Lenin (outubro-1916)
Existe uma ligação entre o
imperialismo e a vitória monstruosa e abominável que o oportunismo (na forma de
social-chauvinismo) alcançou sobre o movimento operário na Europa?
É esta a questão fundamental
do socialismo contemporâneo. E depois de termos estabelecido completamente na
nossa literatura partidária o caráter imperialista da nossa época e desta
guerra em primeiro lugar, e em segundo lugar a ligação histórica indissolúvel
do social-chauvinismo com o oportunismo, e igualmente o seu conteúdo ideológico-político
idêntico, pode-se e deve-se passar à elaboração desta questão fundamental.
É preciso começar por uma
definição o mais precisa e completa possível do imperialismo. O imperialismo é um estágio histórico
particular do capitalismo. Esta particularidade é tripla: o imperialismo é: (1)
— capitalismo monopolista; (2) — capitalismo parasitário ou em decomposição;
(3) — capitalismo moribundo. A substituição da livre concorrência pelo
monopólio é o traço econômico fundamental, a essência do imperialismo. O
monopolismo manifesta-se em 5 tipos principais: 1) os cartéis, consórcios e trustes;
a concentração da produção alcançou o nível que gerou estas associações
monopolistas de capitalistas; 2) a situação monopolista dos grandes bancos: 3-5
bancos gigantescos comandam toda a vida econômica da América, da França, da
Alemanha; 3) a apropriação das fontes de matérias-primas pelos trustes e pela
oligarquia financeira (o capital financeiro é o capital industrial monopolista
que se fundiu com o capital bancário); 4) a partilha (econômica) do mundo pelos
cartéis internacionais começou. Contam-se já para cima de cem desses cartéis
internacionais, que dominam todo o mercado mundial e o dividem «amistosamente»
— enquanto a guerra não o redividir. A exportação do capital, como fenômeno
particularmente característico, diferentemente da exportação de mercadorias no
capitalismo pré-monopolista, está em estreita ligação com a partilha econômica
e político-geográfica do mundo; 5) a partilha territorial do mundo (colônias)
terminou.
O imperialismo, como estágio
superior do capitalismo da América e da Europa, e depois também da Ásia,
formou-se completamente em 1898-1914. As guerras hispano-americana (1898)(N22),
anglo-bóer (1899-1902)(N23) e russo-japonesa (1904-1905)(N24) e a crise econômica
na Europa em 1900 — tais são os principais marcos históricos da nova época da
história mundial.
Que o imperialismo é
capitalismo parasitário ou em decomposição, isso manifesta-se, em primeiro
lugar, na tendência para a decomposição que distingue todo o monopólio sob a
propriedade privada dos meios de produção. A diferença entre a burguesia
imperialista republicano-democrática e monárquico-reacionária apaga-se
precisamente porque uma e outra apodrecem vivas (o que de modo nenhum elimina o
desenvolvimento espantosamente rápido do capitalismo em alguns ramos da
indústria, em alguns países, em alguns períodos). Em segundo lugar, a decomposição do capitalismo manifesta-se na criação
de uma enorme camada de rentistas, de capitalistas que vivem de «cortar
cupões». Nos quatro países capitalistas avançados, a Inglaterra, a América
do Norte, a França e a Alemanha, o capital em títulos ascende em cada um a
100-150 milhares de milhões de francos, o que significa um rendimento anual de
pelo menos 5-8 milhares de milhões por país. Em terceiro lugar, a exportação do capital é o parasitismo ao quadrado.
Em quarto lugar, «o capital financeiro aspira à dominação e não à liberdade». A
reação política em toda a linha é uma característica do imperialismo.
Venalidade, suborno em proporções gigantescas, um panamá de todos os
tipos(N25). Em quinto lugar, a exploração das nações oprimidas,
indissoluvelmente ligada às anexações e particularmente a exploração das colônias
por um punhado de «grandes» potências, transforma cada vez mais o mundo
«civilizado» num parasita no corpo de centenas de milhões de pessoas dos povos
não civilizados. O proletariado romano vivia à custa da sociedade. A sociedade atual
vive à custa do proletariado moderno. Marx sublinhou particularmente esta
profunda observação de Sismondi(N26). O imperialismo modifica um pouco a
situação. Uma camada privilegiada do proletariado das potências imperialistas
vive parcialmente à custa de centenas de milhões de pessoas dos povos não
civilizados.



