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terça-feira, 3 de novembro de 2020

"Acompanhando as Massas Peronistas" (Ao abismo)

 Leandro Gamarra

   Ao presidente Alberto Fernández já não pedimos que exproprie Vicentín¹ ou institua o imposto sobre a fortuna por decreto.

Repressão para expulsar famílias sem teto em Guernica.


   O que pedimos a você neste momento do jogo é que pelo menos controle o preço de um quilo de limões, ou de uma dúzia de ovos, cada vez mais fora do alcance do bolso do trabalhador. 

   Não é uma piada. Porque se analisarmos em profundidade neste contexto de pandemia global causada por um vírus, é um verdadeiro absurdo que um assalariado não possa garantir algo tão básico quanto a possibilidade de incorporar uma boa dose de vitamina C e de proteínas em seu metabolismo e no de seus filhos através dos alimentos que ele produz. Principalmente em um país onde o solo produziu, só em 2019, 134 milhões de toneladas de cereais e oleaginosas a um valor de mercado, incluindo subprodutos de 33.962 milhões de dólares. As dores são nossas, as commodities dos outros ...

   Mas caramba, o que vamos pedir a um governo que, sem a menor vocação para deter as mãos do grande capital, deixou o destino de milhões de trabalhadores, em sua maioria precários e sem cobertura de saúde, forçados aos caprichos do deus do mercado, enfrentarem diariamente a possibilidade de contágio em troca de um salário que não dá para nada, ou de um miserável bico.

   Porque não é mais o vírus. Digamos de uma vez por todas, Alberto Fernández não consegue mais parar nem um táxi.

   Não somos astrólogos nem iluminados, bastava raciocinar com instinto e consciência de classe para anteciparmos há pouco mais de um ano, quando avisamos aos nossos e aos demais que este seria um governo de ajuste e repressão. Não é preciso ser um gênio para saber como pode se desenvolver o bloco bonapartista do esquema republicano burguês, neste caso representado pela ménage troi Alberto-Cristina-Massa, quando quem o precede na administração do Estado não deixa nem um tostão para fazer política, ou para criar a ilusão populista de uma suposta redistribuição de riqueza. Não senhores. Quando não há mais soja a 600 dólares a tonelada, ou quando o capitalismo global ainda tenta se recuperar da crise de 2008 (mais a crise que está por vir), o populismo, como sempre aconteceu na história, tira a máscara, mostra os dentes de classe e sua pouca propensão a reduzir a renda dos mais ricos.

   Nesse panorama de devastação, no dia 29 de outubro, ocorreram dois fatos, um notório, o outro nem tanto, que definem de forma categórica a política antipopular dessa continuidade Macrista denominada “Frente de todos”.

   Por trás dos fatos sinistros da triste manhã de Guernica, onde as forças repressivas a mando da patética dupla Kicillof-Berni espancaram e, inclusive balearam mulheres, crianças e homens desarmados (fato que foi festejado pelo próprio Eduardo Feinmann no seu programa de rádio), foi divulgada na área financeira a notícia de que os títulos da dívida argentina já estão sendo negociados como antes da última troca. Traduzido para quem acertadamente sente que os movimentos das finanças são um hieróglifo: após o anúncio com grande alarde da última troca com redução de juros, em pouco menos de 4 meses a Argentina se vê novamente diante da possibilidade de um calote, isto é, às portas de uma nova troca de títulos de dívida. Sem contar as duras medidas que estão negociando nas sombras com a “muito sensível diretora do FMI, porque viveu quando criança a pobreza de um país comunista” – segundo as palavras do atual presidente.

   Até o economista burguês Julián Yosovitch explica: “Quando o título é avaliado em sua paridade, o que começamos a fazer é determinar quanto valerá o novo título a ser entregue em troca como resultado do processo de reestruturação, ou o que este bônus permitirá que você recupere após a reestruturação. Ou seja, se trada de um valor de recuperação no qual o mercado especula quanto valerá cada um desses títulos quando não sirvam para outra coisa, mas para serem trocados pelos novos títulos que serão entregues em reestruturação da dívida ".

   É que além das proclamações e slogans nac & pop, quem sabe melhor do que ninguém que a dívida argentina é impagável são os mesmos usurários. E para isso contam com governos como este, ou o de Macri, que arbitram o tempo todo a favor dos seus interesses, seja emitindo e endividando internamente o Estados, seja pedindo socorro aos organismos financeiros internacionais quando já não houver mais um único peso para financiar a administração do Estado burguês. Sempre desenhando esquemas de reestruturação permanente que nada mais fazem do que aperfeiçoar o sistema de Dívida Perpétua instalado por sangue, fogo, tortura e desaparecimentos pela ditadura há quase 45 anos. Essa é a verdade. Todo o resto é papelão pintado. Ou colocado de uma forma mais marxista, essa é a realidade efetiva que se oculta por trás das aparências e as supostas “boas intenções” do bonapartismo.

   Continuar sustentando o contrário, tratando de disfarçar o que aos olhos de todo o planeta é uma nova demonstração das limitações do sistema político do capitalismo para resolver os problemas fundamentais dos trabalhadores, é seguir ajoelhando a militância diante do fato irreversível de um fracasso histórico sem precedentes. Fique claro, os dirigentes que conduziram o PC a formar parte de um governo que ajusta, reprime e assassina, são e serão os únicos responsáveis.

Notas do editor:

¹ Conglomerado agropecuário argentino que possui cerca de 25 empresas, principal cerealífera do país, está em processo de quebra e sob investigação judicial por fraude em empréstimos e fuga de capitais.

Edição e tradução: Página 1917.

Fonte: https://revistacentenario.com/acompanando-a-las-masas-peronistas-al-abismo/

sábado, 31 de outubro de 2020

Carta à Comissão Executiva do PCB

Sobre a carta de Mariguella à direção do PCB, de 1966, podemos dizer que ela guarda muitas atualidades, face a adaptação à democracia burguesa por parte dos partidos, que se dizendo "comunistas", seguem praticando o mesmo reboquismo político ideológico típico de organizações pequeno-burguesas. (nota do editor)


Carlos Marighella

1 de Dezembro de 1966

Prezados Camaradas



Escrevo-lhes para pedir demissão da atual Executiva.

Os contrastes de nossas posições políticas e ideológicas é demasiado grande e existe entre nós uma situação insustentável.

Na vida de um combatente, é preferível renunciar a um convívio formal a ter de ficar em choque com a própria consciência.

Nada tenho a opor aos camaradas pessoalmente.

No trabalho sob o título "Luta interna e dialética", publicado na Tribuna de Debate e em um folheto, procurei tornar clara a ideia que tenho sobre a necessidade do tom pessoal na luta interna.

Na verdade, nenhuma pessoa por si só está em condições de determinar a marcha da história, coisa que compete, sem nenhuma dúvida e antes de mais nada às massas trabalhadoras.

O que torna ineficaz a executiva é a sua falta de mobilidade, é não exercer o comando efetivo e direto do Partido nas empresas fundamentais do país, é não ter atuação direta entre os camponeses.

O centro de gravidade do trabalho executivo repousa em fazer reuniões, redigir notas políticas e elaborar informes. Não há assim ação planejada, a atividade não gira em torno da luta. Nos momentos excepcionais, o Partido inevitavelmente estará sem condutos para mover-se, não ouvirá a voz do comando, como já aconteceu em face da renúncia de Jânio e da deposição de Goulart.

Solicitando demissão da atual Executiva — como o faço aqui —, desejo tornar público que minha disposição é lutar revolucionariamente junto com as massas e jamais ficar à espera das regras do jogo político burocrático e convencional que impera na liderança.

1. A Circulação da Ideias

Uma das questões em que a Executiva se mostra temerosa e conservadora é quanto ao aparecimento de livros e à circulação de ideias.

Acerca de um ano e meio publiquei o livro Por que resisti à prisão.

A experiência das lideranças passadas em matéria de lançamento de livros não é boa. As direções executivas dificultavam ou impediam tal coisa por meio de subterfúgios, retendo originais ou exercendo a censura prévia.

Os camaradas da Executiva atual reclamam, entretanto, que só a posteriori tomaram conhecimento do livro mencionado.

Mesmo assim não o discutiram; sobre ele não emitiram nenhuma opinião, apesar de interpelados por militantes e outros dirigentes.

Agora, passado mais de um ano, os companheiros fazem autocrítica pela omissão e opinam sobre o livro, considerando boa a primeira parte (que faz o relato da prisão). Não concordam, porém, com a segunda parte (que expõe os assuntos ideológicos e políticos), porque esta — segundo pensam — é contra a atual linha do Partido.

Parece estranho condenar uma parte do livro e não condenar igualmente a outra.

As duas partes são indivisíveis. Uma é decorrência da outra. Há uma interação entre elas, uma relação de causa e efeito. A resistência à prisão não teria havido se os motivos políticos expostos no livro não a justificassem.

Os companheiros, porém, não atentam para essa evidência. Entram pelo terreno da abstração e do agnosticismo kantista e separam coisas inseparáveis.

E vão mais além, sustentando a tese de que um membro da liderança não pode escrever, publicamente, discordando.

A tese é stalinista, mas aí a temos de volta.

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

O que é o marxismo-leninismo?

 Florestan Fernandes

   Desde o início de suas atividades intelectuais e políticas, Lênin sempre se considerou um marxista – e, o que é mais importante, sempre procurou ser um marxista ortodoxo. Por isso, não se contentou com a rica produção socialista que encontrou à sua disposição como jovem: foi diretamente aos textos de Marx e Engels, estudou-os sistematicamente e aos poucos tentou dominar também os autores que estavam nas raízes da formação do marxismo. A sua primeira obra de grande envergadura, O Desenvolvimento do Capitalismo na Rússia, evidencia três coisas:

1 - Completo domínio crítico das teorias econômicas de Marx e do materialismo histórico;

2 - Aplicação exclusiva dessas teorias na descrição e interpretação dos fatos (isto é, sem qualquer modalidade erudita de ecletismo);

3 - As teorias econômicas de Marx forneciam “hipóteses diretrizes”, estando longe de ser a fonte de um dogmatismo estéril: o que assegurava a marcha criadora da investigação, que se abria para a descoberta tanto do que era geral, quanto para o que era peculiar à manifestação do capitalismo na Rússia.



   Esse estilo de trabalho aparece com igual maestria nos escritos especificamente políticos da época, principalmente naqueles em que faz a crítica marxista do “populismo” e “economicismo” no movimento socialista russo. Portanto, as aplicações do marxismo ao plano prático revelam o mesmo espírito de identificação congruente, a um tempo flexível, mas intransigente com os princípios do socialismo revolucionário. Que Fazer?, como obra de síntese e de superação das experiências políticas acumuladas durante o período de formação, constitui a face política das descobertas históricas e econômicas contidas em O Desenvolvimento do Capitalismo na Rússia. Sua total fidelidade ao marxismo não pressupunha a “repetição de Marx” ou a ossificação da dialética, e sim a busca de caminhos novos, que só o marxismo podia desvendar, desde que aplicado de forma precisa, exigente e imaginativa, como um saber vivo, em intrínseca conexão com a vida.

   Na cisão de 1903, vários bolcheviques, mais intimamente associados a Lênin e à sua liderança política, foram designados como “leninistas” (palavra que reaparece em outros contextos e mesmo, de passagem, em escritos de Lênin). No entanto, após a reviravolta de abril e a tomada do poder, o “leninismo” ganhou expressão política, que se acentuou graças á luta pela sucessão de Lênin após sua morte. O “leninismo”, assim entendido, significa pouca coisa: na primeira acepção, “seguidor de Lênin”, no sentido de uma oposição intransigente ao reformismo, e ao oportunismo; na segunda acepção, alguém que fazia profissão de fé diante da natureza revolucionária do partido comunista, da ditadura do proletariado e do Estado soviético (e, implicitamente, no desdobramento das etapas de transição para o socialismo e para o comunismo). Ora, se isso fosse tudo, não haveria razão para o uso crescente da expressão marxismo-leninismo, que finalmente se universalizou e se viu consagrada de modo definitivo. O legado de Lênin transformou o marxismo e é essa transformação que nos interessa aqui.

sábado, 24 de outubro de 2020

Luta Interna e Dialética*

 Carlos Marighella

Todos os partidos do proletariado que foram adiante e obtiveram vitórias — inclusive chegando ao poder — passaram por um processo mais ou menos agudo de luta interna. Isto aconteceu na URSS, na China, em Cuba e outros países.

Mariguella após deixar a prisão, em 31 julho de 1964.
   A experiência histórica brasileira mostra — por sua vez — que todos os passos para a frente em questões de orientação ou de correção da erros, na vanguarda do proletariado, sempre foram acompanhados de intensa luta interna.

   Foi o que se deu em 1942-1945 (período do Estado Novo) e em 1956-1958 (período da discussão do culto à personalidade). É o que se dá agora, no período da derrota imposta ao nosso povo pelo golpe militar-fascista de 1º de abril de 1964.

Que é a luta interna, como e por que ocorre no partido marxista do proletariado?

   A luta interna é o choque que sobrevém no seio do partido, quando se confrontam ideias contrárias, relacionadas com a prática na atividade dos militantes.

   A dialética marxista incumbe-se de explicar o mecanismo da luta interna e sua natureza intrínseca, isto é, sua natureza própria, peculiar.

   A dialética marxista mostra que, no mundo, tudo é inter-relacionado, tudo se desenvolve, quer se trate da natureza, da sociedade humana ou do pensamento. A vanguarda do proletariado brasileiro, que é um organismo social vivo, representando interesses políticos e ideológicos de uma determinada classe, não foge aos princípios da dialética marxista. O que se passa na vanguarda de nosso proletariado obedece às leis fundamentais da dialética marxista. A ideologia do partido é uma ideologia determinada, é a ideologia do proletariado. Sobre ela, porém, exerce uma enorme influência a ideologia burguesa, vinda do exterior.

   O choque é inevitável, sobretudo nos momentos de derrota do proletariado, quando a ideologia burguesa aproveita as brechas ocorridas no seio da vanguarda e penetra mais fundo.

   A derrota do partido marxista do proletariado é — via de regra — consequência de erros que se localizam na incompleta acumulação ideológica no seio da vanguarda ou na influência demasiado acentuada da ideologia burguesa. Outras causas de erros podem subsistir. Mas o fundamental consiste em causas ideológicas.

   Devido, pois, ao papel ativo das ideias na sociedade e no partido marxista do proletariado, a luta interna deve obrigatoriamente ser tratada como luta ideológica, não podendo ser levada a efeito, com resultados positivos, se não obedecer às leis da dialética materialista, aos princípios da filosofia marxista.

   Sob o ponto-de-vista dos princípios, o primeiro cuidado na luta interna é não tratá-la como luta entre inimigos.

   O partido em seu conjunto luta contra os inimigos de classe. Sua finalidade é assegurar a direção da luta de classes dos trabalhadores — e como consequência a direção da luta de todo o povo pela sua libertação, a paz, o progresso, o socialismo.

   A luta interna é chamada luta interna, no partido marxista do proletariado, exatamente para diferençá-la da luta que ele — o partido marxista — trava e dirige em nome dos interesses políticos e ideológicos do proletariado e de todo o povo, contra os inimigos da classe operária e da nação brasileira, contra o imperialismo, contra o latifúndio, contra as classes exploradoras, contra tudo o que freia o progresso, a marcha para a frente.

   A luta interna não é um reflexo da luta de classes nem a própria luta de classes no interior do partido.

   No interior do partido não há tal, porque o partido não é uma organização composta de classes opostas.

   Os membros do partido lutam pelos objetivos de classe do proletariado e esforçam-se por [para] que sua consciência seja uma só — a consciência do proletariado.

   Os conflitos que surgem no partido não provêm de choques de classes diferentes, atuando internamente, mas de influências ideológicas das classes que exteriormente são hostis ao desenvolvimento da consciência de classe do proletariado e de seu partido.

   Os que discordam no interior do partido não são inimigos de classe. As discordâncias são uma contingência dialética do desenvolvimento da consciência e derem ser toleradas e admitidas normalmente.

   Na luta interna não se trata de liquidar quadros. Não se trata de aplicar medidas de coação.

   Quando a luta interna é encarada como luta de classes no interior do partido, estamos em face de um desvio, de um desvirtuamento do marxismo e sua filosofia.

   Ter a luta interna na conta de luta de classes (ou de uma forma de luta de classes) é um procedimento que estimula a prepotência, favorece o clima do culto à personalidade, fomenta o poderio individual ou a luta de grupos.

   É igualmente errôneo considerar a luta interna como luta desordenada, visando a desrespeitar o centralismo democrático, principio diretor da estrutura e funcionamento do partido, onde a unidade e a disciplina permanecem necessária e obrigatoriamente como fundamentos partidários.

   Difundir a intolerância, exercer qualquer tipo da coação, liquidar quadros, fracionar, abalar a unidade e a disciplina, são métodos condenáveis e condenados na luta interna.

   Não sendo uma luta entre inimigos, a luta interna tem que obedecer necessariamente a um método capaz de fazer avançar o partido marxista do proletariado, sem destruí-lo internamente e sem debilitar a sua unidade ou enfraquecê-lo perante o inimigo de classe.

   Dentro do partido não se pode evitar a luta interna. Os que pensam impedir ou deter a luta interna (ou diante dela se omitem) desconhecem a inexorabilidade das leis que presidem ao desenvolvimento social.

   A luta Interna, como qualquer outra luta que diz respeito a relações entre os homens, não é desencadeada por forças cegas, espontâneas. Ao contrário, a luta interna, assim como qualquer outra lei objetiva do desenvolvimento social, manifesta-se através da ação dos indivíduos. Estes, a princípio, podem ser surpreendidos com a manifestação das leis objetivas. Ou podem ser levados a exageros e excessos ao interpretá-las, ou à omissão.

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