Miguel Urbano Rodrigues*
Outubro/2016
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| Miguel Urbano Rodrigues |
Li em l961, na Guiné Conakri, a tradução
francesa da História do Partido Comunista (bolchevique) da URSS**, revista e
aprovada em 1938 pelo Comitê Central do PCUS. Em Portugal, por iniciativa do
camarada Carlos Costa, a referida História foi publicada em 2010 com o
subtítulo Breve Curso e um prefácio, muito elogioso, de Leandro Martins, então
chefe da redação do «Avante!». A iniciativa gerou polémica no PCP.
Olhares
incompatíveis sobre a história
Tenho na minha biblioteca de Gaia a citada
História do Partido Comunista (bolchevique), diferentes edições da História da
União Soviética, editadas em espanhol pela Editorial Progresso de Moscou, e a
tradução portuguesa da História da Grande Revolução Socialista de Outubro da
mesma editora, editada em l977.
A História do PCUS publicada em 1938 e
aprovada pelo Comitê Central do Partido foi traduzida em 67 línguas e dela
foram vendidos mais de 42 milhões de exemplares. Mas, após o XX Congresso, foi
retirada das livrarias e bibliotecas soviéticas.
Não foi sem uma sensação de mal-estar que
decidi expressar a minha opinião sobre essa obra, a da Revolução de Outubro e
uma das Histórias da Rússia e da URSS, a elaborada pelos historiadores A.
Fadeiev, Bridsov, Chermensky, Golikov e A. Sakharov, membros da Academia das Ciências
da União Soviética. Foi editada em espanhol, também pela Progresso, em 1960.
Por
que o mal-estar?
Por estar consciente da extrema
dificuldade de estabelecer fronteiras entre o positivo e o negativo, entre a
evocação da História e a deturpação da História que, por vezes no mesmo
capítulo, ora coincidem ora se fundem ou cruzam em confusão labiríntica.
Na História do Partido Comunista
(bolchevique) os primeiros três capítulos são dedicados ao combate pela criação
de um partido operário revolucionário (o futuro Partido Operário Social
Democrata da Rússia - POSDR, inicialmente marxista), à luta dos bolcheviques
contra os mencheviques e à primeira revolução russa (1904/1907). A narrativa é
interessante, com destaque para o papel decisivo que Lenin desempenhou nessa
fase histórica.
Os capítulos 4, 5 e 6 incidem sobre o
período que vai da reação stolypiana à Revolução de Fevereiro de 1917 que
derrubou a autocracia czarista. Uma informação muito rica e inédita para os
leitores do Ocidente valoriza essas páginas que iluminam a ascensão e o
fortalecimento contínuo do Partido bolchevique e a importância da obra teórica
de Lenin como ideólogo. As Teses leninistas de Abril, que implicaram uma
mudança decisiva na linha do Partido, merecem atenção especial. Ao exigir «todo
o Poder aos Sovietes», Lenin sepultou a ideia da longa duração da revolução
democrático-burguesa, mobilizando o Partido e os trabalhadores contra o Governo
Provisório da Rússia, esboçando a estratégia da revolução proletária rumo ao
socialismo.
No capítulo 7 os autores da História do
Partido evocam os acontecimentos que precederam a Revolução de Outubro e a
preparação desta, com muitas citações de Lenin que facilitam a compreensão das
lutas travadas contra o Governo de Kerenski e no próprio Soviete de Petrogrado.
Mas a linguagem do livro, a partir do 4º
capítulo, dedicado à reação stolypiana no período que precedeu o início da
guerra de 1914/18, muda muito e distancia-se do rigor, da serenidade e isenção
exigíveis a historiadores responsáveis, como são acadêmicos soviéticos de
prestígio mundial como Evgueni Tarlé.
Para caracterizar o
oportunismo dos mencheviques, dos economicistas, dos empiriocriticistas e
denunciar e criticar os erros de Kamenev, Zinoviev, Rikov, Preobrazhensky,
Trotsky e demonstrar a sua incompatibilidade com o leninismo, os autores da História do Partido Comunista
(bolchevique) da URSS recorrem a uma adjetivação agressiva e insultuosa e
deturpam grosseiramente a História.¹
Repetidamente,
Stalin começa a aparecer em muitas páginas, sendo-lhe atribuídas decisões e
iniciativas importantes numa época em que era ainda um dirigente pouco
destacado do Partido, embora próximo de Lenin.
Não é verdade que Trotsky tenha aderido ao
Partido para o minar por dentro, com o objetivo de o destruir.
Kamenev e Zinoviev assumiram nas vésperas
da insurreição de Outubro posições que levaram Lenin a qualificá-los de
traidores, mas a atitude de Trotsky, que era presidente do Soviete de
Petrogrado, não suscitou então qualquer crítica de Lenin.
Relativamente às negociações de Brest
Litovsk os autores da História do Partido Comunista deturpam também os
acontecimentos. Lenin censurou Trotsky,
que era o chefe da delegação soviética, por não ter cumprido as instruções para
assinar a paz com os alemães, mas nunca chamou traidores a ele e a Bukharin,
que assumira uma posição ultraesquerdista, nem a Radek e Piatakov. Afirmam
os referidos historiadores que eles formavam um grupo anti bolchevique que
travou «no seio do partido uma luta furiosa contra Lenin». É falso que
planeavam «prender V.I. Lenin, J.V. Stalin e I.M. Sverdlov, assassiná-los e
formar um novo governo de bukharinistas, trotskistas e sociais revolucionários
de esquerda».
É falso que Trotsky, tendo
«como lugar tenentes na luta Kamenev, Zinoviev e Bukharin, tentava «criar ma
URSS uma organização politica da nova burguesia, partido da restauração
capitalista».



