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segunda-feira, 13 de janeiro de 2025

Análise marxista ou apologia do capitalismo?

Pedro Pomar*
Maio de 1960

"...uma justa análise da situação objetiva do país exige algo mais. Exige que se ponha a descoberto as contradições de classe, que se diferenciem, com toda a nitidez, os interesses das classes oprimidas, dos trabalhadores, do conceito geral da nação em seu conjunto, o qual corresponde aos interesses da classe dominante."



A discussão ora aberta terá grande significação para o movimento revolucionário brasileiro. Apesar das diversas limitações confio em que na luta franca de opiniões todos nos esforçaremos por encontrar as soluções que sirvam à nossa grande causa.

Ante a confusão ideológica imperante, o centro dos debates deve girar, a meu ver, em torno da linha geral e da tática, pois disso depende, em última instância, o papel do Partido, a sua capacidade de transformar o proletariado em fator decisivo na formação da frente única anti-imperialista e democrática e em força dirigente da revolução brasileira.

No processo autocrítico iniciado após o XX Congresso do PCUS, nos foi imposta a tarefa de superar os erros dogmáticos e sectários, de natureza subjetivista, agravados pelo culto à personalidade, que impregnaram nossas concepções, quer quanto à teoria da revolução, quer quanto ao Partido, à sua política e aos seus métodos. Como um dos portadores dessas concepções e um dos responsáveis por esses erros, compreendo a necessidade de impedir sua repetição.

sábado, 11 de janeiro de 2025

Moçambique sem rumo à vista

Ana Barradas

10-01-2025

Parece estar chegando a um período menos agitado o drama moçambicano desencadeado pela oposição do cavaleiro solitário Venâncio Mondlane aos recentes e fraudulentos resultados eleitorais.



Como era de prever, ambas as partes – Frelimo e toda a oposição – tiveram de se entender às pressas para conter ao caos social e econômico e conciliar o irreconciliável tanto quanto possível.

Assim, vamos ter agora o “herói” Venâncio de cabeça baixa, debaixo da traição do chefe do seu partido, a participar no parlamento de Moçambique sem ter atingido o seu objetivo de vir a ser o grande líder do governo.

Esse sonho era desde o começo em si mesmo idealista porque, mesmo com o forte apoio popular que conseguiu concitar – no início inclusive de largos setores da burguesia, que depois se retraiu diante da sublevação da arraia miúda nas ruas – nunca teria a aprovação não só da Frelimo como da chamada comunidade internacional para subverter de pernas para o ar os resultados das eleições, ainda que problemáticos.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

Foram os erros que colocaram a perder a Revolução Russa?

Francisco Martins Rodrigues*
Janeiro/Fevereiro de 1992

Gorbachev, o último coveiro da Revolução Soviética.


Nem só revisões e renegações produz o eclipse do movimento comunista. Surgem também, ainda que raramente, tentativas de interpretação e superação da crise, na linha do marxismo. Tom Thomas, militante da corrente M-L francesa, editou há alguns meses em volume as suas reflexões, a que deu o título: “A propósito das revoluções do século XX, ou o desvio irlandês”.(1)

O “desvio irlandês” é uma ideia sugestiva que o autor foi buscar numa carta de Marx, de 1869:

Pensei durante muito tempo que o regime irlandês seria derrubado pelo ascenso da classe operária da Inglaterra. Hoje estou convencido do contrário: os operários ingleses não farão nada enquanto não se desembaraçarem da Irlanda. É na Irlanda que se deve fazer alavanca”.

Regresso ao ponto de partida

Marx intuía pois a tendência que veio a manifestar-se: a revolução, bloqueada nos países onde as condições econômico-sociais estão maduras para o socialismo, abriu caminho onde as condições não estão maduras, nos países atrasados. O nosso século — conclui Thomas — foi preenchido justamente com o “desvio irlandês” do processo revolucionário mundial: as grandes revoluções na Rússia e na China, arrastando uma torrente de revoluções nacionais anti-imperialistas, em Cuba, Vietnam, Argélia, etc.

É verdade que, entretanto, aconteceu o imprevisível: as revoluções, depois de ter degenerado em miseráveis caricaturas sob a égide do capitalismo nacional de bandeira socialista, são reabsorvidas pelo mercado imperialista mundial. Seja como for, conclui Thomas, “o caminho está agora livre porque o capitalismo realizou a sua obra de estabelecer sobre toda a superfície do globo as mesmas relações sociais, pôr as mesmas classes nas mesmas situações e perante os mesmos inimigos. O ‘desvio irlandês’ cumpriu a sua tarefa. Chega a época das revoluções proletárias, embora com algum atraso sobre as previsões. É para ela que nos devemos preparar, voltando-nos para o futuro e deixando que os mortos enterrem os seus mortos”.

É estimulante esta capacidade para encarar o processo histórico no seu movimento global, sem cair nas habituais dúvidas existenciais sobre se a revolução é mesmo inevitável e a ditadura do proletariado é mesmo legítima. Resta, contudo, a questão: porque é que esse gigantesco ciclo revolucionário nos países atrasados fracassou de maneira tão generalizada e foi incapaz de detonar revoluções proletárias socialistas nas metrópoles do capital, como seria a suposição de Marx e, mais tarde, de Lenin, Mao, etc.? Porque terminou nesta obscura agonia e não num salto para uma etapa mais avançada da revolução?

quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

Após a queda de Assad, uma verdadeira linha de resistência deve ser construída

Kemal Okuyan

Secretário Geral do Partido Comunista da Turquia (TKP) 

Kemal Okuyan


Discutir se é uma guerra civil ou uma intervenção estrangeira na Síria é um esforço fútil. O país tem sido uma zona de conflito onde é completamente ambíguo quem é “doméstico” e quem é “estrangeiro”.

É obviamente difícil, nessas circunstâncias, determinar a força motriz dos últimos acontecimentos que, em última análise, desencadearam a queda de Assad. É claro, no entanto, que a propaganda de que “o povo derrubou um ditador” dos países da OTAN, principalmente entre eles os EUA e o Reino Unido, e a Turquia (que é um membro da OTAN, mas também atua com ambições neo-otomanas) é apenas uma retórica falsa.

O governo na Síria foi enfraquecido por intervenções estrangeiras, guerra prolongada, sanções econômicas, práticas que falharam em unificar o povo, corrupção, políticas econômicas liberais, conflitos entre países que deveriam ser aliados de Assad, que apenas impuseram à Síria políticas para seus próprios interesses. Isso causou o fim daquele governo, quer ele caísse ou fosse derrubado.

Essas causas profundas de fraqueza tornaram o colapso inevitável diante da agressão israelense, das intervenções abertas dos EUA, da intervenção secreta do Reino Unido, da presença militar que a Turquia tentou legitimar invocando o direito de lutar contra o “separatismo curdo” e da recente operação realizada por todas essas potências de forma coordenada.

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