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sábado, 18 de abril de 2020

As Lições da Insurreição de Moscou*

   Lenin**


   O livro Moscou em Dezembro de 1905 não podia ter saído com maior oportunidade. Uma tarefa vital do partido operário é assimilar a experiência da insurreição de Dezembro. É de lamentar que este livro seja uma barrica de mel com uma colher de alcatrão: o material é extremamente interessante, apesar de incompleto, mas as conclusões são incrivelmente superficiais, incrivelmente vulgares. Destas conclusões falaremos à parte(1) por agora voltaremos à questão política atual, às lições da insurreição de Moscou.


   As formas principais do movimento de Dezembro em Moscou foram a greve pacífica e as manifestações. A enorme maioria da massa operária participou ativamente apenas nestas duas formas de luta. Mas precisamente a ação de Dezembro em Moscou demonstrou com evidência que a greve geral, como forma independente e principal de luta, se tornou obsoleta e que o movimento ultrapassa, com uma força espontânea e irresistível, este quadro estreito e gera a forma suprema da luta, a insurreição.

  Todos os partidos revolucionários, todos os sindicatos de Moscou, ao declarar a greve, tinham consciência e até mesmo sentiam a inevitabilidade da sua transformação em insurreição. O Soviete dos Deputados Operários decidiu em 6 de dezembro «esforçar-se por transformar a greve em insurreição armada». Mas, de fato, nenhuma das organizações estava preparada para isso, mesmo o Conselho de coligação dos grupos de combate(2) falava (em 9 de dezembro!) de insurreição como de algo distante, e a luta de rua passava indubitavelmente por cima da sua cabeça e sem a sua participação. As organizações atrasaram-se em relação ao crescimento e à envergadura do movimento.

   A greve ia-se transformando em insurreição, antes de mais, sob a pressão das condições objetivas, criadas depois de outubro(3). Já não era possível surpreender o governo por meio de uma greve geral, ele já organizara a contra-revolução, preparada para ações militares. Tanto o curso geral da revolução russa depois de outubro como a sucessão dos acontecimentos em Moscovo nas jornadas de dezembro confirmaram de modo admirável uma das profundas teses de Marx: a revolução avança porque cria uma contra-revolução forte e unida, ou seja, obriga o inimigo a recorrer a meios de defesa cada vez mais extremos e elabora assim meios de ataque cada vez mais poderosos(4).

- 7 e 8 de dezembro: greve pacífica, manifestações pacíficas de massas 8 de dezembro à noite: cerco do Aquário(5). 9 de dezembro, durante o dia: os dragões atiram contra a multidão na Praça Strastnáia. À noite, esmagamento da casa de Fídler(6). A exaltação cresce. A multidão não organizada das ruas começa a erguer de modo completamente espontâneo e ainda insegura-mente as primeiras barricadas.

- 10 de dezembro: a artilharia abre fogo contra as barricadas e contra a multidão das ruas. A construção de barricadas torna-se uma ação decidida, não isolada, mas indubitavelmente de massas. Toda a população está nas ruas; toda a cidade se cobre de uma rede de barricadas nos principais centros. Durante vários dias desenvolve-se uma tenaz luta de guerrilhas entre os grupos de combate e as tropas, luta que esgota os soldados e obriga Dubássov a implorar reforços. Só em 15 de dezembro as forças governamentais conseguem uma preponderância decisiva, e a 17 o regimento Semiónovski(7) esmaga o bairro de Présnia, último baluarte da insurreição.

  Da greve e das manifestações às barricadas isoladas. Das barricadas isoladas à construção em massa de barricadas e à luta de ruas contra as tropas. Por cima da cabeça das organizações, a luta proletária de massas passou da greve à insurreição. É nisso que reside a grande aquisição histórica da revolução russa, alcançada em dezembro de 1905, aquisição alcançada, como todas as precedentes, à custa de sacrifícios imensos.*** Da greve política geral o movimento elevou-se a um grau superior. Forçou a reação a ir até ao fim na sua resistência, aproximando assim em proporções gigantescas o momento em que a revolução também irá até ao fim no emprego dos meios ofensivos. A reação não pode ir mais além do que arrasar com artilharia as barricadas, as casas e a multidão das ruas. A revolução pode ainda ir mais além do que os grupos de combate de Moscovo, pode ir muito, muito mais além, tanto em amplitude como em profundidade. E a revolução avançou muito desde dezembro. A base da crise revolucionária tornou-se incomensuravelmente mais ampla; agora é preciso afiar mais a lâmina.

sexta-feira, 17 de abril de 2020

Marxismo e Revisionismo*

Lenin **


No domínio da política, o revisionismo tentou rever o que realmente constitui a base do marxismo, ou seja, a teoria da luta de classes. A liberdade política, a democracia, o sufrágio universal, destroem a base da luta de classes – diziam-nos os revisionistas – e desmentem o velho princípio do Manifesto Comunista de que os operários não têm pátria. Uma vez que na democracia impera a “vontade da maioria”, não devemos ver no Estado, segundo eles, o órgão da dominação de classe, nem negar-nos a entrar em alianças com a burguesia progressista, social-reformista, contra os reacionários.

Lenin fala em comício do Partido Bolchevique.
 

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Lenin, 150 Anos!

Lenin vive, viva Lenin!
1870 - 2020


Vladimir Ilyich Ulianov, pseudônimo Lenin:


   Revolucionário marxista, político comunista, principal dirigente e teórico do Partido Bolchevique, líder da Revolução de Outubro na Rússia em 1917, a primeira revolução socialista vitoriosa no mundo, fundador da União das Repúblicas Socialistas Soviéicas (URSS). 

Nascimento: 22 de abril de 1870, Ulianovsk, Rússia

Falecimento: 21 de janeiro de 1924, Gorki Leninskiye, Rússia

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Socialistas e Fascistas


Antonio Gramsci
Artigo não assinado, em L'Ordine Nuovo, 11 Junho 1921.

   

  A posição política do fascismo é determinada por estas circunstâncias elementares:
1) Os fascistas, nos seis meses de sua atividade militante, carregaram-se de uma bagagem extremamente pesada de atos delituosos que permanecerão impunes só até o momento em que a organização fascista for forte e temida.

2) Os fascistas puderam desenvolver a sua atividade apenas porque dezenas de milhares de funcionários do Estado, especialmente os corpos de segurança pública (administrações, guardas reais, carabineiros) e da magistratura, se tornaram seus cúmplices morais e materiais. Esses funcionários sabem que sua impunidade e suas carreiras estão estreitamente ligadas à sorte da organização fascista e, portanto, têm todo o interesse em apoiar o fascismo e qualquer tentativa que possa fazer para consolidar sua posição política.

3) Os fascistas possuem, disseminados em todo o território nacional, depósitos de armas e munições em tal quantidade que seria pelo menos suficiente para constituir um exército de meio milhão de homens.

4) Os fascistas organizaram um sistema hierárquico de tipo militar que tem sua natural e orgânica direção no Estado-Maior.

   Entra na lógica comum dos fatos elementares, que os fascistas não querem ser presos, pelo contrário, querem usar sua força, toda a força de que dispõem, para alcançarem o fim máximo de todo movimento: a posse do poder político.

  O que pensam fazer os socialistas e os dirigentes da Confederação* para impedir que sobre o povo italiano venha se alastrar a tirania do Estado-Maior, dos latifundiários e dos banqueiros? Estabeleceram um plano? Têm um programa? Não parece. Os socialistas e os dirigentes da Confederação poderiam  estabelecer um plano "clandestino"? Este seria ineficaz, porque apenas uma insurreição das grandes massas pode despedaçar um golpe de força reacionário e as insurreições das grandes massas, se têm necessidade de uma preparação clandestina, têm também necessidade de uma preparação legal, aberta, que dê uma orientação, que oriente os espíritos, que prepare as consciências.

  Os socialistas nunca se puseram seriamente a questão da possibilidade de um golpe de estado e dos meios a predispor para se defenderem e passarem à ofensiva. Os socialistas, habituados a mastigar estupidamente algumas fórmulas pseudo-marxistas, negam a revoluções "voluntaristas", "milagreiras" etc, etc. Mas se a insurreição do proletariado fosse imposta pela vontade dos reacionários, que não podem ter escrúpulos "marxistas", como se comportaria o Partido Socialista? Deixaria, sem resistência, a vitória para a reação? E se a resistência fosse vitoriosa, se o proletariado insurrecto e armado derrotasse a reação, que palavra de ordem daria o Partido Socialista: entregar as armas ou continuar a luta até o fim? Acreditamos que essas perguntas, neste momento, são tudo menos acadêmicas e abstratas. Pode acontecer, é verdade, que os fascistas, que são italianos, e que têm todas as indecisões e fraquezas de caráter da pequena burguesia italiana, imitem a tática seguida pelos socialistas na ocupação das fábricas: se afastem  e abandonem à justiça punitiva de um governo restaurador da legalidade os que cometeram delitos e os seus cúmplices. Pode acontecer, no entanto, é porem má tática fiar-se nos erros dos adversários, imaginar os seus adversários incapazes e ineptos. Quem tem força, serve-se dela. Quem sente o perigo de ser preso tenta o impossível para conservar a liberdade. O golpe de Estado dos fascistas, isto é, do Estado-Maior latifundiários e dos banqueiros, é o espectro ameaçador que desde o início pesa sobre esta legislatura. O Partido Comunista tem sua orientação; lançar a palavra de ordem da insurreição, conduzir o povo em armas até a  liberdade garantida pelo Estado operário. Qual é a palavra de ordem do Partido Socialista? Como podem ainda as massas confiar neste partido que esgota a sua atividade política na lamentação e só se propõe exigir dos seus deputados "belíssimos" discursos no Parlamento?

*Confederação Geral do Trabalho, na época sob hegemonia dos socialistas. (nota do editor)

Escritos Políticos, Antonio Gramsci, Vol II, p. 301, Seara Nova (Portugal), 1977.



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