Notícias e análises sobre temas históricos e da atualidade, abordando história, economia, política e relações internacionais a partir da perspectiva marxista-leninista e das lutas dos trabalhadores contra a exploração capitalista.
domingo, 25 de julho de 2021
domingo, 18 de julho de 2021
Carta aos Operários Americanos*
Lenin (20-08-18)
[...] O proletariado assimila agora, entre os
horrores da guerra imperialista, de forma completa e evidente, a grande verdade
que ensinam todas as revoluções, a verdade legada aos operários pelos seus
melhores mestres, os fundadores do socialismo moderno. Esta verdade consiste em
que não pode haver uma revolução com êxito sem esmagar a resistência dos
exploradores. O nosso dever, quando nós, os operários e camponeses
trabalhadores, tomámos o poder de Estado, era esmagar a resistência dos
exploradores. Orgulhamo-nos porque o fizemos e continuamos a fazê-lo.
Lamentamos não termos feito com suficiente firmeza e decisão.
Nós sabemos que em todos os países é
inevitável uma resistência raivosa da burguesia contra a revolução socialista e
que ela crescerá à medida que cresce esta revolução. O proletariado quebrará
esta resistência, ele amadurecerá definitivamente para a vitória e para o poder
no decurso da luta contra a burguesia que opõe resistência.
Que a imprensa burguesa corrupta grite aos
quatro ventos acerca de cada erro cometido pela nossa revolução. Não temos medo
dos nossos erros. Pelo fato de a revolução ter começado, os homens não se
tornam santos. As classes que durante séculos foram oprimidas, embrutecidas e
mantidas pela violência nas garras da miséria, da ignorância e do
asselvajamento não podem fazer a revolução sem erros. E é impossível, como já
tive uma vez ocasião de assinalar, fechar o cadáver da sociedade burguesa num
caixão e enterrá-lo. O capitalismo morto apodrece e decompõe-se entre nós, contaminando
o ar com miasmas, envenenando a nossa vida, envolvendo aquilo que é novo,
recente, jovem e vivo com milhares de fios e laços daquilo que é velho, podre e
morto.
Por cada cem erros nossos, sobre os quais
gritam aos quatro ventos a burguesia e os seus lacaios (incluindo os nossos
mencheviques e socialistas-revolucionários de direita) há dez mil atos
grandiosos e heroicos — tanto mais grandiosos e heroicos quanto são simples,
invisíveis, ocultos na vida quotidiana dum bairro fabril ou duma aldeia perdida,
são realizados por pessoas que não estão acostumadas (e não têm a
possibilidade) a gritar aos quatro ventos sobre cada êxito seu.
Mas ainda que fosse o contrário — embora eu
saiba que tal suposição não é verdadeira — ainda que por 100 atos justos nossos
houvesse 10 000 erros, mesmo assim a nossa revolução seria, e será perante a
história mundial, grande e invencível, pois pela primeira vez não é a minoria,
não são apenas os ricos, não são apenas as pessoas instruídas, mas uma
verdadeira massa, uma enorme maioria dos trabalhadores, que constroem eles
próprios a nova vida, resolvem as questões mais difíceis da organização
socialista com a sua experiência.
Cada erro neste trabalho, neste trabalho
sincero e consciencioso de dezenas de milhões de simples operários e camponeses
para reestruturar toda a sua vida, cada erro desse vale milhares e milhões dos
êxitos «sem erros» da minoria exploradora, dos êxitos em lograr e iludir os
trabalhadores. Pois só através de tais erros os operários e camponeses aprenderão
a construir a nova vida, aprenderão a passar sem os capitalistas, só assim eles
abrirão o caminho — através de milhares de obstáculos — para o socialismo
vitorioso.
Cometem erros ao fazer o seu trabalho
revolucionário, os nossos camponeses, que de um só golpe, numa só noite, de 25
a 26 de Outubro (velho estilo) de 1917, aboliram toda a propriedade privada da
terra e estão agora, de mês para mês, superando dificuldades imensas,
corrigindo-se a si próprios, a cumprir na prática a tarefa dificílima de
organizar novas condições de vida económica, de lutar contra os kulaques, de
garantir a terra para os trabalhadores (e não para os ricos), de passar à
grande agricultura comunista.
Cometem erros ao fazer o seu trabalho
revolucionário os nossos operários, que nacionalizaram agora, em alguns meses,
quase todas as grandes fábricas, e estudam, através de um duro trabalho
quotidiano, a nova obra de gestão de ramos inteiros da indústria, que organizam
as empresas nacionalizadas, superando a gigantesca resistência da rotina, do
espírito pequeno-burguês, do egoísmo, que lançam, pedra a pedra, os alicerces
de novas relações sociais, de uma nova disciplina do trabalho, de um novo poder
dos sindicatos operários sobre os seus membros.
Cometem erros ao fazer o seu trabalho
revolucionário os nossos Sovietes, criados já em 1905 pelo poderoso ascenso das
massas. Os Sovietes de operários e camponeses são um novo tipo de Estado, um
novo tipo, superior, de democracia, são a forma da ditadura do proletariado, o
meio de administrar o Estado sem a burguesia e contra a burguesia. Pela
primeira vez a democracia serve aqui para as massas, para os trabalhadores,
deixando de ser uma democracia para os ricos, como continua a ser a democracia
em todas as repúblicas burguesas, mesmo nas mais democráticas. Pela primeira
vez as massas populares cumprem a tarefa, à escala de centenas de milhões de
pessoas, da realização da ditadura dos proletários e semiproletários — tarefa
sem cujo cumprimento não se pode sequer falar de socialismo.
Que os pedantes ou os homens incuravelmente
cheios de preconceitos democrático-burgueses ou parlamentares abanem
perplexamente a cabeça a propósito dos nossos Sovietes de Deputados,
detendo-se, por exemplo, na ausência de eleições diretas. Essas pessoas não esqueceram
nem aprenderam nada no período das grandes viragens de 1914-1918. A união da
ditadura do proletariado com a nova democracia para os trabalhadores, da guerra
civil com a mais ampla participação das massas na política — tal união não pode
ser conseguida imediatamente e não cabe nas formas triviais do democratismo
parlamentar rotineiro. Um novo mundo, o mundo do socialismo — eis o que se nos
apresenta nos seus contornos sob a forma de República Soviética. E não admira
que este mundo não nasça já pronto, não saia de uma vez, como Minerva da cabeça
de Júpiter.
Enquanto as velhas constituições
democrático-burguesas exaltavam, por exemplo, a igualdade formal e o direito de
reunião, a nossa Constituição Soviética proletária e camponesa rejeita a hipocrisia
da igualdade formal. Quando os republicanos burgueses derrubavam tronos, então
não se preocupavam com a igualdade formal dos monárquicos com os republicanos.
Quando se trata de derrubamento da burguesia, só traidores ou idiotas podem
reclamar uma igualdade formal de direitos para a burguesia. Não vale um tostão
a «liberdade de reunião» para os operários e camponeses se todos os melhores
edifícios estão em poder da burguesia. Os nossos Sovietes tiraram aos ricos
todos os bons edifícios, tanto nas cidades como nas aldeias, entregando todos
estes edifícios aos operários e camponeses para as suas uniões e assembleias.
Eis a nossa liberdade de reunião --- para os trabalhadores! Eis o sentido e o
conteúdo da nossa Constituição Soviética, da nossa Constituição Socialista!
E eis porque todos nós estamos tão
profundamente convencidos de que, quaisquer que sejam as desgraças que caiam
sobre a nossa República dos Sovietes, ela é invencível.
Ela é invencível porque cada golpe do
imperialismo enraivecido, cada derrota que a burguesia internacional nos
inflige, levantam para a luta novas e novas camadas de operários e camponeses,
ensinam-nos ao preço dos maiores sacrifícios, temperam-nos, geram um novo
heroísmo de massas.
Nós sabemos que a vossa ajuda, camaradas
operários americanos, não chegará, talvez, muito rapidamente, pois o
desenvolvimento da revolução nos diversos países se realiza sob formas
diferentes e a ritmos diferentes (e não pode realizar-se de outra maneira). Nós
sabemos que a revolução proletária europeia pode não eclodir ainda nas próximas
semanas, por mais rapidamente que tenha amadurecido nos últimos tempos. Nós
apostamos na inevitabilidade da revolução internacional, mas isso não significa
de modo algum que apostemos como tontos na inevitabilidade da revolução num
período determinado e curto. Nós vimos as duas grandes revoluções de 1905 e de
1917 no nosso país e sabemos que as revoluções não se fazem por encomenda nem
por acordo. Nós sabemos que as circunstâncias lançaram para a frente o nosso destacamento,
o destacamento da Rússia do proletariado socialista, não devido aos nossos
méritos, mas devido a um atraso especial da Rússia, e que antes que rebente a
revolução internacional é possível uma série de derrotas de diferentes
revoluções.
Apesar disso, sabemos firmemente que somos
invencíveis, porque a humanidade não será quebrada pelo massacre imperialista,
mas superá-lo-á. E o primeiro país que quebrou as grilhetas da guerra
imperialista foi o nosso país. Suportámos duríssimos sacrifícios na luta pela
destruição dessas grilhetas, mas quebrámo-las. Estamos fora de dependências
imperialistas, levantámos perante todo o mundo a bandeira da luta pelo
derrubamento completo do imperialismo.
Encontramo-nos como que numa fortaleza
assediada, enquanto não chegarem em nossa ajuda outros destacamentos da
revolução socialista internacional. Mas esses destacamentos existem, são mais
numerosos do que os nossos, eles amadurecem, crescem, reforçam-se à medida que
prosseguem as atrocidades do imperialismo. Os operários rompem com os seus
sociais-traidores, os Gompers, Henderson, Renaudel, Scheidemann, Renner. Os
operários avançam devagar, mas firmemente, para a táctica comunista,
bolchevique, para a revolução proletária, a única que está em condições de
salvar a cultura e a humanidade que se afundam.
Numa palavra, somos invencíveis, pois é
invencível a revolução proletária mundial.
*Trecho da Carta ao Operários Americanos.
Edição: Página 1917.
sexta-feira, 16 de julho de 2021
Os Enterros de Inhaúma*
Lima Barreto (26-08-1922)
Certamente
há de ser impressão particular minha não encontrar no cemitério municipal de
Inhaúma aquele ar de recolhimento, de resignada tristeza, de imponderável
poesia do Além, que encontro nos outros. Acho-o feio, sem compunção com um ar
momo de repartição pública; mas se o cemitério me parece assim, e não me
interessa, os enterros que lá vão ter, todos eles, aguçam sempre a minha
atenção quando os vejo passar, pobres ou não, a pé ou em coche-automóvel.
A pobreza da maioria dos habitantes dos
subúrbios ainda mantém neles esse costume rural de levar a pé, carregados a
braços, os mortos queridos.
É um sacrifício que redunda num penhor de
amizade em uma homenagem das mais sinceras e piedosas que um vivo pode prestar
a um morto.
Vejo-os passar e calculo que os condutores
daquele viajante para tão longínquas paragens, já andaram alguns quilômetros e
vão carregar o amigo morto, ainda durante cerca de uma légua. Em geral assisto
a passagem desses cortejos fúnebres na rua José Bonifácio canto da Estrada
Real. Pela manhã gosto de ler os jornais num botequim que há por lá. Vejo os
órgãos, quando as manhãs estão límpidas, tintos com a sua tinta especial de um
profundo azul-ferrete e vejo uma velha casa de fazenda que se ergue bem
próximo, no alto de uma meia laranja, passam carros de bois, tropas de mulas
com sacas de carvão- nas cangalhas, carros de bananas, pequenas manadas de
bois, cujo campeiro cavalga atrás sempre com o pé direito embaralhado em panos.
Em certos instantes, suspendo mais
demoradamente a leitura do jornal, e espreguiço o olhar por sobre o macio tapete
verde do capinzal intérmino que se estende na minha frente.
Sonhos de vida roceira me vêm; suposições do
que aquilo havia sido, ponho-me a fazer. Índios, canaviais, escravos, troncos,
reis, rainhas, imperadores - tudo isso me acode à vista daquelas coisas mudas
que em nada falam do passado.
De repente, tilinta um elétrico, buzina um-
automóvel chega um caminhão carregado de caixas de garrafas de cerveja; então,
todo o bucolismo do local se desfaz, a emoção das priscas eras em que os coches
de Dom João VI transitavam por ali, esvai-se e ponho-me a ouvir o retinir de
ferro malhado, uma fábrica que se constrói bem perto.
Vem porém o enterro de uma criança; e volto
a sonhar.
São moças que carregam o caixão minúsculo;
mas assim mesmo, pesa. Percebo-o bem, no esforço que fazem.
Vestem-se de branco e calçam sapatos de
salto alto. Sopesando o esquife, pisando o mau calçamento da rua, é com
dificuldade que cumprem a sua piedosa missão. E eu me lembro que ainda têm de
andar tanto! Contudo, elas vão ficar livres de um suplício; é o do calçamento
da rua do Senador José Bonifácio. É que vão entrar na Estrada Real; e, naquele
trecho, a prefeitura só tem feito amontoar pedregulhos, mas tem deixado a
vetusta via pública no estado de nudez virginal em que nasceu. Isto há anos que
se verifica.
Logo que as portadoras do defunto pisam o
barro unido do velho trilho, adivinho que elas sentem um grande alívio dos pés
à cabeça. As fisionomias denunciam. Atrás, seguem outras moças que as
auxiliarão bem depressa, na sua tocante missão de levar um mortal à sua última
morada neste mundo; e, logo após, graves cavalheiros de preto, com o chapéu na
mão, carregando palmas de flores naturais, algumas com aspecto silvestre, e
baratas e humildes coroas artificiais fecham o cortejo.
Este calçamento da rua Senador José
Bonifácio, que deve datar de uns cinquenta anos é feito de pedacinhos de seixos
mal ajustados e está cheio de depressões e elevações imprevistas. É mau para os
defuntos; e até já fez um ressuscitar.
Conto-lhes. O enterro era feito em coche
puxado por muares. Vinha das bandas do Engenho Novo, e tudo corria bem. O carro
mortuário ia na frente, ao trote igual das bestas. Acompanhavam-no seis ou oito
caleças, ou meias caleças, com os amigos do defunto. Na altura da estação de
Todos os Santos, o cortejo deixa a rua Arquias Cordeiro e toma
perpendicularmente, à direita, a de José Bonifácio. Coche e caleças põem-se
logo a jogar como navios em alto-mar tempestuoso. Tudo dança dentro deles. O
cocheiro do carro fúnebre mal se equilibra na boleia alta. Oscila da esquerda
para a direita e da direita para a esquerda, que nem um mastro de galera
debaixo de tempestade braba. Subitamente, antes de chegar aos "Dois
Irmãos", o coche cai num caldeirão, pende violentamente para um lado; o
cocheiro é cuspido ao solo, as correias que prendem o caixão ao carro,
partem-se, escorregando a jeito e vindo espatifar-se de encontro às pedras; e -
oh! Terrível surpresa! Do interior do esquife, surge de pé - lépido, vivo,
vivinho, o defunto que ia sendo levado ao cemitério a enterrar. Quando ele atinou
e coordenou os fatos não pôde conter a sua indignação e soltou uma maldição:
"Desgraçada municipalidade de minha terra que deixas este calçamento em
tão mal estado! Eu que ia afinal descansar, devido ao teu relaxamento volto ao
mundo, para ouvir as queixas da minha mulher por causa da carestia da vida, de
que não tenho culpa alguma; e sofrer as impertinências do meu chefe Selrão, por
causa das suas hemorroidas, pelas quais não me cabe responsabilidade qualquer!
Ah! Prefeitura de uma figa, se tivesses uma só cabeça havias de ver as forças
das minhas munhecas! Eu te esganava, maldita, que me trazes de novo à
vida!"
A este fato, eu não assisti, nem ao menos
morava naquelas paragens, quando aconteceu; mas pessoas dignas de toda a
confiança me garantem a autenticidade dele. Porém, um outro muito interessante
aconteceu com um enterro quando eu já morava por elas, e dele tive notícias
frescas, logo após o sucedido, por pessoas que nele tomaram parte.
Tinha morrido o Felisberto Catarino,
operário, lustrador e empalhador numa oficina de móveis de Cascadura. Ele
morava no Engenho de Dentro, em casa própria, com razoável quintal, onde havia,
além de alguns pés de laranjeiras, uma umbrosa mangueira, debaixo da qual, aos
domingos, reunia colegas e amigos para bebericar e jogar a bisca.
Catarino gozava de muita estima, tanto na
oficina como na vizinhança.
Como era de esperar, o seu enterro foi muito
concorrido e feito a pé, com um denso acompanhamento. De onde ele morava, até
ao cemitério de Inhaúma, era um bom pedaço; mas os seus amigos a nada quiseram
atender: Resolveram levá-lo mesmo a pé. Lá fora, e no trajeto, por tudo que era
botequim e taverna por que passavam, bebiam o seu trago. Quando o caminho se
tornou mais deserto até os condutores do esquife deixavam-no na borda da
estrada e iam à taverna "desalterar". Numa das últimas etapas do
itinerário, os que carregavam, resolveram de mútuo acordo deixar o pesado fardo
para os outros e encaminharam-se sub-repticiamente para a porta do cemitério.
Tanto estes como os demais - é de toda a conveniência dizer - já estavam bem
transtornados pelo álcool. Outro grupo concordou fazer o mesmo que tinham feito
os carregadores dos despojos mortais de Catarino; um outro, idem; e, assim,
todo o acompanhamento dividido em grupos, tomou o rumo do portão do
campo-santo, deixando o caixão fúnebre com o cadáver de Catarino dentro
abandonado à margem da estrada.
Na porta do cemitério, cada um esperava ver
chegar o esquife pelas mãos de outros que não as deles; mas nada de chegar. Um,
mais audaz, após algum tempo de espera, dirigindo-se a todos os companheiros,
disse bem alto:
- Querem ver que perdemos o
defunto?
- Como? perguntaram os
outros, a uma voz.
- Ele não aprece e estamos
todos aqui, refletiu o da iniciativa.
- É verdade, fez outro.
Alguém então aventou:
- Vamos procurá-lo. Não
seria melhor?
E todos voltaram sobre os
seus passos, para procurar aquela agulha em palheiro...
Tristes enterros de Inhaúma! Não fossem
essas tintas pinturescas e pitorescas de que vos revestis de quando em quando
de quanta reflexão acabrunhadora não havíeis de sugerir aos que vos veem
passar; e como não convenceríeis também a eles que a maior dor desta vida não é
morrer...
*Publicado em Careta, Rio, 26-08-1922.
Fonte: Feiras e Mafuás, Brasiliense, 1956.
Edição: Página 1917.
segunda-feira, 12 de julho de 2021
Não há solução para as classes trabalhadoras no capitalismo. O caminho é destruí-lo.
Artigo sobre conjuntura do Coletivo Cem Flores (09/07/2021).
A crise econômica, sanitária e social que avança mais profundamente desde o início de 2020, atinge a nós, trabalhadores/as, de todas as formas. A pandemia já ceifou mais de 4 milhões de vidas em todo o mundo, sendo mais de meio milhão no Brasil. Nada indica que será superada no curto prazo. Quem mais está morrendo é a nossa classe, sem a possibilidade de isolamento social e sem acesso a serviços médicos de qualidade.
O desemprego, a fome e a miséria estão muito mais presentes em nossos lares e de nossos irmãos e irmãs de classe. A ilusão que o capitalismo sempre tentou nos vender, de que com o trabalho duro a vida iria melhorar, mais do nunca está descartada. Quanto mais se trabalha, menos se ganha! E o pouco que ganha, a carestia corrói!
O avanço na exploração capitalista é o “novo normal” aos que ainda têm emprego. Essa ofensiva burguesa se expressa, entre outros, nas alterações nas relações de trabalho, iniciadas com os acordos dos pelegos da CUT e de outras entidades sindicais pelegas na década passada (negociado sobre o legislado, redução de jornada com redução de salário, layoff etc.), referendadas pelos governos do PT, institucionalizadas com a reforma trabalhista no governo Temer e “normalizadas” a partir do avanço da crise no ano passado.
Para a outra grande parte dos/as trabalhadores/as sobrou a instabilidade constante do trabalho informal, com suas jornadas intermináveis e pouquíssimo remuneradas ou o sofrimento cotidiano do desemprego e da falta de perspectivas de renda para sustentar suas famílias.
À brutalidade da pandemia, da fome, do desemprego e da miséria se somam a violência da repressão e o avanço das hordas fascistas. A repressão das classes dominantes e do seu estado (seja legal, ou seja, forças armadas, polícias e seguranças privadas, ou ilegal, mas cumprindo a mesma função, milícias, crime organizado, grupos paramilitares, jagunços etc.) mata e reprime mais do que nunca, buscando nos deixar intimidados/as e com medo de reagir a esse avanço brutal da burguesia pela retomada de seus lucros e para manutenção de sua vida de luxo e ócio.
As crises capitalistas, como a que estamos vivendo, são sempre oportunidades para maior concentração e centralização do capital e aprofundamento da exploração e da miséria que caem sobre a classe operária e os/as trabalhadores/as em todo o mundo. Todas as nossas pequenas conquistas, obtidas nos momentos conjunturais de expansão capitalista, são rapidamente destruídas e a sanha assassina do capital avança ainda mais sobre nós.
A lição que tiramos dessa batalha é uma lei férrea do capitalismo: mesmo as pequenas reformas, resultado de nossa luta – e não de dádivas da burguesia, de seu estado e governos – serão transitórias se o capitalismo não for destruído.
Não há solução possível para nós dentro do sistema que vivemos. Não há reforma capitalista possível que possa alterar o aprofundamento da exploração, da miséria, da fome. A solução para o povo está na revolução contra esse regime de exploração, contra os patrões e seus lacaios.
Essa revolução só pode ser construída pela luta das massas, a partir do estágio realmente existente em cada conjuntura. Hoje, no Brasil, essa luta tem ocorrido em diversas formas de resistências coletivas e independentes.
Mutirões, ações de solidariedade, de ajuda mútua, movimentos coletivos de organização e resistência pela sobrevivência (saúde, alimentação, cuidados aos idosos e às crianças…) surgiram em vários pontos do país e são um importante exemplo disso. Mesmo ainda embrionários, demonstram a capacidade e o poder que o povo tem para enfrentar seus inimigos e construir seu próprio caminho, de forma coletiva e autônoma, sem depender das falsas soluções apresentadas pela burguesia, pelo estado ou seus instrumentos políticos. “Soluções” que sempre buscam substituir a ação organizada das massas pela atuação dos ditos “representantes”, na verdade burocratas imbuídos da missão de paralisar esses movimentos e deixá-los inofensivos frente ao Estado e aos patrões.
As poucas, mas importantes, resistências nos locais de trabalho também mostram que a indignação da classe operária está viva. A dificuldade de ampliar essa indignação provém da posição oportunista ainda hegemônica no movimento sindical, posição de nosso inimigo de classe. Superar essas posições na classe operária e fortalecer a posição revolucionária é tarefa imprescindível para mudarmos esse quadro.
Os focos de resistência coletiva e independente nas fábricas, nas concentrações operárias, na periferia das cidades e no campo, de fato, são ainda pequenos exemplos, muito aquém do necessário para sairmos dessa dura situação. Mas as lições que eles trazem devem ser desenvolvidas e estimuladas. A classe operária, trabalhadores/as, moradores/as da periferia, camponeses/as estamos todos/as aprendendo na conjuntura atual uma lição fundamental na luta de classes: ninguém irá lutar por nós! Façamos nós, com nossas mãos, tudo o que a nós nos diz respeito!
Essa é a postura e o sentido das ações que os comunistas devem adotar na conjuntura atual. Encontrar na crise, que expos todas as contradições insuperáveis do capitalismo, o caminho da organização independente do proletariado e romper as ilusões com o estado, os partidos e movimentos burgueses. Seguir o rumo que a classe operária e as classes trabalhadoras sabem por instinto, o do enfrentamento ao inimigo de classe e da construção dos instrumentos políticos para esse enfrentamento.
Esse instinto da classe operária na luta de classes, se estiver integrado ao marxismo, ciência que é resultado da luta do proletariado, pode iluminar nossa marcha, transformar essa rebeldia ainda espontânea e pontual em ação organizada e generalizada de enfrentamento ao inimigo, já que nos permite analisar concretamente a realidade atual e identificar as ações para a transformação revolucionária.
Todas as tentativas de fazer os/as trabalhadores/as desviarem desse objetivo só servem aos inimigos de classe. As falsas soluções de que essa horrível conjuntura em que vivemos se resolveria elegendo outro representante burguês, que se apresenta como salvador da pátria, nós já conhecemos. Ela foi aplicada neste país várias vezes, e por muitos anos, e nos levou para onde estamos hoje! Na verdade, essa ilusão com as soluções ofertadas pelos inimigos só serviu para reforçar os grupos da extrema-direita e nos desarmar no enfrentamento a eles.
Na conjuntura atual, de desgaste desse governo de extrema-direita e de seu presidente fascista e corrupto (corrupto como todos os governos burgueses), de ofensiva dos patrões e aprofundamento da podridão capitalista, o caminho não pode ser o de acreditar nas ilusórias mudanças do “gestor de plantão” do capital. O caminho só pode ser o de avançar na organização e na consciência das formas de resistência reais, concretas, que a classe operária e os/as trabalhadores/as devem desenvolver para se apropriar e se constituir como força independente.
Sabemos que o caminho é longo, mas isso não pode ser uma justificativa para a escolha de um “atalho” que na verdade nos afasta de nosso objetivo real: a destruição do capitalismo. O longo caminho deve ser a base que indica a necessidade de construir desde já, junto à classe operária e aos/às trabalhadores/as, os alicerces políticos, teóricos, ideológicos e organizativos que façam com que nosso objetivo se aproxime cada dia mais. Trabalhar no sentido da revolução e não no sentido que nos afasta dela!
A rendição aos interesses burgueses, colocando nas mãos deles a solução dos problemas que afligem nossa classe, situação que eles criaram para garantir seus lucros e sua existência como capital, não é uma saída e sim uma falsa alternativa para nos paralisar e nos desarmar, novamente, no combate que devemos travar.
As “frentes amplas” propostas pela dita “esquerda” nos colocam a reboque de interesses políticos oportunistas, interesses burgueses daqueles que acham que é possível prolongar ainda mais esse sistema apodrecido. Grupos que querem voltar aos espaços de poder para, mantendo e garantindo a exploração capitalista, retomarem seus privilégios, perdidos com o crescimento da extrema-direita. Essas propostas de “frentes amplas” nos paralisam e impedem de ver a realidade objetivamente, o que é necessário para enfrentar essa situação.
A frente ou a unidade que devemos construir é aquela que une a classe operária e os/as trabalhadores/as, os criadores de toda a riqueza existente, na luta contra os patrões e seu estado, aquela unidade que aponte como único caminho objetivo a superação do modo de produção capitalista, a substituição dessa sociedade pelo socialismo, onde quem produz a riqueza possa desfrutar dessa riqueza.
Não há alternativa fora do enfrentamento na luta de classes. E quanto mais cedo conseguirmos entender e agir a partir desse princípio central, mais rapidamente conseguiremos construir as condições que nos libertarão dessa maldita escravidão que é a sociedade capitalista.
Edição: Página 1917.



