Notícias e análises sobre temas históricos e da atualidade, abordando história, economia, política e relações internacionais a partir da perspectiva marxista-leninista e das lutas dos trabalhadores contra a exploração capitalista.
A época atual caracteriza-se pelo
imperialismo. O imperialismo é a dominação mundial do capitalismo, a
substituição da livre concorrência pelo monopólio, a formação de uma oligarquia
financeira. É a exportação do capital. É a dominação de uma santíssima trindade
constituída pela indústria pesada, pelos bancos e pelas estradas de ferro. É a
união dos políticos com os financistas. É a união dos políticos com os
industriais. É a internacionalização das relações sociais. É a divisão do mundo
em zonas de influência. É a luta pelas fontes de matérias primas. É a luta
pelas esferas de aplicação do capital. É a luta pelos mercados de escoamento.
Octavio Brandão discursa ao lado de Minervino de Oliveira na porta de uma fábrica.
O imperialismo é a rapina; é o
despovoamento das colônias; é o envenamento pelo álcool e pelo ópio; é o
desespero das multidões famintas e sangrentas; é o desperdício; é o sacrifício
estéril; é o acirramento dos antagonismos econômicos, políticos e psicológicos;
são as guerras de extermínio; é o aperfeiçoamento de todos os meios de
destruição. E é também o desenvolvimento das forças proletárias, o despertar
dos povos coloniais, o avolumar de todos os fatores anticapitalistas.
[...] Eis o
legado do capitalismo: guerras, guerras. Aliás, mil anos que durasse o
capitalismo, durante mil anos haveria guerras causadas pelas jazidas de
petróleo, pela posse dos Dardanelos, pelo carvão do Ruhr, pelo ferro da Lorena,
pelo petróleo de Baku, pela base naval de Cingapura, pela posse dos canais do
Suez e do Panamá.
[...] O imperialismo cria
uma aristocracia operária, base do oportunismo e da traição. Corrói os partidos
“socialistas”, transformando-os em ala “esquerda” da burguesia.
[...]O imperialismo é a rivalidade. É a guerra em
estado latente. A sociedade a dormir sobre um vulcão. É a caldeira sob alta
pressão permanente, prestes a explodir.
[...]
Portanto, se quereis combater o
imperialismo, não tendes outro caminho a não ser o da organização dos
trabalhadores e da criação de um Estado-Maior revolucionário. Tudo o mais é
literatice e ilusionismo de pequeno-burguês.
* Trechos do livro Agrarismo e Industrialismo; Octavio Brandão; (1924); Cap. XIII; Editora Anita Garibaldi; 2006.
No artigo anterior, julgamos
ter mostrado que as concepções e a prática do trotskismo acerca do “partido
revolucionário de vanguarda" são inteiramente opostas à teoria leninista
do partido comunista e da Internacional Comunista. Só por si, elas são uma marca
inconfundível do caráter pequeno-burguês do trotskismo, ainda que este se
mascare com oceanos de fraseologia “marxista”.
Francisco Martins Rodrigues
Tentaremos agora mostrar, na
continuação deste comentário ao 12° congresso da IV Internacional, que as
posições políticas do trotskismo, com a sua teoria da “revolução permanente”,
lhe confirmam por inteiro esse caráter de “marxismo” pequeno-burguês, oposto à
revolução proletária e à ditadura do proletariado.
A
Revolução de Vento em Popa
“A contra-ofensiva
imperialista não conseguiu infligir derrotas decisivas à classe operária em
qualquer dos países imperialistas, nem estabilizar a dominação burguesa no essencial
nos países semicoloniais e semi-industrializados, nem conter o movimento de
massas nas regiões onde está em ascenso, nem restaurar o capitalismo em
qualquer dos países onde foi derrubado”. Pelo contrário, deu-se uma “extensão
da revolução socialista na América Central”, uma “vitória decisiva na
Nicarágua”, o “começo da revolução política na Polónia”.
Esta visão otimista com que
abrem as teses sobre a situação internacional apresentadas ao congresso(1)
parece bastante estranha quando aí se reconhece ao mesmo tempo que o movimento
operário sofre uma “crise de direção revolucionária". O mistério desfaz-se,
porém, quando analisamos as tarefas que a Internacional trotskista propõe e
aquilo que considera como vitórias revolucionárias.
Na realidade, a atitude
típica dos trotskistas, correndo de um lado a outro na previsão de vitórias
decisivas da revolução sempre que há uma situação de crise, de instabilidade ou
de simples alternância burguesa, no Irã, na Polónia, na Nicarágua ou nas
eleições francesas, não resulta de ingenuidade, mas de uma linha política que
merece ser observada mais de perto.
O seu “programa combinado
para a revolução proletária nos países imperialistas, para um processo de
revolução permanente nos países dominados e para a revolução política
anti-burocrática nos Estados operários burocratizados”(2) traduz-se em posições
políticas aparentadas com as dos revisionistas soviéticos, nuns casos, e com as
da socialdemocracia, noutros. Exprime uma concepção extremamente oportunista
das tarefas que se colocam ao proletariado em cada uma das grandes frentes da
revolução mundial.
Ao recusar por sistema a
delimitação clara entre os interesses da pequena burguesia e os interesses do
proletariado, toma por “grandes vitórias” as manobras de recomposição burguesa,
colabora no engano das massas e torna-se uma ponta de lança na grande ofensiva
dos tempos modernos contra a revolução proletária – a hegemonia
pequeno-burguesa sobre a classe operária.
"Revolução
Permanente" na Nicarágua
Examinemos o mais recente
modelo da “revolução permanente” com que sonham os trotskistas – a Nicarágua.
Para a Internacional de Mandel é ponto assente que na Nicarágua “o poder passou
para as mãos dos trabalhadores” em Julho de 1979 e aí “triunfou a revolução
socialista”.
Numa longa resolução sobre
“A revolução centro-amerícana”(3), o 12º Congresso vê nos abalos
revolucionários nesse país e no de El Salvador a demonstração de que “há uma
revolução ininterrupta, permanente, que avança das tarefas democráticas e
anti-imperialistas para as tarefas socialistas”. A conquista do poder pela
Frente Sandinista marcou o “estabelecimento da ditadura do proletariado”, os
“primeiros passos da construção de um Estado operário”. Só por “degenerescência
sectária” se pode negar autenticidade proletária à revolução sandinista, tal
como à cubana ou vietnamita.(4)
Esta apreciação (que aliás
esteve na origem de uma cisão na organização de Mandel em 1979) elucida-nos
sobre uma das faces da teoria trotskista da revolução permanente – o famoso
“transcrescimento das tarefas democráticas nacionais em tarefas socialistas”
nos países dependentes.
Há quem monte vigilância para não deixar
entrar o fascismo pela porta e não o veja entrar pela janela…
O imperialismo e a burguesia promovem a fascistização.
Áustria, Itália, França, Dinamarca,
Holanda… No meio de interrogações e protestos, a extrema direita europeia vai
abrindo caminho como uma força política que já não pode ser ignorada. Os
adeptos da teoria de que a normal rodagem do sistema democrático é o melhor
modo de afastar o perigo fascista ficam embaraçados perante o apoio popular
crescente aos Le Pen e Haider. Tem que se pôr a pergunta: corre a Europa o
risco de ver os neofascistas no poder?
Há quem alegue que esta nova extrema
direita inserida nas instituições nada tem de comum com o fascismo clássico, e
é de fato difícil ver ditadores em potência nos Le Pen ou Haider. Mas também é
ingenuidade demasiada esperar que eles digam agora tudo o que pretendem. Para
já, precisam conquistar força eleitoral afastando receios. O seu verdadeiro
rosto e os seus verdadeiros líderes só noutras condições surgirão.
Asseguram outros que não há razões para
alarme porque o voto nessas forças seria apenas um voto de protesto, sinal de
saudável inconformismo de certas franjas da população. Mas isto é esquecer que
o descontentamento desses eleitores tem um sinal muito especial: eles querem um
Estado forte e uma polícia “musculada” que meta na ordem a juventude dissidente
e feche os imigrantes em guetos ou os expulse. Uma boa parte do eleitorado
europeu defende uma política reacionária.
Naturalmente, esses votantes na extrema
direita são pessoas comuns. São pequenos comerciantes e artesãos enraivecidos
contra os regulamentos de Bruxelas e contra os “vadios” que vivem à custa do
rendimento mínimo; camponeses em desespero devido à concorrência demolidora das
multinacionais; aposentados, sensíveis à intoxicação sobre a insegurança;
jovens totalmente despolitizados, que julgam assim exprimir a sua rebeldia
contra o trabalho precário; assalariados, saturados das trampolinices dos
partidos do sistema, operários de regiões industriais sinistradas, triturados
pela engrenagem das “reestruturações” e pelos despedimentos em massa, que
chegaram ao ponto de ver uma última esperança em demagogos reles. Por duro que
pareça, quem recolheu mais votos operários nas últimas eleições presidenciais
francesas foi Le Pen.
E assim como os antigos fascistas
cresceram ao canalizar as frustrações dos setores populares desorientados para
um alvo preciso (a “conspiração judaico-plutocrática-bolchevista”), também o
fascismo atual cresce apoiado no novo bode expiatório – os imigrantes africanos
e árabes, que “trazem consigo a miséria, a insegurança e, quem sabe, os
atentados terroristas”… A divisão da classe operária entre nacionais e
imigrantes, concorrendo entre si e ignorando-se mutuamente, é hoje, sem dúvida,
um imenso fator de risco que a campanha “antiterrorista” veio acentuar.
Não tenhamos dúvida de que começam a
reunir-se na Europa os ingredientes propícios para um ascenso fascista. Na sua
esmagadora maioria os votantes nos Fortuyn, Haider, Le Pen e Cia. não são
adeptos conscientes do regime fascista. Tal como não o eram os milhões que há
70 anos elegeram Hitler. Aspiram a um Estado que os proteja da crise e lhes dê
ordem e sossego – e isso conduz ao fascismo.
Mas isto não quer dizer que o perigo fascista
se esteja a materializar pela sua face mais visível, pelos Le Pen e Cia. Ele
tem outra face menos espalhafatosa, mas muito mais poderosa. Como acaba de se
ver em França: em “defesa” contra o fascismo, eleger políticos “democratas”
cada vez mais reacionários, que em nome do “Estado de direito” vão
tranquilamente tomando as mesmas medidas propostas pelos fascistas. Para Aznar,
Chirac, Schroder, a extrema direita é útil porque cria o ambiente de pânico
securitário e de desorientação propício às medidas que eles próprios têm que
adotar. Como dizia há dois anos o fascista austríaco Haider: “Comparem o meu
programa com o de Tony Blair e vejam como são semelhantes”. Os neofascistas
abrem caminho, os “democratas” levam à prática.
Porque a realidade é que as classes
políticas dirigentes europeias, hoje, seja qual for a sua tendência ou o seu
emblema — liberais, socialistas, cristãos, verdes, ecologistas, “comunistas” —,
sempre que passam pelo governo, cumprem o programa fascizante que lhes cabe
como comissários da grande Europa do Capital: poder irrestrito das
multinacionais, corte nos gastos sociais, desorganização do movimento operário,
repressão dos imigrantes, montagem de um monstruoso sistema de vigilância,
bombardeamento midiático, criminalização dos movimentos dissidentes,
participação em expedições imperialistas.
Nesta época de agonia do sistema, a
democracia burguesa também agoniza, o fascismo brota por todos os poros do
regime político. A burguesia não pode dispensar uma sociedade sem entraves à caça
ao lucro, “bem ordenada”, de pensamento único, embrutecida pela alienação e
pelo medo – e isto é fascismo. Um fascismo diferente do antigo, claro, com
armas nucleares, vigilância electrónica, uma máquina mediática avassaladora, a
corrupção universal – e que por isso mesmo precisa ser administrado por
aparelhos altamente profissionais.
A grande desvantagem dos Le Pen, Haider,
Bossi, Fortuyn, etc., em comparação com os seus antecessores é pois essa: os
homens do grande capital não estão ainda a apostar neles como forças de governo
porque confiam as tarefas essenciais da fascistização da sociedade aos partidos
e aos meios “democráticos”. Aos fascistas é atribuído o papel auxiliar de
catalisadores de correntes reacionárias. Por isso mesmo não recebem meios financeiros
e apoio policial e midiático para criar milícias armadas e partidos de massa.
Mas não haja dúvida. Se amanhã, em
situação de crise e de convulsão, os grupos financeiros que governam a Europa
resolverem apostar em governos “fortes”, os tarados folclóricos de cabeça
rapada e braço estendido voltarão a ser uma ameaça mortal. A burguesia chamará
ao ativo as suas forças políticas de reserva. Os partidos fascistas de combate
surgirão. O terrorismo na Itália dos anos 70 foi uma boa indicação a esse respeito.
Os apelos à frente comum com os grandes
partidos do sistema para “barrar o caminho ao fascismo” levam-nos diretamente
para a boca do lobo. Entre os grandes partidos “democráticos” e os neofascistas
há uma corrente contínua. A luta direta contra os neofascistas tem que ser
inscrita como parte da luta geral contra a “democracia” fascistizante do grande
capital, pela expropriação da burguesia, pela democracia dos trabalhadores.
** Militante revolucionário de longa data, Francisco Martins Rodrigues foi membro do CC do Partido Comunista Português e viria a romper com o seu reformismo por altura da polêmica sino-soviética, fundando a FAP e o CMLP, a primeira organização marxista-leninista portuguesa. Foi o primeiro a introduzir em Portugal de uma forma organizada as lições da revolução chinesa e o exemplo de Mao Tsétung. Preso várias vezes e barbaramente torturado pela PIDE, manteve-se ao longo de toda a sua vida do lado da Revolução e empenhado na organização de uma corrente comunista revolucionária. O 25 de Abril de 1974 apanhou o camarada "Chico" na prisão e os militares "democratas" do MFA tentaram mantê-lo preso. Só a forte vontade popular e grandes manifestações à porta da prisão o conseguiram libertar. A partir de 1985 e até morrer em 2008 foi diretor da revista "Política Operária", que também fundou. É em nome da prioridade do papel do operariado que, em 1984, abandona o PCP (R) e a UDP, acusando os outros dirigentes de cedências à pequena burguesia. Escreve então o livro "Anti-Dimitrov. 1935-1985 meio-século de derrotas da Revolução" (1985), onde sistematiza a sua crítica ao dimitrovismo, ao estalinismo e ao maoismo. Funda a "Política Operária", a sua última revista, que manteve praticamente até à morte.
No Brasil a devastação promovida pelas grandes mineradoras sempre obteve a cobertura do Estado burguês. O rompimento da barragem da Vale em Brumadinho foi mais um desses graves episódios, uma sequência de crimes contra o meio ambiente e a humanidade que desmoralizam a grande farsa chamada "capitalismo sustentável" ou "capitalismo verde". O artigo que reproduzimos abaixo apresenta um pequeno panorama das violações cometidas por essas multinacionais da mineração na América Latina. Ressaltamos que não se tratam de exceções, mas sim, confirmação da regra do capitalismo na sua fase imperialista: saque e exploração dos países periféricos em benefício da acumulação de capital nos países centrais do sistema capitalista mundial.
Brumadinho, símbolo dos crimes das grandes mineradoras.
Juan Parrilla
No dia 10 de abril, um grupo de desconhecidos encapuzados lançou um coquetel Molotov que incendiou os escritórios da mineradora Agua Rica, em Andalgalá, na província argentina de Catamarca. Foi durante uma passeata de bairro que há mais de uma década se manifestam todos os sábados a favor do meio ambiente, sempre de forma pacífica. Apesar da falta de provas, já que tudo indicava que eram "infiltrados", um procurador que trabalhava para o setor de mineração ordenou a prisão de 12 moradores. A maioria passou duas semanas na prisão.
No dia de sua libertação, a mais de 5 mil quilômetros dali, em Honduras, oito pessoas cumpriam pena de 20 a 30 meses de prisão. Eles permanecem detidos após uma série de protestos contra um projeto de mineração Inversiones Los Pinares. Eles fazem parte de um caso em que 32 moradores, incluindo um morto, estão sendo julgados por associação ilícita pelos mesmos tribunais que foram criados para investigar o crime organizado.
Ambos os casos mostram uma das faces mais sombrias da megamineração na América Latina. Com graus variados de violência, as receitas de combate à falta de licença social se repetem: assassinatos, prisões, despejos forçados, criminalização, irregularidades judiciais, forças de segurança com poder de polícia e corrupção. Onde há mineração, há conflito social, a democracia vira ficção e a vida muda para sempre.
O setor mais perigoso
De acordo com o último relatório da organização Global Witness , a América Latina é a região com o maior número de defensores ambientais assassinados, com dois terços dos casos em 2019 . O triste ranking daquele ano foi liderado pela Colômbia, com 64 vítimas fatais. Cinco dos seis países seguintes são da região: Brasil (24), México (18), Honduras (14), Guatemala (12) e Venezuela (8). A mineração foi o setor mais perigoso, com 50 crimes.
Receita C : Pablo Iglesias para PxP.
Até o momento, o Observatório de Conflitos de Mineração da América Latina (OCMAL) registra 284 conflitos sociais sobre megamineração. A maioria, no México, Chile e Peru, seguidos por Argentina, Brasil e Colômbia. Por trás da frieza dos números existem pessoas. E por trás deles, uma família, uma comunidade, uma história desconectada dos grandes centros urbanos e da vida democrática.
Apesar do influxo de capital chinês e da presença significativa de empresas britânicas, mais da metade dos empreendimentos de mineração na região continuam sendo propriedade de empresas canadenses. Enquanto o primeiro-ministro Justin Trudeau pressiona por sanções com os Estados Unidos para países com leis climáticas fracas, o encarregado de negócios de suas embaixadas faz lobby a favor das mineradoras ligadas a processos de violência, corrupção e poluição.
Estupros e abusos
É o caso da mina Fénix, na margem norte do Lago Izabal, na Guatemala, em territórios reivindicados pela comunidade maia Q'eqchi. O conflito levou a três ações judiciais no Superior Tribunal de Justiça de Ontário por acusações contra as empresas canadenses HudBay Minerals e HMI Nickel e sua subsidiária CGN. São os únicos processos em que os tribunais daquele país aceitam ações contra uma empresa local por violações de direitos humanos no exterior.
A primeira dessas ações é por abuso sexual de 11 mulheres, em 17 de janeiro de 2007, por policiais, militares e seguranças vestindo roupas da mineradora CGN, durante a expulsão de cem famílias da comunidade do Lote Oito.
Os advogados canadenses, os advogados Cory Wanless e Murray Klippenstein, em Toronto, com quatro dos demandantes guatemaltecos: Elena Choc, Amalia Cac e Carmela Caal, que denunciou o abuso, e Angelica Choc, viúva de um professor assassinado. Crédito: Grahame Russell.
Uma das vítimas, Rosa Elbira Coc Ich, disse que nove homens invadiram sua casa procurando seu marido e a estupraram. Hoje, ela não pode ter filhos, possivelmente devido aos ferimentos que sofreu. Entre as vítimas, também há mulheres grávidas que perderam seus bebês.
Como parte do julgamento, as mineradoras tiveram que entregar cerca de 20.000 documentos internos aos demandantes. “Há evidências de que a CGN pagou centenas de milhares de dólares aos soldados e à polícia para realizar os despejos ” , enfatiza a advogada canadense Grahame Russell, diretora da Rights Action , uma das ONGs que colaboram com as comunidades afetadas.
Outra ação é pelo crime do professor Adolfo Ich, em 27 de setembro de 2009, em meio a novas ameaças de despejos. Sua esposa e denunciante, Angélica Chub, lembra que o chefe da segurança do projeto, o ex-coronel Mynor Padilla, havia chamado o marido para conversar, mas um grupo de funcionários da empresa começou a espancá-lo e arrastá-lo para dentro da mineradora. “Uma vez lá, um membro das forças de segurança de Phoenix o atacou com um facão. Aí Mynor Padilla se aproximou e deu um tiro no pescoço ” , analisa a denúncia.
O dia terminou com sete outros residentes feridos por tiros. Um deles é Germán Chub Coc, que ficou paraplégico. Ele é o terceiro demandante nos tribunais de Ontário.
Estratégia de atrito
A canadense Pan American Silver é outra das empresas carro - chefe da região , com presença em cinco países. Opera dois projetos no México, incluindo La Colorada, em Zacatecas, a maior mina da empresa. Foi inaugurado em 2004 e uma década depois deu início a um processo de expansão que desencadeou um conflito de terras com os habitantes da área.
Após dois anos de ameaças, em 13 de janeiro de 2017, o pessoal da segurança Pan American Silver armado com armas longas forçou 46 famílias a desocupar as terras que sua comunidade ocupava por quase um século. Suas casas foram destruídas e todos eles foram transferidos para casas de lata que lhes foram emprestadas, dentro de um conjunto habitacional que funciona quase como um gueto, a 200 metros da entrada da mina, em meio ao barulho de máquinas e respiradores, e com um perímetro cabeado e iluminado 24 horas por dia, o que dificulta o descanso.
Escola em Zacatecas, onde fica La Colorada, a maior mina de prata Pan-americana do México. Crédito: Comunidade La Colorada.
Moradores denunciam que tudo faz parte de uma estratégia de atrito para forçá-los a deixar a área, iniciada quando a mineradora demitiu funcionários que moravam na comunidade. A tortura psicológica se completa com um rígido regulamento elaborado pela empresa. Os moradores garantem que não podem nem comemorar aniversário fora de casa e que não são permitidos ruídos a partir das 23h. Eles também não podem criar animais para se alimentar e até regulamentaram os tipos de animais de estimação que podem ter. Se arranham um móvel, são multados em 300 pesos. Eles tiveram sua água cortada por mais de um mês.
Feliz Natal?
Apesar desse e de outros antecedentes, como a contaminação do entorno da mina Quiruvilca, no Peru, a Pan American Silver tenta avançar no sul da Argentina, em Chubut, com o projeto Navidad, em um processo repleto de subjugação das instituições democráticas. Isso inclui repressão e prisões, uma câmera escondida de um deputado provincial pedindo dinheiro para fazer lobby, um áudio de outro legislador revelando que subornos foram pagos e a foto do celular de um terceiro deputado que, no meio da sessão, recebeu uma mensagem com instruções de um gerente de uma empresa de mineração para distorcer o conteúdo de uma iniciativa popular.
A imagem do escândalo em Chubut (Argentina). O legislador Gustavo Muñiz foi fotografado ao aparentemente receber instruções do gerente de uma mineradora.
O projeto Navidad, porém, tem um obstáculo: a mineração a céu aberto e o uso de cianeto são proibidos na província de Chubut , após consulta popular na cidade de Esquel, em 2003. Foi a segunda consulta realizada na América Latina sobre mega -minagem e tomou como referência a experiência inédita de Tambogrande, na província peruana de Piura, em junho de 2002.
No total, OCMAL contabilizou 39 consultas populares na região, mas concentradas em apenas seis países. Embora os governos nem sempre tenham reconhecido essas eleições e às vezes tenham usado dispositivos legais para contornar seus resultados, muitos conseguiram modificar, atrasar e até mesmo interromper projetos.
Outra forma de participação direta são as consultas prévias, mas geralmente são uma mera formalidade cujos resultados não são levados em consideração. Situação semelhante ocorreu em Honduras, no entorno das concessões ASP 1 e ASP 2 da Inversiones Los Pinares, um dos casos descritos no início deste artigo. Em 29 de novembro de 2019, houve uma abertura da Câmara Municipal no município de Tocoa, Colón, da qual participaram cerca de 3.500 pessoas, segundo atas oficiais, embora os moradores digam que foram muitas mais. Apesar de os moradores declararem o município livre de mineração, a empresa informou que isso "não afeta em nada" o seu funcionamento.
"A água parecia suco de tamarindo"
O conflito, como outros na região, havia começado em sigilo absoluto, quando o Congresso promoveu, um ano após sua criação, a redução da área central do Parque Nacional da Montaña de Botaderos, para abrir caminho para a exploração do ferro. óxido.
“Encontramos um muro terrível em todos os níveis: municipalidade, governo central e empresa”, lembra Juan Antonio López, morador de Tocoa e líder da oposição ao projeto de mineração.
O gatilho para o capítulo mais sombrio do conflito começou a ser escrito em abril de 2018, durante a construção das estradas de acesso ao empreendimento. Não é novidade: é comum que os primeiros efeitos da presença de mineradoras em um local sejam percebidos quando as vias de acesso são abertas, devido à poeira das explosões. Um antecedente conhecido é o do projeto binacional Pascua Lama, entre Chile e Argentina, onde a justiça chilena paralisou as obras por creditar a presença de uma camada de poeira sobre duas geleiras.
Manifestações contra a megamineração em Honduras. Crédito: Fundação San Alonso Rodríguez.
No caso hondurenho, a poeira era visível nos rios Guapinol e San Pedro e em seus afluentes. “A água parecia suco de tamarindo”, lembram os vizinhos. Isso mobilizou comunidades que não haviam protestado até então.
Os moradores ocuparam o prédio municipal por duas semanas. Também bloquearam a estrada de acesso à empresa e paralisaram a atividade. Eles pediram para dialogar com o governo, mas as autoridades os chamaram para negociar com a empresa. Eles estavam procurando um acordo econômico. “Eles até nos disseram que o Estado não era responsável pelo que poderia acontecer conosco” , lembra López.
Criminalização dos defensores
Durante um dos muitos protestos, segundo o relato dos moradores, foi disparado um tiro de um veículo da empresa que feriu um manifestante. A reação dos vizinhos foi reter o chefe da segurança da mina, que foi entregue à polícia. E a resposta do Estado foi brutal: em setembro de 2018, o Ministério Público iniciou uma ação criminal contra 18 moradores.
A criminalização estava em andamento, mas a lição não foi suficiente e em fevereiro de 2019 outras 14 pessoas foram imputadas, 32 no total. Eles foram acusados de cometer seis crimes, incluindo o de associação ilícita. Oito deles continuam detidos e outros cinco correm o risco de ser presos.
Crédito: Aníbal Aguisol.
A estratégia não é acidental. Uma investigação recente da Mongabay constatou que, entre Peru, Colômbia, México e Equador, há 156 defensores ambientais criminalizados, 58 deles - a maioria - por conflitos relacionados à megamineração.
Um dos acusados em Honduras é Juan Antonio López. É considerado pelo Ministério Público como o chefe do grupo, uma espécie de traficante no melhor estilo de Pablo Escobar, mas que, ao invés de fazer negócios ilegais, pede que uma mineradora não se instale em área protegida por lei, em das quais Existem 34 fontes de água das quais milhares de pessoas dependem.