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sexta-feira, 18 de agosto de 2023

A Obra de Lenin é Atual*

Giorgos Marinos**
 22 de abril de 2021

Estimados camaradas:

Este evento online da Iniciativa Comunista Europeia é dedicado ao 151º aniversário do nascimento do grande revolucionário Vladimir Ilyich Lenin e a sua obra valiosa.

O dirigente do partido bolchevique foi o fundador do Partido Comunista, o partido de Novo Tipo, o líder da Grande Revolução Socialista de outubro de 1917 que abalou o mundo, e dos primeiros anos de construção socialista. Ele foi o protagonista da fundação da Internacional Comunista que impulsionou a luta dos partidos comunistas e a estratégia comunista unificada.

Rendemos honra a Lênin reconhecendo nossa responsabilidade de estudar e aprofundar sua obra, e em geral, nossa visão de mundo, o marxismo-leninismo, compreendendo mais profundamente que "Sem teoria revolucionária não há movimento revolucionário".

Armados com os princípios leninistas, podemos enfrentar as dificuldades da contra-revolução, continuar persistentemente a luta para superar a profunda crise ideológica, política e organizacional do movimento comunista, para conseguir seu reagrupamento revolucionário.

O capitalismo está podre. Está crescendo o fosso entre as possibilidades criadas pelo avanço científico e tecnológico e o grau de satisfação das necessidades populares.

Isso fica evidente pela intensificação da exploração, crises capitalistas, a nova crise de superacumulação de capital, desemprego e pobreza que a classe trabalhadora e as camadas populares estão experimentando em todo o mundo, em face do ataque generalizado do capital, dos governos liberais ou sociais democratas burgueses.

A pandemia e suas duras consequências para os povos, o colapso dos sistemas de saúde pública e comerciais, os milhões de mortos evidenciam os impasses do sistema.

Esses impasses também são sinalizados pelos planos militares e políticos dos Estados Unidos, da OTAN e da UE, as guerras imperialistas, as rivalidades com a Rússia e a China, em uma longa corrida pelo controle dos mercados, dos recursos naturais, das vias de transporte de energia, que advertem sobre novas e generalizadas guerras.

O objetivo da luta do partido revolucionário da luta de classes, segundo Lenin, era “dirigir a luta da classe trabalhadora não só para obter condições vantajosas condições de venda da força de trabalho, mas sim, para destruir o regime social que obriga os despossuídos vender-se aos ricos ”.

As tarefas dos partidos comunistas estão se multiplicando. É o momento de fortalecer o espírito crítico e autocrítico ao examinar a experiência acumulada, estudar mais profundamente as causas da contra-revolução, a história dos partidos comunistas, do movimento comunista, tirar conclusões e comprovar o nível de preparação revolucionária. Isso é o que nossa época exige como uma época de transição do capitalismo ao socialismo.

Alguns partidos comunistas passaram por muitas dificuldades e retrocessos e conseguiram lançar as bases da estratégia revolucionária, o que é um avanço importante.

No entanto, a luta pela derrubada do capitalismo, pelo poder dos trabalhadores, pela “ditadura do proletariado”, requer o fortalecimento ideológico e político dos partidos comunistas, generalização da estratégia revolucionária, laços fortes com a classe trabalhadora e as camadas populares, o papel protagonista no movimento operário e trabalho persistente para ganhar consciências, desviar forças da ideologia burguesa e do oportunismo.

Requer partidos comunistas fortes, com organização nas fábricas, nos centros de trabalho, capacidade de dirigir, de desenvolver a teoria baseada nos princípios do marxismo-leninismo para o estudo sistemático dos acontecimentos, dos novos fenômenos que surgem no sistema de exploração.

As condições objetivas determinarão quando e onde o "elo fraco" será quebrado e os comunistas devem estar bem preparados para que o fator subjetivo, o Partido Comunista, o movimento operário e a aliança social consigam estar à altura das circunstâncias.

A discussão, o debate no movimento comunista sobre o caráter da revolução é crucial. Na época dos monopólios, do imperialismo, amadureceram as condições materiais para a sociedade socialista-comunista, o caráter da revolução é objetivamente socialista, não se determina pela correlação de forças, mas sim, pelos interesses da classe trabalhadora que está no palco da História, por causa da contradição básica que deve ser resolvida, a contradição capital-trabalho.

A velha estratégia de "estágios intermediários de transição" custou muito caro ao movimento comunista, confinando a luta ao domínio do capitalismo. O poder será burguês ou operário; não houve e nunca haverá uma terceira via. Abandonar o poder dos trabalhadores e ter como objetivo criar as chamadas “frentes antifascistas e antineoliberais”, governos “antimonopolistas”, “de esquerda”, “progressistas” significa perpetuar o sistema de exploração. Isso foi demonstrado pela experiência na América Latina e a nível internacional.

As colaborações políticas com a socialdemocracia, o apoio ou participação em governos socialdemocratas de qualquer tipo, afetam o curso dos partidos comunistas, sua independência política e ideológica, conduzem à manipulação do movimento operário, o deixam desarmado, são um elemento da crise do movimento comunista.

O confronto de Lenin com o "governo provisório" após a revolução burguesa de fevereiro de 1917, o debate nos sovietes e as "Teses de Abril" assinalam o caminho do enfrentamento constante com as forças burguesas e oportunistas como condição para a preparação da revolução socialista.

terça-feira, 15 de agosto de 2023

LIQUIDAR O PASSADO PARA DESTRUIR O FUTURO?

Érico Czaczkes Sachs*

Publicado na Revista Marxismo Militante (exterior) Data provável: 1975

"Não conseguiremos preencher o nosso papel sem quadros políticos operários, à base de manifestos e resoluções, dos quais as massas não tomam conhecimento. Somente situados no meio da classe, enraizados, teremos possibilidade de influir sobre seu comportamento."

Érico Czaczkes Sachs


[...] Em primeiro lugar, temos de aprender a enfrentar realisticamente a situação e os fatos, isto é, analisá-los a base de um método materialista. De nada adianta querer impor às nossas lutas de classes e ao nosso proletariado soluções, palavras de ordem e resoluções copiadas de situações objetivamente diferentes, com um nível de luta e de organização diverso do nosso. Isso não eleva o nível e simplesmente nos deixa por fora da classe e dos acontecimentos. Temos de saber avaliar exatamente, a cada momento, a receptividade e a capacidade de ação do nosso proletariado, para derivar as suas (e as nossas) tarefas. De nada adianta também ficar à procura do operário ideal, do proletariado com “consciência socialista” para trabalhar com ele, quando o problema fundamental – mesmo para a camada mais adiantada – ainda é o da criação de uma consciência proletária e o da confiança na força da própria classe.

[...] Não conseguiremos, porém, adaptar-nos à situação nenhuma, se ficarmos fora da classe operária. Não conseguiremos preencher o nosso papel sem quadros políticos operários, à base de manifestos e resoluções, dos quais as massas não tomam conhecimento. Somente situados no meio da classe, enraizados, teremos possibilidade de influir sobre seu comportamento. Somente criando quadros proletários contribuiremos para a formação de uma nova liderança de classe nas lutas que estão para vir.

É uma concepção completamente distorcida de luta de classe, um conceito absolutamente pequeno-burguês, querer supor que possamos enfrentar as nossas tarefas de vanguarda proletária à base de elementos integrados. Estes só tem sentido em facilitar a formação de quadros políticos operários. A classe, ela tem a sua própria vida (e notaremos em todo o seu alcance, quando começar a se agitar) e não tem conhecimento de um punhado de elementos com boas idéias que vem de fora. A classe, ela criará as suas novas lideranças em todos os níveis no decorrer da luta. Temos de atingir essas lideranças em potencial, temos de contribuir para a sua formação, pelo menos em centros vitais, cujo comportamento repercutirá sobre a classe toda. E para isso, temos de encontrar essa camada hoje, no nível de consciência que tem, pois somente a experiência das lutas, mais a nossa atuação no meio dela, pode torná-la mais conseqüente. Mas não podemos esperar que esse “proletariado socialista”, consciente e independente, caia do céu para adotar as nossas teses e resoluções.

Fonte: https://www.marxists.org/portugues/sachs/1975/mes/40.pdf

* Nasceu em Viena, em 1922. Filho único numa família judia, proveniente de Tchernowitz (fronteira da Áustria-Hungria com a Rússia até 1919), seu pai era membro destacado da Social-Democracia austríaca e sua mãe, nascida na Rússia, conhecia de perto o Partido Bolchevique, dada a circunstância de ter um irmão militante nas fileiras do partido russo. Em 1934, Erico acompanha a sua mãe, Sina Ida Czaczkes, numa viagem que representaria a sua primeira emigração: mudam-se para a Rússia... Instalados em Moscou, Erico passa a freqüentar a Escola Karl Liebknecht, onde permaneceria até 1938. Os quatro anos em Moscou marcaram decisivamente a sua formação intelectual. A escola era freqüentada principalmente por filhos de refugiados alemães, embora também abrigasse jovens de outras nacionalidades. Foi nesse período que Erico estudou pela primeira vez o marxismo, ao tempo em que obtinha informações da oposição a Stalin. Seus contatos com os militantes da Oposição valeram-lhe a expulsão da Rússia, em 1937.

De volta para a Áustria, Erico e sua mãe lá não permanecem mais que alguns meses: O clima de perseguições aos judeus tornava impraticável a sua permanência na Áustria.  Para Erico, com apenas dezesseis anos, já era a terceira vez em que se via obrigado a abandonar um país.  Foge da Áustria a pé, alcançando a Bélgica através de território alemão e daí chega até a França.  Em Paris, procura Thalheimer e Brandler, os líderes da Oposição Alemã.  Torna-se o mais jovem militante da KPO (Oposição Comunista Alemã) no exílio.  Morando com Thalheimer, além das discussões sistemáticas que mantem com o principal líder da Oposição Alemã, encontra-se com outras figuras destacadas do comunismo, como Víctor Serge, e com militantes do POUM.

Em 1939, Erico e sua mãe decidem emigrar para o Brasil. Em seus primeiros passos no ambiente brasileiro, aos poucos foi conhecendo a realidade do nosso movimento operário.  Trabalhando como gráfico, participou da organização dos gráficos paulistas.  Posteriormente – a partir do final da década de quarenta – foi jornalista, e seus artigos publicados no Correio da Manhã dão uma rica visão panorâmica do mundo no pós-guerra.  Progressivamente, sua influência intelectual foi se firmando junto a segmentos da esquerda brasileira.

Erico trouxe para o Brasil a tradição aberta por Rosa Luxemburgo e outros de que  cada nova revolução é uma fonte de novas experiências, mas não cabe acatar o stalinismo, o trotsquismo (nem o maoismo ou o castrismo) como métodos ou sistemas.

Durante a década de cinqüenta, exerceu, no Brasil, grande influência na preparação ideológica de uma corrente de pensamento, trabalho que culminou, em 1960, na convocatória para o 1º Congresso da Organização Revolucionária Marxista, Política Operária.

Em 1969, Erico foi preso pelo DOPS carioca.  Conseguindo fugir da prisão, refugia-se na Embaixada da Áustria e, em 1970, pela quarta vez em sua vida, tem que abandonar um país.  Mas desta vez trata-se do país que, voluntariamente, escolheu como seu.  Na sua volta ao Brasil, em 1980, integra-se no Partido dos Trabalhadores, no Rio de Janeiro. Durante a ditadura um dos pseudônimos utilizado por ele foi o de Ernesto Martins.

Erico morreu no Rio de Janeiro, em 9 de maio de 1986.  Seus últimos anos foram vividos em condições materiais extremamente precárias, virtualmente relegado ao isolamento e à miséria.  Velho comunista, mais de uma vez lembrara da célebre colocação de Rosa Luxemburgo sobre o “isolamento revolucionário”.  Para ele, a consciência do próprio isolamento era também a certeza do caráter circunstancial dessa situação, sobre a qual se projetava a convicção da vitória final que caberá à sua causa, à sua ideologia e à classe à qual aderiu.  A história do comunismo está repleta de exemplos como esse.

Ver este resumo biográfico na íntegra em: http://centrovictormeyer.org.br//wp-content/uploads/2010/04/Ernesto-Martins-Eric-Czaczkes-Sachs.pdf

Edição: Página 1917

domingo, 13 de agosto de 2023

A Situação no Níger e as Questões em Jogo

DECLARAÇÃO DO PARTIDO COMUNISTA REVOLUCIONÁRIO DA FRANÇA (PCRF)

05/08/2023

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Em 26 de julho de 2023, em Niamey, no Níger, o presidente Mohamed Bazoum foi deposto por Abourahamane Tiani, ex-chefe da guarda presidencial que esteve ao seu serviço   durante 10 anos, com a ajuda de parte do aparelho militar nigerino e o apoio ativo de grande parte das massas nigerinas, como testemunha a manifestação deste domingo, 30 de julho, que reuniu milhares de manifestantes em frente à embaixada francesa. 

Este terceiro golpe de Estado no Sahel desde 2020  -  e mais uma vez encontramos a mesma justificação política e a mesma razão para um verdadeiro apoio popular, mesmo que, para o PCRF, a tomada do poder pelo exército não constitua de forma alguma um derrubamento revolucionário do Estado burguês a favor do povo do Níger -  representa o xeque-mate absoluto do Estado francês na sua linha de frente militar no Sahel. Mali e Burkina Faso foram os primeiros países a emancipar-se de uma presença militar [francesa] cujo papel se tornou cada vez mais claro para as massas populares do Sahel: o de preservar os interesses do imperialismo francês no Sahel, em vez de pôr fim à jihad. 

Todo o aparelho imperialista da União Europeia foi acionado para apoiar o Estado francês, que sofreu uma terceira grande derrota na sua histórica zona de influência. A Comunidade dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) fez um ultimato para que os golpistas reintegrassem Mohamed Bazoum, sem o que todas as transações comerciais seriam interrompidas  não  excluindo o recurso à força. 

Os chefes de estado-maior da organização reuniram-se em Abuja até sexta-feira, dois dias antes do fim do ultimato. Em linha com o bloqueio económico decidido no domingo, a Nigéria cortou o seu fornecimento de eletricidade ao Níger, que  depende 70% do seu vizinho para o fornecimento de energia. Alemanha, França e União Europeia seguiram o exemplo, suspendendo todos os fluxos monetários e exportações para o Níger por enquanto, tendo Emmanuel Macron  convocado uma reunião extraordinária do Conselho de Defesa. Biden esteve presente também e pediu a libertação do presidente legítimo e da sua família, tendo os EUA a segunda maior presença militar estrangeira no Níger, com mais de 1.000 soldados no terreno (a França tem 1.500). O Banco Mundial anunciou a suspensão dos pagamentos "de todas as suas operações até novo aviso". 

Por que é que as trabalhadores e os trabalhadores e as camadas populares que vivem na França não têm interesse em apoiar tais medidas, e por que é necessário unir forças contra elas? 

Sob a sua fachada democrática, a burguesia francesa é, de fato, uma potência imperialista agressiva e de rapinagem no Sahel. A Operação Barkhane, que está oficialmente encerrada, deu lugar a uma presença militar na casa dos milhares, principalmente no Chade e no Níger, sem qualquer enquadramento legal. Atualmente, há uma luta para recuperar uma zona de influência essencial para recursos minerais como a bauxita, o cobre e o zinco. Não esqueçamos que o Níger dispõe de recursos de urânio significativos para a França, que não quer abandoná-los, particularmente num momento de contradições interimperialistas com o Estado russo, que grassa no Sahel. Hoje, o Níger é responsável por 5% da produção mundial de urânio e 15% do abastecimento francês. O grupo francês ORANO (ex-Areva) continua a operar na mina de urânio de Somaïr, 800 quilómetros a norte da capital Niamey, com cerca de 900 funcionários – quase todos nigerinos – e 1.200 subcontratados. 

O monopólio francês ORANO, detido em 90% pelo Estado burguês, está presente no Níger há mais de 50 anos através de três subsidiárias organizadas sob a lei nigerina, e tem três locais de mineração dedicados à extração de urânio, o minério que alimenta reatores nucleares. Trata-se da Compagnie des mines d'Akokan (Cominak), da Société des mines de l'Aïr (Somaïr) e da Imouraren. Todos são propriedade conjunta do estado nigerino e estão no deserto do noroeste do país, perto da cidade de Arlit. Na unidade de Imouraren, a produção ainda não começou. Este local é frequentemente apresentado como a "mina do século", com reservas estimadas em quase 200.000 toneladas de urânio. 

A contrarreforma das pensões [aumento da idade da reforma] e a fascização em curso do aparelho de Estado francês na França metropolitana estão substancialmente ligadas a uma situação internacional em que a burguesia francesa é cada vez mais agressiva na defesa, reforço e alargamento das suas zonas de influência, como evidenciam monopólios como a Vivendi ou a Total, bem conhecidos das massas populares em todo o Sahel pelas suas exportações de infraestruturas, pilhagem de recursos naturais e manipulações políticas para capturar setores da burguesia nacional. Paralelamente ao aumento da agressividade no exterior, o Estado capitalista precisa de intensificar a exploração e a repressão em casa. 

De fato, não existe uma separação estanque entre as lutas dos trabalhadores franceses pelas suas pensões, contra a violência policial, e a luta das massas populares nigerinas pelo seu direito à autodeterminação a todos os níveis. 

A questão estratégica agora é: as riquezas do subsolo do Níger continuarão a ser exploradas por empresas monopolistas francesas ou pelos monopólios de outros imperialismos? 

O povo trabalhador do Níger deve livrar-se do capitalismo. Ele pode descobrir por si mesmo que, substituindo um imperialismo por outro, nenhum problema na vida do povo do Níger será resolvido. 

O PCRF exige respeito pela soberania nacional e popular do Níger. O resultado do processo atual neste Estado africano dependerá do nível de liderança política assumida pela classe trabalhadora e pelas massas em direção a um anti-imperialismo popular  para o socialismo. 

O PCRF exige a retirada imediata das tropas francesas do Níger e de todo o Sahel. Nem mais um soldado francês fora da França, encerramento de todas as bases militares francesas no estrangeiro.

Fonte: https://pelosocialismo.blogs.sapo.pt/

Edição: Página 1917 

 

sábado, 12 de agosto de 2023

Dialética da Dependência

Ruy Mauro Marini*

1973

Ruy Mauro Marini


[...] o comércio exterior, quando se limita a repor os elementos (também enquanto a seu valor), não faz mais do que deslocar as contradições para uma esfera mais extensa, abrindo para elas um campo maior de atuação.
Marx, O Capital

Acelerar a acumulação mediante um desenvolvimento superior da capacidade produtiva do trabalho e acelerá-la por meio de uma maior exploração do trabalhador, são dois procedimentos totalmente distintos.
Marx, O Capital

Em sua análise da dependência latino-americana, os pesquisadores marxistas incorreram, geralmente, em dois tipos de desvios: a substituição do fato concreto pelo conceito abstrato, ou a adulteração do conceito em nome de uma realidade rebelde para aceitá-lo em sua formulação pura. No primeiro caso, o resultado tem sido os estudos marxistas chamados de ortodoxos, nos quais a dinâmica dos processos estudados se volta para uma formalização que é incapaz de reconstruí-la no âmbito da exposição, e nos que a relação entre o concreto e o abstrato se rompe, para dar lugar a descrições empíricas que correm paralelamente ao discurso teórico, sem fundir-se com ele; isso tem ocorrido, sobretudo, no campo da história Econômica. O segundo tipo de desvio tem sido mais frequente no campo da sociologia, no qual, frente à dificuldade de adequar a uma realidade categorias que não foram desenhadas especificamente para ela, os estudiosos de formação marxista recorrem simultaneamente a outros enfoques metodológicos e teóricos; a consequência necessária desse procedimento é o ecletismo, a falta de rigor conceituai e metodológico e um pretenso enriquecimento do marxismo, que é na realidade sua negação.

Esses desvios nascem de uma dificuldade real: frente ao parâmetro do modo de produção capitalista puro, a economia latino-americana apresenta peculiaridades, que às vezes se apresentam como insuficiências e outras — nem sempre distinguíveis facilmente das primeiras — como deformações. Não é acidental portanto a recorrência nos estudos sobre a América Latina a noção de "pré-capitalismo". O que deveria ser dito é que, ainda quando se trate realmente de um desenvolvimento insuficiente das relações capitalistas, essa noção se refere a aspectos de uma realidade que, por sua estrutura global e seu funcionamento, não poderá desenvolver-se jamais da mesma forma como se desenvolvem as economias capitalistas chamadas de avançadas. É por isso que, mais do que um pré-capitalismo, o que se tem é um capitalismo sui generis, que só adquire sentido se o contemplamos na perspectiva do sistema em seu conjunto, tanto em nível nacional, quanto, e principalmente, em nível internacional.

Isso é verdade, sobretudo, quando nos referimos ao moderno capitalismo industrial latino-americano, tal como se tem constituído nas duas últimas décadas. Mas, em seu aspecto mais geral, a proposição é válida também para o período imediatamente precedente e ainda para a etapa da economia exportadora. É óbvio que, no último caso, a insuficiência prevalece ainda sobre a distorção, mas se desejamos entender como uma se converteu na outra é à luz desta que devemos estudar aquela. Em outros termos, é o conhecimento da forma particular que acabou por adotar o capitalismo dependente latino-americano o que ilumina o estudo de sua gestação e permite conhecer analiticamente as tendências que desembocaram nesse resultado.

Mas aqui, como sempre, a verdade tem um duplo sentido: se é certo que o estudo das formas sociais mais desenvolvidas lança luz sobre as formas mais embrionárias (ou, para dizê-lo com Marx, "a anatomia do homem é um a chave para a anatomia do macaco")(1), também é certo que o desenvolvimento ainda insuficiente de uma sociedade, ao ressaltar um elemento simples, torna mais compreensível sua forma mais complexa, que integra e subordina esse elemento. Como assinala Marx:

[...] a categoria mais simples pode expressar as relações dominantes de um todo não desenvolvido ou as relações subordinadas de um todo mais desenvolvido, relações que já existiam historicamente antes de que o todo se desenvolvesse no sentido expressado por uma categoria mais concreta. Só então, o caminho do pensamento abstrato, que se eleva do simples ao complexo, poderia corresponder ao processo histórico real.(2)

Na identificação desses elementos, as categorias marxistas devem ser aplicadas, isto é, à realidade como instrumentos de análise e antecipações de seu desenvolvimento posterior. Por outro lado, essas categorias não podem substituir ou mistificar os fenômenos a que se aplicam; é por isso que a análise tem de ponderá-las, sem que isso implique em nenhum caso romper com a linha do raciocínio marxista, enxertando-lhe corpos que lhe são estranhos e que não podem, portanto, ser assimilados por ela. O rigor conceitual e metodológico: a isso se reduz em última instância a ortodoxia marxista. Qualquer limitação para o processo de investigação que dali se derive já não tem nada relacionado com a ortodoxia, mas apenas com o dogmatismo.

1. A integração ao mercado mundial

Forjada no calor da expansão comercial promovida no século 16 pelo capitalismo nascente, a América Latina se desenvolve em estreita consonância com a dinâmica do capitalismo internacional. Colônia produtora de metais preciosos e gêneros exóticos, a América Latina contribuiu em um primeiro momento com o aumento do fluxo de mercadorias e a expansão dos meios de pagamento que, ao mesmo tempo em que permitiam o desenvolvimento do capital comercial e bancário na Europa, sustentaram o sistema manufatureiro europeu e propiciaram o caminho para a criação da grande indústria. A revolução industrial, que dará início a ela, corresponde na América Latina à independência política que, conquistada nas primeiras décadas do século 19, fará surgir, com base na estrutura demográfica e administrativa construída durante a Colônia, um conjunto de países que passam a girar em torno da Inglaterra. Os fluxos de mercadorias e, posteriormente, de capitais têm nesta seu ponto de entroncamento: ignorando uns aos outros, os novos países se articularão diretamente com a metrópole inglesa e, em função dos requerimentos desta, começarão a produzir e a exportar bens primários, em troca de manufaturas de consumo e — quando a exportação supera as importações — de dívidas.(3)

É a partir desse momento que as relações da América Latina com os centros capitalistas europeus se inserem em uma estrutura definida: a divisão internacional do trabalho, que determinará o sentido do desenvolvimento posterior da região. Em outros termos, é a partir de então que se configura a dependência, entendida como uma relação de subordinação entre nações formalmente independentes, em cujo marco as relações de produção das nações subordinadas são modificadas ou recriadas para assegurar a reprodução ampliada da dependência. A consequência da dependência não pode ser, portanto, nada mais do que maior dependência, e sua superação supõe necessariamente a supressão das relações de produção nela envolvida. Neste sentido, a conhecida fórmula de André Gunder Frank sobre o "desenvolvimento do subdesenvolvimento" é impecável, como impecáveis são as conclusões políticas a que ela conduz(4). As criticas que lhe são dirigidas representam muitas vezes um passo atrás nessa formulação, em nome de precisões que se pretendem teóricas, mas que costumam não ir além da semântica.

Entretanto, e aí reside a debilidade do trabalho de Frank, a situação colonial não é o mesmo que a situação de dependência. Ainda que se dê uma continuidade entre ambas, não são homogéneas; como bem afirmou Canguilhem, "o caráter progressivo de um acontecimento não exclui a originalidade do acontecimento".(5) A dificuldade da análise teórica está precisamente em captar essa originalidade e, sobretudo, em discernir o momento em que a originalidade implica mudança de qualidade. No que se refere às relações internacionais da América Latina, se, como assinalamos, esta desempenha um papel relevante na formação da economia capitalista mundial (principalmente com sua produção de metais preciosos nos séculos 16 e 17, mas sobretudo no 18, graças à coincidência entre o descobrimento de ouro brasileiro e o auge manufatureiro inglês),(6) somente no curso do século 19, e especificamente depois de 1840, sua articulação com essa economia mundial se realiza plenamente.(7) Isto se explica se considerarmos que é com o surgimento da grande indústria que se estabelece com bases sólidas a divisão internacional do trabalho.(8)

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