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sexta-feira, 25 de março de 2022

O Partido de 1922

Ney Nunes
25/03/2022    

Em 25 de março de 1922 nascia o “Partido Comunista do Brasil, seção brasileira da III Internacional Comunista”, o PCB. Ao longo da sua trajetória encontramos muitos exemplos de abnegação e luta dos seus militantes, assim como de acertos e equívocos na sua linha política.

o partido de1922
O jornal do partido em1928.

     O partido de 1922, comunista, internacionalista, proletário e revolucionário, nasceu inspirado pela primeira revolução socialista vitoriosa no mundo: a Revolução de 1917 na Rússia.

     Hoje, efetivamente, o heroico partido de 1922 não mais existe. Retrocedeu juntamente com a revolução que lhe serviu de inspiração. Mas o seu legado está presente em todos aqueles que não se submetem aos ditames do capital e lutam para colocar um fim ao sistema de exploração do homem pelo homem.

     Decorridos cem anos da fundação do PCB, as contradições e misérias do capitalismo em nosso país e no mundo agravaram-se, demonstrando que sua tarefa ainda está inconclusa. Por isso mesmo, nosso objetivo primordial não pode deixar de ser, a partir das lutas do proletariado contra os exploradores, reconstruí-lo! 

Edição: Página 1917





quarta-feira, 23 de março de 2022

RESOLUÇÃO DO COMITÊ CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DA GRÉCIA (KKE) SOBRE A GUERRA IMPERIALISTA NA UCRÂNIA

Em 09/03/2022.

 


1. O KKE, desde o primeiro momento, condenou a invasão russa na Ucrânia e manifestou a sua solidariedade com o povo da Ucrânia. 

O povo ucraniano paga há pelo menos uma década pelos antagonismos e intervenções sobre a partilha de mercados e esferas de influência entre os EUA, a OTAN e a UE, e a estratégia de "alargamento euro-atlântico", por um lado, e por outro, a estratégia da Federação Russa capitalista para seus próprios planos de exploração contra os povos, a fim de fortalecer suas próprias coalizões imperialistas (União Econômica Eurasiática, Organização do Tratado de Segurança Coletiva) na região da ex-URSS. 

A intervenção militar da Rússia, de fato, marca o início formal de uma guerra preparada pelo material combustível acumulado ao longo do tempo. No seu cerne está a distribuição de riqueza mineral, energia, terra e trabalho, oleodutos e redes de transporte de mercadorias, pilares geopolíticos, quotas de mercado. 

Durante anos, os EUA, a OTAN e a UE vêm tramando e promovendo o cerco econômico, político e militar da Rússia, intervindo, transferindo forças militares poderosas e estabelecendo bases de morte, atirando lenha na fogueira. 

Desde a dissolução do Pacto de Varsóvia, a OTAN não apenas não foi desmantelada ou reduzida, mas também se expandiu, incorporando outros países do Leste Europeu e ex-repúblicas soviéticas em suas fileiras. Está montando forças militares modernas, bases e armas em vários pontos no entorno da Rússia. Durante anos, houve planos de guerra e exercícios militares no Mar do Norte, Europa Oriental, Mar Negro e Mar Báltico visando a Rússia.

Esses últimos eventos são o episódio mais recente de um longo impasse sobre a Ucrânia. Também implica fortes rivalidades dentro da burguesia ucraniana, formada após a derrubada do socialismo, sobre se o país deve aderir a uma aliança imperialista ou outra. No contexto deste confronto, por um lado, os EUA, a OTAN e a UE apoiaram e organizaram juntamente com parte da burguesia ucraniana a "Revolução Laranja" de 2004 e o golpe sangrento de 2014, utilizando e apoiando as forças de extrema direita com o objetivo de estabelecer um regime que lhes fosse favorável. Por outro lado, a Rússia passou a tomar da Ucrânia partes de seu território, anexando a Crimeia e fortalecendo os separatistas de língua russa nas regiões de Donbas para seus próprios interesses.

segunda-feira, 21 de março de 2022

Os povos da Ex-URSS

Miguel Urbano Rodrigues¹

 

A URSS e suas múltiplas nacionalidades

O desaparecimento da União Soviética foi uma tragédia para a Humanidade. Foi acelerada pela traição de Gorbatchov e pela guerra não declarada do imperialismo norte-americano, mas numerosos outros fatores contribuíram para ela. Para a tentarmos entender, e também a para tentarmos entender a Rússia contemporânea é imprescindível, nomeadamente, um conhecimento mínimo da história dos povos que habitam o seu gigantesco território.

Não há precedente histórico para o Estado multinacional que foi criado na União Soviética após a Revolução Russa de Outubro de 1917.

Finda a guerra civil, povos de 126 nacionalidades conviveram durante muitas décadas, quase sempre pacificamente, no vastíssimo espaço euroasiático soviético. Esses povos falavam 180 idiomas diferentes, de quatro famílias linguísticas.

Como foi possível?

As tentativas de explicação desse desafio à lógica da História são muitas e contraditórias.

O gigantismo do país foi o desfecho de circunstâncias históricas que não eram previsíveis quando em Kiev, na Ucrânia, surgiu no século IX o principado de Rus, berço do futuro estado, criado – segundo a maioria dos historiadores - pelos varegos, escandinavos que ali chegaram descendo grandes rios.

A Rússia medieval teve como referência cultural e religiosa Bizâncio, a Roma do Oriente. Mas permaneceu um país atrasado no qual pequenos principados raramente se uniam para enfrentar os invasores estrangeiros. Estes vinham do oriente, nómadas asiáticos, e do ocidente, sobretudo a avançada para leste de povos germânicos.

No século XIII, os mongóis de Batu Khan destruíram a s principais cidades, de Moscou a Kiev, numa orgia de barbárie. Esse povo de nómadas chegou para ficar.

Durante quase três séculos, os Kanatos dos príncipes gengiskanidas dominaram grande parte da Rússia, impondo pesados tributos às populações.

Não se fundiram com os russos. Na Ásia os mongóis e turcos da conquista diluíram-se, descaracterizaram-se no contato com grandes civilizações. Na China sinizaram-se; na Pérsia tornaram-se muçulmanos. Na Rússia atrasada, a cultura e a religião ortodoxa não os atraíram; abraçaram o Islã.

Foi somente no século XVI que o czar Ivan IV, ao tomar Kazan, pôs fim ao senhorio da Horda de Ouro mongol.

Mas a herança genética dos invasores asiáticos foi profunda. Milhões de russos descendem de um prolongado processo de mestiçagem. Os avós paternos do próprio Lenin eram calmucos, um povo turco mongol.

Sem acesso ao Báltico e ao Mar Negro, acossada a Ocidente pela Ordem Teutónica, por polacos e lituanos, e mais tarde pelos suecos, a sul pela Turquia, a Rússia iniciou a sua expansão para leste.

A imensidão siberiana era um território praticamente despovoado. Na época em que os russos avançaram para além dos Urais, o total de habitantes da Sibéria, segundo os demógrafos, rondaria os 300 000. A maioria, de origem turca, nomadizava. Eram tribos remanescentes das grandes invasões que na Alta Idade Média tinham avançado para a Europa, sobretudo a partir do Altai.

Os pioneiros russos, deslocando-se a pé, a cavalo, de barco ou de trenó consoante a estação, atingiram rapidamente o Ártico e em 1640 fundavam Irkutsk, e uma década depois a galopada conquistadora desembocava no Pacifico.

Mas o imperialismo russo somente assumiu contornos de política de estado um século depois, com Pedro I, cognominado o Grande. É no reinado desse czar que a Rússia expulsa os suecos de Riga e do golfo da Finlândia, onde funda São Petersburgo. As guerras com a Turquia abrem-lhe simultaneamente o acesso ao Mar de Azov e ao Mar Negro. A Ucrânia, que estava quase toda sob ocupação polaca, é incorporada na Rússia.

A partir de meados do século XVIII, na época da czarina Catarina, a política imperial altera- se profundamente.

Que o Inferno lhe Seja Pesado

Urariano Mota*

Faleceu o Cabo Anselmo em 15 de março de 2022.

Cabo Anselmo, a ignomínia a serviço da burguesia.

Pelo telefone, o escritor e jornalista André Cintra me comunicou a notícia há 5 minutos. Eu estava fazendo a sesta, mas dei um salto da cama. E estou até agora sem saber por onde comece o obituário de José Anselmo dos Santos.

As notícias, com a sua natural objetividade, que nesse caso querem dizer, com todo natural desconhecimento da história, falam que José Anselmo dos Santos morreu na noite dessa terça-feira aos 80 anos, em Jundiaí (SP). E que ele foi “agente duplo durante o regime militar”. Viram? Chamam de “regime militar” a ditadura e o terror de Estado no Brasil.

Mas vamos ver se Deus nos ajuda a tentar alguma justiça para esse criminoso.

Se retirarmos a infâmia da sua pele, tarefa difícil ou impossível, a primeira característica do Cabo Anselmo é que era um bom mentiroso. Primeiro, mentia sobre o seu nome: ele era Daniel, como se apresentava no Recife, ou Jadiel ou Jônata? Isso era o mínimo. Onde ele se excedia com artes de representação não só em palavras, era na frieza e cinismo com que se referia a seu maior crime: a entrega da companheira grávida, Soledad Barrett, à repressão. Em mais de uma entrevista, diante de repórteres comprometidos com a direita ou pela ignorância histórica, ele se referia à grande guerreira com a finura de uma serpente.

Na sua entrevista à Band, anotei que Fernando Mitre, ao mencionar Soledad, o Cabo Anselmo respondeu, com as duas mãos levantadas, como quem se defende, como quem faz lembrar um trato, que ameaçou ser rompido: “Opa!”. E Mitre, de volta: “Depois o senhor fala sobre ela”. E ele, “ah, claro”. E o que se viu depois foi  nada, ou quase nada.

No Roda Viva, em um dos momentos de calculado cinismo, Anselmo se refere a Soledad Barrett.

Falou o entrevistador: “O senhor contesta que ela estivesse grávida, como a versão histórica…?”

Cabo Anselmo: “Se eu acreditar, como dizem os médicos, que o DIU era o mais seguro dos preservativos, eu contesto, sim”.

E o entrevistador levantou a bola para Anselmo: “Então o feto encontrado lá não era dela?”

Cabo Anselmo respondeu: “Eu imagino que seria da Pauline. A Pauline estava grávida, inclusive teve problema de gravidez, e Soledad a levou até o médico”.

Infâmia fria sem contestação.

Mas conheçam a palavra de Nadejda Marques, filha única de Jarbas Marques, um dos seis militantes socialistas mortos no Recife, junto a Soledad. Hoje, Nadejda Marques é doutora em Direitos Humanos e Desenvolvimento:

“A minha avó Rosália, mãe de Jarbas Marques, conseguiu entrar no necrotério. Ela, entre os vários trabalhos que tinha, era também enfermeira. Ela conhecia a pessoa de Soledad. Minha avó sempre contava o que viu no fatídico janeiro de 1973. Meu pai, com marcas de tortura pelo corpo tinha marcas de estrangulamento no pescoço e água nos pulmões compatíveis com o resultado da tortura por afogamento. Os tiros no peito e na cabeça foram dados após sua morte. O corpo de Soledad, ensanguentado ainda, tinha restos de placenta e um feto dentro de um balde improvisado.”

Soledad Barret

E definitivas são as palavras na denúncia da advogada Mércia Albuquerque:

“Soledad estava com os olhos muito abertos, com uma expressão muito grande de terror. Eu fiquei horrorizada. Como Soledad estava em pé, com os braços ao lado do corpo, eu tirei a minha anágua e coloquei no pescoço dela. O que mais me impressionou foi o sangue coagulado em grande quantidade. Eu tenho a impressão de que ela foi morta e ficou deitada, e a trouxeram depois, e o sangue, quando coagulou, ficou preso nas pernas, porque era uma quantidade grande. O feto estava lá nos pés dela. Não posso saber como foi parar ali, ou se foi ali mesmo no necrotério que ele caiu, que ele nasceu, naquele horror.”

Na morte do Cabo Anselmo, enfim, Soledad Barrett foi e continua a ser o centro, a pessoa que grita, o ponto de apoio de Arquimedes para os crimes dele. Ela aponta para José Anselmo dos Santos e lhe sentencia, aonde ele for: “Até o fim dos teus dias estás condenado, canalha”.

Que o inferno lhe seja pesado, enfim. Por toda a eternidade.

* Urariano Mota, escritor e jornalista, autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973.

Edição: Página 1917

Fonte: https://vermelho.org.br/2022/03/16/cabo-anselmo-no-seu-obituario-por-urariano-mota/

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