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quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Giap, Memórias Centenárias da Resistência.

O imperialismo e as classes dominantes dos países explorados não são invencíveis, podem ser derrotados política e militarmente, esse foi o legado do General Giap¹, dirigente do Partido Comunista e organizador do  Exército do Povo do Vietnã.

¹ Vo Nguyen Giap (província de Quang Binh, 25 de agosto de 1911 — Hanói, 4 de outubro de 2013.



Ficha Técnica:
Direção: Sílvio Tendler
Fotografia: Paula Damasceno
Montagem: Felipe Vianna
Trilha Sonora Original: Henrique Peters e Vinícius Junqueira4
Produção executiva: Ana Rosa Tendler
Imagens de Arquivo: Estúdios Fílmicos de Hanói
Entrevista de Vo Giap: gravada em Hanói, Vietnam 2003.
Caliban Produções Cinematográficas.

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

Revolução, um Fantasma que não foi Esconjurado.*

 Florestan Fernandes

   Hobsbawm, em um livro inteligente e provocativo, procurou demonstrar que o drama da Europa consistia na conjunção (ou tradição) de intelectuais revolucionários e uma sociedade que repele a revolução. Durante a leitura senti o historiador, que vivera o pós-bolchevismo, lidando sutilmente com convicções íntimas e a justificação dos erros da União Soviética nas questões internas do partido, dentro de suas fronteiras, e na política internacional de concessões à "guerra fria".



   Nós, no Brasil, nem isso poderíamos fazer. Os nossos partidos de esquerda viram-se forçados a um oportunismo tortuoso, compensado com momentos de exaltação teórica, e só uma vez chegaram à prática, com a experiência da Aliança Nacional Libertadora (ANL), em 1935. Esse "revolucionarismo subjetivo" começou a sofrer retificações, exatamente na época em que ruiu a "guerra fria" e se proclamou o novo credo burguês da "morte do socialismo". Os intelectuais, na maioria, quando desligados da prática preferem salvar a pele, para não sacrificar a consciência... houve um deslocamento nem sempre coerente e encoberto em direção à social democracia, que não seria um mal em si. O mal procedeu na disposição de ceder terreno sem luta e na instrumentalização da social democracia para a condição de mão esquerda da burguesia. Esse processo continua e nos ameaça com a perda das poucas alternativas partidárias de construção de uma sociedade nova.

   Gostaria de tratar do tema como sociólogo. Na PUC, por exemplo, onde passei a lecionar no último trimestre de 1977, deparei com uma oferta rica de cursos. Havia um que focalizava a organização social. Em um ímpeto automático, perguntei por que não havia um curso que tratasse não apenas da mudança social, mas especificamente da revolução social. Aí estariam dados os dois polos: a ordem e a sua reprodução; a ordem e sua transformação radical ou pelo avesso. Meus colegas do curso de pós-graduação, que eram abertos à reflexão crítica, logo endossaram essa complementação necessária.

    De uma perspectiva macrossociológica, a revolução é mais importante que a estabilidade social, vistas como assuntos específicos. Os evolucionistas foram combatidos por causa da predominância de abordagens mecanicistas e positivistas. Não existiria, porém, "evolução social da humanidade" ignorando-se mudanças sociais abruptas, provenientes de invasões, difusão cultural e mudanças sociais que adaptassem a ordem a inovações que conduziam à reforma social e à revolução.

   Se ultrapassássemos os raciocínios circulares, a ordem social não ganharia muito com a obsessão comparativa. Especialmente em sociedades estratificadas, nas quais a ordem social pode conter contradições e tensões mais ou menos violentas em virtude de sua constituição. É um mito postular que os dinamismos reprodutivos são mais importantes que os transformadores. Nessas sociedades, a estabilidade procede do monopólio do poder por uma categoria social, uma casta, um estamento ou uma classe. Como explicaram Marx e Engels em A ideologia alemã, o monopólio do poder e a estabilidade vinculam-se à supremacia ou à dominação predominante.

   Isso não pressupõe, por si só, a existência de tensões e de contradições que exijam algum tipo de mudança social. E a revolução (como a reforma social, de outro ângulo) cria as motivações da rebelião. A dominação de classe, que nos interessa aqui, tende a reforçar a estabilidade e a prolongar a ordem social existente além da capacidade de tolerância e submissão de outras classes ou dos sem-classes, que chegam a uma visão negativa da ordem social e terminam por desejar explodi-la, eliminando a ordem prevalecente e a dominação de classe.

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Vocação Subalterna

Ney Nunes

23/11/2020

"A experiência das alianças, dos acordos, dos blocos com o liberalismo social-reformista no Ocidente e com o reformismo liberal (democratas-constitucionalistas) na revolução russa, demonstrou, de maneira convincente, que esses acordos não fazem senão embotar a consciência das massas, não reforçando, mas debilitando o significado real da sua luta, unindo os lutadores aos elementos menos capazes de lutar, aos elementos mais vacilantes e traidores."¹

   É pura perda de tempo esperarmos que indivíduos, partidos ou classes sociais, impregnados de uma vocação subalterna, expressem qualquer proposição que avance além da dependência e da colaboração com propostas e projetos das classes dominantes.

 


   Esse é o caso da pequena burguesia, seja ela proprietária dos meios de produção ou assalariada (vulgarmente denominada classe média). Em todo o desenvolvimento histórico do capitalismo a pequena burguesia nunca pretendeu substituir a classe dominante. Nos períodos de calmaria da luta de classes, quando uma certa estabilidade econômica e política prevalece, a pequena burguesia apresenta-se geralmente atrelada aos partidos da grande burguesia. Já quando esse sistema entra em crise, a luta de classes e a polaridade política agudizam-se, é muito comum ocorrerem embates onde segmentos pequeno-burgueses ficam dilacerados entre a grande burguesia e o proletariado. Nos dois casos, estabilidade ou crise do sistema, não se verifica um projeto de poder independente da pequena burguesia com relação às duas classes fundamentais no capitalismo. 

Os partidos vinculados à pequena burguesia, inclusive os chamados “de esquerda”, sejam eles socialistas ou comunistas, não podem fugir dessa “vocação subalterna” típica da classe predominante nos seus órgãos dirigentes, como na sua base social. Isso explica o contorcionismo político dos reformistas e revisionistas de todos os matizes. Mesmo quando usam e abusam de uma fraseologia radical, esses embusteiros vulgares não conseguem ocultar suas contradições porque, negam hoje o que pregavam ainda ontem. Se antes falavam em ruptura, revolução, etc., ao verem-se diante de uma rotineira disputa eleitoral, são sugados pela lógica do capital que tanto criticavam anteriormente. Correm como galinhas desesperadas em busca das migalhas, dando respaldo político aos que falam em “governar para todos”, “inclusão social”, “defesa da democracia” e outros enganos do mesmo tipo, quando, na prática, já aplicaram ou se colocam a disposição para gerir os planos de exploração capitalista. 

O partido que tem projeto de poder, um programa socialista, anti-imperialista e revolucionário, não pode, de forma alguma, ficar refém de uma classe social com essa miserável “vocação subalterna”. Para ser digno desse programa e do nome comunista é preciso estar vinculado organicamente ao proletariado, a classe que está no polo oposto da grande burguesia, portanto, aquela que reúne condições de abraçar esse programa e desempenhar um papel dirigente na revolução.

¹ Lenin, em "Marxismo e Revisionismo"

Edição: Página 1917.

   

  

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

Homens Brancos Sem Estudos

Quando a Esquerda Assume o Discurso Neoliberal

Francesc Xavier Ruiz Collantes*


No atual panorama político e ideológico, encontramos o fato de que a direita tem duas posições extremistas. Uma é a posição da direita nacional-nativista ou mesmo nacional-etnista, nesse sentido temos casos como Trump, Bolsonaro, Le Pen, etc. Outra posição extremista é a do neoliberalismo. O liberalismo mudou nas últimas décadas para um liberalismo extremo que busca a extensão da lógica do mercado, controlada pelas elites, em todas as esferas da vida política e social e a substituição da sociedade e do Estado pelo mercado global. 

Na ausência da esquerda no palco do debate, a disputa política e ideológica está se estabelecendo entre as duas posições extremas da direita. A esquerda dos países ocidentais e desenvolvidos parece ter identificado o nacional-nativismo como seu principal inimigo e, nessa situação, começou a assimilar o discurso do neoliberalismo em alguns aspectos fundamentais. Se trata de um passo a mais no caminho do seu desaparecimento como alternativa.

Biden e Harris, o neoliberalismo ditando o discurso da esquerda pós-moderna.


Temos visto como, diante da disputa entre o nacional-nativismo e o neoliberalismo nas últimas eleições presidenciais norte-americanas, a esquerda internacional optou pelos representantes do neoliberalismo, Biden e Harris. É bem possível que em alguns casos fosse para apoiar o "mal menor", mas nesta operação foi assumido o discurso próprio daquele que se considera "mal menor". 

A atribuição de um discurso político ou social a uma determinada ideologia baseia-se em algumas características fundamentais desse discurso. Por exemplo: quais personagens, individuais ou coletivos, aparecem; quais funções cada um desses personagens desempenha; quais valores sustentam a estrutura do discurso, seu desenvolvimento e suas conclusões, como esses valores são compreendidos, etc.

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