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terça-feira, 11 de agosto de 2020

Desastre ambiental segundo Marx: faces da crise capitalista (II)*

 Yuri Martins-Fontes**

Bastante análogo a um tumor cancerígeno, o capitalismo se amplia de modo desgovernado, consumindo em sua “metástase” tudo à sua volta, a ponto de ameaçar o próprio “corpo” que o sustenta: o ser humano e o planeta.

Continuando a análise começada na primeira parte deste artigo – Monopólio, desemprego e desigualdade: faces da crise capitalista (I) –, vejamos como a crise do trabalho (desemprego) e a crise ambiental se relacionam, constituindo-se como duas faces da “crise estrutural capitalista”.

Pandemia de 2020, crise econômica mundial de 2008, inundações e secas, crise de fome de 2007 cujo resultado foi a marca histórica de um bilhão de famintos, devastação das florestas e poluição dos oceanos, degradação de culturas e povos reduzidos gradativamente à dependência e miséria: o que liga estes fenômenos é que todos eles são resultados do chamado “progresso capitalista”.

“Progresso” que, longe de ser um efetivo “desenvolvimento” humano – aprofundamento das liberdades, melhorias na cultura, saúde, educação, emancipação, prazer, tempo livre –, pelo contrário, é apenas um eufemismo com que se oculta um caótico “avanço tecnológico” e um  “crescimento econômico” sem planejamento racional.

Neste processo de crescimento concorrencial e desordenado (nomeado pelos capitalistas de “livre-mercado”), o capital, a partir de um controle cada vez maior da natureza (de que explora matérias-primas) e do próprio homem (de quem explora a força de trabalho), segue “avançando” sempre mais por sobre os recursos do planeta e seus diversos povos.

Bastante análogo a um tumor cancerígeno, o capitalismo se amplia de modo desgovernado, consumindo em sua “metástase” tudo à sua volta, a ponto de ameaçar o próprio “corpo” que o sustenta: o ser humano e o planeta.

Este processo irracional e fundamentalmente insustentável já tinha sido percebido por Karl Marx ainda no século XIX, quem apesar de não ter visto o cenário limite que hoje podemos vislumbrar, conseguiu descrevê-lo em seus traços preponderantes, como se explana neste artigo.

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Projeções Preocupantes da CEPAL

Julio C. Gambina* - 29/07/2020

Com informação de até 30 de Junho de 2020, a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe, a CEPAL, atualizou o impacto regional da situação económica, afetada pela recessão derivada do COVID19.(1) O relatório, baseado no Banco Mundial, aponta que “a economia mundial experimentará a sua maior queda desde a Segunda Guerra Mundial e o produto interno bruto (PIB) per capita diminuirá em 90% dos países, num processo síncrono sem precedentes.”

O dado é em si mesmo muito sério, porque atinge a ordem mundial emergente no segundo pós-guerra, com a predominância do dólar e o poderio ideológico e militar dos EUA.

Não se trata de um problema circunstancial, mas e para além da disputa com a China, como já discutimos em várias ocasiões, constitui um problema civilizacional, que transcende a economia. Não é apenas a dominação que está em discussão, mas a própria sobrevivência do planeta e a humanidade está em risco devido aos efeitos sobre a Natureza.

Fica claro que, se o tema é global, a região nossa-americana se vê também afetada, ainda mais quando o COVID19 toma a região como epicentro.

Não são apenas o Brasil ou o México que preocupam, com quase 87.000 e 43.000 mortes, respectivamente mas, tendo em conta as mortes por milhão de habitantes o Peru encabeça a lista, seguido pelo Chile e, recentemente, Brasil e México.

Enfatizo este dato, porque ambos os países andinos, Peru e Chile, têm sido destacados nos últimos tempos como os “modelos econômicos” a seguir, tomando os seus processos de liberalização econômica como paradigmas a imitar.

As consequências da mercantilização são agora visíveis na pauperização da população e na deterioração da saúde pública, que recai sobre a população mais desprotegida.

Prevê o relatório da CEPAL:

“Para o conjunto da região, uma queda média do PIB de 9,1% em 2020, com quedas de 9,4% na América do Sul, 8,4% na América Central e México e 7,9% no Caribe, sem incluir a Guiana, cujo forte crescimento leva o total sub-regional a uma queda de 5,4%”.

 Neste quadro, a América do Sul é a zona mais atingida, com dados acima da média para o Brasil com uma queda de -9,2%, a Argentina com queda de -10,5%, Peru de -13% e Venezuela nas piores condições, em -26%.

Deve notar-se que no caso venezuelano, para além dos problemas locais, as sanções e o bloqueio dos EUA prejudicam seriamente o funcionamento econômico.

Destacam-se alguns dados sobre a recessão em curso, e em particular é mencionado que:

“A produção industrial no México tem em abril uma queda de 29,3% em relação ao ano anterior, enquanto a atividade total da economia no mesmo período diminuiu 26,4% na Argentina, 15,1% no Brasil, 14, 1% no Chile, 20,1% na Colômbia e 40,5% no Peru “.

Não se trata da especificidade de uma economia, mas de que aos problemas locais se adiciona uma situação agravada mundialmente pelo coronavírus.

Dimensão social do problema

O impacto é fenomenal para boa parte da população em Nossa América.

“A forte contração em 2020 traduzir-se-á numa queda do PIB per capita regional de 9,9%. Depois de ter havido praticamente uma estagnação entre 2014 e 2019 (quando o crescimento médio anual foi de apenas 0,1%), esta queda do PIB per capita implica um retrocesso de dez anos: o seu nível em 2020 será semelhante ao registado em 2010.”

Recordemos que, para a década de 80 do século passado, a CEPAL popularizou a frase “década perdida”, a propósito da crise da dívida mexicana de 1982 e as sequelas derivadas da generalização da hegemonia neoliberal.

É a década, sob a liderança de Fidel, em que é tentada a criação do Clube dos países devedores, para enfrentar o dos credores, que estava sob a gestão do FMI.

Tratava-se da estagnação econômica numa década caracterizada por políticas de ajustamento e reforma estrutural, que se generalizaram e popularizaram sob o desenho do Consenso de Washington nos anos 90.

 Assim foram impostas as privatizações, a desregulação, a liberalização e o incentivo à iniciativa privada com regras orientadas para o ajustamento fiscal.

Esse saldo projetou-se na última década do século XX como uma “meia década perdida” que se somava à anterior.

Os primeiros 10 anos do século XXI aparecem como de recuperação, com crescimento e distribuição do rendimento, produto da combinação do aumento dos preços internacionais de exportação e de uma vontade política para a melhoria da distribuição do rendimento.

O clima de mudança política em toda a região induziu à extensão das políticas assistenciais, para além da orientação à esquerda ou à direita dos diferentes governos.

Por isso, destaca-se o fato de que a CEPAL nos lembre agora que 2020 leva a região ao nível registado em 2010, pelo que consolida outra década perdida, o que implica um impacto social regressivo em termos de emprego e pobreza, agravando e consolidando a desigualdade.

O mercado laboral será fortemente impactado, ao comentar a CEPAL que:

“… a taxa de desemprego regional situar-se-á em cerca de 13,5% no final de 2020, o que representa uma revisão em alta (2 pontos percentuais) da estimativa apresentada em Abril de 2020 e um aumento de 5,4 pontos percentuais relativamente ao valor registado em 2019 (8,1%).”

Afirma que:

“Com a nova estimativa, o número de desempregados chegaria a 44,1 milhões de pessoas, o que representa um aumento de quase 18 milhões em comparação com o nível de 2019 (26,1 milhões de desempregados).”

Acrescenta que:

“Estes números são significativamente maiores do que os observados durante a crise financeira mundial, quando a taxa de desemprego aumentou de 6,7% em 2008 para 7,3% em 2009 (0,6 pontos percentuais).”

Em rigor, não é novidade, uma vez que a OIT contempla uma escalada do desemprego e da informalidade a nível global, sobretudo entre as mulheres e os jovens.

Assim, num quadro de ofensiva de capital contra o trabalho, as condições da recessão mundial e regional consolidam a iniciativa capitalista que, na conjuntura, acelerou uma procura prolongada pelo trabalho remoto, o teletrabalho.

Faz parte da busca de reduzir o custo da produção laboral, transferindo para os trabalhadores parte do custo de manutenção dos instrumentos e meios de trabalho.

Por isso não é de surpreender que o mercado de trabalho evidencie o custo em termos de rendimento e emprego demonstrado pelos dados da CEPAL.

Ainda mais grave é a questão em termos de pobreza e indigência.

“A CEPAL prevê que o número de pessoas em situação de pobreza aumentará 45,4 milhões em 2020, com o que o total de pessoas em situação de pobreza passaria de 185,5 milhões em 2019 para 230,9 milhões em 2020, número que representa 37,3% da população latino-americana. Dentro deste grupo, o número de pessoas em situação de pobreza extrema aumentaria em 28,5 milhões, passando de 67,7 milhões em 2019 para 96,2 milhões em 2020, número que equivale a 15,5% da população total “.

O relatório sublinha que:

“Os maiores aumentos na taxa de pobreza (de pelo menos 7 pontos percentuais) ocorreriam na Argentina, Brasil, Equador, México e Peru”.

No caso da Argentina, a pobreza extrema passa de 3,8% para 6,9%, com uma variação de 3,1 pontos percentuais de crescimento; e a pobreza passa de 26,7% para 37,5%, com um aumento de 10,8 pontos percentuais.

A região da América Latina há muito chama a atenção pelos crescentes níveis de desigualdade e este relatório confirma-o.

Desta vez, não são divulgados dados sobre a concentração do rendimento e da riqueza, que agravam a situação de desigualdade que configura a América Latina e o Caribe como o território mais desigual no sistema mundial.

Propostas da CEPAL

O relatório defende quatro linhas de ação:

a) um rendimento básico de emergência como instrumento de proteção social;

 b) um abono contra a fome;

c) o apoio às empresas e aos empregos em risco;

d) o reforço do papel das instituições financeiras internacionais.

Parece pouco, e discutível, para um diagnóstico tão pesado, mesmo quando defende medidas urgentes que promovam boa parte dos atingidos social e economicamente.

São reclamações, as três primeiras, que são sustentadas a partir das organizações sociais e políticas que agrupam no território os setores mais desprotegidos.

As duas primeiras são sugestões para a emergência social e a terceira visa manter o tecido de pequenas e médias empresas, incluindo as “micro”, que são no seu conjunto a principal fonte de emprego em todos os países.

A última é a mais difícil, que remete a um reforço de organismos que deveriam ser incluídos mais como parte do problema do que como solução, ainda mais quando, por detrás do diagnóstico aparece dependência financeira e o sobre endividamento de várias das economias com problemas.

Sem ir mais longe, o caso argentino é paradigmático na conjuntura, quando se discute o refinanciamento da sua dívida com grandes Fundos Financeiros e com um FMI que afundou o país com um empréstimo impagável que condiciona o presente e o futuro da economia e o seu povo.

É tempo de pensar numa perspectiva civilizacional contra e para além do capitalismo.

Nota:

[1] CEPAL. Informe especial COVID19, 15/07/2020: 

https://repositorio.cepal.org/bitstream/handle/11362/45782/1/S2000471_es.pdf

*Julio C. Gambina é Presidente da Fundación de Investigaciones Sociales y Políticas, FISYP

Fonte: https://rebelion.org/proyecciones-preocupantes-de-la-cepal/

Edição: Página 1917


sábado, 1 de agosto de 2020

Não se Pode Viver com Boa Saúde num Planeta Doente*

David Servan-Schreiber**

     O urso polar vive completamente afastado da civilização. As vastas extensões de neve e gelo de que ele tem necessidade para sobreviver não são propícias ao desenvolvimento urbano nem às atividades industriais. Entretanto, de todos os animais do mundo, o urso polar é o mais contaminado pelos produtos tóxicos, a ponto de seu sistema imunológico e sua capacidade de reprodução estarem ameaçados. Este grande mamífero se nutre de focas e de grandes peixes, que se nutrem por sua vez de peixes menores, os quais comem peixes ainda menores, plancton e algas.
David Servan-Schreiber
   Os poluentes que nós despejamos em nossos rios grandes e pequenos terminam todos dentro do mar. Muitos são persistentes, ou seja, não se decompõem em elementos assimiláveis pela biomassa da terra ou dos mares. Em vez disso, eles fazem a volta do planeta em alguns anos e vão se acumular no fundo dos oceanos. Acumula-se também no organismo dos animais que os ingeriram (são bioacumulativos) e têm uma afinidade especial com as gorduras, diz-se que são lipossolúveis. São encontrados, portanto, na gordura animal. Primeiro na dos pequenos peixes, depois na dos grandes que comem os pequenos, depois na dos que comem os grandes peixes. Quanto mais elevado na cadeia alimentar, mais a quantidade de "POP" (poluentes orgânicos persistentes) na gordura aumenta¹. O urso polar está no topo de uma cadeia alimentar, que está contaminada em cada etapa. Fatalmente, ele é o mais atingido pela concentração progressiva - a biomagnificação - dos poluentes do meio ambiente.
   Existe um outro mamífero que ocupa o lugar de honra no cimo de sua cadeia, cujo habitat é ainda por cima claramente menos protegido do que o do urso polar: o ser humano.(...)
   Como a explosão do consumo de açúcar e a degradação extremamente rápida da relação ômega-6/ômega-3, o surgimento dessas substâncias tóxicas no nosso meio ambiente - e nosso corpo - é um fenômeno radicalmente novo. Ele data também da Segunda Guerra Mundial. A produção anual de substâncias químicas sintéticas passou de 1 milhão de toneladas em 1930, para 200 milhões de toneladas hoje.²
   Quando esses números foram publicados pela primeira vez em 1979 pela pesquisadora Devra Lee Davis, esta jovem e brilhante epidemiologista, que não poupava palavras, terminou sendo tratada como agitadora. É preciso dizer que ela tinha corajosamente dado como título a seu artigo na revista Science: "O câncer e a produção química industrial". Um tema que todo mundo teria preferido calar e que por pouco não encerrou sua carreira principiante. Mas Davis persistiu. Depois da publicação de mais de 170 artigos ao longo dos anos que se seguiram, após dois livros sobre o tema que causaram impacto,³ chegou a se tornar a primeira diretora de um centro oncológico ambiental, criado por ela na Universidade de Pittsburgh. Hoje, a relação entre câncer e meio ambiente não é mais contestada.

*Anticâncer: prevenir e vencer usando nossas defesas naturais; David Servan-Schreiber; p.97-98-99; Editora Objetiva; 2008.

**David Servan-Schreiber (21 de abril de 1961 – 24 de julho de 2011) foi um psiquiatra francês. Iniciou em 1978 os seus estudos na Faculdade de Medicina Necker-Enfants, em Paris, e concluiu o curso em 1984, na Universidade Laval do Quebeque. Exerceu a sua profissão de clínico no Canadá e nos Estados Unidos até 2002, onde contribuiu para fundar e em seguida dirigir o Centro de Medicina Complementar ou Integrativa de Pittsburg. Faleceu em decorrência do reaparecimento do câncer diagnosticado em 1992. (Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/David_Servan-Schreiber)
¹ Ribeiro CAO, Voltaire Y, Sanchez-Chardi A, Roche H. Bioaccumlation and affects of organochlorine  pesticides, PAH and heavy metals in the Eel (Anguilla anguilla) at the Camargue Nature Reserve, France. Aquatic Toxicology 2005; 741(1): 53-69.

² Davis DL, Magee BH. Cancer and industrial chemical production. Science 1979; 206(4425): 1356.

³ Davis DL. When Smoke Ran Like Water: Tales of Environmental Deception and the Battle Against Pollution. Nova York: Basic Books, 2004.

   

quarta-feira, 29 de julho de 2020

POSIÇÕES DO KKE NA XII CONFERÊNCIA INTERNACIONAL "LENIN E O MUNDO CONTEMPORÂNEO"


O perigo da guerra imperialista e a posição dos comunistas




As contradições inter-imperialistas que, no passado, deram origem a dezenas de guerras locais, regionais e duas mundiais, continuam a levar a duros confrontos econômicos, políticos e militares, independentemente da composição ou recomposição, mudanças na estrutura e  dos objetivos das uniões imperialistas internacionais, a chamada nova "arquitetura". "A guerra é a continuação da política por outros meios", especialmente em condições de profunda crise de sobre-acumulação de capital e grandes mudanças no equilíbrio de forças no sistema imperialista internacional, onde a redistribuição de mercados raramente ocorre sem derramamento de sangue.

Agudos antagonismos inter-imperialistas e as grandes contradições de estados fortes e interesses capitalistas hoje levam a reconfigurações constantes de alianças, fenômenos contínuos de formação de eixos e anti-eixos em nível internacional.

A intensificação dos antagonismos interimperialistas levou não apenas ao aumento dos gastos militares, mas também à reordenação entre os estados capitalistas, em termos de seu poder militar. Segundo o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (SIPRI), os gastos militares mundiais em 2015 atingiram US $ 1,7 trilhão, um aumento de 1% em relação a 2014.

Os Estados Unidos continuam sendo a maior potência militar do planeta, gastando mais de US $ 600 bilhões por ano, ou seja, tanto quanto as outras dez potências militares mais fortes gastam juntas.

A Rússia é a segunda força militar mais forte. Ao atualizar e fortalecer seu poder militar, pretende garantir os interesses econômicos de seus monopólios. Assim, em 2015, gastou US $ 66,4 bilhões, um montante aumentado em 7,5% em relação a 2014 e em 91% em relação a 2006.

Este período também destaca a corrida armamentista da China e da Índia (3ª e 4ª potências militares do mundo) para preencher as lacunas e aumentar seu poder militar a níveis que correspondem à potência econômica e ao alcance de seus grupos empresariais.
Outros estados que são aliados dos EUA na OTAN, como França (5), Grã-Bretanha (6), Turquia (8), Alemanha (9), Itália (10) ou fora da OTAN Como o Japão (7a), a Coréia do Sul (11a) e Israel (16a), também concentraram grandes forças militares.

 Obviamente, o poder militar não é determinado apenas levando em consideração os gastos militares, a capacidade de armas e o controle da produção e o mercado global de armas. É uma questão mais complexa que tem a ver com a capacidade total de cada classe burguesa de defender seus interesses, tanto no país quanto internacionalmente, com meios militares, quando os meios econômico e político-diplomático não são suficientes.

Portanto, além dos gastos militares anuais, o poder militar também tem a ver com o tamanho das forças militares adquiridas ao longo do tempo, a superioridade tecnológica, a existência de bases no exterior em combinação com o controle de territórios de importância estratégica, superioridade na coleta de informações, a capacidade de realizar guerras não ortodoxas. O poder militar está relacionado ao poder econômico, embora a forte presença econômica de um Estado não determine necessariamente seu poder militar. Este último exige uma forte indústria militar, a capacidade de treinar forças na arte da guerra e em novas tecnologias,
As armas nucleares são de extrema importância hoje. Os estados que possuem armas nucleares são Estados Unidos, Rússia, China, Índia, Grã-Bretanha, França, Israel, Paquistão e Coréia do Norte.

No entanto, mesmo entre essas potências nucleares existem grandes diferenças, pois dentre elas se destacam o potencial dos Estados Unidos e da Rússia. Além desses dois países que têm milhares de ogivas nucleares prontas para serem lançadas, apenas a Bretanha e a França têm armas nucleares prontas para serem usadas, e possivelmente Israel.
A Rússia é potencialmente a única potência militar que pode responder aos EUA no caso de um ataque nuclear, causando danos devastadores. Acredita-se que esse perigo seja um fator que impede o uso de armas nucleares. No entanto, foi historicamente demonstrado que, no caso da intensificação do antagonismo inter-imperialista e sua transformação em conflito militar, os estados capitalistas não hesitam em usar esse tipo de arma.

Com base no exposto, entende-se por que um dos principais temas do atual confronto entre os EUA e a Rússia é a instalação na Europa e na região do Pacífico do "escudo" anti-míssil dos EUA. Essas medidas visam impedir possível resposta da Rússia se os EUA e a aliança da Otan tentarem fazer um "primeiro ataque nuclear".

Além disso, a capacidade de uma resposta militar rápida é de grande importância. A OTAN deu grande ênfase à formação de um corpo militar de intervenção rápida, que, para realizar sua tarefa, precisa de meios contemporâneos de apoio, como porta-aviões ou bombardeiros estratégicos, além de novos territórios, como apoios geopolíticos, que é alcançado através de alianças políticas e militares, bem como com bases no exterior.

No próximo período, a correlação de forças militares será decisivamente afetada pelo uso de novas tecnologias, aeronaves de 5ª e 6ª geração, armas a laser, etc. Cada classe burguesa tenta aumentar seu poder através de alianças político-militares. A OTAN continua a ser a mais forte aliança político-militar, apesar da intensificação das contradições e da evidente tendência para a formação de um mecanismo militar independente da UE. As resoluções da OTAN em Varsóvia "deram o tom" à determinação dos imperialistas norte-americanos e europeus de defender seus interesses contra a burguesia russa, usando todos os meios militares à sua disposição em toda a fronteira entre a Rússia e a OTAN.

Planos semelhantes para fortalecer sua presença foram desenvolvidos pela OTAN e pelos Estados Unidos na região do Pacífico (com a estratégia "Pivot para a Ásia"), bem como em outras regiões.

Quanto aos campos existentes ou possíveis de confronto militar, destacam-se o sudeste do Mediterrâneo, o sudeste da Ásia, o norte da África e o Ártico, sem excluir outras fontes ou regiões voláteis, como o Cáucaso, o Golfo Pérsico, a região de Aden e Balcãs.
Além disso, tanto os confrontos militares na Europa (sudeste da Ucrânia, Crimeia) quanto o fortalecimento da OTAN no mar Báltico, no mar Negro, nos Balcãs e no mar Egeu, são fatores que advogam a possibilidade de que Conflitos militares surjam mesmo em solo europeu.
No entanto, além da OTAN, já surgiram outras alianças político-militares (Organização de Cooperação de Xangai, Organização do Pacto de Segurança Coletiva etc.), que apesar de serem ainda mais "frágeis" e menos desenvolvidas do que A OTAN coincide em seu caráter de classe, ou seja, são alianças de estados capitalistas.

Ao mesmo tempo, em algumas regiões, como América Latina e África, também estão sendo formadas alianças político-econômicas relacionadas a opções específicas e à cooperação político-militar, como com a UE. Além disso, Estados latino-americanos (como Colômbia, Peru, Chile, México) e outros (como Austrália) estão integrados no plano geral de promoção de "parcerias" com a OTAN.

Nos últimos anos, os exércitos mercenários, ou seja, empresas militares privadas, desenvolveram missões baseadas em vários pretextos (por exemplo, pirataria, tráfico de drogas, treinamento militar, "terrorismo") em dezenas de regiões em guerra, enviadas por estados capitalistas. Esses exércitos estão integrados aos planos imperialistas, nas chamadas guerras não ortodoxas, e dão aos governos burgueses a possibilidade de gerenciar melhor as perdas humanas nas operações militares em que participam.

Os confrontos militares ocorrem nas seguintes questões:

·         Controle de depósitos de energia e rotas de transporte de recursos energéticos (por exemplo, petróleo, gás natural, tubulações, etc.).
·         Controle de rotas terrestres e marítimas para o transporte de mercadorias (por exemplo, a Rota da Seda, rotas marítimas no Mediterrâneo, Bósforo, Corno de África, etc.).
·         Controle da riqueza subterrânea no Ártico, riqueza mineral, terras raras e reservas de água.
·         O uso do espaço para fins militares.
·         A luta pela participação no mercado, na qual os meios militares são utilizados não apenas para obter maior participação nos mercados, mas também para diminuir a participação dos antagonistas.

Sob essas condições, a atividade dos chamados grupos "terroristas islâmicos" é parte integrante da guerra imperialista no século 21. Isso ocorre independentemente do nível em que a atividade dessas organizações é formada sob o apoio ou a tolerância dos centros imperialistas ou se se manifesta como um elemento que afirma a independência dessas forças dos poderosos centros que as fortaleceram no passado.

A atividade dessas organizações é usada objetivamente como elemento da "guerra não ortodoxa" de um Estado ou de alguns setores contra os interesses de outro Estado capitalista ou como pretexto para realizar uma intervenção imperialista. Evidentemente, a atividade dessas organizações não possui apenas esses objetivos, mas é usada para fortalecer os mecanismos de repressão de vários estados burgueses, bem como para a preparação ideológica dos trabalhadores diante da possibilidade de envolver seus países em novas intervenções imperialistas em nome da luta contra o "terrorismo".

É claro que, juntamente com o feroz antagonismo sobre os lucros do monopólio, estão sendo feitos esforços para comprometer, chegar a um acordo, suspender temporariamente qualquer generalização do confronto, inclusive para reconfigurar alianças, como eventos no " Campo euro-atlântico.

Os eventos na Turquia e na Síria são caracterizados pela fluidez e mobilidade na formação de alianças entre estados capitalistas e a possível reconfiguração de alianças. No entanto, nem a tendência de preservar as antigas alianças nem a tendência de sua diferenciação devem ser absolutas. É importante acompanhar continuamente esses desenvolvimentos, porque eles estão relacionados ao rearranjo na correlação de forças entre alianças e centros imperialistas, inclusive na Europa, e podem desencadear desenvolvimentos mais gerais.

Nesta fase, apesar de a Otan estar se desenvolvendo e se expandindo ainda mais, mantendo sempre os Estados euro-atlânticos como um núcleo duro, não podemos dizer que, em geral, garantiu um curso permanente, estável e inalterável, uma vez que as alianças se formam num contexto de profundas contradições.

AS TAREFAS DO PARTIDO NA LUTA CONTRA A GUERRA IMPERIALISTA

O 20º Congresso do KKE avaliou que os conflitos locais e regionais continuarão como expressão e resultado de antagonismos e contradições inter-imperialistas mais aguçados, com possíveis cenários de operações militares no Oriente Médio, Mar Egeu, Balcãs, Norte da África, Mar Negros, Ucrânia, Estados Bálticos, Ártico e Mar do Leste e do Sul da China.

Em relação à nossa região, em particular, a situação entre a Grécia e a Turquia pode se tornar mais aguda com o envolvimento de outros países. O questionamento das fronteiras e dos direitos soberanos da Grécia pela burguesia turca faz parte de suas relações antagônicas com a burguesia grega na região.

A burguesia grega participa vigorosamente dos planos, intervenções, antagonismos e guerras imperialistas, a fim de melhorar sua posição na região. É responsável por um possível envolvimento militar no país.

O Programa do Partido determinou nossa posição em relação à guerra imperialista e nossa linha de atividade. Ele diz: “A luta pela defesa das fronteiras, os direitos soberanos da Grécia, do ponto de vista da classe trabalhadora e dos setores populares, é parte integrante da luta pela derrubada do poder do capital. Não tem nada a ver com a defesa dos planos de um ou outro polo imperialista e da lucratividade de um ou outro grupo monopolista.

No caso de envolvimento da Grécia em uma guerra imperialista, seja defensiva ou agressiva, o Partido deve liderar a organização independente dos trabalhadores e a luta popular em todas as suas formas, para que a luta pela derrota completa da burguesia - nacional e estrangeira como invasor – se vincule a conquista do poder na prática. O Partido tomará a iniciativa e dirigirá a construção de uma frente operária e popular que utilizará todas as formas de luta, sob o lema: O povo dará liberdade e o caminho de saída do sistema capitalista que, enquanto prevalece, traz guerra e "Paz com a pistola apontada para a cabeça do povo.

A tarefa da vanguarda da classe trabalhadora, o KKE, é ajustar, especializar e intensificar gradual e constantemente suas palavras de ordem, sem perder a principal que é o caráter da guerra, que é imperialista de ambos os lados, independentemente de quem foi o primeiro a atacar. Esta é a posição que promovemos na classe trabalhadora e nos estratos populares e, com base nisso estamos lutando hoje nas seguintes direções:

Explicar ao povo o caráter imperialista da guerra, os perigos, quem são os responsáveis, a necessidade de sua condenação política, a luta para impedir qualquer tentativa de mudar as fronteiras. Enfatizar que a política do governo burguês em caso de envolvimento militar vem depois da política geral, em detrimento da classe trabalhadora e dos estratos populares, tanto em condições de recuperação capitalista quanto em plena crise econômica. Destacar a necessidade de o povo não confiar no governo burguês; que a "unidade nacional" não pode e nunca poderá existir entre a burguesia e a classe trabalhadora em qualquer estado.
Salientar a necessidade de se opor a qualquer aliança imperialista, de lutar pelo fechamento de todas as bases estrangeiras, de saída da OTAN e da UE, de retirar as forças militares da OTAN do Egeu.

Destacar a necessidade de organizar a luta, a resistência e o contra-ataque da classe trabalhadora, das outras camadas populares, da sua Aliança Social, para acabar com a mudança de fronteiras, uma possível invasão-ocupação e participação em guerras fora de nossas fronteiras. Fortalecer a luta contra os governos da burguesia que prepararam o terreno junto com as classes burguesas de outros Estados no âmbito da OTAN e levaram ao massacre dos filhos do povo. Coordenar a luta com os trabalhadores e o movimento popular de outros Estados, vinculá-la ao objetivo de derrubar o poder capitalista na Grécia e nos países vizinhos, para que seus povos vivam pacificamente sob o poder dos trabalhadores.

Os eventos exigem intensificação de atividades anti-guerra e intervenções imperialistas, com extenso trabalho político de organizações do Partido e do KNE, bem como do trabalho dos sindicatos, do movimento operário-popular em geral, com o aumento da atividade da EEDYE ((Comite Grego pela Distensão Internacional e a Paz), especialmente em regiões com bases militares e quartéis servindo a OTAN e a "Política Comum de Segurança e Defesa da UE".

Fonte: https://inter.kke.gr/es/firstpage/

Edição: Página 1917



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