Índice de Seções

domingo, 23 de agosto de 2020

O Grito de Justiça de Sacco e Vanzetti Ainda Ecoa.

Edilene Toledo¹

   Há exatos cem anos, em 15 de abril de 1920, durante um assalto a uma fábrica, um contador e um guarda foram assassinados a tiros na cidade de South Braintree, Massachusetts, Estados Unidos. Nicola Sacco, sapateiro, e Bartolomeo Vanzetti, vendedor de peixes, imigrantes italianos e anarquistas, foram responsabilizados pelo duplo homicídio. Ao fim de um processo muito polêmico, os dois foram condenados à morte e executados, na cadeira elétrica, em 23 de agosto de 1927. Os indícios contra eles eram muito frágeis e manipulados. Mesmo quando o verdadeiro autor dos crimes confessou, Sacco e Vanzetti não tiveram direito a revisão do processo e nem clemência. Desde então, eles se tornaram símbolos da luta contra a intolerância e a injustiça e foram lembrados inúmeras vezes em jornais, canções, poesias, filmes e peças de teatro.


   A condenação de Sacco e Vanzetti ocorreu no contexto de uma duríssima campanha contra os trabalhadores organizados e ativistas políticos que o governo dos Estados Unidos desencadeou entre os anos de 1919 e 1921. Era uma resposta, vivida também em muitos outros países, ao ciclo de agitação social global ocorrido a partir de 1917 e em reação às repercussões da Revolução Russa e o temor do avanço das forças de esquerda. Além de milhares de prisões e deportações de centenas de imigrantes, um outro anarquista italiano, Andrea Salsedo, tinha morrido, em circunstâncias misteriosas, caindo da janela de uma delegacia durante um interrogatório. Naqueles anos, mais de 100 sindicalistas da Industrial Workers of the World foram condenados por subversão a 20 anos de prisão.

   Nicola Sacco era do sul da Itália, da região da Puglia, enquanto Bartolomeo Vanzetti era do norte, do Piemonte. Ambos tinham chegado nos Estados Unidos no mesmo período, um em 1908 e outro em 1909, com cerca de 20 anos, com a esperança de melhorar as próprias condições de vida, como outros 5 milhões de italianos entre o final do século XIX e a Primeira Guerra, foram “fazer a América”. A maioria deles empregou-se nas ascendentes indústrias norte-americanas. Mas, para muitos, os Estados Unidos mostraram-se uma terra distante dos sonhos de bem-estar e liberdade que tanto atraíam os imigrantes.

   A radicalização da posição política de Sacco e Vanzetti ocorreu já em solo americano.  Eles se conheceram em 1916 e juntos passaram a fazer parte de um grupo anarquista. Tinham fugido para o México para escapar da convocação para a Primeira Guerra Mundial. A fé anarquista e a oposição à guerra, que caracterizou a ação libertária nas Américas, fizeram deles os alvos ideais da cruzada americana contra os radicais de esquerda.

   Foi também a origem italiana que marcou o destino deles. A retomada da imigração para os Estados Unidos após o fim da guerra acentuou a xenofobia de uma parte da população que considerava alguns grupos imigrantes etnicamente inferiores e inassimiláveis. Os italianos, sobretudo os do sul da Itália, eram acusados de mal-educados, violentos e propensos ao crime. Naqueles anos, linchamentos racistas atingiam os afro-americanos, mas também vitimaram 30 italianos.

   Durante todo o processo, sindicatos e grupos de esquerda iniciaram uma enorme campanha para obter apoio da opinião pública e arrecadação de fundos para a defesa de Sacco e Vanzetti. O drama dos dois trabalhadores provocou comoção e indignação entre os trabalhadores de todo o mundo, sendo um catalisador da identidade de classe. Protestos imponentes se multiplicaram em quase todas as capitais do mundo.

   O impacto sobre o movimento operário mundial foi muito grande, configurando o mais significativo fenômeno de solidariedade internacional do período. Para além da solidariedade étnico-nacional de trabalhadores italianos, a condenação de Sacco e Vanzetti foi sentida como um processo contra a classe operária em todo o mundo, contribuindo para que os trabalhadores se reconhecessem como membros de uma classe transnacional e sujeitos políticos ao longos dos anos 20.

Bartolomeo Vanzetti e Nicola Sacco

   No Brasil, greves, manifestações e comícios de solidariedade ocorreram em vários estados e principalmente no Rio de Janeiro e em São Paulo, onde foram os sindicatos a organizar comitês de Agitação pró Sacco e Vanzetti, com a colaboração de anarquistas e comunistas. Nos dias que antecederam a execução dos anarquistas, a polícia agiu com violência para reprimir a multidão de trabalhadores que tomaram as ruas em bairros operários da cidade de São Paulo, como o Brás e o Ipiranga. Comícios chegaram a ocorrer duas vezes por semana. O jornal anarquista A Plebe noticiou que no dia da execução houve um comício na praça do Patriarca do qual participou “toda a classe operária da capital”. Outros jornais registraram gritos de vivas à memória de Sacco e Vanzetti  e à solidariedade operária.

   Somente 50 anos depois da execução, em 1977, o governador de Massachusetts reabilitou a memória de Sacco e Vanzetti, reconhecendo a inocência e os preconceitos, de várias ordens, que haviam determinado a condenação. Muitos trabalhadores e militantes em todo o mundo esperaram que a morte deles permanecesse como um alerta contra a intolerância e a xenofobia, que, infelizmente, custam a desaparecer e de tanto em tanto reemergem com toda a sua irracionalidade. Antes de morrer, Vanzetti escreveu “Defendi o direito de liberdade de pensamento, inalienável como o direito à vida”.

 ¹ Edilene Toledo é professora do Departamento de História da UNIFESP, Campus Guarulhos.

 Referências:

Coccia, Andrea. Quanto ci mancano Sacco e Vanzetti. Linkiesta, 23 de agosto de 2017.

Fast, Howard. Sacco e Vanzetti. Dois mártires da luta pela liberdade. Rio de Janeiro: Best Seller, 2009.

Franzina, Emilio. Gli italiani al Nuovo Mondo. L´emigrazione italiana in America, 1492-1942. Milão: Mondadori, 1995.

Luconi, Stefano. Sacco e Vanzetti, quando gli italiani erano “bastardi”. Il Manifesto, 22-08-2017.

Moura, Clóvis. Sacco e Vanzetti: o protesto brasileiro. São Paulo: Anita Garibaldi; Fundação Maurício Grabois, 2017.

Fonte: https://lehmt.org/2020/04/21/o-grito-de-justica-de-sacco-e-vanzetti-ainda-ecoa/

Edição: Página 1917.

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Combater o Imperialismo e o Oportunismo: Tarefas Indispensáveis dos Comunistas*

   Neste texto, nos propomos a comentar os pontos principais do artigo de Lenin, de outubro de 1916, O Imperialismo e a Cisão do Socialismo. Em uma conjuntura de amplo predomínio do oportunismo, posição burguesa no movimento operário, na Europa, Lenin escreve um artigo ao mesmo tempo teórico (a partir dos estudos que culminaram no seu livro Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo) e militante, analisando a nova etapa, imperialista, do capitalismo mundial e combatendo sem tréguas o oportunismo. No seu artigo, Lenin trata do que chamava então de “a questão fundamental do socialismo contemporâneo”: a saber, “existe uma ligação entre o imperialismo e a vitória monstruosa e abominável que o oportunismo … alcançou sobre o movimento operário na Europa?”.

Lenin discursando no Congresso da Internacional Comunista

   Na conjuntura atual, já faz um longo tempo, também há uma “vitória monstruosa e abominável” do oportunismo e do reformismo no movimento operário e também dentre os (auto)denominados marxistas e comunistas, inclusive a deturpar e mutilar a teoria revolucionária do imperialismo de Lenin. Isso se relaciona à força muito reduzida da posição revolucionária, comunista, tanto em termos partidários quanto na sua influência no movimento operário em todo o mundo. Nos dias de hoje, e também há décadas, o imperialismo domina inteiramente a economia mundial. O texto de Lenin, portanto, ainda traz muitas lições para os comunistas contemporâneos e nos serve ainda hoje de base para realizar a análise concreta da realidade concreta e defender a posição proletária na luta de classes.

 Imperialismo, a fase atual do capitalismo

   Contra a errônea visão do oportunismo de Kautsky (que “define o imperialismo como uma política ‘preferida’ pelo capital financeiro”) presente hoje em quase toda a “esquerda”, de que o imperialismo constitui (apenas) uma política externa agressiva e militar dos países dominantes, Lenin, no capítulo 7 do seu livro, apresenta a “definição o mais breve possível do imperialismo”: “o imperialismo é a fase monopolista do capitalismo”. Por ser uma fase do capitalismo, não poderia deixar de ser “desenvolvimento e continuação direta das características fundamentais” – ainda que de forma contraditória, negando-as – desse modo de produção: concorrência entre os capitais, concentração e centralização de capitais, tendência à queda da taxa de lucro, luta constante para contra-arrestar essas tendências etc. No referido capítulo de O Imperialismo, na sequência dessa definição – que ele afirmava conter o principal, mas achava insuficiente –, Lenin a desdobra nos seus “cinco traços fundamentais”:

“1) a concentração da produção e do capital levada a um grau tão elevado de desenvolvimento que criou os monopólios, os quais desempenham um papel decisivo na vida econômica;

 2) a fusão do capital bancário com o capital industrial e a criação, baseada nesse “capital financeiro” da oligarquia financeira;

 3) a exportação de capitais, diferentemente da exportação de mercadorias, adquire uma importância particularmente grande;

 4) a formação de associações internacionais monopolistas de capitalistas, que partilham o mundo entre si, e

 5) o termo da partilha territorial do mundo entre as potências capitalistas mais importantes”.

   No artigo de outubro de 1916, poucos meses após terminar a redação do seu livro, Lenin reafirma a importância fundamental dos monopólios para a caracterização de uma nova fase histórica do capitalismo: “A substituição da livre concorrência pelo monopólio é o traço econômico fundamental, a essência do imperialismo”. E, mais adiante: “O imperialismo é o capitalismo monopolista. Cada cartel, truste, consórcio, cada banco gigantesco é um monopólio”.

terça-feira, 11 de agosto de 2020

Desastre ambiental segundo Marx: faces da crise capitalista (II)*

 Yuri Martins-Fontes**

Bastante análogo a um tumor cancerígeno, o capitalismo se amplia de modo desgovernado, consumindo em sua “metástase” tudo à sua volta, a ponto de ameaçar o próprio “corpo” que o sustenta: o ser humano e o planeta.

Continuando a análise começada na primeira parte deste artigo – Monopólio, desemprego e desigualdade: faces da crise capitalista (I) –, vejamos como a crise do trabalho (desemprego) e a crise ambiental se relacionam, constituindo-se como duas faces da “crise estrutural capitalista”.

Pandemia de 2020, crise econômica mundial de 2008, inundações e secas, crise de fome de 2007 cujo resultado foi a marca histórica de um bilhão de famintos, devastação das florestas e poluição dos oceanos, degradação de culturas e povos reduzidos gradativamente à dependência e miséria: o que liga estes fenômenos é que todos eles são resultados do chamado “progresso capitalista”.

“Progresso” que, longe de ser um efetivo “desenvolvimento” humano – aprofundamento das liberdades, melhorias na cultura, saúde, educação, emancipação, prazer, tempo livre –, pelo contrário, é apenas um eufemismo com que se oculta um caótico “avanço tecnológico” e um  “crescimento econômico” sem planejamento racional.

Neste processo de crescimento concorrencial e desordenado (nomeado pelos capitalistas de “livre-mercado”), o capital, a partir de um controle cada vez maior da natureza (de que explora matérias-primas) e do próprio homem (de quem explora a força de trabalho), segue “avançando” sempre mais por sobre os recursos do planeta e seus diversos povos.

Bastante análogo a um tumor cancerígeno, o capitalismo se amplia de modo desgovernado, consumindo em sua “metástase” tudo à sua volta, a ponto de ameaçar o próprio “corpo” que o sustenta: o ser humano e o planeta.

Este processo irracional e fundamentalmente insustentável já tinha sido percebido por Karl Marx ainda no século XIX, quem apesar de não ter visto o cenário limite que hoje podemos vislumbrar, conseguiu descrevê-lo em seus traços preponderantes, como se explana neste artigo.

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Projeções Preocupantes da CEPAL

Julio C. Gambina* - 29/07/2020

Com informação de até 30 de Junho de 2020, a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe, a CEPAL, atualizou o impacto regional da situação económica, afetada pela recessão derivada do COVID19.(1) O relatório, baseado no Banco Mundial, aponta que “a economia mundial experimentará a sua maior queda desde a Segunda Guerra Mundial e o produto interno bruto (PIB) per capita diminuirá em 90% dos países, num processo síncrono sem precedentes.”

O dado é em si mesmo muito sério, porque atinge a ordem mundial emergente no segundo pós-guerra, com a predominância do dólar e o poderio ideológico e militar dos EUA.

Não se trata de um problema circunstancial, mas e para além da disputa com a China, como já discutimos em várias ocasiões, constitui um problema civilizacional, que transcende a economia. Não é apenas a dominação que está em discussão, mas a própria sobrevivência do planeta e a humanidade está em risco devido aos efeitos sobre a Natureza.

Fica claro que, se o tema é global, a região nossa-americana se vê também afetada, ainda mais quando o COVID19 toma a região como epicentro.

Não são apenas o Brasil ou o México que preocupam, com quase 87.000 e 43.000 mortes, respectivamente mas, tendo em conta as mortes por milhão de habitantes o Peru encabeça a lista, seguido pelo Chile e, recentemente, Brasil e México.

Enfatizo este dato, porque ambos os países andinos, Peru e Chile, têm sido destacados nos últimos tempos como os “modelos econômicos” a seguir, tomando os seus processos de liberalização econômica como paradigmas a imitar.

As consequências da mercantilização são agora visíveis na pauperização da população e na deterioração da saúde pública, que recai sobre a população mais desprotegida.

Prevê o relatório da CEPAL:

“Para o conjunto da região, uma queda média do PIB de 9,1% em 2020, com quedas de 9,4% na América do Sul, 8,4% na América Central e México e 7,9% no Caribe, sem incluir a Guiana, cujo forte crescimento leva o total sub-regional a uma queda de 5,4%”.

 Neste quadro, a América do Sul é a zona mais atingida, com dados acima da média para o Brasil com uma queda de -9,2%, a Argentina com queda de -10,5%, Peru de -13% e Venezuela nas piores condições, em -26%.

Deve notar-se que no caso venezuelano, para além dos problemas locais, as sanções e o bloqueio dos EUA prejudicam seriamente o funcionamento econômico.

Destacam-se alguns dados sobre a recessão em curso, e em particular é mencionado que:

“A produção industrial no México tem em abril uma queda de 29,3% em relação ao ano anterior, enquanto a atividade total da economia no mesmo período diminuiu 26,4% na Argentina, 15,1% no Brasil, 14, 1% no Chile, 20,1% na Colômbia e 40,5% no Peru “.

Não se trata da especificidade de uma economia, mas de que aos problemas locais se adiciona uma situação agravada mundialmente pelo coronavírus.

Dimensão social do problema

O impacto é fenomenal para boa parte da população em Nossa América.

“A forte contração em 2020 traduzir-se-á numa queda do PIB per capita regional de 9,9%. Depois de ter havido praticamente uma estagnação entre 2014 e 2019 (quando o crescimento médio anual foi de apenas 0,1%), esta queda do PIB per capita implica um retrocesso de dez anos: o seu nível em 2020 será semelhante ao registado em 2010.”

Recordemos que, para a década de 80 do século passado, a CEPAL popularizou a frase “década perdida”, a propósito da crise da dívida mexicana de 1982 e as sequelas derivadas da generalização da hegemonia neoliberal.

É a década, sob a liderança de Fidel, em que é tentada a criação do Clube dos países devedores, para enfrentar o dos credores, que estava sob a gestão do FMI.

Tratava-se da estagnação econômica numa década caracterizada por políticas de ajustamento e reforma estrutural, que se generalizaram e popularizaram sob o desenho do Consenso de Washington nos anos 90.

 Assim foram impostas as privatizações, a desregulação, a liberalização e o incentivo à iniciativa privada com regras orientadas para o ajustamento fiscal.

Esse saldo projetou-se na última década do século XX como uma “meia década perdida” que se somava à anterior.

Os primeiros 10 anos do século XXI aparecem como de recuperação, com crescimento e distribuição do rendimento, produto da combinação do aumento dos preços internacionais de exportação e de uma vontade política para a melhoria da distribuição do rendimento.

O clima de mudança política em toda a região induziu à extensão das políticas assistenciais, para além da orientação à esquerda ou à direita dos diferentes governos.

Por isso, destaca-se o fato de que a CEPAL nos lembre agora que 2020 leva a região ao nível registado em 2010, pelo que consolida outra década perdida, o que implica um impacto social regressivo em termos de emprego e pobreza, agravando e consolidando a desigualdade.

O mercado laboral será fortemente impactado, ao comentar a CEPAL que:

“… a taxa de desemprego regional situar-se-á em cerca de 13,5% no final de 2020, o que representa uma revisão em alta (2 pontos percentuais) da estimativa apresentada em Abril de 2020 e um aumento de 5,4 pontos percentuais relativamente ao valor registado em 2019 (8,1%).”

Afirma que:

“Com a nova estimativa, o número de desempregados chegaria a 44,1 milhões de pessoas, o que representa um aumento de quase 18 milhões em comparação com o nível de 2019 (26,1 milhões de desempregados).”

Acrescenta que:

“Estes números são significativamente maiores do que os observados durante a crise financeira mundial, quando a taxa de desemprego aumentou de 6,7% em 2008 para 7,3% em 2009 (0,6 pontos percentuais).”

Em rigor, não é novidade, uma vez que a OIT contempla uma escalada do desemprego e da informalidade a nível global, sobretudo entre as mulheres e os jovens.

Assim, num quadro de ofensiva de capital contra o trabalho, as condições da recessão mundial e regional consolidam a iniciativa capitalista que, na conjuntura, acelerou uma procura prolongada pelo trabalho remoto, o teletrabalho.

Faz parte da busca de reduzir o custo da produção laboral, transferindo para os trabalhadores parte do custo de manutenção dos instrumentos e meios de trabalho.

Por isso não é de surpreender que o mercado de trabalho evidencie o custo em termos de rendimento e emprego demonstrado pelos dados da CEPAL.

Ainda mais grave é a questão em termos de pobreza e indigência.

“A CEPAL prevê que o número de pessoas em situação de pobreza aumentará 45,4 milhões em 2020, com o que o total de pessoas em situação de pobreza passaria de 185,5 milhões em 2019 para 230,9 milhões em 2020, número que representa 37,3% da população latino-americana. Dentro deste grupo, o número de pessoas em situação de pobreza extrema aumentaria em 28,5 milhões, passando de 67,7 milhões em 2019 para 96,2 milhões em 2020, número que equivale a 15,5% da população total “.

O relatório sublinha que:

“Os maiores aumentos na taxa de pobreza (de pelo menos 7 pontos percentuais) ocorreriam na Argentina, Brasil, Equador, México e Peru”.

No caso da Argentina, a pobreza extrema passa de 3,8% para 6,9%, com uma variação de 3,1 pontos percentuais de crescimento; e a pobreza passa de 26,7% para 37,5%, com um aumento de 10,8 pontos percentuais.

A região da América Latina há muito chama a atenção pelos crescentes níveis de desigualdade e este relatório confirma-o.

Desta vez, não são divulgados dados sobre a concentração do rendimento e da riqueza, que agravam a situação de desigualdade que configura a América Latina e o Caribe como o território mais desigual no sistema mundial.

Propostas da CEPAL

O relatório defende quatro linhas de ação:

a) um rendimento básico de emergência como instrumento de proteção social;

 b) um abono contra a fome;

c) o apoio às empresas e aos empregos em risco;

d) o reforço do papel das instituições financeiras internacionais.

Parece pouco, e discutível, para um diagnóstico tão pesado, mesmo quando defende medidas urgentes que promovam boa parte dos atingidos social e economicamente.

São reclamações, as três primeiras, que são sustentadas a partir das organizações sociais e políticas que agrupam no território os setores mais desprotegidos.

As duas primeiras são sugestões para a emergência social e a terceira visa manter o tecido de pequenas e médias empresas, incluindo as “micro”, que são no seu conjunto a principal fonte de emprego em todos os países.

A última é a mais difícil, que remete a um reforço de organismos que deveriam ser incluídos mais como parte do problema do que como solução, ainda mais quando, por detrás do diagnóstico aparece dependência financeira e o sobre endividamento de várias das economias com problemas.

Sem ir mais longe, o caso argentino é paradigmático na conjuntura, quando se discute o refinanciamento da sua dívida com grandes Fundos Financeiros e com um FMI que afundou o país com um empréstimo impagável que condiciona o presente e o futuro da economia e o seu povo.

É tempo de pensar numa perspectiva civilizacional contra e para além do capitalismo.

Nota:

[1] CEPAL. Informe especial COVID19, 15/07/2020: 

https://repositorio.cepal.org/bitstream/handle/11362/45782/1/S2000471_es.pdf

*Julio C. Gambina é Presidente da Fundación de Investigaciones Sociales y Políticas, FISYP

Fonte: https://rebelion.org/proyecciones-preocupantes-de-la-cepal/

Edição: Página 1917


Caro leitor, ajude a divulgar o Página 1917, compartilhe nossas publicações nas suas redes sociais.

Comentários ofensivos e falsidades não serão publicados.