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sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

Lenin (22/04/1870 - 21/01/1924)

"A burguesia liberal, dando reformas com uma das mãos, retira-as sempre com a outra, as reduz a nada, utiliza-as para subjugar os operários, para os dividir em diversos grupos, para perpetuar a escravidão assalariada dos trabalhadores. Por isso o reformismo, mesmo quando é inteiramente sincero, transforma-se de fato num instrumento de corrupção burguesa e enfraquecimento dos operários."

Lenin






Lenin, coletânea de imagens.

Vladimir Ilyich Ulianov, Lenin ou Lenine (Simbirsk, 22 de abril de 1870 – Gorki, 21 de janeiro de 1924). ...

 

sábado, 15 de janeiro de 2022

A raiz das Grandes Mobilizações Está nos Enormes Problemas do Povo Provocados pela Restauração Capitalista

Entrevista sobre eventos no Cazaquistão com Eliseos Vagenas, membro do Comitê Central do Partido Comunista da Grécia (KKE) e diretor da Secretaria de Relações Internacionais do KKE.

 

Eliseos Vagenas, dirigente do KKE.

As recentes mobilizações massivas no Cazaquistão provocaram confrontos violentos e a intervenção das forças militares para reprimi-los. O presidente do país, Tokayev, falou de uma intervenção estrangeira de 20 mil homens armados, seguida da intervenção militar dos países da Organização do Tratado de Segurança Coletiva (OTSC). A questão que se coloca é se essas mobilizações têm origem em eventos internos, ou se trata realmente de uma intervenção estrangeira, como aconteceu no caso da Ucrânia há alguns anos?

A raiz das grandes mobilizações populares que ocorreram no Cazaquistão está nos enormes problemas sociais e econômicos que a restauração do capitalismo causou ao povo deste país.

Milhões de pessoas vivem de salários e pensões de fome, milhões estão desempregados, forçados a se mudar dentro do país ou para a Rússia para ganhar a vida. Milhões de jovens, em uma sociedade onde a média de idade é baixa, se desesperam ao ver que seu futuro é sombrio.

Ao mesmo tempo, por outro lado, a opulência dos capitalistas é evidente, a riqueza energética é roubada por capitalistas locais e monopólios estrangeiros como a Chevron americana. Globalmente, os monopólios americanos, britânicos e europeus controlam 75% do setor mineiro da indústria, que é o mais importante deste país. A riqueza energética também vai para a UE, Rússia e China, que são os principais importadores da riqueza energética do país.

As enormes disparidades sociais levaram a ferozes lutas operárias. Como as autoridades reagiram? Há dez anos, na cidade de Zanahozen, as forças de segurança do regime assassinaram dezenas de trabalhadores em greve, ao que se seguiu uma intensificação da repressão, incluindo no processo a proibição do Partido Comunista do Cazaquistão, até hoje se recusam a legalizar o Movimento Socialista do Cazaquistão e foram proibidos mais de 600 sindicatos, aprovando novas leis sindicais para controlar completamente o movimento sindical, além disso,  se pois em marcha um esforço para apoiar as forças nacionalistas, incluindo a justificação de colaboradores nazistas locais, o chamado "Turkmen SS Legion", que atuou durante a Segunda Guerra Mundial.

As políticas econômicas e sociais impopulares são a causa das atuais mobilizações, nas quais o aumento do preço do GLP tem atuado como “a gota que transborda o vaso”. Este fato, no entanto, não contradiz em nada o fato de que um conflito interimperialista está em andamento na região e que esses eventos tentarão ser explorados pelos diferentes lados.

Vamos nos deter por um momento nas mobilizações populares. Elas não adotaram a mesma forma em todos os lugares. Em algumas áreas houve manifestações de greve massivas, em outras houve lutas de rua, em outras houve saques e vandalismo. Como isso se explica e, em última análise, quais são as reivindicações dessas mobilizações populares?

Nas regiões oeste e central do Cazaquistão, importantes lutas e greves ocorreram nos últimos dois anos. A iniciativa foi tomada pelos sindicatos informais de trabalhadores, os comitês de greve, os comitês de fábrica, pois, como disse, as autoridades aprovaram a lei sindical que proíbe a atividade e o funcionamento dos sindicatos que não sejam diretamente controlados pelo Estado e empregadores. Assim, especialmente na região do Cazaquistão Ocidental, havia uma experiência considerável de organização e luta. Foi a partir daí, centrado na cidade de Zanahozen, que começaram as novas mobilizações no início do ano, o fechamento de ruas, nesse processo prevaleceram as assembleias massivas de trabalhadores, que deram origem a mobilizações grevistas e manifestações de protesto. Nessas áreas, os próprios trabalhadores ficaram encarregados da segurança, com o apoio maciço de suas famílias. Nestes locais, a polícia e o exército inicialmente se recusaram a reprimir as mobilizações dos trabalhadores, enquanto as autoridades locais, em muitos casos, se renderam. Ali se manifestou a superioridade da luta dos trabalhadores organizados, que por meio das assembleias levou à promoção de reivindicações econômicas, que no processo avançaram para demandas políticas e se apresentaram por toda parte: exigiam-se maiores salários, redução da idade de aposentadoria, a redução dos preços da energia, a demissão de Nazarbayev e Tokayev, a livre formação de sindicatos e partidos políticos. Nas cidades do oeste do Cazaquistão, os grevistas formaram Conselhos e Comitês de Coordenação, que desempenharam um papel de liderança das mobilizações. Foi nessas áreas que se organizou a retirada das forças mobilizadas na noite de 8 de janeiro.

Em outros casos, onde o movimento não foi tão organizado, travaram-se ferozes batalhas de rua armadas, como no caso da antiga capital, Alma-Ata. Consideremos o seguinte: Hoje, trinta anos após a derrubada do socialismo, nas periferias das grandes cidades, como na antiga capital, vemos o surgimento de grandes favelas, semelhantes às da América Latina. Milhares de pessoas, aldeias inteiras, migraram para lá em busca de trabalho. Essas pessoas empobrecidas, que saíram às ruas indignadas com os altos preços e baixo padrão de vida, foram facilmente armadas pelas primeiras “ondas” de policiais e militares, que, após os primeiros confrontos, entregaram suas armas. Eles tomaram outras instalações da polícia e do exército e inclusive lojas de venda de armas e assim se armaram. Vários grupos provocadores também atuaram, saqueando, vandalizando prédios, etc. e estes fatos foram explorados pelo regime e grandes unidades militares foram mobilizadas para reprimir os movimentos trabalhistas e populares.

O fato de terem sido encontrados dois corpos de policiais e dois militares decapitados é apresentado pelo regime como prova de intervenção estrangeira. Não é certo?

Nas fileiras do chamado "Estado Islâmico", que atuava no Iraque e na Síria como parte dos planos imperialistas, também havia algumas dezenas de cazaques. Ninguém descarta seu retorno ao Cazaquistão após a intervenção militar russa na Síria e a derrota do "Estado Islâmico" naquele país. Tampouco se pode descartar a atividade desses grupos ou outros, que podem ser utilizados em diversos eventos e ter origens e planos distintos, como infiltração nos serviços de inteligência locais e organização de grupos de provocadores. No entanto, não foram essas forças que iniciaram essa mobilização popular, que se transformou em um levante de massas, enquanto a qualificação de "terroristas", "radicais" e "extremistas" que as autoridades cazaques jogam contra quem saiu as ruas contra a política que resulta no seu empobrecimento é, na verdade, um pretexto para desencadear a repressão.

Você mencionou como esses eventos foram usados. Vimos no passado as chamadas "revoluções coloridas", por exemplo na Ucrânia ou a chamada "primavera árabe". Existem semelhanças e quem pode aproveitar esses desenvolvimentos? 

Em primeiro lugar, tanto no caso da "revolução colorida" na Ucrânia, ou mais tarde na Bielorrússia, mas também em vários casos da chamada "primavera árabe", tivemos muitas evidências de intervenção estrangeira, financiamento, treinamento e preparação das forças políticas que assumiriam um papel destacado, aproveitando o agravamento dos problemas sociais e políticos. Isso não é evidente no caso do Cazaquistão e é claro que todos os principais "atores" estrangeiros (EUA, China, Rússia, UE) estão, de uma forma ou de outra, do lado do atual presidente, e o único desacordo é o aparecimento das forças militares da URSS. A situação e o desenrolar dos acontecimentos nada têm a ver com a Ucrânia, onde a burguesia estava dividida entre os EUA e a UE e a Rússia, por um lado, e onde havíamos visto claramente os diplomatas estrangeiros dirigindo manifestações pró-ocidentais, inclusive utilizando abertamente forças fascistas.

Está claro que no caso do Cazaquistão também os acontecimentos levaram a um rearranjo da burguesia e seus políticos. O presidente Tokayev e os empresários ao seu redor se afastaram, até certo ponto, do presidente anterior do país, N. Nazarbayev, que havia assumido o cargo de presidente vitalício do Conselho de Segurança. Políticos próximos a ele foram presos, incluindo Karim Massimov, ex-primeiro-ministro e chefe do Comitê de Segurança Nacional do país. Fica evidente que a “velha guarda” está sendo pressionada em uma "guerra" para redistribuir o poder econômico e político entre setores da burguesia cazaque.

Há também forças políticas, nacionalistas, islamistas, outras forças ligadas aos centros imperialistas do Ocidente, que claramente procuram manipular as forças populares que participaram das manifestações, mas não têm clareza política. Essas forças existem, não devemos ignorá-las, mas isso não apenas não diminui, mas também destaca a necessidade de o movimento popular organizado poder guardar suas mobilizações, como aconteceu nas áreas operárias no oeste do Cazaquistão.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

Daniel Ortega Traiu a Revolução Sandinista

Miguel Urbano Rodrigues*

Nota do editor

Reproduzimos este artigo de Miguel Urbano Rodrigues publicado logo após a reeleição de Daniel Ortega para o terceiro mandato consecutivo como presidente da Nicarágua em 2016. Decorridos cinco anos, Ortega assume seu quarto mandato e as traições a Revolução Sandinista denunciadas no artigo de Miguel Urbano se aprofundaram.

A trajetória pessoal e política de Ortega, agora reeleito presidente da Nicarágua, é um caso de estudo. De dirigente da luta armada anti-somozista a possuidor de uma fortuna pessoal que supera a que o próprio Somoza extorquiu ao seu povo, de lutador pelo socialismo a patriarca de uma família de oligarcas, o sucesso de Ortega é o insucesso da libertação do seu povo.

Miguel Urbano Rodrigues


Daniel Ortega foi reeleito presidente da Nicarágua. É o terceiro mandato consecutivo.

O principal partido da oposição apelou ao boicote, mas a abstenção foi inferior à prevista pelas sondagens.

A vitória do candidato sandinista foi bem recebida pelo governo de Obama. As relações econômicas dos EUA com a Nicarágua são aliás consideradas corretas pelo Departamento de Estado.

Paradoxalmente, Ortega não abdicou do discurso de esquerda, cultivando uma imagem anti-imperialista que lhe permitiu nos últimos anos manter relações privilegiadas com Cuba, Venezuela, Bolívia, Equador e alguns partidos comunistas.

Mas a fachada progressista do regime é hoje incompatível com a realidade política, social e econômica do país.

Desde que perdeu as eleições presidenciais em 1990 Daniel Ortega imprimiu à FSLN uma orientação que deslocou gradualmente para a direita o partido revolucionário fundado por Carlos Fonseca Amador, que destruiu a ditadura de Somoza numa luta épica de anos. Fonseca, que foi o ideólogo da guerrilha, era um marxista criativo e talentoso. Conseguiu o que parecia impossível: unificou as três tendências da organização revolucionária, obtendo no combate ao somozismo o apoio da Igreja, dos sindicatos, dos trabalhadores e de intelectuais liberais.

A Revolução Sandinista vitoriosa em 1979


A vitória da FSLN, dirigida por Daniel Ortega e um punhado de comandantes com prestígio internacional, gerou uma grande esperança na América Latina. Transcorrida mais de uma década da morte do Che na Bolívia, os Sandinistas demonstraram que em circunstâncias excecionais a luta armada podia enfrentar e derrotar regimes apoiados pelo imperialismo.

Tive a oportunidade em 1983 de visitar a Nicarágua revolucionária e conhecer alguns dos comandantes sandinistas nesses dias em que a FSLN mobilizava a solidariedade das forças progressistas da América Latina e da Europa.

No exercício do poder, o governo da FSLN não demonstrou porem a mesma lucidez e firmeza da organização guerrilheira.

Alvo de uma ofensiva permanente do imperialismo americano, que financiou e armou os mercenários contra-revolucionários, a Frente Sandinista fracassou na tarefa de reconstruir a economia e perdeu gradualmente o apoio de amplos setores da população.

Cedendo a pressões de Washington, Ortega – contra a opinião de Fidel Castro - convocou eleições para a Presidência em 1990. A campanha eleitoral da oposição foi generosamente financiada pelos EUA. O desfecho foi a eleição da liberal Violeta Chamorro e ficou a assinalar o fim inesperado da Revolução Sandinista.

A CRISE DA FSLN

A Frente Sandinista mergulhou numa crise profunda logo após o seu afastamento do governo.

Daniel Ortega candidatou-se à Presidência nas eleições seguintes, tendo perdido novamente. Mas não foi uma surpresa a sua eleição em 2006. O desfecho era esperado.

Alguns dos comandantes mais destacados que haviam participado da guerra contra Somoza tinham rompido com Ortega por discordarem da guinada à direita que o ex-presidente imprimira ao partido. Entre outros, Ernesto Cardenal, Luis Carrion e Victor Tirado.

Ortega tinha optado por uma política de alianças incompatível com os princípios e a ideologia do sandinismo. Firmou nomeadamente um acordo com o ex-presidente Arnoldo Aleman, condenado a 20 anos de prisão por corrupção e branqueamento de capitais. Aleman fora, sublinhe-se, um somozista esforçado.

 

ROSARIO MURILLO, «A BRUXA»

 

Foi sobretudo a mulher, Rosario Murillo, que teve um papel decisivo na metamorfose do dirigente máximo da FSLN.

Professora, escritora, poeta, Rosario, que foi também guerrilheira, é uma católica fervorosa.

Amiga pessoal desde a juventude do arcebispo de Manágua, defendeu sempre a necessidade de boas relações com a Igreja. Teve o descaramento de propor o seu nome para o Premio Nobel da Paz.

Fez o marido esquecer que Don Miguel Obando y Bravo fora admirador de Anastasio Somoza e apoiara a contra-revolução.

Elevado a Cardeal, Obando cimentou uma íntima aliança com Daniel Ortega quando este voltou à Presidência em 2007.

Rosario, reeleita vice-presidente, concentra hoje nas suas mãos um enorme poder e acumulou em negócios ilícitos, uma fortuna colossal.

Ocorreu o inimaginável. A família Ortega-Murillo concentra hoje mais riqueza do que Somoza no auge da sua ditadura.

Quatro dos filhos de Daniel são multimilionários. Laureano negociou com a China o projeto de construção do Canal que ligará através da Nicarágua o Atlântico ao Pacifico, obra faraônica que ameaça arruinar o Canal do Panamá. Juan controla o audiovisual. Outros irmãos enriqueceram com a distribuição de petróleo barato recebido da Venezuela bolivariana. Um regabofe!

Rosario, conhecida pela alcunha de “Bruxa”, é a personalidade que domina a família e o governo.

DE HERÓIS A GRANDES EMPRESÁRIOS

A crise da FSLN principiou com a deserção de Sergio Ramirez, que foi vice-presidente da República no primeiro governo de Ortega.

Sergio, que estudou na Alemanha, era um socialdemocrata mascarado de revolucionário. Escritor de talento, passou em tempo mínimo de sandinista a inimigo da Revolução.

Seguiram-se outras rupturas com o passado, mais graves.

Humberto Ortega, irmão de Daniel, foi durante a luta armada o principal estrategista da guerrilha. Ministro da Defesa após a vitória, reformou o exército e aderiu à esdruxula doutrina do «centrismo». Recebeu inclusive a medalha do mérito militar dos EUA. A sua adesão ao capitalismo não surpreendeu. Enriqueceu no negócio das madeiras.

O ministro da Agricultura de Daniel, Jaime Weelock, é hoje um próspero empresário. Bayardo Arce, outro dos comandantes da insurreição, também enriqueceu rapidamente.

Daniel Ortega repete com frequência que a situação económica do país melhorou acentuadamente. Mas não diz que a Nicarágua recebeu durante os seus governos 4 800 milhões de dólares de organizações financeiras internacionais tuteladas pelos EUA.

Do FMI tem recebido elogios.

Daniel Ortega insiste em afirmar que pratica uma política de esquerda. Não se abstém de criticar o imperialismo nos seus discursos enquanto elogia Cuba e a Venezuela bolivariana. Mas Washington considera inofensiva essa oratória.

Poder-se-ia inferir deste artigo que encaro com pessimismo o futuro do povo Nicaraguense. Seria uma conclusão errada. A memória de Sandino, de Carlos Fonseca e da gesta heroica da insurreição guerrilheira que destruiu a ditadura de Somoza permanece viva no povo da Nicarágua. Um dia ele retomará a luta rumo ao socialismo interrompida pela traição de Daniel Ortega.

Estou consciente de que um governo do partido de extrema-direita seria pior do que o de Ortega-Murillo. Mas indigna-me a hipocrisia da mídia e dirigentes de esquerda que insistem em caracterizar o governo de Ortega como revolucionário.

Vila Nova de Gaia, Novembro de 2016

*Miguel Urbano Rodrigues: (Moura, 2 de agosto de 1925 – Vila Nova de Gaia, 27 de maio de 2017) foi um jornalista, escritor e político português. Foi redactor do Diário de Notícias entre 1949 e 1956, chefe de redacção do Diário Ilustrado (1956 e 1957), antes de se exilar no Brasil, onde foi editorialista principal de O Estado de S. Paulo (1957 a 1974) e editor internacional da revista brasileira Visão (1970 a 1974). Após a Revolução dos Cravos retornou a Portugal, foi chefe de redacção do Avante! em 1974 e 1975 e director de O Diário entre 1976 e 1985. Assistente de História Contemporânea na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (1974-75), presidente da Assembleia Municipal de Moura em 1977 e 1978, deputado pelo Partido Comunista Português entre 1990 e 1995 e deputado às Assembleias Parlamentares do Conselho da Europa e da União da Europa Ocidental, tendo sido membro da comissão política desta última.

Edição: Página 1917

Fonte: https: https://www.odiario.info/daniel-ortega-traiu-a-revolucao-sandinista/

segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

Os Preconceitos Contra o Marxismo

 Henri Lefebvre*

   É necessário remontar aos princípios do cristianismo ou ao tempo das guerras de religião — embora o marxismo nada tenha de comum com uma nova religião — para encontrar na história uma doutrina tão atacada, tão caluniada e tão perseguida como é hoje a de Karl Marx.


Henri Lefebvre


   Tem-se desenvolvido uma violenta luta “ideológica” em torno deste grande pensador. Esta luta “ideológica” não é mais que uma manifestação e um aspecto de lutas de classes e de lutas políticas muito vastas, à escala de todo o mundo moderno. As “paixões” (isto é, os interesses) econômicas e políticas explicam a violência desta luta e o seu caráter pérfido e brutal.

   É sabido que, nos seus primórdios, a “ciência da natureza” suscitou a inquietação e a hostilidade dos poderes estabelecidos. A condenação de Galileu, ao afirmar que a terra gira, continua viva em todas as memórias. Esta condenação não passou, aliás, de um episódio, o mais conhecido, de uma longa, tenaz e dramática luta dos sábios pela liberdade da razão e pelo conhecimento científico. Censurava-se lhes, naquele tempo, a “impiedade” da ciência, pelo único fato de não explicarem todas as coisas pela “vontade de Deus” e pela “Providência”. Também neste caso a luta ideológica servia de capa a uma luta política. Quem paralisava a ciência nascente da natureza? Quem se opunha aos seus progressos? Os poderes estabelecidos originários da Idade Média, os mesmos que viriam a ser vencidos na Grade Revolução de 1789-1793, pelos princípios da Razão e da Liberdade.

   No entanto, muito raramente a reação contra os primeiros físicos ou químicos foi tão violenta como a ação empreendida nos tempos modernos contra os marxistas, como por exemplo na Alemanha hitleriana. Por que? Porque a ligação entre os objetivos da luta política e os da nova ciência era, então, menos clara e menos imediata que hoje. O Marxismo pretende ser essencialmente — e é — “ciência da sociedade e da história”. Ora, esse conhecimento científico da sociedade opõe-se direta e expressamente a certos “poderes estabelecidos” — os que representam a burguesia e o capitalismo —; mostra que o seu domínio perde toda a razão de ser e que será substituído por uma organização nova, mais racional e mais livre, da sociedade. Daí o ódio que suscita e que a hábil propaganda desses “poderes estabelecidos” espalha contra uma doutrina que, em si, se apresenta como exclusiva e simplesmente “científica”, com argumentos e provas “racionais”, e que apenas recorre a razão para se fazer compreender. (...)

*Henri Lefebvre (Hagetmau, 16 de junho de 1901 — Navarrenx, 29 de junho de 1991) filósofo marxista e sociólogo francês.

Edição: Página 1917

Fonte: Para Compreender o Pensamento de Karl Marx; Henri Lefebvre; Edições 70; 1981; Portugal.



 

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