"A burguesia liberal, dando reformas com uma das mãos, retira-as sempre com a outra, as reduz a nada, utiliza-as para subjugar os operários, para os dividir em diversos grupos, para perpetuar a escravidão assalariada dos trabalhadores. Por isso o reformismo, mesmo quando é inteiramente sincero, transforma-se de fato num instrumento de corrupção burguesa e enfraquecimento dos operários."
Notícias e análises sobre temas históricos e da atualidade, abordando história, economia, política e relações internacionais a partir da perspectiva marxista-leninista e das lutas dos trabalhadores contra a exploração capitalista.
sexta-feira, 21 de janeiro de 2022
Lenin (22/04/1870 - 21/01/1924)
sábado, 15 de janeiro de 2022
A raiz das Grandes Mobilizações Está nos Enormes Problemas do Povo Provocados pela Restauração Capitalista
Entrevista sobre eventos no
Cazaquistão com Eliseos Vagenas, membro do Comitê Central do Partido Comunista
da Grécia (KKE) e diretor da Secretaria de Relações Internacionais do KKE.
Eliseos Vagenas, dirigente do KKE.
A raiz das grandes
mobilizações populares que ocorreram no Cazaquistão está nos enormes problemas
sociais e econômicos que a restauração do capitalismo causou ao povo deste
país.
Milhões de pessoas vivem de
salários e pensões de fome, milhões estão desempregados, forçados a se mudar
dentro do país ou para a Rússia para ganhar a vida. Milhões de jovens, em uma
sociedade onde a média de idade é baixa, se desesperam ao ver que seu futuro é
sombrio.
Ao mesmo tempo, por outro
lado, a opulência dos capitalistas é evidente, a riqueza energética é roubada
por capitalistas locais e monopólios estrangeiros como a Chevron americana.
Globalmente, os monopólios americanos, britânicos e europeus controlam 75% do
setor mineiro da indústria, que é o mais importante deste país. A riqueza
energética também vai para a UE, Rússia e China, que são os principais
importadores da riqueza energética do país.
As enormes disparidades
sociais levaram a ferozes lutas operárias. Como as autoridades reagiram? Há dez
anos, na cidade de Zanahozen, as forças de segurança do regime assassinaram
dezenas de trabalhadores em greve, ao que se seguiu uma intensificação da
repressão, incluindo no processo a proibição do Partido Comunista do
Cazaquistão, até hoje se recusam a legalizar o Movimento Socialista do
Cazaquistão e foram proibidos mais de 600 sindicatos, aprovando novas leis
sindicais para controlar completamente o movimento sindical, além disso, se pois em marcha um esforço para apoiar as
forças nacionalistas, incluindo a justificação de colaboradores nazistas
locais, o chamado "Turkmen SS Legion", que atuou durante a Segunda
Guerra Mundial.
As políticas econômicas e
sociais impopulares são a causa das atuais mobilizações, nas quais o aumento do
preço do GLP tem atuado como “a gota que transborda o vaso”. Este fato, no
entanto, não contradiz em nada o fato de que um conflito interimperialista está
em andamento na região e que esses eventos tentarão ser explorados pelos
diferentes lados.
Vamos nos deter por
um momento nas mobilizações populares. Elas não adotaram a mesma forma em todos
os lugares. Em algumas áreas houve manifestações de greve massivas, em outras
houve lutas de rua, em outras houve saques e vandalismo. Como isso se explica
e, em última análise, quais são as reivindicações dessas mobilizações
populares?
Nas regiões oeste e central
do Cazaquistão, importantes lutas e greves ocorreram nos últimos dois anos. A
iniciativa foi tomada pelos sindicatos informais de trabalhadores, os comitês
de greve, os comitês de fábrica, pois, como disse, as autoridades aprovaram a
lei sindical que proíbe a atividade e o funcionamento dos sindicatos que não
sejam diretamente controlados pelo Estado e empregadores. Assim, especialmente
na região do Cazaquistão Ocidental, havia uma experiência considerável de
organização e luta. Foi a partir daí, centrado na cidade de Zanahozen, que
começaram as novas mobilizações no início do ano, o fechamento de ruas, nesse
processo prevaleceram as assembleias massivas de trabalhadores, que deram
origem a mobilizações grevistas e manifestações de protesto. Nessas áreas, os
próprios trabalhadores ficaram encarregados da segurança, com o apoio maciço de
suas famílias. Nestes locais, a polícia e o exército inicialmente se recusaram
a reprimir as mobilizações dos trabalhadores, enquanto as autoridades locais,
em muitos casos, se renderam. Ali se manifestou a superioridade da luta dos
trabalhadores organizados, que por meio das assembleias levou à promoção de
reivindicações econômicas, que no processo avançaram para demandas políticas e
se apresentaram por toda parte: exigiam-se maiores salários, redução da idade
de aposentadoria, a redução dos preços da energia, a demissão de Nazarbayev e
Tokayev, a livre formação de sindicatos e partidos políticos. Nas cidades do
oeste do Cazaquistão, os grevistas formaram Conselhos e Comitês de Coordenação,
que desempenharam um papel de liderança das mobilizações. Foi nessas áreas que
se organizou a retirada das forças mobilizadas na noite de 8 de janeiro.
Em outros casos, onde o
movimento não foi tão organizado, travaram-se ferozes batalhas de rua armadas,
como no caso da antiga capital, Alma-Ata. Consideremos o seguinte: Hoje, trinta
anos após a derrubada do socialismo, nas periferias das grandes cidades, como
na antiga capital, vemos o surgimento de grandes favelas, semelhantes às da
América Latina. Milhares de pessoas, aldeias inteiras, migraram para lá em
busca de trabalho. Essas pessoas empobrecidas, que saíram às ruas indignadas
com os altos preços e baixo padrão de vida, foram facilmente armadas pelas primeiras
“ondas” de policiais e militares, que, após os primeiros confrontos, entregaram
suas armas. Eles tomaram outras instalações da polícia e do exército e
inclusive lojas de venda de armas e assim se armaram. Vários grupos
provocadores também atuaram, saqueando, vandalizando prédios, etc. e estes fatos
foram explorados pelo regime e grandes unidades militares foram mobilizadas
para reprimir os movimentos trabalhistas e populares.
O fato de terem
sido encontrados dois corpos de policiais e dois militares decapitados é
apresentado pelo regime como prova de intervenção estrangeira. Não é certo?
Nas fileiras do chamado
"Estado Islâmico", que atuava no Iraque e na Síria como parte dos
planos imperialistas, também havia algumas dezenas de cazaques. Ninguém
descarta seu retorno ao Cazaquistão após a intervenção militar russa na Síria e
a derrota do "Estado Islâmico" naquele país. Tampouco se pode
descartar a atividade desses grupos ou outros, que podem ser utilizados em
diversos eventos e ter origens e planos distintos, como infiltração nos
serviços de inteligência locais e organização de grupos de provocadores. No
entanto, não foram essas forças que iniciaram essa mobilização popular, que se
transformou em um levante de massas, enquanto a qualificação de
"terroristas", "radicais" e "extremistas" que as
autoridades cazaques jogam contra quem saiu as ruas contra a política que
resulta no seu empobrecimento é, na verdade, um pretexto para desencadear a
repressão.
Você mencionou como esses eventos foram usados. Vimos no passado as chamadas "revoluções coloridas", por exemplo na Ucrânia ou a chamada "primavera árabe". Existem semelhanças e quem pode aproveitar esses desenvolvimentos?
Em primeiro lugar, tanto no
caso da "revolução colorida" na Ucrânia, ou mais tarde na
Bielorrússia, mas também em vários casos da chamada "primavera
árabe", tivemos muitas evidências de intervenção estrangeira,
financiamento, treinamento e preparação das forças políticas que assumiriam um papel
destacado, aproveitando o agravamento dos problemas sociais e políticos. Isso
não é evidente no caso do Cazaquistão e é claro que todos os principais
"atores" estrangeiros (EUA, China, Rússia, UE) estão, de uma forma ou
de outra, do lado do atual presidente, e o único desacordo é o aparecimento das
forças militares da URSS. A situação e o desenrolar dos acontecimentos nada têm
a ver com a Ucrânia, onde a burguesia estava dividida entre os EUA e a UE e a
Rússia, por um lado, e onde havíamos visto claramente os diplomatas
estrangeiros dirigindo manifestações pró-ocidentais, inclusive utilizando abertamente
forças fascistas.
Está claro que no caso do Cazaquistão
também os acontecimentos levaram a um rearranjo da burguesia e seus políticos.
O presidente Tokayev e os empresários ao seu redor se afastaram, até certo
ponto, do presidente anterior do país, N. Nazarbayev, que havia assumido o cargo
de presidente vitalício do Conselho de Segurança. Políticos próximos a ele
foram presos, incluindo Karim Massimov, ex-primeiro-ministro e chefe do Comitê
de Segurança Nacional do país. Fica evidente que a “velha guarda” está sendo
pressionada em uma "guerra" para redistribuir o poder econômico e
político entre setores da burguesia cazaque.
Há também forças políticas, nacionalistas, islamistas, outras forças ligadas aos centros imperialistas do Ocidente, que claramente procuram manipular as forças populares que participaram das manifestações, mas não têm clareza política. Essas forças existem, não devemos ignorá-las, mas isso não apenas não diminui, mas também destaca a necessidade de o movimento popular organizado poder guardar suas mobilizações, como aconteceu nas áreas operárias no oeste do Cazaquistão.
quarta-feira, 12 de janeiro de 2022
Daniel Ortega Traiu a Revolução Sandinista
Miguel Urbano Rodrigues*
Nota do editor
Reproduzimos
este artigo de Miguel Urbano Rodrigues publicado logo após a reeleição de
Daniel Ortega para o terceiro mandato consecutivo como presidente da Nicarágua
em 2016. Decorridos cinco anos, Ortega assume seu quarto mandato e as traições
a Revolução Sandinista denunciadas no artigo de Miguel Urbano se aprofundaram.
A trajetória pessoal e
política de Ortega, agora reeleito presidente da Nicarágua, é um caso de
estudo. De dirigente da luta armada anti-somozista a possuidor de uma fortuna
pessoal que supera a que o próprio Somoza extorquiu ao seu povo, de lutador
pelo socialismo a patriarca de uma família de oligarcas, o sucesso de Ortega é
o insucesso da libertação do seu povo.
| Miguel Urbano Rodrigues |
Daniel Ortega foi reeleito
presidente da Nicarágua. É o terceiro mandato consecutivo.
O principal partido da
oposição apelou ao boicote, mas a abstenção foi inferior à prevista pelas
sondagens.
A vitória do candidato
sandinista foi bem recebida pelo governo de Obama. As relações econômicas dos
EUA com a Nicarágua são aliás consideradas corretas pelo Departamento de
Estado.
Paradoxalmente, Ortega não
abdicou do discurso de esquerda, cultivando uma imagem anti-imperialista que
lhe permitiu nos últimos anos manter relações privilegiadas com Cuba,
Venezuela, Bolívia, Equador e alguns partidos comunistas.
Mas a fachada progressista
do regime é hoje incompatível com a realidade política, social e econômica do
país.
Desde que perdeu as eleições
presidenciais em 1990 Daniel Ortega imprimiu à FSLN uma orientação que deslocou
gradualmente para a direita o partido revolucionário fundado por Carlos Fonseca
Amador, que destruiu a ditadura de Somoza numa luta épica de anos. Fonseca, que
foi o ideólogo da guerrilha, era um marxista criativo e talentoso. Conseguiu o
que parecia impossível: unificou as três tendências da organização
revolucionária, obtendo no combate ao somozismo o apoio da Igreja, dos
sindicatos, dos trabalhadores e de intelectuais liberais.
| A Revolução Sandinista vitoriosa em 1979 |
A vitória da FSLN, dirigida
por Daniel Ortega e um punhado de comandantes com prestígio internacional,
gerou uma grande esperança na América Latina. Transcorrida mais de uma década
da morte do Che na Bolívia, os Sandinistas demonstraram que em circunstâncias
excecionais a luta armada podia enfrentar e derrotar regimes apoiados pelo
imperialismo.
Tive a oportunidade em 1983
de visitar a Nicarágua revolucionária e conhecer alguns dos comandantes
sandinistas nesses dias em que a FSLN mobilizava a solidariedade das forças
progressistas da América Latina e da Europa.
No exercício do poder, o
governo da FSLN não demonstrou porem a mesma lucidez e firmeza da organização
guerrilheira.
Alvo de uma ofensiva
permanente do imperialismo americano, que financiou e armou os mercenários
contra-revolucionários, a Frente Sandinista fracassou na tarefa de reconstruir
a economia e perdeu gradualmente o apoio de amplos setores da população.
Cedendo a pressões de
Washington, Ortega – contra a opinião de Fidel Castro - convocou eleições para
a Presidência em 1990. A campanha eleitoral da oposição foi generosamente
financiada pelos EUA. O desfecho foi a eleição da liberal Violeta Chamorro e
ficou a assinalar o fim inesperado da Revolução Sandinista.
A CRISE DA FSLN
A Frente Sandinista
mergulhou numa crise profunda logo após o seu afastamento do governo.
Daniel Ortega candidatou-se
à Presidência nas eleições seguintes, tendo perdido novamente. Mas não foi uma
surpresa a sua eleição em 2006. O desfecho era esperado.
Alguns dos comandantes mais
destacados que haviam participado da guerra contra Somoza tinham rompido com
Ortega por discordarem da guinada à direita que o ex-presidente imprimira ao
partido. Entre outros, Ernesto Cardenal, Luis Carrion e Victor Tirado.
Ortega tinha optado por uma política
de alianças incompatível com os princípios e a ideologia do sandinismo. Firmou
nomeadamente um acordo com o ex-presidente Arnoldo Aleman, condenado a 20 anos
de prisão por corrupção e branqueamento de capitais. Aleman fora, sublinhe-se,
um somozista esforçado.
ROSARIO MURILLO, «A BRUXA»
Foi sobretudo a mulher,
Rosario Murillo, que teve um papel decisivo na metamorfose do dirigente máximo
da FSLN.
Professora, escritora,
poeta, Rosario, que foi também guerrilheira, é uma católica fervorosa.
Amiga pessoal desde a
juventude do arcebispo de Manágua, defendeu sempre a necessidade de boas
relações com a Igreja. Teve o descaramento de propor o seu nome para o Premio
Nobel da Paz.
Fez o marido esquecer que
Don Miguel Obando y Bravo fora admirador de Anastasio Somoza e apoiara a
contra-revolução.
Elevado a Cardeal, Obando
cimentou uma íntima aliança com Daniel Ortega quando este voltou à Presidência
em 2007.
Rosario, reeleita
vice-presidente, concentra hoje nas suas mãos um enorme poder e acumulou em
negócios ilícitos, uma fortuna colossal.
Ocorreu o inimaginável. A
família Ortega-Murillo concentra hoje mais riqueza do que Somoza no auge da sua
ditadura.
Quatro dos filhos de Daniel
são multimilionários. Laureano negociou com a China o projeto de construção do
Canal que ligará através da Nicarágua o Atlântico ao Pacifico, obra faraônica
que ameaça arruinar o Canal do Panamá. Juan controla o audiovisual. Outros
irmãos enriqueceram com a distribuição de petróleo barato recebido da Venezuela
bolivariana. Um regabofe!
Rosario, conhecida pela
alcunha de “Bruxa”, é a personalidade que domina a família e o governo.
DE HERÓIS A GRANDES
EMPRESÁRIOS
A crise da FSLN principiou
com a deserção de Sergio Ramirez, que foi vice-presidente da República no
primeiro governo de Ortega.
Sergio, que estudou na
Alemanha, era um socialdemocrata mascarado de revolucionário. Escritor de
talento, passou em tempo mínimo de sandinista a inimigo da Revolução.
Seguiram-se outras rupturas
com o passado, mais graves.
Humberto Ortega, irmão de
Daniel, foi durante a luta armada o principal estrategista da guerrilha.
Ministro da Defesa após a vitória, reformou o exército e aderiu à esdruxula
doutrina do «centrismo». Recebeu inclusive a medalha do mérito militar dos EUA.
A sua adesão ao capitalismo não surpreendeu. Enriqueceu no negócio das madeiras.
O ministro da Agricultura de
Daniel, Jaime Weelock, é hoje um próspero empresário. Bayardo Arce, outro dos
comandantes da insurreição, também enriqueceu rapidamente.
Daniel Ortega repete com
frequência que a situação económica do país melhorou acentuadamente. Mas não
diz que a Nicarágua recebeu durante os seus governos 4 800 milhões de dólares
de organizações financeiras internacionais tuteladas pelos EUA.
Do FMI tem recebido elogios.
Daniel Ortega insiste em
afirmar que pratica uma política de esquerda. Não se abstém de criticar o
imperialismo nos seus discursos enquanto elogia Cuba e a Venezuela bolivariana.
Mas Washington considera inofensiva essa oratória.
Poder-se-ia inferir deste
artigo que encaro com pessimismo o futuro do povo Nicaraguense. Seria uma
conclusão errada. A memória de Sandino, de Carlos Fonseca e da gesta heroica da
insurreição guerrilheira que destruiu a ditadura de Somoza permanece viva no
povo da Nicarágua. Um dia ele retomará a luta rumo ao socialismo interrompida
pela traição de Daniel Ortega.
Estou consciente de que um
governo do partido de extrema-direita seria pior do que o de Ortega-Murillo. Mas
indigna-me a hipocrisia da mídia e dirigentes de esquerda que insistem em
caracterizar o governo de Ortega como revolucionário.
Vila Nova de Gaia, Novembro
de 2016
*Miguel Urbano Rodrigues: (Moura, 2 de agosto de 1925 – Vila Nova de Gaia, 27 de maio de 2017) foi um jornalista, escritor e político português. Foi redactor do Diário de Notícias entre 1949 e 1956, chefe de redacção do Diário Ilustrado (1956 e 1957), antes de se exilar no Brasil, onde foi editorialista principal de O Estado de S. Paulo (1957 a 1974) e editor internacional da revista brasileira Visão (1970 a 1974). Após a Revolução dos Cravos retornou a Portugal, foi chefe de redacção do Avante! em 1974 e 1975 e director de O Diário entre 1976 e 1985. Assistente de História Contemporânea na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (1974-75), presidente da Assembleia Municipal de Moura em 1977 e 1978, deputado pelo Partido Comunista Português entre 1990 e 1995 e deputado às Assembleias Parlamentares do Conselho da Europa e da União da Europa Ocidental, tendo sido membro da comissão política desta última.
Edição: Página 1917
Fonte: https: https://www.odiario.info/daniel-ortega-traiu-a-revolucao-sandinista/
segunda-feira, 10 de janeiro de 2022
Os Preconceitos Contra o Marxismo
Henri Lefebvre*
É necessário remontar aos princípios do cristianismo ou ao tempo das guerras de religião — embora o marxismo nada tenha de comum com uma nova religião — para encontrar na história uma doutrina tão atacada, tão caluniada e tão perseguida como é hoje a de Karl Marx.
| Henri Lefebvre |
Tem-se desenvolvido uma violenta luta “ideológica”
em torno deste grande pensador. Esta luta “ideológica” não é mais que uma
manifestação e um aspecto de lutas de classes e de lutas políticas muito
vastas, à escala de todo o mundo moderno. As “paixões” (isto é, os interesses)
econômicas e políticas explicam a violência desta luta e o seu caráter pérfido
e brutal.
É sabido que, nos seus primórdios, a “ciência
da natureza” suscitou a inquietação e a hostilidade dos poderes estabelecidos.
A condenação de Galileu, ao afirmar que a terra gira, continua viva em todas as
memórias. Esta condenação não passou, aliás, de um episódio, o mais conhecido,
de uma longa, tenaz e dramática luta dos sábios pela liberdade da razão e pelo
conhecimento científico. Censurava-se lhes, naquele tempo, a “impiedade” da
ciência, pelo único fato de não explicarem todas as coisas pela “vontade de
Deus” e pela “Providência”. Também neste caso a luta ideológica servia de capa
a uma luta política. Quem paralisava a ciência nascente da natureza? Quem se
opunha aos seus progressos? Os poderes estabelecidos originários da Idade
Média, os mesmos que viriam a ser vencidos na Grade Revolução de 1789-1793,
pelos princípios da Razão e da Liberdade.
No entanto, muito raramente a reação contra
os primeiros físicos ou químicos foi tão violenta como a ação empreendida nos
tempos modernos contra os marxistas, como por exemplo na Alemanha hitleriana.
Por que? Porque a ligação entre os objetivos da luta política e os da nova
ciência era, então, menos clara e menos imediata que hoje. O Marxismo pretende
ser essencialmente — e é — “ciência da sociedade e da história”. Ora, esse conhecimento
científico da sociedade opõe-se direta e expressamente a certos “poderes
estabelecidos” — os que representam a burguesia e o capitalismo —; mostra que o
seu domínio perde toda a razão de ser e que será substituído por uma
organização nova, mais racional e mais livre, da sociedade. Daí o ódio que
suscita e que a hábil propaganda desses “poderes estabelecidos” espalha contra
uma doutrina que, em si, se apresenta como exclusiva e simplesmente “científica”,
com argumentos e provas “racionais”, e que apenas recorre a razão para se fazer
compreender. (...)
*Henri Lefebvre (Hagetmau,
16 de junho de 1901 — Navarrenx, 29 de junho de 1991) filósofo marxista e
sociólogo francês.
Edição: Página 1917
Fonte: Para Compreender o
Pensamento de Karl Marx; Henri Lefebvre; Edições 70; 1981; Portugal.