Índice de Seções

sexta-feira, 19 de julho de 2024

A bela utopia marxista*

Francisco Martins Rodrigues**

Será que têm razão os que pensam, como o nosso leitor e assinante de primeira hora, Fernando Pulido Valente, que Marx errou quando considerou que o proletariado estaria em condições de desempenhar o papel revolucionário de abolir o sistema capitalista?

A bela utopia marxista


Talvez seja útil refletir sobre este tema a partir da conjuntura atual, na medida em que ela poderá dar-nos pistas para respondermos a esta interrogação e concluirmos algo mais, para assim irmos ao encontro das preocupações do nosso amigo leitor.

O que o momento atual nos diz com uma clareza cada vez maior é que o sistema não presta, o domínio da maioria é uma balela. A prova é que, apesar de se estarem sempre a queixar de não têm dinheiro para pagar centros de saúde, aumentos de salários, reformas, o buraco da segurança social, etc., os Estados são os primeiros a acorrer com milhares de milhões de euros aos bancos que, por irresponsabilidade e má gestão, fizeram evaporar num dia capitais que foram acumulados a partir do trabalho esforçado da mão-de-obra que os capitalistas controlam. Nesta operação internacional concertada de massiva apropriação privada de recursos públicos, o que vigora é o socialismo para os ricos e o capitalismo para os pobres, a privatização dos lucros e a socialização dos prejuízos. Não se ouviu ainda falar, nem se ouvirá, de multas, sanções ou prisão para nenhum dos executivos responsáveis por este colapso de dimensões globais.

Perante o fracasso do neoliberalismo, não há terceira via, pelo que, enquanto não desaparecer, o capitalismo declinante poderá ser ainda mais perigoso. O modelo econômico que gerou a atual crise é o mesmo que origina o aumento das desigualdades que empurram as classes mais desfavorecidas para um endividamento sem fim à vista. Apesar da sociedade do conhecimento da qual tanto se esperou, a pauperização não cessa de aumentar em todo o mundo e também nos países europeus. O perigo de uma catástrofe mundial pode mesmo arrastar-nos a todos para a barbárie, se entretanto não ocorrerem acontecimentos que invertam esta marcha para o abismo.

quarta-feira, 17 de julho de 2024

Lula, finalmente, assumiu a presidência

Nildo Ouriques

19/06/2024

"Há aqueles que alimentam as esperanças de que o desgaste das pesquisas (sempre elas!) levem finalmente o governo a rever a política econômica e mudar de rumo, tomando distância da “austeridade”, agora considerada como a mãe do fascismo por uma novidade italiana. Outros, subitamente, se definem “por princípio” na “oposição de esquerda”, apelando para uma fuga do real de natureza doutrinária embora não vacilem na piscadela generosa para a agenda dos ministros identitários (Silvio Almeida, Anielle Franco, Cida Gonçalves…) mas antecipam que estarão prontos para apoiar o governo em caso de necessidade extrema."


É costume nas filas da esquerda liberal inocentar Lula e culpar seus ministros pelos “erros” nas políticas públicas. A ilusão de que a vitória de Lula era condição para derrotar o “fascismo”, barrar o “neoliberalismo” (seja lá o que isso significa!), tomar um fôlego e retomar a iniciativa política foi perdendo aderência após 6 meses de governo. Naquele momento, o encanto e o oportunismo de todos aqueles que votaram em Lula mudaram de direção para não perder a linha: começou a fase do ataque aos ministros.


Lula, finalmente, assumiu a presidência



Camilo Santana, por exemplo, foi o primeiro a ganhar a pecha de  office boy da Fundação Lehmman porque a sensibilidade da pequena burguesia universitária semi-militante tem certa influência nos sindicatos e partidos políticos, que, por sua vez, não produzem teoria. Em consequência, importam das universidades os bordões destinados a simular a luta e justificar a impotência do governo diante da classe dominante na forma de apelos morais completamente impotentes. Assim, o ministro da Educação segue sob fogo cruzado de todo universitário digno de ser chamado militante. O Programa Pé de Meia é menos que caridade católica, mas goza de simpatia silenciosa nas filas da esquerda liberal porque há que fazer algo para os pobres que abandonam a escola aqui e agora, dizem com aquela seriedade dos que carregam alguma culpa na alma.

A despeito do perfil pra lá de baixo, a verdade é que Luciana Santos, ministra de Ciência e Tecnologia, não tem sido alvo da crítica, embora o raquitismo da pasta revele de maneira eloquente não somente a dependência científica e tecnológica do país, mas, sobretudo, a completa prostração do governo numa área estratégica para afirmação da soberania e melhoria das condições de trabalho do povo. Ocorre que a agência  Financiadora de Estudos e Projetos  (FINEP), por exemplo, é um órgão que sempre nutre esperanças de conseguir algum nesse deserto do real…

De igual modo, a “crítica” também não alcançou outros personagens menos afeitos à condição de classe dos universitários, como por exemplo, Carlos Henrique Fávero, a quem Lula já considerou com toda razão, o “ministro mais feliz” de seu governo. Não há dúvidas a respeito, basta ver o financiamento do Banco do Brasil – o festejado Plano Safra – considerado pelo presidente como o mais vultuoso de nossa história. O ministro Fávero, representante do latifúndio sorri, mas não agradece, afinal não deixa de defender seus interesses de classe, ao contrário da esquerda liberal, para a qual, a consciência de classe sequer figura como um valor.

terça-feira, 16 de julho de 2024

A aprovação da “Lei de Bases” e a situação na Argentina de Milei

Comitê Central do Partido Comunista Argentino

No dia 12 de junho, entre balas de borracha e gás lacrimogêneo contra o proletariado e o povo argentino, foram aprovadas a Lei de Bases, que representa uma nova e imensa ofensiva da burguesia contra a nossa classe, bem como uma ferramenta para maximizar os lucros dos monopólios locais e estrangeiros, à custa dos trabalhadores que continuam a carregar nos ombros a crise agravada pelo governo antioperário e antipopular de Javier Milei e Victoria Villarruel.


Protestos massivos marcaram a votação do projeto da Lei de Bases.


A Lei de Bases representou um enorme passo em frente na implementação do plano econômico do Fundo Monetário Internacional. Enquanto o FMI exige a lei do imposto sobre o rendimento, a racionalização dos subsídios, o controle das despesas e uma política cambial mais flexível, no dia 13 de Junho, um dia depois da sessão do Senado, foi aprovado o desembolso de 800 milhões de dólares para o nosso país, numa gesto claro de aprovação da gestão e dos resultados ferozes do governo de Javier Milei. Esta aprovação faz parte das verificações aprofundadas que o Fundo tem realizado em nosso país a partir dos acordos firmados por Sergio Massa, então SuperMinistro da Economia; e hoje constitui a abertura de uma nova fase na Argentina, consolidando o plano econômico que o governo de Javier Milei, liderado por Luis Caputo, decidiu implementar.

Entre negociações, subornos e apoio de diferentes facções da burguesia, conseguiram aprovar uma das piores leis desde o regresso da democracia, o que significa um grande retrocesso em termos de direitos conquistados. Isto pode ser visto com o Regime de Incentivos a Grandes Investimentos (RIGI), que beneficia diretamente o capital com um projeto extrativista. Embora a burguesia local também se oponha, denunciando a concorrência desleal, nós, comunistas, não tomamos o partido dos empresários argentinos, pois a exploração não distingue entre capital estrangeiro e capital local; nem reconhecemos as suas tentativas de proclamar a defesa da "soberania", uma vez que procuram assim manter a exploração do nosso solo exclusivamente nas mãos dos monopólios locais. Pelo contrário, denunciamos que o RIGI abre caminho à maximização dos lucros capitalistas, neste caso do capital estrangeiro. É por isso que a proposta dos comunistas perante o RIGI e em vários pontos da Lei de Bases é que as alavancas da economia sejam nacionalizadas sob o poder dos trabalhadores, mas não neste sistema de exploração e pilhagem, mas sim num sistema em que os recursos são utilizados dentro de um planejamento em benefício das maiorias.

sábado, 13 de julho de 2024

A vitória esmagadora do «eles não!» no Reino Unido

abrilabril - editorial

8 DE JULHO DE 2024

«Nenhum governo deveria poder obter uma grande maioria a partir de uma minoria de votos. O sistema de votação de Westminster está a distorcer a nossa política e todos estamos a pagar o preço»

ELECTORAL REFORM SOCIETY


Já repararam na forma como os resultados eleitorais das Legislativas 2024 no Reino Unido foram apresentados? «Vitória histórica» foi a fórmula mais utilizada na comunicação social nacional, sendo que de seguida se destacava a enorme vantagem em deputados obtida pelo Partido Trabalhista, com quase dois terços dos deputados eleitos.




O que não encontravam em lado algum era o resultado em votos em percentagem, para obter os quais é necessário escavar na Internet. E isso não acontece por acaso, é uma ocultação deliberada, para ajudar a esconder uma realidade que faria questionar o sistema. O Partido Trabalhista tem 63,8% dos deputados eleitos com 33,8% dos votos. Se quisermos escrever de outra forma, e tendo em conta uma abstenção de 40,1% (a segunda maior dos últimos 106 anos, outro facto esquecido pelas «notícias»), podemos dizer que o voto de 20,3% dos eleitores garantiu ao Partido Trabalhista uma vitória esmagadora nos deputados eleitos.

E depois temos a desproporção oposta: um partido com 14,5% dos votos obtém cinco deputados e outro com 6,8% obtém quatro. Enquanto cada deputado do Partido Trabalhista necessitou de apenas 23,6 mil votos para ser eleito, cada deputado do Partido Conservador necessitou de 56 mil votos, cada deputado do Partido da Reforma necessitou de 820 mil votos e há dois partidos com 200 mil votos sem qualquer deputado. A desproporção entre votos recebidos e lugares atribuídos ao partido vencedor atingiu um nível histórico e é a maior desde 1922.

Caro leitor, ajude a divulgar o Página 1917, compartilhe nossas publicações nas suas redes sociais.

Comentários ofensivos e falsidades não serão publicados.