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sábado, 31 de outubro de 2020

Carta à Comissão Executiva do PCB

Sobre a carta de Mariguella à direção do PCB, de 1966, podemos dizer que ela guarda muitas atualidades, face a adaptação à democracia burguesa por parte dos partidos, que se dizendo "comunistas", seguem praticando o mesmo reboquismo político ideológico típico de organizações pequeno-burguesas. (nota do editor)


Carlos Marighella

1 de Dezembro de 1966

Prezados Camaradas



Escrevo-lhes para pedir demissão da atual Executiva.

Os contrastes de nossas posições políticas e ideológicas é demasiado grande e existe entre nós uma situação insustentável.

Na vida de um combatente, é preferível renunciar a um convívio formal a ter de ficar em choque com a própria consciência.

Nada tenho a opor aos camaradas pessoalmente.

No trabalho sob o título "Luta interna e dialética", publicado na Tribuna de Debate e em um folheto, procurei tornar clara a ideia que tenho sobre a necessidade do tom pessoal na luta interna.

Na verdade, nenhuma pessoa por si só está em condições de determinar a marcha da história, coisa que compete, sem nenhuma dúvida e antes de mais nada às massas trabalhadoras.

O que torna ineficaz a executiva é a sua falta de mobilidade, é não exercer o comando efetivo e direto do Partido nas empresas fundamentais do país, é não ter atuação direta entre os camponeses.

O centro de gravidade do trabalho executivo repousa em fazer reuniões, redigir notas políticas e elaborar informes. Não há assim ação planejada, a atividade não gira em torno da luta. Nos momentos excepcionais, o Partido inevitavelmente estará sem condutos para mover-se, não ouvirá a voz do comando, como já aconteceu em face da renúncia de Jânio e da deposição de Goulart.

Solicitando demissão da atual Executiva — como o faço aqui —, desejo tornar público que minha disposição é lutar revolucionariamente junto com as massas e jamais ficar à espera das regras do jogo político burocrático e convencional que impera na liderança.

1. A Circulação da Ideias

Uma das questões em que a Executiva se mostra temerosa e conservadora é quanto ao aparecimento de livros e à circulação de ideias.

Acerca de um ano e meio publiquei o livro Por que resisti à prisão.

A experiência das lideranças passadas em matéria de lançamento de livros não é boa. As direções executivas dificultavam ou impediam tal coisa por meio de subterfúgios, retendo originais ou exercendo a censura prévia.

Os camaradas da Executiva atual reclamam, entretanto, que só a posteriori tomaram conhecimento do livro mencionado.

Mesmo assim não o discutiram; sobre ele não emitiram nenhuma opinião, apesar de interpelados por militantes e outros dirigentes.

Agora, passado mais de um ano, os companheiros fazem autocrítica pela omissão e opinam sobre o livro, considerando boa a primeira parte (que faz o relato da prisão). Não concordam, porém, com a segunda parte (que expõe os assuntos ideológicos e políticos), porque esta — segundo pensam — é contra a atual linha do Partido.

Parece estranho condenar uma parte do livro e não condenar igualmente a outra.

As duas partes são indivisíveis. Uma é decorrência da outra. Há uma interação entre elas, uma relação de causa e efeito. A resistência à prisão não teria havido se os motivos políticos expostos no livro não a justificassem.

Os companheiros, porém, não atentam para essa evidência. Entram pelo terreno da abstração e do agnosticismo kantista e separam coisas inseparáveis.

E vão mais além, sustentando a tese de que um membro da liderança não pode escrever, publicamente, discordando.

A tese é stalinista, mas aí a temos de volta.

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

O que é o marxismo-leninismo?

 Florestan Fernandes

   Desde o início de suas atividades intelectuais e políticas, Lênin sempre se considerou um marxista – e, o que é mais importante, sempre procurou ser um marxista ortodoxo. Por isso, não se contentou com a rica produção socialista que encontrou à sua disposição como jovem: foi diretamente aos textos de Marx e Engels, estudou-os sistematicamente e aos poucos tentou dominar também os autores que estavam nas raízes da formação do marxismo. A sua primeira obra de grande envergadura, O Desenvolvimento do Capitalismo na Rússia, evidencia três coisas:

1 - Completo domínio crítico das teorias econômicas de Marx e do materialismo histórico;

2 - Aplicação exclusiva dessas teorias na descrição e interpretação dos fatos (isto é, sem qualquer modalidade erudita de ecletismo);

3 - As teorias econômicas de Marx forneciam “hipóteses diretrizes”, estando longe de ser a fonte de um dogmatismo estéril: o que assegurava a marcha criadora da investigação, que se abria para a descoberta tanto do que era geral, quanto para o que era peculiar à manifestação do capitalismo na Rússia.



   Esse estilo de trabalho aparece com igual maestria nos escritos especificamente políticos da época, principalmente naqueles em que faz a crítica marxista do “populismo” e “economicismo” no movimento socialista russo. Portanto, as aplicações do marxismo ao plano prático revelam o mesmo espírito de identificação congruente, a um tempo flexível, mas intransigente com os princípios do socialismo revolucionário. Que Fazer?, como obra de síntese e de superação das experiências políticas acumuladas durante o período de formação, constitui a face política das descobertas históricas e econômicas contidas em O Desenvolvimento do Capitalismo na Rússia. Sua total fidelidade ao marxismo não pressupunha a “repetição de Marx” ou a ossificação da dialética, e sim a busca de caminhos novos, que só o marxismo podia desvendar, desde que aplicado de forma precisa, exigente e imaginativa, como um saber vivo, em intrínseca conexão com a vida.

   Na cisão de 1903, vários bolcheviques, mais intimamente associados a Lênin e à sua liderança política, foram designados como “leninistas” (palavra que reaparece em outros contextos e mesmo, de passagem, em escritos de Lênin). No entanto, após a reviravolta de abril e a tomada do poder, o “leninismo” ganhou expressão política, que se acentuou graças á luta pela sucessão de Lênin após sua morte. O “leninismo”, assim entendido, significa pouca coisa: na primeira acepção, “seguidor de Lênin”, no sentido de uma oposição intransigente ao reformismo, e ao oportunismo; na segunda acepção, alguém que fazia profissão de fé diante da natureza revolucionária do partido comunista, da ditadura do proletariado e do Estado soviético (e, implicitamente, no desdobramento das etapas de transição para o socialismo e para o comunismo). Ora, se isso fosse tudo, não haveria razão para o uso crescente da expressão marxismo-leninismo, que finalmente se universalizou e se viu consagrada de modo definitivo. O legado de Lênin transformou o marxismo e é essa transformação que nos interessa aqui.

sábado, 24 de outubro de 2020

Luta Interna e Dialética*

 Carlos Marighella

Todos os partidos do proletariado que foram adiante e obtiveram vitórias — inclusive chegando ao poder — passaram por um processo mais ou menos agudo de luta interna. Isto aconteceu na URSS, na China, em Cuba e outros países.

Mariguella após deixar a prisão, em 31 julho de 1964.
   A experiência histórica brasileira mostra — por sua vez — que todos os passos para a frente em questões de orientação ou de correção da erros, na vanguarda do proletariado, sempre foram acompanhados de intensa luta interna.

   Foi o que se deu em 1942-1945 (período do Estado Novo) e em 1956-1958 (período da discussão do culto à personalidade). É o que se dá agora, no período da derrota imposta ao nosso povo pelo golpe militar-fascista de 1º de abril de 1964.

Que é a luta interna, como e por que ocorre no partido marxista do proletariado?

   A luta interna é o choque que sobrevém no seio do partido, quando se confrontam ideias contrárias, relacionadas com a prática na atividade dos militantes.

   A dialética marxista incumbe-se de explicar o mecanismo da luta interna e sua natureza intrínseca, isto é, sua natureza própria, peculiar.

   A dialética marxista mostra que, no mundo, tudo é inter-relacionado, tudo se desenvolve, quer se trate da natureza, da sociedade humana ou do pensamento. A vanguarda do proletariado brasileiro, que é um organismo social vivo, representando interesses políticos e ideológicos de uma determinada classe, não foge aos princípios da dialética marxista. O que se passa na vanguarda de nosso proletariado obedece às leis fundamentais da dialética marxista. A ideologia do partido é uma ideologia determinada, é a ideologia do proletariado. Sobre ela, porém, exerce uma enorme influência a ideologia burguesa, vinda do exterior.

   O choque é inevitável, sobretudo nos momentos de derrota do proletariado, quando a ideologia burguesa aproveita as brechas ocorridas no seio da vanguarda e penetra mais fundo.

   A derrota do partido marxista do proletariado é — via de regra — consequência de erros que se localizam na incompleta acumulação ideológica no seio da vanguarda ou na influência demasiado acentuada da ideologia burguesa. Outras causas de erros podem subsistir. Mas o fundamental consiste em causas ideológicas.

   Devido, pois, ao papel ativo das ideias na sociedade e no partido marxista do proletariado, a luta interna deve obrigatoriamente ser tratada como luta ideológica, não podendo ser levada a efeito, com resultados positivos, se não obedecer às leis da dialética materialista, aos princípios da filosofia marxista.

   Sob o ponto-de-vista dos princípios, o primeiro cuidado na luta interna é não tratá-la como luta entre inimigos.

   O partido em seu conjunto luta contra os inimigos de classe. Sua finalidade é assegurar a direção da luta de classes dos trabalhadores — e como consequência a direção da luta de todo o povo pela sua libertação, a paz, o progresso, o socialismo.

   A luta interna é chamada luta interna, no partido marxista do proletariado, exatamente para diferençá-la da luta que ele — o partido marxista — trava e dirige em nome dos interesses políticos e ideológicos do proletariado e de todo o povo, contra os inimigos da classe operária e da nação brasileira, contra o imperialismo, contra o latifúndio, contra as classes exploradoras, contra tudo o que freia o progresso, a marcha para a frente.

   A luta interna não é um reflexo da luta de classes nem a própria luta de classes no interior do partido.

   No interior do partido não há tal, porque o partido não é uma organização composta de classes opostas.

   Os membros do partido lutam pelos objetivos de classe do proletariado e esforçam-se por [para] que sua consciência seja uma só — a consciência do proletariado.

   Os conflitos que surgem no partido não provêm de choques de classes diferentes, atuando internamente, mas de influências ideológicas das classes que exteriormente são hostis ao desenvolvimento da consciência de classe do proletariado e de seu partido.

   Os que discordam no interior do partido não são inimigos de classe. As discordâncias são uma contingência dialética do desenvolvimento da consciência e derem ser toleradas e admitidas normalmente.

   Na luta interna não se trata de liquidar quadros. Não se trata de aplicar medidas de coação.

   Quando a luta interna é encarada como luta de classes no interior do partido, estamos em face de um desvio, de um desvirtuamento do marxismo e sua filosofia.

   Ter a luta interna na conta de luta de classes (ou de uma forma de luta de classes) é um procedimento que estimula a prepotência, favorece o clima do culto à personalidade, fomenta o poderio individual ou a luta de grupos.

   É igualmente errôneo considerar a luta interna como luta desordenada, visando a desrespeitar o centralismo democrático, principio diretor da estrutura e funcionamento do partido, onde a unidade e a disciplina permanecem necessária e obrigatoriamente como fundamentos partidários.

   Difundir a intolerância, exercer qualquer tipo da coação, liquidar quadros, fracionar, abalar a unidade e a disciplina, são métodos condenáveis e condenados na luta interna.

   Não sendo uma luta entre inimigos, a luta interna tem que obedecer necessariamente a um método capaz de fazer avançar o partido marxista do proletariado, sem destruí-lo internamente e sem debilitar a sua unidade ou enfraquecê-lo perante o inimigo de classe.

   Dentro do partido não se pode evitar a luta interna. Os que pensam impedir ou deter a luta interna (ou diante dela se omitem) desconhecem a inexorabilidade das leis que presidem ao desenvolvimento social.

   A luta Interna, como qualquer outra luta que diz respeito a relações entre os homens, não é desencadeada por forças cegas, espontâneas. Ao contrário, a luta interna, assim como qualquer outra lei objetiva do desenvolvimento social, manifesta-se através da ação dos indivíduos. Estes, a princípio, podem ser surpreendidos com a manifestação das leis objetivas. Ou podem ser levados a exageros e excessos ao interpretá-las, ou à omissão.

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Quando penso em Che: Poder, Revolução e Comunismo.

Leonardo Juárez

8 de outubro de 2020


   As estratégias dos poderosos em relação ao CHE têm passado por um duplo caminho, anulação e apropriação, que, como uma pinça, buscam um objetivo comum, o desaparecimento por meio de sua morte e o encobrimento de seu corpo e, posteriormente, através da banalização, apresentando-nos um Che adoçado, de consumo pós-moderno, com presença em t-shirts, livrarias, discotecas e centros comerciais.

    Desmobilizar e desmoralizar o povo tem sido outro dos objetivos em torno de sua figura, por isso se mostra mais na Bolívia e em La Higuera, do que em Santa Clara e Havana, para admirá-lo, mas no campo da hagiografia como se fosse um santo, longe de ser humano, inacessível para as pessoas comuns, para que ninguém ouse seguir o seu exemplo.

Che Guevara no Congo, em 1965.


   Rever o trabalho de Che vai muito além de qualquer nota, listar algumas das questões que ele abordou exigiria uma menção mínima de sua concepção do humanismo comunista, sua crítica do determinismo (sublinhando o valor da ação consciente de homens e mulheres como sujeitos da história), sua contribuição para a teoria da construção do novo homem, sua insistência em que as correlações de forças não são eternas. A teoria do valor e sua concepção do poder popular como democracia popular também são contribuições significativas que o comandante Guevara nos deixou.

    53 anos após a queda em combate da heroica guerrilha, a polarização socioeconômica que atravessa o mundo não se transformou em polarização sociopolítica, mas começam a se configurar tendências marcantes do momento atual: no "polo do capital", sua classe, sua a intelectualidade, seus partidos, estão limitados a se curvar à hegemonia do capital financeiro internacional e promover, onde quer que queiram controlar o poder, um programa neoliberal claro; a militarização no nível político é imprescindível para que eles possam impor tal programa aos “estados-nação”; e a extensão da guerra com seu fardo de destruição e pilhagem em nível internacional. Em suma, uma política mais agressiva de preservação da dominação será assumida pelas elites.

   Por outro lado, a enormidade das injustiças, as provações múltiplas e diárias dos marginalizados, excluídos e precários de mil maneiras, exige de nós a rejeição vigorosa do espaço confortável proporcionado pelo ceticismo sobre as causas coletivas e nos desafia com um imperativo categórico: como o chamou Che em sua época, um, dois, três Vietnãs, o que hoje significa o impulso de uma insurgência global contra o capital onde a enorme e imperiosa necessidade de restaurar os horizontes com mais força do que nunca se levanta novamente com grande relevância. nossos grandes pensadores, lutadores, mártires e heróis que sonhavam com uma sociedade melhor, mais humana, mais justa, um mundo novo sem explorados ou exploradores, contra a barbárie, pela Revolução e pelo Socialismo.

   O desenvolvimento desta política requer algumas premissas que estiveram no centro das preocupações, reflexões e preocupações do Che, questões centrais como o caráter do poder, o papel do Estado, a soberania nacional, a integração continental e o anti-imperialismo, hoje têm mais validade do que nunca, e obriga-nos à necessária e imperativa articulação continental dos revolucionários, num momento em que os norte-americanos recuam para o que considera seu quintal, e a suave genuflexão para a administração norte-americana dos governos pró-ianques (incluindo os argentinos ) serve a mesa à sua voracidade.

   Estamos passando por uma fase de desenvolvimento histórico, que nos coloca diante do espetáculo “fantástico” da crise capitalista de cunho civilizatório, é bom recuperar o Che para fincar a bandeira na ideia de que devemos construir uma nova forma de organização da sociedade, porque está se tornando cada vez mais claro que o desenvolvimento das forças produtivas não só pode levar à destruição do capitalismo, mas à destruição da espécie humana. 

   A batalha pelo socialismo e pelo comunismo torna-se assim uma luta em legítima defesa e um compromisso com um futuro de justiça para o mundo.

   O marxismo não vem propor à humanidade a solução de todos os seus problemas, suas reivindicações são muito mais modestas como diria Ernest Mandel: dos mil problemas que os homens enfrentaram desde que existem, apenas meia dúzia se propõe a resolver: a ) suprimir a fome mundial, a miséria, a falta de bens necessários à sobrevivência; b) substituir a produção de mercadorias e a economia monetária por uma economia baseada na satisfação direta das necessidades; c) tornar impossível a guerra e o uso massivo da violência; d) eliminar qualquer forma de exploração, opressão, subjugação e violência do homem pelo homem; e) abolir a divisão da sociedade em classes e com ela também sua separação em produtores e administradores, propriedade privada, a luta competitiva que visa o enriquecimento individual e a divisão congruente com ela da humanidade em Estados-nação hostis e alcançar um sistema de cooperação e solidariedade humana geral e universal; f) garantir a cada mulher, homem e criança as premissas materiais e sociais para a plena realização de suas possibilidades humanas.

   Essa meia dúzia de problemas que podemos resolver fariam, sem dúvida, um mundo melhor do que aquele em que vivemos hoje, mesmo que estivesse longe de resolver todos os problemas.

   Em um novo aniversário de sua queda em combate, reafirmamos nosso senso de horizonte, e com Che dizemos que nenhum fracasso, nenhuma derrota parcial diminuirá nossas forças, nem nossas convicções; Por isso, somos otimistas no triunfo definitivo dos povos, que se erguerão brilhantemente sob novos símbolos, sob o símbolo da vitória, sob o símbolo da construção do socialismo, sob o símbolo do futuro.

Fonte:  https://revistacentenario.com/cuando-pienso-en-el-che-poder-revolucion-y-comunismo/

Edição: Página 1917.

 

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