, a sua audácia de atuação. A forma como conduziu a campanha e em poucas semanas, entre 31 de dezembro de 2018 e 21 de abril de 2019, arrasou duros adversários como o ex-presidente Poroshenko, ao mobilizar a sua equipe de produção e os seus generosos oligarcas doadores, já havia demonstrado a amplitude dos seus talentos. Mas faltava ainda transformar esse teste. O que agora está feito. 

Talento para o jogo duplo 

No entanto, como muitas vezes acontece, a fachada raramente se assemelha aos bastidores. Os holofotes escondem mais do que mostram. E aí, fica claro que o quadro é menos cor-de-rosa: tanto as suas realizações como chefe de Estado como a sua atuação como defensor da democracia deixam seriamente a desejar. 

Esse talento para o jogo duplo, Zelensky mostrou-o assim que foi eleito. Recorde-se que foi eleito com um resultado máximo de 73,2% dos votos, prometendo acabar com a corrupção, conduzir a Ucrânia no caminho do progresso e da civilização e, sobretudo, fazer a paz com os russófonos do Donbass. Assim que foi eleito, traiu todas as suas promessas com um zelo tão intempestivo que o seu índice de popularidade caiu para 23% em janeiro de 2022, ao ponto de ser superado pelos seus dois principais adversários. 

A partir de maio de 2019, para satisfazer os oligarcas seus patrocinadores, o recém-eleito lançou um programa massivo de privatização de terras incidindo sobre 40 milhões de hectares de boas terras agrícolas sob o pretexto de que a moratória sobre a venda dessas terras teria feito perder bilhões de dólares ao PIB do país. Dando continuidade aos programas de “descomunização” e “desrussificação” iniciados desde o golpe pró-americano de fevereiro de 2014, lançou uma vasta operação de privatização dos bens estatais, de austeridade orçamental, de desregulamentação das leis do trabalho e de desmantelamento dos sindicatos, o que exasperou a maioria dos ucranianos que não compreendiam o que seu candidato queria dizer com “progresso”, “ocidentalização” e “normalização” da economia ucraniana. Num país que em 2020 tinha um rendimento per capita de 3.726 US $ contra 10.126 US $ do adversário russo, quando em 1991 o rendimento médio da Ucrânia superava o da Rússia, a comparação não é lisonjeira. E entende-se que os ucranianos não tenham aplaudido essa enésima reforma neoliberal. 

Quanto ao caminho para a civilização, tomou forma com outro decreto que, em 19 de maio de 2021, garantiu o domínio da língua ucraniana e excluiu o russo em todas as áreas da vida pública, administrações, escolas e empresas, com grande satisfação dos nacionalistas e a estupefação dos russófonos no sudeste do país. 

sábado, 4 de junho de 2022

Os 10 Homens Mais Ricos do Mundo Têm a Mesma Riqueza que 3,1 Bilhões de Pessoas

Igor Barradas

 

Capitalismo: concentração de renda e aumento da miséria

INTERNACIONAL – De acordo com a Organização Não Governamental Oxfam, os ricos ficam cada vez mais ricos e os pobres ainda mais pobres. O relatório “Lucrando com a dor”, divulgado este mês, mostra que 573 novos bilionários surgiram desde o início da pandemia, 40 deles vindos da indústria farmacêutica.

Enquanto essa oligarquia leva uma vida luxuosa, 99% da população mundial perde renda, vive em situações desumanas de fome, miséria, dor e falta de habitação.

De fato, nos últimos dois anos, a renda dos bilionários cresceu 42%, enquanto os 40% mais pobres perderam 6,7% dos seus ganhos.

O estudo também revela que várias empresas lucraram com a morte das pessoas na pandemia. A rede de supermercados WalMart, as empresas petrolíferas Shell, Total Energies, BP, Exxon e Chevron, as de tecnologia Apple, Microsoft, Tesla, Amazon e Alphabet e as farmacêuticas Pfizer e Moderna foram algumas que aumentaram suas riquezas enquanto milhões de seres humanos morreram por falta de vacina e condições dignas de vida.

Capitalismo é lucro para poucos e pobreza para muitos

Nenhum desses bilionários trabalhou duro para conseguir suas fortunas. Ao contrário, eles acumulam riqueza por meio da exploração da mais-valia dos operários e do saque dos recursos naturais dos países pobres. Ou seja, são ricos porque roubam o excedente de valor que os trabalhadores criam e exploram povos e nações dependentes. Essa fonte de lucro é o que os transforma em verdadeiros parasitas da sociedade.

No outro extremo, 263 milhões de pessoas estão em situação de pobreza crônica. A desigualdade social produzida pelo capitalismo é tão profunda, que uma pessoa que está entre os 50% mais pobres demoraria cerca de 112 anos para ter o que um integrante dos 1% mais ricos recebe em apenas um ano.

Esses números revelam que a burguesia é a maior inimiga da Humanidade e mantém seu domínio à custa de guerras, repressão e violência. Mas o capitalismo não é eterno. Os trabalhadores, os povos explorados e a juventude podem – e devem – acabar com essa farra dos super-ricos e demolir este sistema decadente, derrotar os bilionários e construir uma nova sociedade, o socialismo, primeira etapa para um mundo sem ricos nem pobres, o comunismo.

 

Edição: Página 1917

Fonte: https://averdade.org.br/2022/05/estudo-revela-que-os-10-homens-mais-ricos-do-mundo-tem-a-mesma-riqueza-que-31-bilhoes-de-pessoas/

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O Centrismo como Embrião do Revisionismo Moderno

Francisco Martins Rodrigues


Lenin durante o congresso de fundação da Terceira Internacional Comunista


     São muito comuns teses que afirmam que a viragem para o revisionismo na União Soviética começou somente no XX Congresso do PCUS, em 1956, ou que esse mesmo processo, na China, teria tido seu início na disputa de poder após a morte de Mao, em 1976. Para essas teses — e para as organizações que as defendem — tudo se passaria como se, subitamente, a política justa se tivesse tornado o seu oposto. Recusamos essas teses como dogmáticas, simplistas e antidialécticas, pretensamente marxistas, subjetivistas ou idealistas; é preciso ir buscar as origens do revisionismo moderno no período anterior a esses dois marcos. Para isso, devemos concentrar-nos em detalhe na história do movimento comunista internacional, as teses que se passou a defender, a prática dos partidos comunistas, bem como as bases sociais, classistas, da viragem de política no movimento comunista internacional.

     O centrismo teria, portanto, tomado corpo de forma plena, tanto teórica quanto como linha política dos partidos comunistas, a partir do 7º Congresso da Internacional Comunista, em 1935, com a adoção das teses contidas no relatório apresentado pelo secretário-geral do Comitê Executivo da IC, George Dimitrov. Esse relatório e suas teses não foram, obviamente, apenas frutos das convicções pessoais de Dimitrov. Não se poderia, de forma alguma, explicar a repercussão que teve, com a adoção praticamente universal de suas teses pelo movimento comunista, sem analisar as bases materiais de suas posições, a conjuntura do período.

     O 7º Congresso da IC é realizado, em 1935, já com o nazismo no poder na Alemanha e com partidos fascistas registando importante crescimento em diversos países, situação diferente da do Congresso anterior, de 1928, no qual fora aprovada a política de “classe contra classe”. Em 1935 não somente a perspectiva de auge revolucionário parecia haver desaparecido, como a depressão capitalista, a ascensão do nazifascismo e a iminência da guerra colocavam o movimento operário na defensiva. Só continuava igual, ou mesmo se ampliara, a reação encarniçada da burguesia mundial contra a União Soviética e o socialismo.

     Esses fatos, de enorme importância para as condições concretas da luta de classes, evidentemente exigiam da IC uma retificação na sua tática. Modificação essa que aglutinasse ao redor do proletariado o maior número possível de forças contra o fascismo, sem abandonar, entretanto, as teses fundamentais de que a ditadura fascista é uma ditadura burguesa, de que o caminho para abolir essas ditaduras é a revolução e de que esse processo revolucionário deve ser encabeçado pelo proletariado e seu partido. A luta contra o fascismo não poderia deixar de ser uma luta revolucionária.

     Economicamente, aquela conjuntura foi marcada pela crise de 1929. Crise que é fruto das contradições do sistema capitalista que se acumularam nas décadas anteriores, então vistas como de estabilização do sistema. O que devemos reter é que esse período, no entanto, possibilitou a ascensão de uma importante camada pequeno-burguesa nos países imperialistas, bem como o reforço de uma aristocracia operária. Nos países dominados, houve o fortalecimento de uma burguesia nacional. Em todos esses casos, classes ou camadas sociais com interesses próprios e diferenciados em relação aos do proletariado. Esses setores constituíram as bases sociais do oportunismo, que passou a ter crescente importância na atuação e na formulação dos partidos comunistas.

      A defensiva do movimento operário, o fortalecimento da base social do oportunismo penetrando a fundo em vários partidos comunistas e a incapacidade de continuar desenvolvendo a teoria marxista às novas condições concretas, esse conjunto de fatores permitiu uma crítica pela direita à linha anterior da IC, qualificada como sectarismo, aventureirismo e esquerdismo.

      A esses elementos, no entanto, precisa ser acrescentado outro, o de “uma nova luta de classes” na União Soviética, com o surgimento de uma nova “burguesia”, composta pela camada de quadros técnicos, científicos, intelectuais, que assumia, de maneira crescente, a direção das empresas estatais e dos organismos de Estado soviéticos. Precisamente no período em que Stalin e a direção do PCUS declaravam eliminadas as antigas classes proprietárias e, com isso, “abolidos os conflitos de classe”. Os rumos do socialismo na União Soviética passaram, de forma crescente, a ser tratados como questão meramente economicista, de desenvolvimento das forças produtivas, de gestão, reduzindo o peso das questões políticas e da luta de classes. Essa postura desarma ideologicamente o partido, afasta-o das massas e deixa-o vulnerável a posições oportunistas.

     Ou seja, o centrismo é uma inflexão na linha política seguida pelo movimento comunista internacional, uma inflexão para longe do leninismo. Inflexão causada pelo predomínio de uma política oportunista derivada da influência de posições pequeno-burguesas nos partidos comunistas e da ofensiva da burguesia e do capital sobre a classe operária.

     A política do centrismo caracterizou-se pelas seguintes teses principais, que definem a “estrutura política” do relatório de Dimitrov:

  • “Primeira, a unidade de ação com a social-democracia, a pretexto de que esta estaria a deslocar-se num sentido revolucionário.
  • Segunda, o apoio político do proletariado à pequena burguesia, a fim de ‘elevar sua consciência revolucionária’.
  • Terceira, a identidade de interesses da nação perante o fascismo.
  • Quarta, os governos de coligação com a burguesia democrática como alternativa ao fascismo.
  • Quinta, por último, a criação do ‘partido operário único’ pela fusão entre o PC e o PSD“.

     Em todos esses aspectos foram deixados espaços, para um (ou vários) passo(s) atrás em relação às formulações leninistas e às anteriores resoluções da IC. Note-se que a nova conjuntura exigia da IC uma reformulação da sua tática. No entanto, não escapa a nenhum de nós, hoje, que várias dessas teses tornaram-se estratégias dos partidos revisionistas, em formulações mais atrasadas, nas quais não há mais qualquer menção revolucionária e o fascismo foi substituído por um inimigo mais fluído, como “as elites”, ou parcial/fragmentário, como “os banqueiros” (”contra os juros altos e em defesa da produção” ) ou os latifundiários “improdutivos”.

     A mais importante das linhas de corte entre as posições leninistas e o reformismo e o revisionismo, a mais geral, é a que opõe o conceito leninista de hegemonia do proletariado às posições oportunistas, seguidistas da burguesia. Hegemonia do proletariado absolutamente indispensável, pois “preparar a revolução, dissera Lenin, “é em última análise levar o proletariado a diferenciar-se como classe face a todos os partidos burgueses”, assegurando a “independência política do proletariado”.

     Em nada diferente do “princípio estabelecido por Marx e Engels no ‘Manifesto Inaugural da Internacional’, de que a emancipação da classe operária deve ser obra da própria classe operária.

     Contra essa política leninista, revolucionária, opõe-se a adesão à política de frentes nacionais (ou democráticas), nas quais a hegemonia do proletariado não mais está presente, e cujos aspectos centrais passam a ser a sua direção pela social-democracia ou pela burguesia (especialmente nos países dominados) e a conciliação com objetivos comuns às classes envolvidas, descartando os objetivos próprios do proletariado. Esquece-se da lição de Lenin sobre a necessidade de uma “distinção muito nítida entre os interesses das classes oprimidas, dos trabalhadores, dos explorados, e a ideia geral dos interesses populares em geral, que não passa de uma expressão dos interesses das classes dominantes”.

     Ou, dito de outra forma, esquece-se que a ideologia geral numa sociedade de classes é a ideologia de sua classe dominante. [...]

 

Edição: Página 1917

Fonte: https://anabarradas.com/category/centrismo/page/6/

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quarta-feira, 25 de maio de 2022

Guerra na Ucrânia

Preparação de Conflitos  Interimperialistas Ainda Maiores!

2ª Nota política conjunta do Cem Flores e do Bandeira Vermelha

O proletariado é a maior vítima da guerra imperialista


25 de maio de 2022.

Os coletivos Bandeira Vermelha e Cem Flores publicamos, em 18 de fevereiro de 2022, alguns dias antes da invasão russa à Ucrânia, uma nota conjunta afirmando que:

  1. A Ucrânia havia se tornado “o principal palco da disputa entre União Europeia (UE), EUA e Rússia na disputa por ampliação (EUA e UE) ou manutenção (Rússia) de zonas de influência para seus interesses imperialistas.”
  2. Que as tensões na região demonstram “agravamento das contradições em função da persistente e crescente crise do capitalismo a nível mundial, o que torna cada vez mais urgente a procura de novos espaços onde as economias imperialistas em crise se possam expandir e tentar ultrapassar a crise iniciada em 2007/08 com a conquista de novos mercados e novas fontes de energia. O que também implica o estabelecimento de novas alianças políticas, econômicas e militares.
  3. Que aos Estados Unidos interessava estimular o confronto na Ucrânia, contrapondo a Rússia à União Europeia pois enfraquecia “dois poderosos concorrentes, deixando-o sozinho frente à China”, além de que “veria exponencialmente aumentado o grau de dependência dos países europeus face ao imperialismo norte-americano.”
  4. Que “a ameaça de guerra na Ucrânia, de forma indireta, também põe em cena o conflito crescente entre as duas principais potências imperialistas de hoje: os EUA e a China. Esta última tem dado sinais mais fortes de apoio à Rússia, em clara mensagem aos EUA. (…) Os EUA têm reforçado suas alianças que buscam frear a expansão chinesa, ao mesmo tempo que impulsionam a escalada de uma guerra no leste europeu.”
  5. E a nota conjunta finalizava destacando que não havia resistência proletária a esse avanço da guerra imperialista “porque o campo comunista e anti-imperialista está muito enfraquecido e desorientado, não tem um núcleo coerente e firme e está eivado de todo o tipo de posições reformistas, conciliatórias e interclassistas que o paralisam quase que por completo. Contra este desastroso estado de coisas, tornam-se cada vez mais urgentes as tarefas de reconstruir partidos comunistas em todos os países e reerguer uma nova corrente internacional que deite fora todo esse lixo centrista e avance na posição revolucionária, a partir de sólidas ligações com as massas proletárias e trabalhadoras e suas vidas e lutas.”

Concluído o terceiro mês dessa nova fase da guerra na Ucrânia, novo desdobramento do conflito iniciado em 2014, podemos afirmar que os pontos e as tendências principais destacados nessa nota conjunta estavam e continuam corretos. Esses desdobramentos confirmam nosso entendimento de que o conflito reforça as tendências para uma nova ordem mundial, hegemonizada pela contradição interimperialista entre EUA, potência em declínio relativo, e China, potência ascendente. Nessa nova ordem imperialista, União Europeia e Rússia deverão ser remetidas (não sem contradições e disputas) à condição de potências regionais subordinadas aos interesses e esferas de influência das duas grandes potências imperialistas. Além disso, as duas principais potências imperialistas travam uma acirrada disputa para consolidar suas alianças regionais (EUA com Quad, Aukus e a nova Estrutura Econômica Indo-Pacífica; China principalmente com a nova Rota da Seda e inúmeras outras iniciativas regionais) e incorporar países em disputa.

Mesmo com todo o controle dos órgãos de informação, tentando apresentar um lado ou outro dessa contenda como “defensores da democracia e da liberdade” (sic!) ou como “resistentes nacionalistas ou combatentes antinazistas” (sic!), mostrando claramente a quem servem esses monopólios da mídia, o que ficou claro aos que querem ver é que se trata, fundamentalmente, de uma guerra por razões econômicas e geopolíticas, de interesses imperialistas, por espaços de expansão ou manutenção da reprodução dos monopólios, uma guerra como extensão da luta política e da concorrência entre blocos e países imperialistas.

Nesses três meses de conflito aberto, gastos militares astronômicos e devastação, vimos os EUA e a OTAN aprofundarem sua influência e seu controle sobre o bloco europeu, utilizando-o para prolongar ao máximo a guerra na Ucrânia, com gigantesco apoio militar ao governo fantoche de Zelensky, em seu interesse de isolar politicamente e enfraquecer econômica e militarmente a Rússia. Mesmo às custas da destruição completa da vida de milhões de ucranianos além da infraestrutura do país.

O conjunto das violentas sanções econômicas anunciadas pelos EUA e seus aliados contra a Rússia indica claramente os interesses em jogo. No entanto, a implementação efetiva bem mais limitada dessas sanções demonstra as intrincadas relações econômico-financeiras entre Rússia e Europa (principalmente), além de também expressar o menor peso dos EUA na economia mundial. Vários países no mundo adotam diversos subterfúgios para evadir as sanções ou propõem calendários extremamente largos para sua implementação, dados os elevados prejuízos que o corte das relações comerciais com a Rússia acarretaria, principalmente em virtude da dependência energética do gás e petróleo russos. Outros, nomeadamente a esmagadora maioria dos países africanos, asiáticos e latino-americanos, resistem a tomar partido nesse confronto.

Do outro lado, a Rússia avança militarmente no controle do leste industrial da Ucrânia e de todo o sul do país, no litoral do Mar Negro. A afirmar-se esse quadro militar atual, a Rússia terá dominado a região industrial do país e toda a saída para o mar, inviabilizando uma posterior recuperação econômica da Ucrânia, o que porá em grave risco a segurança alimentar de muitos países que dependem da importação do trigo ucraniano. Mas se há algo que nem os EUA/OTAN/UE, a Rússia ou a China e o próprio governo de Zelensky estão preocupados é com a Ucrânia e menos ainda com seu povo trabalhador e todos os outros países que sofrem e sofrerão ainda mais no futuro as consequências da guerra. Suas únicas preocupações são com os lucros e os negócios dos capitais que representam.

Como desdobramento desse quadro, Rússia e China aprofundam seus elos políticos, econômicos e militares e reforçam-se como aliança imperialista a fazer frente aos EUA e a UE. Arrastam consigo um significativo número de países, principalmente por conta das relações econômicas chinesas espalhadas pelo mundo todo e pela força de atração que exerce essa gigantesca economia imperialista junto aos capitais em todo os países.

Todos os fatos apontam no sentido do agravamento de todas as contradições na conjuntura mundial e a tendência à expansão dos conflitos militares imperialistas.

Como também afirmamos em nossa nota anterior, reforçado pelos fatos atuais, “mais uma vez, as palavras de Lênin permanecem verdadeiras: o imperialismo, a fase monopolista do capitalismo, tem como tendências irrefreáveis a violência e a guerra. A violenta concorrência entre os capitais, acirrada na fase monopolista, tem como um de seus desdobramentos necessários a disputa entre estados capitalistas, entre as potências imperialistas e seu poderio bélico cada vez maior, por suas zonas de influência ao redor do mundo.”

Essa guerra, resultado do avanço das contradições interimperialistas, ampliadas desde a crise de 2007/2008, aprofunda ainda mais o estado depressivo da economia mundial (ao mesmo tempo que o reforça a curto e médio prazo), que nem sequer havia conseguido superar os efeitos da pandemia da Covid em 2020/2021. Essa crise prolongada vem reconfigurando a divisão internacional do trabalho, com a China apresentando-se cada dia mais como a potência imperialista em ascensão, disputando com os EUA, que vê sua hegemonia enfraquecer.

Como efeitos da crise da Covid, das quebras nas cadeias internacionais de produção e distribuição e da guerra da Ucrânia, a inflação dispara em todos os países do mundo, atingindo principalmente alimentos, combustíveis e energia, aprofundando ainda mais os efeitos da crise sobre os/as trabalhadores/as de todo o mundo. Para garantir os bilhões de dólares para a máquina de guerra, os Estados capitalistas cortam ainda mais os já combalidos programas sociais, reduzem salários e retiram conquistas trabalhistas, aprofundando a exploração dos/as trabalhadores/as nos seus países, preparando-se para os embates econômicos/militares na nova situação internacional. Em resumo, a crise e a guerra imperialista impulsionam os monopólios capitalistas dos países a tentarem retomar suas taxas de lucro e trazem a morte, a fome, a miséria e o aumento da exploração na vida dos trabalhadores e das trabalhadoras.

Além disso, o imperialismo em crise, as disputas interimperialistas e o avanço da exploração capitalista resgatam a ideologia fascista no mundo todo. Assim como na véspera da 2ª Guerra Mundial, organizações nazistas e fascistas ressurgem em vários países buscando apresentar-se como alternativa política de gestão do estado a favor dos capitais por serem eficazes na luta contra seus concorrentes capitalistas e, principalmente, no controle, dominação e repressão aos milhões de trabalhadores/as empurrados/as para a barbárie e que, objetivamente, resistem e resistirão.

Nesse quadro, como fazem muitos grupos da mal denominada “esquerda”, acreditar que o governo de Zelensky, abrigo de nazistas e títere dos EUA/OTAN/UE, possa representar uma resistência popular ucraniana contra a invasão russa é um completo descolamento da realidade. Alguns grupos chegam a apoiar as milícias ucranianas ligadas ao governo como representando essa “resistência popular ucraniana”, chegando ao ponto de defender o envio de armas, ao invés da necessidade de uma organização independente da classe trabalhadora ucraniana para autodefesa contra a Rússia, mas também contra a OTAN, contra os nazistas e fascistas, contra o exército ucraniano que tortura no meio da rua civis ucranianos acusados de ser pró-Rússia, e para organização de forças-tarefa que ajudem os trabalhadores a resistirem.

Igualmente delira aquela parte da “esquerda” que defende estar em curso na Ucrânia uma guerra de libertação/resistência nacional, posto que o atual regime ucraniano não expressa a vontade de uma hipotética burguesia nacional em se autodeterminar contra potências imperiais – pelo contrário, a posição ucraniana é de se colocar sob o domínio imperialista de EUA/UE/OTAN. Para esse objetivo final são sacrificados cotidianamente os interesses do povo ucraniano com sucessivas recusas de negociações.

Igualmente descolados da realidade estão aquelas posições que avaliam que as forças de ocupação dos capitalistas russos na Ucrânia representam um movimento antinazista ou uma alternativa anti-imperialista e popular de resistência ao avanço do imperialismo americano e europeu. Estes iludidos defendem o apoio ao mais débil imperialismo russo contra o mais poderoso, o americano, argumentando que seria vantajoso para os povos e as classes trabalhadoras a vitória do imperialismo mais fraco sobre o mais forte – abandonando inteiramente o princípio da independência do proletariado.

Essas posições só expressam o reboquismo, a passividade e a falência da perspectiva revolucionária em grande parte das organizações de “esquerda”, que abandonaram a perspectiva de organizar a resistência proletária e passam a acreditar em um ou outro lado imperialista em disputa como “solução” para a crise em nosso campo. Mais, significa igualmente a sua “domesticação” e adesão à ordem burguesa e imperialista, desistindo de trabalhar para dar corpo a um campo anti-imperialista e anticapitalista em conflito aberto com as suas próprias burguesias. Assim, essa “esquerda” contribui para a hegemonia do reformismo e cumpre seu papel de prejudicar as forças revolucionárias que procuram agrupar-se numa luta anti-imperialista contra os dois campos.

Os comunistas devem sempre fazer “a análise concreta da realidade concreta” e defender em todas as circunstâncias os interesses do proletariado. Nenhum dos lados nessa guerra, conflito de conteúdo econômico e geopolítico, a partir de interesses imperialistas em disputa, representa a posição dos/as trabalhadores/as, serve à nossa causa, contribui para nossos objetivos. Nosso caminho passa por afastar do horizonte essas falsas soluções e resgatar a necessidade de organizar e construir a luta do proletariado a partir de seus verdadeiros interesses. Esses interesses hoje passam, necessariamente, por organizar nossa força para acabar com o capitalismo, fonte de todas as mazelas que vivemos e afastar do horizonte essas posições reformistas, pequeno-burguesas, vacilantes que tentam nos impedir de ver claramente nossos inimigos de classe.

O avanço das contradições interimperialistas e o possível crescimento da resistência proletária no mundo podem abrir uma oportunidade aos/às comunistas para, se souberem inserir-se na luta e na vida das massas operárias e trabalhadoras, e afastarem as ilusões pequeno-burguesas, institucionais e eleitoreiras, a ilusão com as falsas opções que o inimigo nos dá, apresentarem novamente a única solução ao imperialismo em crise: a sua destruição completa e a construção do socialismo rumo ao comunismo. A Revolução Russa após a 1ª Guerra Mundial, a vitória sobre o nazismo e a Revolução Chinesa após a 2ª Guerra Mundial são exemplos da oportunidade que a conjuntura do imperialismo em crise pode abrir ao proletariado de todo mundo. Já vencemos antes e podemos, aprendendo com nossos erros e superando os limites concretos na construção do socialismo, vencer novamente e definitivamente a barbárie capitalista e suas guerras.

Contra a guerra! Fim da agressão russa à Ucrânia!

Não ao envio de armas para o regime ucraniano!

Abaixo os EUA, a UE e a OTAN!

Sem ilusões com nossos inimigos de classe! 

Retomar a perspectiva revolucionária e colocá-la no posto de comando de nossas ações!

 

Cem Flores

Bandeira Vermelha


Edição: Página 1917

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