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segunda-feira, 21 de março de 2022

Que o Inferno lhe Seja Pesado

Urariano Mota*

Faleceu o Cabo Anselmo em 15 de março de 2022.

Cabo Anselmo, a ignomínia a serviço da burguesia.

Pelo telefone, o escritor e jornalista André Cintra me comunicou a notícia há 5 minutos. Eu estava fazendo a sesta, mas dei um salto da cama. E estou até agora sem saber por onde comece o obituário de José Anselmo dos Santos.

As notícias, com a sua natural objetividade, que nesse caso querem dizer, com todo natural desconhecimento da história, falam que José Anselmo dos Santos morreu na noite dessa terça-feira aos 80 anos, em Jundiaí (SP). E que ele foi “agente duplo durante o regime militar”. Viram? Chamam de “regime militar” a ditadura e o terror de Estado no Brasil.

Mas vamos ver se Deus nos ajuda a tentar alguma justiça para esse criminoso.

Se retirarmos a infâmia da sua pele, tarefa difícil ou impossível, a primeira característica do Cabo Anselmo é que era um bom mentiroso. Primeiro, mentia sobre o seu nome: ele era Daniel, como se apresentava no Recife, ou Jadiel ou Jônata? Isso era o mínimo. Onde ele se excedia com artes de representação não só em palavras, era na frieza e cinismo com que se referia a seu maior crime: a entrega da companheira grávida, Soledad Barrett, à repressão. Em mais de uma entrevista, diante de repórteres comprometidos com a direita ou pela ignorância histórica, ele se referia à grande guerreira com a finura de uma serpente.

Na sua entrevista à Band, anotei que Fernando Mitre, ao mencionar Soledad, o Cabo Anselmo respondeu, com as duas mãos levantadas, como quem se defende, como quem faz lembrar um trato, que ameaçou ser rompido: “Opa!”. E Mitre, de volta: “Depois o senhor fala sobre ela”. E ele, “ah, claro”. E o que se viu depois foi  nada, ou quase nada.

No Roda Viva, em um dos momentos de calculado cinismo, Anselmo se refere a Soledad Barrett.

Falou o entrevistador: “O senhor contesta que ela estivesse grávida, como a versão histórica…?”

Cabo Anselmo: “Se eu acreditar, como dizem os médicos, que o DIU era o mais seguro dos preservativos, eu contesto, sim”.

E o entrevistador levantou a bola para Anselmo: “Então o feto encontrado lá não era dela?”

Cabo Anselmo respondeu: “Eu imagino que seria da Pauline. A Pauline estava grávida, inclusive teve problema de gravidez, e Soledad a levou até o médico”.

Infâmia fria sem contestação.

Mas conheçam a palavra de Nadejda Marques, filha única de Jarbas Marques, um dos seis militantes socialistas mortos no Recife, junto a Soledad. Hoje, Nadejda Marques é doutora em Direitos Humanos e Desenvolvimento:

“A minha avó Rosália, mãe de Jarbas Marques, conseguiu entrar no necrotério. Ela, entre os vários trabalhos que tinha, era também enfermeira. Ela conhecia a pessoa de Soledad. Minha avó sempre contava o que viu no fatídico janeiro de 1973. Meu pai, com marcas de tortura pelo corpo tinha marcas de estrangulamento no pescoço e água nos pulmões compatíveis com o resultado da tortura por afogamento. Os tiros no peito e na cabeça foram dados após sua morte. O corpo de Soledad, ensanguentado ainda, tinha restos de placenta e um feto dentro de um balde improvisado.”

Soledad Barret

E definitivas são as palavras na denúncia da advogada Mércia Albuquerque:

“Soledad estava com os olhos muito abertos, com uma expressão muito grande de terror. Eu fiquei horrorizada. Como Soledad estava em pé, com os braços ao lado do corpo, eu tirei a minha anágua e coloquei no pescoço dela. O que mais me impressionou foi o sangue coagulado em grande quantidade. Eu tenho a impressão de que ela foi morta e ficou deitada, e a trouxeram depois, e o sangue, quando coagulou, ficou preso nas pernas, porque era uma quantidade grande. O feto estava lá nos pés dela. Não posso saber como foi parar ali, ou se foi ali mesmo no necrotério que ele caiu, que ele nasceu, naquele horror.”

Na morte do Cabo Anselmo, enfim, Soledad Barrett foi e continua a ser o centro, a pessoa que grita, o ponto de apoio de Arquimedes para os crimes dele. Ela aponta para José Anselmo dos Santos e lhe sentencia, aonde ele for: “Até o fim dos teus dias estás condenado, canalha”.

Que o inferno lhe seja pesado, enfim. Por toda a eternidade.

* Urariano Mota, escritor e jornalista, autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973.

Edição: Página 1917

Fonte: https://vermelho.org.br/2022/03/16/cabo-anselmo-no-seu-obituario-por-urariano-mota/

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sábado, 19 de março de 2022

A Petrobras e os Fertilizantes*

 A Aberrante Dependência Estrangeira

Por Revolução Brasileira em 18/03/2022.

 


     O recente conflito entre Rússia e OTAN fez suscitar no Brasil (até mesmo nos jornalões burgueses) a discussão em torno da dependência do país na importação de fertilizantes (em especial dos grupos NPK – nitrogenados, fosfatados e potássicos). O Brasil consome anualmente cerca de 43 milhões de toneladas, sendo aproximadamente um terço para cada grupo. É o maior importador de fertilizantes no mundo, comprando até 85% daquilo que consome. A dependência do mercado estrangeiro é aberrante: o Brasil importa até 95% dos fertilizantes nitrogenados (comprando de Rússia, China e Oriente Médio), até 75% dos fertilizantes fosfatados (adquiridos da Rússia, China e Marrocos) e até 95% dos fertilizantes potássicos (vindos da Rússia, Belarus e Canadá).

      Essa dependência se mostra ainda mais dramática num cenário como o presente, em que a queda das importações pode levar ao aumento dos preços dos alimentos – seja pela elevação do preço dos fertilizantes importados seja pelo impacto negativo nas colheitas em caso de desabastecimento.

       Esse impacto poderia ser atenuado caso a Petrobras, hoje nas mãos de uma camarilha ultraliberal, não estivesse nos últimos anos se desfazendo de suas fábricas de fertilizantes nitrogenados. As operações ocorrem sempre de forma suspeita e lesiva ao patrimônio público – mas sempre com a benção do STF e TCU. A estatal, que já vem se retirando do mercado de fertilizantes nitrogenados desde 2015, vem acelerando o processo desde então com a hibernação das unidades do Sergipe e Bahia em 2018 (e que foram arrendadas em 2020 pela Proquigel Química, pertencente ao grupo Unigel) e da unidade no Paraná em 2020 (esta última motivando a mobilização grevista em fevereiro do mesmo ano). Uma outra unidade de nitrogenados, a UFN3, situada em Três Lagoas (MS), cuja construção foi iniciada pela Petrobrás (sendo paralisada com 80% das obras concluídas em 2014) foi adquirida recentemente por um grupo de investidores russos da Acron.

      Mesmo no setor privado a desnacionalização pode comprometer ainda mais o mercado interno. Nos últimos cinco anos a multinacional suíça Eurochem fez três aquisições de indústrias do ramo de fertilizantes no Brasil, como a Fertilizantes Heringer, Fertilizantes Tocantins e a Serra do Salitre.

       Um país de produção agrícola tão elevada se mostrar tão suscetível às flutuações na dinâmica internacional é um sintoma crítico da dependência e do subdesenvolvimento característicos de nosso país, sempre entregue aos desígnios de uma classe dominante subordinada aos interesses estrangeiros. A falta de uma postura de confronto com o liberalismo – em especial por parte da esquerda – leva à manutenção deste quadro de dependência que resulta em graves prejuízos à população brasileira, diariamente vítima deste assalto em detrimento da acumulação de uma minoria – vide a própria Petrobrás, uma empresa estatal que hoje faz um papel de Robin Hood às avessas, assaltando a população com preços exorbitantes na venda de combustíveis e outros derivados, praticando preços atrelados aos valores internacionais, mesmo sendo quase auto suficiente em sua produção, tudo isso para garantir a remuneração de acionistas privados (a maioria estrangeiros).

      Esse cenário só poderá mudar quando a esquerda estiver orientada em atender os interesses e soberania do povo brasileiro. Para tal, deve assumir uma postura de confronto com o grande capital, promovendo reformas e nacionalizações e não subordinando-se a ele numa política ilusória de conciliação de classes. A esquerda precisa urgentemente debater a Revolução Brasileira. Precisa tematizar sobre o poder, e não sobre governos. Essas questões não se resolvem com alianças eleitorais. Resolvem-se, ao contrário, com a Revolução. Tendo como aliados os trabalhadores, não seus algozes.

Edição: Página 1917

*Fonte:https:https://revolucaobrasileira.org/18/03/2022/a-petrobras-e-os-fertilizantes/

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segunda-feira, 14 de março de 2022

Sobre as Guerras

 Mao Tsé-Tung

"A História só registrou duas espécies de guerras: as guerras justas e as guerras injustas. Nós somos pelas guerras justas e contra as guerras injustas. Todas as guerras contra-revolucionárias são injustas, todas as guerras revolucionárias são justas."


Mao em 1967.


     A guerra, esse monstro que faz com que os homens se matem, acabará por ser eliminada pelo próprio desenvolvimento da sociedade humana, e há-de sê-lo ainda num futuro que já não está longe. Todavia, para suprimir a guerra só há um meio: opor a guerra à guerra, opor a guerra revolucionária à guerra contra-revolucionária, opor a guerra nacional revolucionária à guerra nacional contra-revolucionária, opor a guerra revolucionária de classe à guerra contra-revolucionária de classe. A História só registrou duas espécies de guerras: as guerras justas e as guerras injustas. Nós somos pelas guerras justas e contra as guerras injustas. Todas as guerras contra-revolucionárias são injustas, todas as guerras revolucionárias são justas. Seremos nós quem porá fim, com as nossas próprias mãos, à época das guerras na história da humanidade. Sem dúvida alguma, a guerra que estamos fazendo é uma parte da última das guerras. Sem dúvida alguma também, a guerra a que teremos de fazer face será uma parte da maior e mais cruel de todas as guerras. Ameaça-nos a maior e a mais cruel das guerras injustas contra-revolucionárias, e, se não brandirmos o estandarte da guerra justa, a maior parte da humanidade experimentará os piores sofrimentos. O estandarte da guerra justa da humanidade é o estandarte da salvação da humanidade; o estandarte da guerra justa na China é o estandarte da salvação da China. Uma guerra realizada pela imensa maioria da humanidade e a imensa maioria do povo chinês é, incontestavelmente, uma guerra justa, é a empresa mais nobre e a mais gloriosa, uma empresa que salvará a humanidade e a China, uma ponte que conduzirá a uma era nova na história do mundo. Quando a sociedade humana chegar à supressão das classes, à supressão do Estado, não haverá mais guerras — nem contra-revolucionárias nem revolucionárias, nem injustas nem justas. Será a era da paz perpétua para a humanidade. Ao estudarmos as leis da guerra revolucionária, nós partimos da aspiração de suprimir todas as guerras. Nisso reside a diferença entre nós, os comunistas, e os representantes de todas as classes exploradoras.¹

     A História mostra que as guerras se dividem em duas categorias: justas e injustas. Todas as guerras progressistas são justas, e todas as guerras que impedem o progresso são injustas. Nós, os comunistas, opomo-nos a todas as guerras injustas que impedem o progresso, mas não nos opomos as guerras progressistas, as guerras justas. E não só não nos opomos as guerras justas, como ainda tomamos ativamente parte nelas. Como exemplo de guerra injusta temos a Primeira Guerra Mundial, onde as duas partes lutaram por interesses imperialistas, razão por que os comunistas do mundo inteiro se opuseram firmemente a ela. O modo de opor-se a uma guerra desse tipo é fazer todo o possível por impedir que estale, mas se chega a estalar, o modo de opor-se a ela é combater a guerra com a guerra, contrapor a guerra justa a injusta, tanto quanto possível. A guerra que o Japão faz é uma guerra injusta, impede o progresso, razão por que os povos de todo o mundo, incluindo o próprio povo japonês, devem opor-se a ela, e estão a opor-se-lhe na prática. No nosso país, o povo e o governo, o Partido Comunista e o Kuomintang, todos desfraldaram a bandeira da justiça e fazem a guerra nacional revolucionária contra a agressão. A nossa guerra é sagrada e justa, é uma guerra progressista e tem a paz como objetivo. O seu objetivo é a paz não apenas no nosso país mas em todo o mundo, e não apenas uma paz temporária mas sim uma paz perpétua. Para atingirmos esse objetivo, nós devemos travar uma luta de vida ou morte, estar preparados para todos os sacrifícios, perseverar até ao fim, e não parar enquanto o objetivo não tiver sido alcançado. Seja qual for o sacrifício e o tempo necessário para atingi-lo, já se desenha claramente diante dos nossos olhos a imagem dum novo mundo de luz e paz perpétuas. A nossa fé ao fazermos essa guerra baseia-se na convicção de que dos nossos esforços vai nascer uma China nova e um mundo novo de luz e paz perpétuas. O fascismo e o imperialismo querem perpetuar a guerra, enquanto que nós queremos acabar com ela num futuro não muito distante. A grande maioria da humanidade deve despender os seus maiores esforços nesse sentido.²

Em todos os países do mundo, as pessoas discutem hoje sobre a eventualidade do desencadeamento de uma III Guerra Mundial. Nós devemos estar psicologicamente preparados para essa eventualidade e devemos abordar as coisas de um ponto de vista analítico. Nós somos resolutamente pela paz e contra a guerra. Não obstante, se os imperialistas insistem em desencadear a guerra, nós não a devemos temer. A nossa atitude perante esta questão é a mesma a adotar perante qualquer “desordem”: em primeiro lugar, nós somos contra; em segundo lugar, não a tememos. A I Guerra Mundial foi seguida pelo nascimento da União Soviética, com 200 milhões de habitantes; a II Guerra Mundial foi seguida pela formação do campo socialista, que abarca uma população de 900 milhões. Se os imperialistas insistirem, apesar de tudo, em desencadear uma terceira guerra mundial, é certo que outras centenas de milhões de homens passarão para o lado do socialismo; restará assim pouco terreno para os imperialistas, e a ruína total do sistema imperialista será igualmente possível.³

Notas:

1 - Problemas estratégicos da guerra revolucionária na China; 1936.

2 - Sobre a guerra prolongada; 1938.

3 - Sobre a justa solução das contradições so seio do povo;1957. 

Edição: Página 

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sexta-feira, 11 de março de 2022

Compaixão Humanitária de Geometria Variável

As Lições a Tirar da Guerra na Ucrânia

Refugiados ucranianos num posto de fronteira.

Illan Pappé  (04/03/2022)

 

O USA Today relatou que uma fotografia que se tornou viral sobre um arranha-céus atingido na Ucrânia por um bombardeamento russo revelou-se ser um arranha-céus demolido na faixa de Gaza pela força aérea israelita em maio de 2021.

Alguns dias antes, o ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano tinha-se queixado ao embaixador israelita em Kiev: “Vocês estão a tratar-nos como Gaza”. Estava furioso por Israel não ter condenado a invasão russa e estar apenas interessado na expulsão de cidadãos israelitas do Estado (Haaretz, 17 de fevereiro de 2022).

Foi uma mistura de referência à evacuação pela Ucrânia das esposas ucranianas de palestininos da faixa de Gaza em maio de 2021, e de recordar a Israel do total apoio do presidente ucraniano ao ataque de Israel à Faixa de Gaza nesse mês (voltarei a esse apoio no final deste texto).

Os ataques de Israel a Gaza devem, de fato, ser mencionados e considerados na avaliação da atual crise na Ucrânia. Não é uma coincidência que as fotos estejam a ser confundidas – não há muitos arranha-céus que foram derrubados na Ucrânia, mas há uma abundância de arranha-céus em ruínas na faixa de Gaza. Mas não é apenas a hipocrisia a respeito da Palestina que emerge quando consideramos a crise da Ucrânia num contexto mais amplo; é a dupla moral ocidental que deve ser escrutinada, sem nunca ficarmos indiferentes às notícias e imagens que nos chegam da zona de guerra na Ucrânia: crianças traumatizadas, fluxos de refugiados, edifícios destruídos pelos bombardeamentos e o perigo iminente de que este seja apenas o início de uma catástrofe humana no coração da Europa.

Ao mesmo tempo, aqueles de nós que vivenciam, relatam e discutem as catástrofes humanas na Palestina não podem ignorar a hipocrisia do ocidente e devemos apontar para ela sem depreciar, por um momento, a nossa solidariedade humana e empatia para com as vítimas de qualquer guerra. Precisamos de o fazer, pois a desonestidade moral subjacente à agenda estabelecida pelas elites políticas e meios de comunicação social ocidentais permitir-lhes-á uma vez mais esconder o seu próprio racismo e a sua impunidade, assim como continuará a proporcionar imunidade a Israel e à sua opressão dos palestinianos. Detectei quatro falsos pressupostos que estão no cerne do envolvimento da elite ocidental na crise da Ucrânia até agora e enquadrei-os como quatro lições.

Primeira lição: os refugiados brancos são bem-vindos; os outros menos.

A decisão coletiva sem precedentes da UE de abrir as suas fronteiras aos refugiados ucranianos, seguida de uma política mais cautelosa da Grã-Bretanha, não pode passar despercebida em comparação com o fechamento da maioria das portas europeias aos refugiados provenientes do mundo árabe e de África desde 2015. A clara priorização racista, distinguindo os que querem salvar a vida com base na cor, religião e etnia, é abominável, mas é pouco provável que mude muito em breve. Alguns líderes europeus nem sequer têm vergonha de expressar publicamente o seu racismo, tal como o primeiro-ministro búlgaro, Kiril Petkov:

Estes [os refugiados ucranianos] não são os refugiados a que estamos habituados… estas pessoas são europeias. Estas pessoas são inteligentes, são pessoas instruídas. … Esta não é a onda de refugiados a que temos estado habituados, pessoas de cuja identidade não estávamos certos, pessoas com passados pouco claros, que poderiam até ter sido terroristas…”

Ele não está sozinho. Os meios de comunicação ocidentais estão sempre a falar do “nosso tipo de refugiados” e este racismo manifesta-se claramente nos postos de fronteira entre a Ucrânia e os seus vizinhos europeus. Esta atitude racista, com fortes conotações islamofóbicas, não vai mudar, uma vez que a liderança europeia continua a negar o tecido multiétnico e multicultural das sociedades de todo o continente. Uma realidade humana criada por anos de colonialismo e imperialismo europeu que os atuais governos europeus negam e ignoram, prosseguindo ao mesmo tempo com políticas de imigração baseadas no mesmo racismo que permeou o colonialismo e o imperialismo no passado.

Segunda lição: pode-se invadir o Iraque, mas não a Ucrânia.

A relutância dos meios de comunicação social ocidentais em contextualizar a decisão russa de invadir no âmbito de uma análise mais ampla – e óbvia – de como as regras do jogo internacional mudaram em 2003 é bastante desconcertante. É difícil encontrar qualquer análise que aponte para o fato de os EUA e a Grã-Bretanha terem violado o direito internacional sobre a soberania de um Estado quando os seus exércitos, com uma coligação de países ocidentais, invadiram o Afeganistão e o Iraque. A ocupação de um país inteiro para fins políticos não foi inventada neste século por Vladimir Putin; foi introduzida pelo ocidente como um instrumento justificado de política.

Terceira lição: por vezes o neo-nazismo pode ser tolerado.

Nenhuma análise destaca alguns dos argumentos válidos de Putin sobre a Ucrânia, que de modo algum justificam a invasão, mas precisam da nossa atenção mesmo durante a invasão. Até à crise atual, os meios de comunicação progressistas ocidentais, tais como The Nation, The Guardian, Washington Post, etc., alertaram-nos para o poder crescente dos grupos neonazistas na Ucrânia que poderiam ter impacto no futuro da Europa e não só. Esses mesmos meios de comunicação hoje ignoram o significado do neonazismo na Ucrânia.

The Nation relatou no dia 22 de fevereiro de 2019:

Hoje, relatos crescentes de violência de extrema-direita, ultranacionalismo e erosão das liberdades básicas mostram a mentira na euforia inicial do ocidente. Há pogroms neonazistas contra os ciganos, ataques desenfreados a feministas e grupos LGBT, proibições de livros, e glorificação dos colaboradores nazistas patrocinada pelo Estado”.

Dois anos antes, o Washington Post (15 de junho de 2017) advertiu, muito perpicazmente, que um confronto ucraniano com a Rússia não deveria fazer-nos esquecer o poder do neonazismo na Ucrânia:

Enquanto a luta da Ucrânia contra os separatistas apoiados pela Rússia continua, Kiev enfrenta outra ameaça à sua soberania a longo prazo: poderosos grupos ultra-nacionalistas de direita. Estes grupos não são tímidos em utilizar a violência para atingir os seus objetivos, que certamente estão em desacordo com a democracia pró-ocidente tolerante na qual Kiev procura ostensivamente tornar-se”.

Contudo, hoje, o Washington Post adota uma atitude desdenhosa e qualifica essa descrição de “falsa acusação”:

Operam na Ucrânia vários grupos paramilitares nacionalistas, tais como o movimento Azov e o Sector de Direita, que abraçam a ideologia neonazista. Embora sejam de grande visibilidade, parecem ter pouco apoio do público. Apenas um partido de extrema-direita, o Svoboda, está representado no parlamento da Ucrânia, e detém apenas um lugar”.

Os avisos anteriores de um meio de comunicação social como The Hill (9 de Novembro de 2017), o maior site de notícias independente dos EUA, são esquecidos:

Existem, de fato, formações neonazistas na Ucrânia. Isto tem sido esmagadoramente confirmado por quase todos os grandes meios de comunicação social ocidentais. O fato de os analistas serem capazes de o minimizar como propaganda difundida por Moscou é profundamente perturbador. É especialmente perturbador dado o atual surto de neonazistas e supremacistas brancos em todo o mundo”.

Quarta lição: atingir os arranha-céus só é crime de guerra na Europa.

O regime ucraniano não tem apenas uma ligação com estes grupos e exércitos neonazistas, mas é também de maneira preocupante e embaraçosa pró-israelita. Um dos primeiros atos do presidente Volodymyr Zelensky foi retirar a Ucrânia do Comité das Nações Unidas para o Exercício dos Direitos Inalienáveis do Povo Palestiniano – o único tribunal internacional que garante que a Nakba não seja negada ou esquecida. A decisão veio do presidente ucraniano; ele não tinha qualquer simpatia pela situação dos refugiados palestinianos, nem os considerava como vítimas de qualquer crime. Nas suas entrevistas após o último bombardeamento bárbaro israelita na faixa de Gaza em maio de 2021, declarou que a única tragédia em Gaza era a que os israelitas sofreram. Se assim é, então são apenas os russos que sofrem na Ucrânia.

Mas Zelensky não está sozinho. Quando se trata da Palestina, a hipocrisia atinge um novo nível. Um ataque contra um arranha-céus vazio na Ucrânia dominou as notícias e suscitou uma análise profunda sobre a brutalidade humana, Putin e a desumanidade. Estes bombardeamentos devem ser condenados, claro, mas parece que os que lideram a condenação entre os líderes mundiais se calaram quando Israel destruiu a cidade de Jenin em 2000, o bairro Al-Dahaya em Beirute em 2006 e a cidade de Gaza numa onda brutal atrás da outra, ao longo dos últimos quinze anos. Não foram sequer discutidas quaisquer sanções, e muito menos impostas, a Israel pelos seus crimes de guerra em 1948 e desde então. De fato, na maioria dos países ocidentais que hoje lideram as sanções contra a Rússia, até mesmo mencionar a possibilidade de impor sanções contra Israel é ilegal e catalogado como anti-semita.

Mesmo quando a solidariedade humana genuína no ocidente se exprime de forma justa para com a Ucrânia, não podemos ignorar o seu contexto racista e o preconceito eurocêntrico. A solidariedade massiva do ocidente é reservada para quem quer que esteja disposto a aderir ao seu bloco e esfera de influência. Esta empatia oficial não se encontra em parte alguma quando uma violência semelhante, e pior, é dirigida contra não-europeus, em geral, e contra os palestinianos, em particular.

Podemos, como pessoas de consciência, passar das nossas respostas às calamidades à nossa responsabilidade de apontar a hipocrisia que, em muitos aspectos, abriu o caminho para tais catástrofes. Legitimar internacionalmente a invasão de países soberanos e permitir a contínua colonização e opressão de outros, como a Palestina e o seu povo, conduzirá a mais tragédias, como a ucraniana, no futuro e em todo o planeta.

Edição: Página 1917

Fonte:https://bandeiravermelhablog1.wordpress.com/2022/03/05/compaixao-humanitaria-de-geometria-variavel-as-licoes-a-tirar-da-guerra-na-ucrania/

Publicação original: The Palestine Chronicle, 4/3/2022.

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