Eduardo Galeano
Maio de 2011
1 - Somos todos culpados pela ruína do planeta.
A saúde do mundo está feito um caco. 'Somos todos
responsáveis', clamam as vozes do alarme universal, e a generalização absolve:
se somos todos responsáveis, ninguém é. Como coelhos, reproduzem-se os novos
tecnocratas do meio ambiente. É a maior taxa de natalidade do mundo: os experts
geram experts e mais experts que se ocupam de envolver o tema com o papel celofane
da ambiguidade.
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| A marcha destrutiva do capitalismo sobre a natureza |
Eles fabricam a brumosa linguagem das exortações ao
'sacrifício de todos' nas declarações dos governos e nos solenes acordos
internacionais que ninguém cumpre. Estas cataratas de palavras - inundação que
ameaça se converter em uma catástrofe ecológica comparável ao buraco na camada
de ozônio - não se desencadeiam gratuitamente. A linguagem oficial asfixia a
realidade para outorgar impunidade à sociedade de consumo, que é imposta como
modelo em nome do desenvolvimento, e às grandes empresas que tiram proveito
dele. Mas, as estatísticas confessam. Os dados ocultos sob o palavreado revelam
que 20% da humanidade comete 80% das agressões contra a natureza, crime que os
assassinos chamam de suicídio, e é a humanidade inteira que paga as consequências
da degradação da terra, da intoxicação do ar, do envenenamento da água, do
enlouquecimento do clima e da dilapidação dos recursos naturais não-renováveis.
A senhora Harlem Bruntland, que encabeça o governo da Noruega, comprovou
recentemente que, se os 7 bilhões de habitantes do planeta consumissem o mesmo
que os países desenvolvidos do Ocidente, "faltariam 10 planetas como o
nosso para satisfazerem todas as suas necessidades." Uma experiência
impossível.
Mas, os governantes dos países do Sul que prometem o
ingresso no Primeiro Mundo, mágico passaporte que nos fará, a todos, ricos e
felizes, não deveriam ser só processados por calote. Não estão só pegando em
nosso pé, não: esses governantes estão, além disso, cometendo o delito de
apologia do crime. Porque este sistema de vida que se oferece como paraíso,
fundado na exploração do próximo e na aniquilação da natureza, é o que está
fazendo adoecer nosso corpo, está envenenando nossa alma e está deixando-nos
sem mundo.
2 - É verde aquilo que se pinta de verde.
Agora, os gigantes da indústria química fazem sua
publicidade na cor verde, e o Banco Mundial lava sua imagem, repetindo a
palavra ecologia em cada página de seus informes e tingindo de verde seus
empréstimos. "Nas condições de nossos empréstimos há normas ambientais
estritas", esclarece o presidente da suprema instituição bancária do mundo.
Somos todos ecologistas, até que alguma medida concreta limite a liberdade de
contaminação.
Quando se aprovou, no Parlamento do Uruguai, uma tímida
lei de defesa do meio-ambiente, as empresas que lançam veneno no ar e poluem as
águas sacaram, subitamente, da recém-comprada máscara verde e gritaram sua
verdade em termos que poderiam ser resumidos assim: "os defensores da
natureza são advogados da pobreza, dedicados a sabotarem o desenvolvimento
econômico e a espantarem o investimento estrangeiro." O Banco Mundial, ao
contrário, é o principal promotor da riqueza, do desenvolvimento e do
investimento estrangeiro. Talvez, por reunir tantas virtudes, o Banco manipulará,
junto à ONU, o recém-criado Fundo para o Meio-Ambiente Mundial. Este imposto à
má consciência vai dispor de pouco dinheiro, 100 vezes menos do que haviam
pedido os ecologistas, para financiar projetos que não destruam a natureza.
Intenção inatacável, conclusão inevitável: se esses projetos requerem um fundo
especial, o Banco Mundial está admitindo, de fato, que todos os seus demais
projetos fazem um fraco favor ao meio-ambiente.
O Banco se chama Mundial, da mesma forma que o Fundo
Monetário se chama Internacional, mas estes irmãos gêmeos vivem, cobram e
decidem em Washington. Quem paga, manda, e a numerosa tecnocracia jamais cospe
no prato em que come. Sendo, como é, o principal credor do chamado Terceiro
Mundo, o Banco Mundial governa nossos escravizados países que, a título de
serviço da dívida, pagam a seus credores externos 250 mil dólares por minuto, e
lhes impõe sua política econômica, em função do dinheiro que concede ou
promete. A divinização do mercado, que compra cada vez menos e paga cada vez
pior, permite abarrotar de mágicas bugigangas as grandes cidades do sul do
mundo, drogadas pela religião do consumo, enquanto os campos se esgotam,
poluem-se as águas que os alimentam, e uma crosta seca cobre os desertos que
antes foram bosques.
3 - Entre o capital e o trabalho, a ecologia é neutra.
Poder-se-á dizer qualquer coisa de Al Capone, mas ele era
um cavalheiro: o bondoso Al sempre enviava flores aos velórios de suas vítimas...
as empresas gigantes da indústria química, petroleira e automobilística pagaram
boa parte dos gastos da Eco 92: a conferência internacional que se ocupou, no
Rio de Janeiro, da agonia do planeta. E essa conferência, chamada de Reunião de
Cúpula da Terra, não condenou as transnacionais que produzem contaminação e
vivem dela, e nem sequer pronunciou uma palavra contra a ilimitada liberdade de
comércio que torna possível a venda de veneno.
No grande baile de máscaras do fim do milênio, até a
indústria química se veste de verde. A angústia ecológica perturba o sono dos
maiores laboratórios do mundo que, para ajudarem a natureza, estão inventando
novos cultivos biotecnológicos. Mas, esses desvelos científicos não se propõem
encontrar plantas mais resistentes às pragas sem ajuda química, mas sim buscam
novas plantas capazes de resistir aos praguicidas e herbicidas que esses mesmos
laboratórios produzem. Das 10 maiores empresas do mundo produtoras de sementes,
seis fabricam pesticidas (Sandoz-Ciba-Geigy, Dekalb, Pfizer, Upjohn, Shell,
ICI). A indústria química não tem tendências masoquistas.
A recuperação do planeta ou daquilo que nos sobre dele
implica na denúncia da impunidade do dinheiro e da liberdade humana. A ecologia
neutra, que mais se parece com a jardinagem, torna-se cúmplice da injustiça de
um mundo, onde a comida sadia, a água limpa, o ar puro e o silêncio não são
direitos de todos, mas sim privilégios dos poucos que podem pagar por eles.
Chico Mendes, trabalhador da borracha, tombou assassinado em fins de 1988, na
Amazônia brasileira, por acreditar no que acreditava: que a militância
ecológica não pode divorciar-se da luta social. Chico acreditava que a floresta
amazônica não será salva enquanto não se fizer uma reforma agrária no Brasil.
Cinco an os depois do crime, os bispos brasileiros denunciaram que mais de 100
trabalhadores rurais morrem assassinados, a cada ano, na luta pela terra, e
calcularam que quatro milhões de camponeses sem trabalho vão às cidades
deixando as plantações do interior. Adaptando as cifras de cada país, a
declaração dos bispos retrata toda a América Latina. As grandes cidades
latino-americanas, inchadas até arrebentarem pela incessante invasão de
exilados do campo, são uma catástrofe ecológica: uma catástrofe que não se pode
entender nem alterar dentro dos limites da ecologia, surda ante o clamor social
e cega ante o compromisso político.
4 - A natureza está fora de nós.
Em seus 10 mandamentos, Deus esqueceu-se de mencionar a
natureza. Entre as ordens que nos enviou do Monte Sinai, o Senhor poderia ter
acrescentado, por exemplo: "Honrarás a natureza, da qual tu és
parte." Mas, isso não lhe ocorreu. Há cinco séculos, qua ndo a América foi
aprisionada pelo mercado mundial, a civilização invasora confundiu ecologia com
idolatria. A comunhão com a natureza era pecado. E merecia castigo. Segundo as
crônicas da Conquista, os índios nômades que usavam cascas para se vestirem
jamais esfolavam o tronco inteiro, para não aniquilarem a árvore, e os índios
sedentários plantavam cultivos diversos e com períodos de descanso, para não
cansarem a terra. A civilização, que vinha impor os devastadores monocultivos
de exportação, não podia entender as culturas integradas à natureza, e as
confundiu com a vocação demoníaca ou com a ignorância. Para a civilização que
diz ser ocidental e cristã, a natureza era uma besta feroz que tinha que ser
domada e castigada para que funcionasse como uma máquina, posta a nosso serviço
desde sempre e para sempre. A natureza, que era eterna, nos devia escravidão.
Muito recentemente, inteiramo-nos de que a natureza se cansa, como nós, seus
filhos, e sabemos que, tal como nós, pode morrer assassinada. Já não se fala de
submeter a natureza. Agora, até os seus verdugos dizem que é necessário
protegê-la. Mas, num ou noutro caso, natureza submetida e natureza protegida,
ela está fora de nós. A civilização, que confunde os relógios com o tempo, o
crescimento com o desenvolvimento, e o grandalhão com a grandeza, também
confunde a natureza com a paisagem, enquanto o mundo, labirinto sem centro,
dedica-se a romper seu próprio céu.