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segunda-feira, 11 de maio de 2020

O papel internacional da China*

Elisseos Vagenas**
Publicado em 2010.


   A ascensão de uma nova potência global, a China, tem provocado grande interesse para analistas e trabalhadores comuns em todo o mundo. Esse interesse é ainda mais intenso entre pessoas politizadas, que entendem a era de revoluções sociais que começou com a de Outubro de 1917 na Rússia, e que acarretou em uma série de importantes lutas e revoluções sociopolíticas em todo o mundo – entre elas, a Revolução Chinesa. O interesse em relação ao crescimento do poder da China é contraditório, uma vez que o aumento de seu poder está ocorrendo sob a bandeira vermelha e com o Partido Comunista da China no poder.
Em 1949 a Revolução Socialistas foi vitoriosa na China.
   No entanto, uma das “lições” da contrarrevolução na União Soviética é que os comunistas não deveriam ter aceitado inquestionavelmente o que o PCUS (Partido Comunista da União Soviética) dizia, mas que todo PC, embora fiel ao princípio do internacionalismo proletário, deveria estudar com seus próprios recursos os desenvolvimentos e a experiência do movimento comunista internacional, e tentar formular sua própria opinião sobre esses assuntos, utilizando do marxismo-leninismo como sua ferramenta. O KKE reserva seu direito de crítica dentro do movimento comunista internacional, com o objetivo tanto de fortalecê-lo, como também de fortalecer a estratégia dos comunistas. O KKE confronta desvios dos princípios do marxismo-leninismo e das leis da construção socialista, mantendo ao mesmo tempo relações bilaterais com partidos comunistas que possuem abordagens diferentes.
   Neste sentido, o KKE, embora continue mantendo relações bilaterais com o PCC (Partido Comunista da China), acompanha sistematicamente os desenvolvimentos e formula suas próprias avaliações, que expressa tanto publicamente, como ao PCC. Como é sabido, o KKE já em seu 17º Congresso (2005) observou a expansão das relações capitalistas na China. Desde então, essa tendência tem sido reforçada e é ainda mais evidente.

domingo, 10 de maio de 2020

Para onde vai a China?*

Artigo publicado em Política Operária, 2007.


Francisco Martins Rodrigues**

   O n° 78 da revista Études Marxistes, do Partido do Trabalho da Bélgica, é inteiramente preenchido com um bem documentado artigo intitulado “O desenvolvimento do socialismo na China”. Como o título já deixa perceber, o balanço do autor é francamente otimista. Acha que o “socialismo” está a avançar na China e que o PC Chinês continua “fiel” ao marxismo.
Protesto de operárias na China, em 2012.
   Porquê? Pela razão que deixa embevecidos todos os progressistas distraídos — o crescimento fenomenal da China, o avanço por saltos na economia, no nível de vida, na saúde, no ensino. Mas isso, só por si, não prova nada quanto a socialismo. Há três quartos de século também os progressistas, espantados perante a cavalgada da industrialização e da mecanização agrícola na União Soviética, esqueciam-se de perguntar quem estava no poder. Para o senso comum, a equação governo “comunista” + nacionalizações + desenvolvimento econômico = socialismo parece indiscutível. Só que há ainda o outro fator a ter em conta: qual a classe que realmente exerce o poder?***

   A verdade é que eles não querem saber desse pormenor da ditadura do proletariado inexistente. Não há sinais de poder das massas e há muitos sinais de poder dos capitalistas na China? O partido comunista está penetrado pelo espírito do negócio e do lucro? A propaganda sobre a “harmonia social” não consegue disfarçar as contradições de classe que crescem exponencialmente? Não faz mal. Pois não é o próprio PCC que reconhece estar ainda na “primeira fase do socialismo”? Logo, está tudo justificado.

   Como, apesar de tudo, não se pode ignorar as realidades brutais da sociedade chinesa, o autor do artigo lamenta, com ingenuidade postiça: “Porque permite o PCC que se desenvolva um importante sector privado, chinês e multinacional? Não se corre o risco de esvaziar pouco a pouco o socialismo da sua substância?” O “risco” de “esvaziar pouco a pouco o socialismo”... Boa piada!

   O crescimento da China é positivo no equilíbrio de forças mundial porque pode neutralizar a agressividade do imperialismo americano. Ao povo chinês, ao povo dos EUA, aos povos de todo o mundo, convém que o regime chinês se oponha ao imperialismo. Mas só um marxismo de meia tigela confunde isto com socialismo.

   Apetece recordar a advertência de Mao em Maio de 1966:Os representantes da burguesia que se infiltraram no Partido Comunista negam a necessidade da ditadura do proletariado contra a burguesia. São servidores leais da burguesia e do imperialismo. Esforçam-se por manter a ideologia burguesa de opressão e exploração do proletariado. São um bando de contra-revolucionários que estão contra o Partido Comunista e o povo. Os representantes da burguesia que se infiltraram no partido, no governo, no exército e nos setores culturais são um bando de revisionistas contra-revolucionários. Se lhes dermos ocasião, transformarão a ditadura do proletariado em ditadura da burguesia. A luta deles contra nós é uma luta de morte. Por isso a nossa luta contra eles deve ser também uma luta de morte.”

   O comité central esclareceu depois que isto era um exagero e que havia apenas “pontos de vista diferentes sobre a maneira de construir o socialismo”. Como se viu.

* Fonte:  https://anabarradas.com/   
             
** Militante revolucionário, de longa data, foi membro do CC do Partido Comunista Português e viria a romper com o seu reformismo por altura da polêmica sino-soviética, fundando a FAP e o CMLP, a primeira organização marxista-leninista portuguesa. Foi o primeiro a introduzir em Portugal de uma forma organizada as lições da revolução chinesa e o exemplo de Mao Tsétung. Preso várias vezes e barbaramente torturado pela PIDE, manteve-se ao longo de toda a sua vida do lado da Revolução e empenhado na organização de uma corrente comunista revolucionária. O 25 de Abril de 1974 apanhou o camarada "Chico" na prisão e os militares "democratas" do MFA tentaram mantê-lo preso. Só a forte vontade popular e grandes manifestações à porta da prisão o conseguiram libertar. A partir de 1985 e até morrer em 2008 foi diretor da revista "Política Operária", que também fundou.
É em nome da pureza do papel do operariado que, em 1984, abandona o PCP (R) e a UDP, acusando os outros dirigentes de cedências à pequena burguesia. Escreve então o livro "Anti-Dimitrov. 1935-1985 meio-século de derrotas da Revolução" (1985), onde sistematiza a sua crítica ao dimitrovismo, ao estalinismo e ao maoismo. Funda a "Política Operária", a sua última revista, que manteve praticamente até à morte.

*** Todos os grifos são nossos, Página 1917.










segunda-feira, 4 de maio de 2020

Como Forjar um Partido Bolchevique.*

É Preciso arrancar as Massas aos Social-Democratas
Ossip Piatnitsky**

As formas bolcheviques e social-democratas
de organização do Partido.

Até 1905 não houve na Rússia czarista eleições nem campanha eleitoral. Nem os camponeses nem os operários participavam das eleições dos zemstvos ou das municipalidades urbanas. Não possuíam o direito de voto. Depois de 1905, quando, em razão das eleições para a Duma se elaboraram condições especiais para os operários, foram criadas divisões especiais e os operários votavam por empresa e por fábrica.
Ossip Piatnitsky, dirigente da III Internacional Comunista.
Uma situação ilegal de todos os partidos até 1905, uma ausência de campanhas eleitorais e ao mesmo tempo (o qual é essencial) uma posição justa dos bolcheviques na questão da organização do Partido (o recrutamento para o Partido de operários de fábricas e de empresas, a criação de círculos de estudos políticos e gerais, tais foram na Rússia czarista as particularidades da formação do Partido bolchevique. A situação ilegal do Partido bolchevique, além das razões já mencionadas, o impulsionava a criar os grupos do Partido nas empresas, pelo fato de que era mais fácil e cômodo militar. A edificação do Partido começou, pois, nas fábricas e nas empresas. Isso deu brilhantes resultados, tanto nos anos de reação e depois da revolução de fevereiro como, particularmente, no curso da revolução de outubro, em 1917, da guerra civil e da grande construção do socialismo.

Durante a reação, depois de 1908, quando os comitês locais do Partido e sua direção (o Comitê Central) eram aniquilados periodicamente, nem por isso sua base deixava de se manter firme nas fábricas e empresas. As células do Partido continuavam a ação. Depois da revolução de fevereiro, as eleições dos soviets de deputados operários também eram realizadas por fábrica e por empresa. É importante destacar que as eleições para as dumas das cidades e bairros e para a Assembléia Constituinte tinham lugar não por empresa, mas por domicílio dos eleitores. Mesmo assim, depois das revoluções de fevereiro e de outubro o Partido bolchevique obteve os mesmos êxitos apesar de não ter organizações de bairro e de concentrar sua agitação nas empresas e nos quartéis. As células, os comitês de zona, e os comitês de cidade fizeram a campanha eleitoral sem constituir organizações especiais para as eleições por bairro. O Partido Bolchevique sempre tinha suas organizações de base no local de trabalho de seus membros.

Outra coisa ocorria no estrangeiro. Ali as eleições ocorriam não por empresa, mas por distrito, pelo domicílio dos eleitores. A tarefa principal que os partidos socialistas se propunham era de organizar bem a campanha eleitoral e de lutar pela cédula eleitoral. Por esta razão, o Partido estava igualmente organizado no local de habitação de seus membros, a fim de facilitar seu agrupamento para realizar a campanha nas circunscrições eleitorais.

quarta-feira, 29 de abril de 2020

O Essencial e o Descartável

 Ney Nunes

   A pandemia do coronavírus e o consequente agravamento da crise capitalista que se arrasta desde 2008 vêm descortinando a dura realidade que a mídia e as instituições burguesas fazem de tudo para ocultar. A situação de extrema dificuldade em que já vivia a maioria da população, vai se tornando desesperadora. Face a redução da atividade econômica, as empresas não hesitam em demitir e cortar salários dos trabalhadores para preservar seus lucros às custas do aumento da exploração. Os milhões que estão fora do mercado de trabalho formal estão praticamente sem meios de subsistência, restritos a um abono de emergência insuficiente, de apenas seiscentos reais.


Trabalhadores do comércio protestam contra demissões em Porto Alegre.

   As principais armas conhecidas até agora para deter a velocidade do crescimento da pandemia e reduzir o impacto sobre o sistema de saúde, são o isolamento social e os cuidados com a higiene. É o que repetem a exaustão os infectologistas e profissionais da área médica. Somente trabalhadores essenciais deveriam se manter em atividade, até que a curva de infectados diminua, possibilitando assim, a que todos os necessitados de atendimento hospitalar possam receber a devida assistência.

    Mas no capitalismo, o essencial, em primeiríssimo lugar, é sempre manter e aumentar os lucros dos grandes monopólios empresariais. Para isso, mesmo com o risco de causar mais dezenas de milhares de mortes, a classe burguesa (grandes empresários), e seus lacaios no governo Bolsonaro e no oligopólio midiático seguem defendendo o retorno do maior número possível de atividades. São verdadeiros genocidas! A vida dos trabalhadores e dos seus familiares para eles é um problema secundário.

   Toda essa situação vai descortinando aos poucos quais os verdadeiros interesses das classes sociais, geralmente encobertos pelas ideologias e fantasias destinadas a fazer parecer interesse de todos o que, na verdade, só interessa e convém a uma minoria de privilegiados. Assim faz a burguesia todo o tempo e agora também durante a pandemia. Querem nos fazer acreditar que estão preocupados com o desemprego, com as dificuldades do povo, quando estão é demitindo em massa e cortando salários.

Hospitais em colapso com o rápido crescimento do número de infectados.
   

     O essencial, nesse momento, para os trabalhadores e a maioria da população é a defesa da vida humana. Essencial é reduzir de todas as formas as possibilidades de contágio, mesmo que a atividade econômica fique reduzida, pelo tempo que for necessário, ao que realmente importa para garantir a sobrevivência, como, por exemplo, os serviços de produção e distribuição de energia, de tratamento de água e esgoto, de telecomunicações, de saúde e pesquisa, a produção e distribuição dos medicamentos, alimentos e produtos de higiene e limpeza. Essencial é garantir um abono suficiente para a sobrevivência dos mais necessitados. Mas a lógica do capitalismo é outra, estimula a anarquia econômica e indisciplina social em defesa do seu interesse particular de continuar auferindo lucros imensos, mesmo às custas de dezenas ou centenas de milhares de mortes. Totalmente descartáveis são a burguesia e seus lambe-ovos defensores de interesses mesquinhos.

   A realidade está apontando a falência do sistema capitalista para prover as mínimas necessidades sociais. A defesa da vida, do progresso, da paz e da justiça revelam-se objetivos inalcançáveis enquanto persistir esse sistema de exploração. É cada vez mais urgente que os trabalhadores tomem consciência dos seus reais interesses e da sua capacidade de organizar e liderar o conjunto dos demais explorados na luta para edificar uma sociedade livre da burguesia, livre da exploração, a sociedade socialista.

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